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quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Próximo ato


       Caro leitor, agradeço a você que acompanhou o Súbito Objetivo no decorrer deste ano. Espero que neste ano que se iniciará, eu possa continuar, com meus humildes textos, agradando cada vez mais. Este é o último post do ano, portanto, desde já desejo-lhe um Ano Novo de prosperidade e felicidades. Obrigado.
                                                                                 Robson Heleno



                                                   Próximo ato

     O fim de mais um ato se aproxima. Contemplamos agora seus momentos derradeiros. O clímax se apresenta para alguns, encaminhando o desfecho de situações surgidas no decorrer deste ato, ou mesmo advinda de atos anteriores. Novos conflitos surgem também, ensejando o enredo que haverá de se desenrolar no novo ato vindouro. Alguns comemoram com felicidade a conclusão de mais esta etapa do espetáculo. Outros vivem o receio de que, talvez, não tenham mais muitos atos pela frente. As emoções se entrelaçam.

     Um breve olhar para trás nos revela as tantas cenas que compuseram este ato. Intenso, passou por nós apressado, gerando o típico espanto quando nos vemos diante de seu término. Entre uma cena e outra, nos deparamos com incontáveis personagens, cujas estórias se encontraram por obra do acaso, ou não. Houve também vidas que se apartaram, para que novas linhas pudessem ser escritas. Muitos foram os novos personagens introduzidos à trama neste ato. Mas, infelizmente, tantos outros também tiveram que deixa-la. Faz parte do show, afinal.

     Diversos acontecimentos importantes marcaram esta fase. Houve até quem ousasse repetir, quem sabe para criar mais tensão, o conhecido boato de que a peça teria fim, que este seria o último dos atos. E, acredite, mesmo sendo a piada conhecida, ainda teve gente que achou graça. Outros se atemorizaram, tratando de resolver suas pendências às pressas, para que não restassem arestas ao final precoce do espetáculo. Entretanto, como fora das outras vezes, foi apenas uma mentira, daquelas que, de tão mal contada, não se sabe porque atrai atenção.

     O fato é que aqui permanecemos, encenando no palco da vida. Não houve fechar repentino de cortinas. O show continua, como sempre. E, ouso dizer, ainda há muito por acontecer nestas últimas cenas que agora se desenrolam. É preciso nos preparar para as cenas que virão.  Pois esse ato que agora se encerra, será logo sucedido por outro. A estória não tem intervalos. Talvez por isso, certa vez, disse um sábio que ‘a vida é uma peça que não permite ensaios’. Nunca palavras foram tão certas. Afinal, as cenas simplesmente acontecem, são espontâneas. A nós, personagens, cabe apenas vive-las da mesma forma.

    Se, no decorrer deste ato, sua estória não teve mudanças significativas, não desanime. Reviravoltas sempre são possíveis. O destino é quem sabe. Muito do que acontecerá, dependerá de você. É certo que, nos bastidores, existe algo maior que nós que, de uma forma ou de outra, opera para que a estória siga certos rumos. Alguns chamam de destino, outros de Deus, outros de acaso. Ainda assim, somos livres em nossas escolhas, e elas são determinantes. Lembre-se sempre que nossas conquistas e derrotas dependem, sobretudo, de nós mesmos. Afinal, neste grande espetáculo da vida, somos, ao mesmo tempo, autores, espectadores e personagens. Que venha o próximo ato! 



fonte imagem: http://www.passandoalimpo.com/feliz-ano-novo.jpg

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Lancinante amor


Lancinante amor

Passos solitários,
Olhares à lua.
Pensamentos, vários.
Silêncio na rua.


Cigarro aos dedos,
Lágrimas n'olhar.
Infinitos medos,
Vil notivagar.

Maldita saudade!
Sonhar lancinante,
Triste brevidade,
Irreal, distante.

Vã alacridade,
Trazem as lembranças
Das felicidades,
Mortas esperanças.

Consolo em saber,
Que de solidões,
Irão padecer
Outros corações.

Tal justiça injusta
Ameniza a dor,
Dolorosa custa,
Desse atroz amor.

                                                              Robson Heleno



Fonte imagem: http://1.bp.blogspot.com/-V1LUdNe44Lg/Thhq8GeJ8pI/AAAAAAAAAdM/BbRMDsnxI2o/s1600/moon.jpg

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Livre amar


Livre amar

Deixa-me ser livre
Não me prenda em verso
Livra-me da rima
Não faça o inverso



Deixa-me ser sonho
Pois quero evitar
Despertar tristonho
Lágrimas no olhar


Deixa-me, correr
Conheço o caminho
Não vais me perder
Não vivo sozinho


Deixa-me ser eu
Não temas em vão
De alvedrio, sou teu
Não por convenção.


Livre, preso estou,
Pois bem quero assim
Trancado em teu seio
Mas senhor de mim.


Natural amor
Meu a ti entrego
Por ti, assim sou,
Consciente e cego.

                                                Robson Heleno



Fonte imagem: http://www.casalsemvergonha.com.br/wp-content/uploads/2011/10/post-livre-header.jpg

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Sobre rosas e amor

Hoje o Súbito Objetivo completa 2 anos de existência. Obrigado a vocês, meus caros leitores, que me incentivam a seguir escrevendo.
Sem mais delongas, presenteio vocês com este pequeno conto que tentei escrever. Espero ter acertado nas palavras. Obrigado!



Sobre rosas e amor


Por um instante, quis desistir. No entanto, contrariando a todos os avisos, seguiu em frente e pulou o muro. Diante de seus olhos, um belo jardim, onde o predominante verde era marchetado pelo vermelho das rosas. A maravilhosa imagem, o paralisou por alguns segundos. Era mais belo do que podia imaginar. Mas o encanto foi logo superado pelo temor, ao se dar conta do risco que corria. Determinado a não perder mais tempo, caminhou em direção à roseira mais próxima.
Correu os dedos pelas pétalas da mais robusta rosa. Disposto estava a colhê-la. Com cuidado, desceu a mão até a base da flor, tentando encontrar um modo de evitar os espinhos. O nervosismo o fazia tremer. Receoso, ele só pensava em pegar aquela rosa e sair. Quando ia colher a rosa, uma voz grave o surpreendeu:
- Peça pelo menos permissão a ela, antes de colhê-la, já que a mim não pediu. – Falou, calmamente, um senhor de barba grisalha, que o observara desde o início.
Em meio ao susto, o sobressalto, inevitável, fez o jovem arranhar o braço nos espinhos. Espantado, caiu ao chão sem palavras. Lá permaneceu imóvel, aguardando a próxima reação. Mais que tudo, ele queria correr. Mas suas pernas não obedeciam. À sua frente estava aquele que todos temiam: o velho do roseiral. Desde a infância ouvira histórias sobre aquele homem. Ele sabia que, se tudo fosse verdade, jamais sairia dali com vida.
Segundo diziam, aquele homem perdera a sanidade após a morte da esposa. Enquanto ela ainda vivia, havia um belo roseiral, envolta da casa. Este era uma bela visão a todos que passavam perto da propriedade. Era tão bem cuidado. Contudo, quando ela faleceu, ele mandou construir elevado muro no entorno da propriedade, de modo que só se via o telhado casa. Isolou-se, desde então, e jamais deixava a propriedade. Havia quem dissesse que o roseiral não mais existia. Afirmavam outros que ainda estava lá, escondido por trás dos muros. Estes últimos baseavam-se no aroma das rosas, que era possível sentir ao se aproximar do lugar.
Porém, ninguém se aventurava a tentar confirmar se os boatos eram verdadeiros. Temerosos ante a possível cólera contra aqueles que adentrassem a propriedade, preferiam propagar o mito do velho do roseiral, disseminando no imaginário das crianças a figura de um ancião insano, capaz de cometer as maiores atrocidades contra aqueles que ousassem adentrar em seus domínios. Era incrível como essas estórias ganhavam um ar verossímil nas narrativas contadas ao pé da fogueira em noites de luar.
O jovem agora sabia que o roseiral não desaparecera, pelo contrário, permanecia tão vivo e belo como sempre fora descrito. Assim como, tomara conhecimento de que o velho, de fato, também existia. Embora não visse naquele homem idoso a amedrontadora figura que imaginara, temia não viver para relatar tais coisas. Até então, tudo era verdade, havia certa probabilidade de aquele senhor ser, realmente, o tão afamado facínora. Mesmo diante de tamanho risco, o jovem não se arrependia de estar ali. A sua vontade era ínfima ante o motivo que o impelira a cometer aquela loucura. Era uma dessas razões –irracionais- do coração, capazes de suscitar a intrepidez até no mais covarde dos homens.
O velho olhava para o rapaz caído ao chão em silêncio. Parecia igualmente pensativo. Desde que mandara erguer aqueles muros, ninguém jamais invadira suas terras. Até então, julgava ser a proteção alta demais para que alguém tentasse pular. No entanto, enganara-se. Aquele jovem conseguira vencer o obstáculo com uma facilidade admirável. Intrigado, desejava descobrir a razão que fizera o jovem investir em tão arriscada manobra. Afinal, uma queda daquela altura poderia causar a morte.
Fez um breve movimento com a mão, e o jovem fechou os olhos, como se aguardasse o primeiro golpe. O velho sorriu:
- Está com medo? Não pretendo lhe machucar. Assim como a rosa também não pretendia. Apenas o fez porque você quis tomá-la contra sua vontade.
O jovem permaneceu estático, mas com uma expressão de surpresa no olhar. Passados alguns segundos, levantou-se com calma, sem desviar o olhar dos olhos do velho. Com cautela, observou o espaço ao redor. Concluiu que não havia como sair sem ter que passar pelo velho. Disposto estava a correr, mas o velho o surpreendeu:
-Há quanto tempo você gosta dela? – Indagou. Vendo a reação do jovem, teve certeza de que fizera a pergunta certa.
-Como sabe que ela existe? – Respondeu o jovem, assumindo uma distância que julgava ser segura. 
-Como não poderia existir? Não vejo outra razão para alguém pular um muro de cinco metros apenas para colher uma rosa.
Optou o jovem pelo silêncio. Era estranho demais, para ele, falar sobre algo tão íntimo com alguém que, há poucos segundos, imaginava que seria seu algoz. O velho, percebendo o desconforto do rapaz, deu novo rumo à conversa.
-Há alguns anos atrás esses muros não existiam. O roseiral era mais bem cuidado do que hoje é. Eu era feliz.  – Falou enquanto observava uma rosa que pendia de um galho ao seu lado. – Mas o tempo trouxe mudanças: impôs barreiras ao meu coração, assim como eu impus a este roseiral.
-Porque muros tão altos? – Quis saber, por fim, o rapaz.
-Para proteger o roseiral, é tudo o que me resta. – A emoção na voz era perfeitamente perceptível.
-Proteger do que? – Seguiu o jovem, curioso.
-Das pessoas.
-Não entendo.
-Não entende porque você pensa igual a todos. Por isso achou tão simples por a mão em uma das rosas e roubá-la para si, como se tivesse o direito de possuir o que não lhe pertence.
- Mas, é apenas uma rosa. Tantas outras ficariam. Eu só queria uma.
- Apenas uma rosa? Você, realmente, não sabe nada sobre elas. Toda rosa é única, assim como a moça que você deseja presentear. Tal qual esta, as rosas também possuem sentimentos. Se você as trata com carinho, elas desabrocham vivazes, dispostas a encantar tudo a sua volta. Mas se as abandona, perdem o brilho, murcham antes mesmo de mostrar seu esplendor ao mundo.
- Porque então você as esconde do mundo? Acaso as deseja só para si?
-Não. Não seria tão egoísta, meu jovem. Acontece que poucos compreendem o que acabo de lhe dizer. Raros são os que entendem que uma rosa apenas é capaz de transmitir sentimentos, por ser também dotada destes. No seu caso, a flor que pretendias colher sem permissão, deixaria o seio da roseira contrariada. Assim, por mais que tuas intenções fossem puras, elas não seriam transmitidas pela rosa, porque esta traria em si a mágoa por ter sido roubada. Não seria ela capaz de expressar o amor que sentes.
- Mas, eu não sei se o que sinto é amor. O que acontece quando não sabemos o sentimento que possuímos? – O jovem agora já não parecia apreensivo. Perguntava com curiosidade, demonstrando o maior dos interesses na conversa.
- Meu jovem, embora eu não saia daqui, tenho ciência do que se diz ao meu respeito, a brisa me traz o que é dito nas proximidades. Além disso, este muro tão alto não foi construído sem uma finalidade. Qualquer um pensaria duas vezes antes de tentar pulá-lo. No entanto, você o fez com a facilidade de quem não teme. Esta coragem só pode advir de um sentimento verdadeiro como o amor.
- Eu sei que sinto algo forte. Mas não sei se é amor.
- Não precisas saber o que é o amor para senti-lo. Acaso sabias o que era o vento, na primeira vez que o sentistes correr por teu rosto, acariciando levemente teus cabelos? Imagino que não. Da mesma forma é o amor. Quando você descobre o que é o amor, se dá conta que já amava há muito tempo, apenas não sabia dar nome ao que sentias.
-Mas, e se for amor? O que devo fazer? Seria uma rosa capaz de fazê-la amar a mim também?
- Talvez já tenhas a resposta para estas perguntas. Do contrário, não estarias aqui, arriscando sua vida, fazendo de tudo por uma rosa para presentear a moça que detém teus sentimentos.
Pensativo, o jovem silenciou uma vez mais. O sol já começava a se pôr no horizonte. Ele já estava ali a mais tempo do que deveria. Se bem que, tudo havia sido diferente do que fora planejado. Ele jamais poderia imaginar que teria uma conversa como aquela com o tão temido velho senil do roseiral. Olhou para o sol poente. O senhor percebeu:
- Alguém sabe que você está aqui? – Perguntou preocupado.
- Não. Se tivesse dito a alguém, tentariam me convencer a desistir.
- Está escurecendo, você deve ir. Se quiser levar a rosa, eu consinto que a pegue. Mas, antes, precisas pedir permissão a ela, para que não fira seus sentimentos. – Disse sorrindo.
Retribuindo o sorriso, o rapaz caminhou em direção à roseira localizada ao lado do senhor. Com cautela, pediu permissão, e em seguida colheu a rosa que escolhera desde o início. Aproximou-a do rosto e sentiu seu aroma. Agradeceu ao velho e se preparou para sair. Mas o senhor o conteve:
- Esta rosa é a primeira a deixar este roseiral em muitos anos. Cuido destas roseiras com todo o meu afeto, pois são frutos de um amor passado, que insiste em se fazer presente em mim. Em toda a região não existem roseiras que produzam flores vermelhas como estas que aqui estão. Por isso, deves me prometer que, quando perguntarem como conseguistes esta rosa, responderás que viestes aqui e a roubastes. Diga que por muito pouco não perdeu a vida, mostre o arranhão em seu braço, e a estória parecerá convincente.
- Mas, porque devo mentir?
- Deves mentir para manter o roseiral protegido. Quando não havia muros, ele quase foi destruído. As pessoas vinham aqui, com intenções totalmente distintas das suas, e furtavam as rosas. Uns usavam-nas como mera decoração, até que perdessem a vida. Outros simplesmente as vendiam como se fossem uma mercadoria qualquer. Ninguém se importava com os sentimentos das rosas. Sequer acreditavam na existência deles. Por isso, os muros foram erguidos. Durante todos esses anos, dediquei minha vida a este roseiral. Jamais deixei a propriedade, pois sei que elas não sobreviveriam sem mim.
- Mas as pessoas vão continuar inventando estórias sobre o senhor. Agora que lhe conheço, sei que não é o monstro que costumam dizer.
- Prefiro assim, meu jovem. Não me importo mais com o que pensam as pessoas, tenho a verdade das rosas para mim. Prefiro ser tímido e odiado, se este for o preço a pagar para preservar meu roseiral. Do contrário, as pessoas virão e o destruirão novamente. Não sei se terei forças para ressuscitá-lo uma vez mais. – Desabafou o homem, deixando uma lágrima correr por sua face.
- Prometo fazer tudo o que puder para que ninguém ouse tentar vir até aqui. – Disse olhando nos olhos do velho. Em seguida apertou-lhe a mão.
- Que esta rosa e o seu amor sejam aceitos pela moça que amas. Desejo que sejas feliz, como uma vez fui. Se um dia quiseres voltar aqui, ficarei contente em receber sua visita.
-Eu voltarei, prometo. – Sorriu o jovem e em seguida pôs o talo da rosa entre os dentes. Correu através do terreno e por fim pulou o muro. Ao chegar do outro lado, cheirou a rosa uma vez mais. Olhou para trás e sorriu. Sentia que já não era o mesmo. Naquela tarde, não havia apenas vencido seu maior medo. Mais do que isso, aprendera uma importante lição, a qual jamais esqueceria. Uma lição sobre rosas e amor.




FONTE IMAGEM: http://www.infoescola.com/wp-content/uploads/2010/04/rosa.jpg

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Felicidade Delirante

     Calmamente, ele afastou as cortinas com a ponta dos dedos, e lançou um olhar para o jardim do hospital. Contemplou, por um instante, os pacientes, dotados das mais variadas enfermidades mentais. Por fim, deteve seus olhos no jovem que parecia discursar, à sombra da mangueira. Observou-o com calma. De pé, ele falava e gesticulava, deixando escapar um sorriso pelo canto da boca, vez ou outra. Parecia falar para uma multidão de conhecidos. Tamanho entusiasmo impressionaria, não fossem os anos de experiência do observador.
     Decorridos alguns segundos, ele voltou sua atenção ao homem sentado a sua frente. Seu nome era Roberto, colega de profissão há alguns anos. Coincidentemente, tinham a mesma idade. Tinham a mesma formação. Mas, distintos modos de conceber o tratamento das patologias da mente. Roberto, cansado do silêncio, achou oportuno quebrar o gelo:
   “Vou buscar um pouco de café. Quer um pouco, Jonas?” – Mostrou-se gentil.
    “Na verdade, não. Ainda não vá. Conversemos um pouco sobre aquele rapaz.” – Disse e em seguida gesticulou, pedindo a Roberto que se aproximasse da janela.
     Atendendo ao pedido, Roberto chegou mais perto de Jonas e, em seguida, olhou o jovem, que agora já não discursava. Sentado ao chão, parecia escutar a opinião de seus companheiros, fazendo breves intervenções.
     “Você ficou responsável pelo tratamento deste rapaz, não foi, Roberto?” – Disse Jonas enquanto ambos olhavam pela janela.
     “Sim. Desde que ele aqui chegou, sou eu quem tem cuidado dele.”
“Pelo que vejo, trata-se de esquizofrenia. Poderia me falar mais a respeito dele?”
    “Sim, ele é esquizofrênico. Chegou aqui há nove meses. Segundo o que me foi dito, ele cresceu em uma vila não muito longe daqui. Uma destas que, nestes tempos de guerra, é invadida e pilhada pelos inimigos. Aconteceu isso com a dele. Ele foi o único sobrevivente.”
      “Isso foi há muito tempo?” – Indagou Jonas.
     “Não sei dizer. Quando ele chegou, já manifestava os sintomas de esquizofrenia. Ele só costuma falar quando está sozinho.”
     “Como anda o tratamento dele? Pelo que posso ver, não houve muito progresso.”
   “Não diria isso. Há alguns meses, comecei por ministrar medicamentos para tratar a esquizofrenia e atenuar os sintomas. Nas primeiras semanas, obtive certo êxito. Mas nada muito animador. Ele seguia sem falar com ninguém. Após algumas semanas tentando, achei por bem suspender a medicação.”
   “Mas por quê? Se havia a possibilidade de evolução, ainda que lenta, porque suspender a medicação?” – Havia um tom de indignação na voz de Jonas, daqueles característicos de quem está prestes a censurar um comportamento.
     “Sabe Jonas, nem sempre o que a medicina julga ser o melhor para o paciente, acaba o sendo.” – Respondeu com um sorriso ante a exaltação do colega.
     “Justifique-se!”
     “Eu o farei. Olhe para aquele jovem. Vê o sorriso em seu rosto?” – Lá embaixo, sentado ao pé da mangueira, o rapaz sorria como se aquele fosse o dia mais feliz da sua vida. – “Este foi o motivo pelo qual suspendi o tratamento.”
    “Não consigo compreender seu raciocínio. Seja mais explícito, por favor.” – Jonas já estava impaciente. Começava a achar que Roberto estava sendo negligente.
   “Pois bem. Após algumas semanas de tratamento com medicamentos, a esquizofrenia não havia sido totalmente controlada. Houve uma piora no quadro. O rapaz mantinha-se isolado e não se alimentava mais. Não conversava com os psicólogos, ignorava a todos. Quando estava sozinho, chorava. Aos poucos, foi desenvolvendo um quadro de depressão, que culminou com uma tentativa de suicídio.”
     “E você achou que abandonar o tratamento era o melhor a ser feito?”
   “Sim. Veja o quão feliz ele parece agora. Após alguns dias sem o medicamento, o quadro de depressão foi cessando aos poucos. Ele voltou a alimentar-se. É certo que ele permaneceu a tendo alucinações, falando sozinho. No entanto, já não havia tristeza. Sorria e era feliz. Tenho a teoria de que ele vive a ilusão de que não aconteceu o ataque à vila em que morava e que todos aqueles que ele ama estão ao seu lado novamente. Acho que é isso que o faz ser tão alegre.”
     “Então é isso? Preferes manter um paciente enfermo a tentar oferecer-lhe a cura?”
    “Cura. Para quê tentar se os progressos foram mínimos, e se assim ele é feliz? Porque tentar curá-lo e trazê-lo de volta a um mundo onde a vida que ele tinha lhe foi tirada e não há qualquer razão que o faça querer viver? Somente para provar para nós que nossa medicina é capaz de recuperá-lo? De todo modo, ele há de passar o resto da vida aqui, então, prefiro vê-lo atrelado a essa felicidade delirante. Se pretendes me censurar, saiba que pouco me importa. Quisera eu poder me perder em um mundo de felicidade eterna, como o dele. No entanto, assim como você, sou obrigado a viver nesse mundo de sanidade, onde mais vale ser normal do que ser feliz. Eu invejo aquele sorriso, porque sei que ele é real, mesmo sendo motivado por um delírio.” – Disse, em tom de desabafo.
    Em seguida, afastou-se da janela e sentou, aguardando a resposta do colega. Jonas perdeu o olhar pelo jardim por mais alguns segundos, enquanto parecia pensar. Voltou-se ao colega, mas nada disse. Em seu íntimo, sabia que concordava com ele. Não com relação ao tratamento do paciente. Mas sim quanto ao fato de também desejar viver outra vida que não aquela. Quisera ele, também, poder sucumbir a uma felicidade delirante.



terça-feira, 16 de outubro de 2012

Amor às estrelas...

     Perguntava-me como pode o ser humano ser tão inconstante. Porque certas coisas simplesmente mudam ao sabor do tempo? Como pode alguém um dia furtar nossos mais sinceros suspiros de amor, e no outro sequer conseguir um olhar nosso, que seja? Porque nada é, sempre está? Tantas perguntas respondidas por uma simples constatação: o grande problema está dentro de nós. Trazemos em nosso peito um paradoxo pulsante. Tão vigoroso, que nos assegura a vida, mas ao mesmo tempo frágil, que nos torna fracos.
     O que suscitou tais indagações? Como enfim cheguei àquela conclusão? Pois bem, deixe-me contar uma estória. Se for verídica ou não, tanto faz. Conheço verdades inquestionáveis, que até mesmo as hábeis mãos que as edificaram não ousam questionar. Conheço pessoas que acreditam ser a mentira apenas uma verdade mal contada. Enfim, não convém discutir. Vamos ao que interessa, chega de digressões.
     Houve um dia um rapaz, desses ingênuos, que acreditam ser o horizonte formado pelo beijo entre céu e mar. Não correra pelas ruas da vida durante a infância, apenas sabia o que os livros contavam. Tinha idéias demais, em relação ao seu tempo. Perdia-se a contemplar o céu, enquanto os outros caminhavam de cabeça baixa. Era um profundo conhecedor do inútil, diziam alguns. Vivia só, desde que os pais se foram. Amigos, não tinha. Herdeiro abastado, isolado do mundo. Sequer cobiçado, solitário profundo.  
     Durante as noites, seu telescópio era extensão do olhar. Em uma casa sem janelas, a clarabóia revelava o que ele desejava ver. Perdia-se por entre constelações, delas era amigo. E, como não raro acontece, a amizade quis ser amor. Dentre as estrelas, havia aquela que brilhava mais de perto. A enxergava a olho nu, quase podia tocá-la. Enamorou-se dela sem perceber. Deu-lhe um nome, Letícia. A ela confidenciava seus mais tolos devaneios. Ria-se com ela. Era completo enfim.
     Dormia para não ver o sol. Despertava quando a lua surgia, para abençoar aquele amor. Encontravam-se todas as noites. Havia sempre uma novidade a ser contada. Ela, como sempre, ouvia paciente. Entregue a ela, fez ele diversos estudos sobre as constelações. Quis descobrir a origem de sua amada, conhecer sua família. Cada descoberta era comemorada. Mas algo faltava, ele sentia. Tantas vezes quis alçar vôo, para roubá-la para si. Um beijo sequer seria suficiente. Suspirava dolente, aquele amor à distância.
     Contudo, o pior estava por vir. Vieram as noites de inverno, nubladas e frias. Ignorando a temperatura, ele insistia em abrir a clarabóia, na tentativa de encontrar sua amada perdida entre as nuvens. Jamais conseguia, a densa camada acinzentada escondia até a Lua, às vezes. A solidão retornara, afinal. Não obstante a distância, ainda havia aquele empecilho. Acabavam-se os sonhos e cada gélido anoitecer. A dor não cabia em seu ser.
     Bate à porta então, certa manhã, alguém. Coisa rara naquela casa. Ignoraria como sempre fazia. Mas, há muito, se sentia só. Levantou-se com calma e durante o trajeto até a porta, repassou na mente o que deveria dizer. “Bom dia”, “Não estou interessado, obrigado”. As breves palavras de sempre. Abriu a porta e a luz penetrou com vontade no ambiente. Os olhos arqueados demoraram a se adaptarem. Quando, por fim, pode ver, emudeceu.
    “Bom dia, está frio aqui fora, preciso de trabalho. Posso limpar a casa em troca de comida e abrigo”. Ela disse tudo depressa para receber apenas uma resposta. Decerto já havia batido em outras portas. No entanto, ele nada ouvira. Estava perdido a contemplá-la. Ela insistiu: “Por favor, posso trabalhar aqui?”. Ele gaguejou e abriu a porta. Aquilo parecera um sim. Ela entrou e demorou certo tempo até que ele pudesse começar um diálogo.
     Ela falava demais. Enérgica, gesticulava sem parar. Tímido, ele perguntou o nome da moça. “Letícia”, disse ela. Nome familiar pensou. Lembrou-se de sua estrela perdida. Sentiria saudades, mas a moça não deixou. Perguntava-lhe sobre tudo, enquanto apanhava os livros jogados ao chão. De repente ele tinha alguém que podia ouvi-lo. Alguém que respondia, questionava, discordava. A priori, irritante. Após alguns dias, já não conseguia viver sem ela. Reviravolta tamanha era aquela.
     As semanas se passavam entre conversas. Ele contava o que sabia. Ela falava o que o mundo ensinara. Era órfã, viveu em um orfanato durante toda a vida. Após completar dezoito anos, teve de sair. Conheceu alguns lugares antes de bater àquela porta. Ele sequer podia sentir os dias, esquecera das noites. Porém, quando o inverno se despediu, quis ela partir. Mas ele não deixou. Não conseguiria mais viver sem ela. Parecia recíproco o querer. Por fim, se renderam ao óbvio. E os dias solitários se foram.
     Ele aprendeu a olhar o mundo a sua volta. A ensinou a olhar o céu. Certo dia observavam as estrelas pelo telescópio. Ele destilava seu conhecimento enquanto ela perdia o olhar na imensidão da noite. Ela então indagou sobre uma estrela em especial. Tirou os olhos do telescópio e apontou-a com a mão. Tão próxima estava aquela estrela. Ele então se recordou: em outros tempos, aquela estrela fora seu amor, sua companheira, confidente.
    Pensou em narrar seu devaneio amoroso, mas acabou por desistir. Aquele era um segredo só seu, e da estrela Letícia. Desconversou e convidou-a para ir à biblioteca. Mas, antes de sair, lançou um último olhar ao céu. Aquela fora sua despedida. Alguns segundos se passaram. Ele nada sentiu. Embora conhecesse aquela estrela como se fosse sua, ela nada mais representava. Não havia mais, em seu coração, espaço para ela. Ele abaixou o olhar, e jamais voltou a observá-la como antes. Embora com o mesmo nome, o amor já não estava no céu, sua estrela agora o tomava pela mão e esperava um filho seu.


domingo, 30 de setembro de 2012

Futebol Paixão

     Domingão, e lá estávamos nós, entregues àquelas que são duas das grandes paixões dos brasileiros: boteco e futebol. Éramos seis: Beto, Zezão, Chico, Júnior, Catarro e eu. As garrafas de cerveja sobre a mesa já haviam testemunhado meia dúzia de histórias e agora nos viam concentrados olhando para a televisão presa à parede. Não era qualquer jogo, era um FlaxFlu! Ânimos a flor da pele. Futebol é coisa séria. É paixão! Tem gente que faz de tudo pelo seu time. Em dia de clássico então. Nós mesmos estávamos lá, reunidos no boteco do Seu Manoel, contrariando opinião das esposas, filhos. Tudo pra acompanhar o jogo.
     Seu Manoel, como todo dono de boteco, tinha a eterna mania de limpar o balcão com um pano encardido. O Zezão dizia que era um cacoete. Mesmo porque não importa o quanto ele limpasse, o balcão sempre parecia estar sujo. Atento para a escalação dos times, Seu Manoel soltava piadinhas sobre os nossos jogadores. Ele era vascaíno, logo, odiava tanto o Flamengo quanto o Fluzão. Mas, o importante no momento era provocar. Chamava os atacantes de perna de pau, o técnico de burro. Parecíamos ignorar. Mas só enquanto ele não decidia apostar cervejas pelo resultado. Como éramos os únicos clientes, ele não demorou muito propor a aposta. E nós, claro, aceitamos, já pensando nas cervejas que íamos ganhar.
     Aos vinte minutos do primeiro tempo eu já não tinha unhas. Os dois times tiveram chances de gol, mas perderam. O Catarro já havia xingado o técnico do Fluzão pelo menos três vezes. O Naldo parecia direcionar mais atenção ao juiz: a cada falta, um elogio à mãe do infeliz. O resto de nós, inclusive eu, mantinha a concentração. Vibrávamos a cada drible. Sofríamos a cada passe errado. Aos quarenta uma bola na trave. Respiramos aliviados, afinal, levar gol antes do fim do primeiro tempo ia deixar todo mundo nervoso na hora do intervalo. O juiz apitou e o placar seguia igual.
     Após o revezamento no banheiro do boteco, voltamos à mesa e pedimos mais uma cerveja. Então surgiu à porta um figura magrelo de camisa vermelha. Olhou para nós e gesticulou. Ninguém entendeu nada. Ele se aproximou tímido, e fez mais alguns sinais com as mãos. Continuávamos sem compreender, até que o Seu Manuel resolveu o mistério: “Vocês tão bêbados demais para perceberem que ele é mudo?!”. Olhamos novamente para o visitante e ele seguiu com os gestos. Pelo que eu entendi, ele estava pedindo dinheiro.
     Mas, ninguém tinha nada nos bolsos. Era uma espécie de tradição. Depois de sucessivos calotes, o Seu Manoel não vendia fiado. Como éramos clientes fiéis, ele acertou que, em dias de jogo, nós deixaríamos determinada quantia com ele e poderíamos beber a vontade. Enquanto nossa cota não acabasse, é claro. No entanto, não deixaríamos nosso amigo ir embora assim. O Catarro puxou uma cadeira e ofereceu um copo de cerveja. O segundo tempo ia começar. O mudo aceitou. Sentou-se e começou a assistir o segundo tempo conosco.
     O jogo seguiu tenso. Passes errados, substituições equivocadas. O tempo corria e nada de gol do Fluzão. Seu Manoel se divertia com a nossa agonia. E, só para nos torturar, falava das cervejas que ia ganhar se o Flamengo por acaso fizesse um gol. Quanto ao nosso sétimo homem, ele permanecia calado, por razões obvias. Embora não vibrasse conosco nos bons lances, mantinha o olhar na tela. O Chico cuidava para que o copo dele não ficasse vazio. Depois de um tempo, percebi que a intenção dele era embebedar o coitado do mudo. E o pior é que ele estava conseguindo.
     Trinta minutos de jogo e todo mundo já bebia a cerveja como se fosse água. O nervosismo dava sede. E o mudo nos acompanhava. Já havia se enturmado. Sorria das nossas piadas como se as entendesse. Ninguém mais estava sóbrio. Aos quarenta já estava todo mundo conformado com o empate. Não íamos ganhar as cervejas que tínhamos apostado com Seu Manuel. Mas, pelo menos não tínhamos perdido a aposta. O mudo, a essas alturas, já estava pesado, quase cochilando na cadeira.
     Quarenta e cinco do segundo tempo, o juiz deu três minutos de acréscimo. Nós já parecíamos indiferentes ao jogo. Os jogadores, cansados, já não corriam tanto. Não sairia mais gol ali, eles estavam em campo só pra cumprir tabela. Seu Manoel pediu que acordássemos o mudo. Assim que o jogo acabasse ele fecharia o bar e, nós o havíamos convidado para beber, nós deveríamos acordá-lo e levá-lo embora. O Catarro pediu nossa atenção porque ia fazer uma brincadeira com o mudo. Tiramos os olhos da televisão por alguns segundos, e nos voltamos ao coitado.
     Mas ele abriu os olhos de leve, antes que o Catarro pudesse fazer alguma coisa. Olhou em direção à televisão e, com um sobressalto da cadeira, soltou o grito forte: “Goooooooooooooooool”. Assustados, nossa primeira reação foi olhar para a televisão. Na tela, o replay denunciava: gol do Flamengo aos quarenta e sete. Trocamos olhares por um segundo e não sabíamos o que era pior: ele não ser mudo, ou ele ser flamenguista.
     O Júnior passou a mão em uma garrafa para ir pra cima do mudo. Mas, quando olhamos para o lado, só estava a cadeira. Saímos à porta do bar e o avistamos dobrando no fim da rua. Confesso que até hoje nunca vi ninguém correr tão rápido. Depois disso, só nos restou beber mais uma e pendurar as outras que havíamos perdido na aposta. Sempre que acontece um clássico, eu conto o episódio desse FlaxFlu. É, como eu havia dito no início, futebol é paixão, dessas que faz até mudo gritar quando sai um gol do seu time.



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quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Capitalismo

     Por favor, se achegue mais, deixe eu contar uma história dessas que a vida nos dá. Coisa verdadeira, que eu vi de perto. Por isso, com detalhes eu falo. Se errar alguma coisa, é culpa da memória. Nasceu uma vez um João, na mesma rua que eu morava. Mais um no meio desses tantos, mas bom das idéia. Desses que se tivesse oportunidade ia longe, sabe. Mas, pobre nasce com pé no chão, que é pra não querer voar. Assim a gente se conforma. Mas o João não. Esse nasceu pra querer mais que nós. Mas, era boa pessoa.
     Cresci junto dele. Era coisa de cinco anos que separava a gente. O ofício a gente ganhou em casa. Meu pai trabalha com o dele e a gente aprendeu junto a profissão. Era pra levar a vida de sempre, toda vida: trabalhar pros patrão, juntar algunzinho, comprar terreno, casar e rezar pra ter uma casa boa antes de ficar velho. Eu contava meus plano pro João, mas ele era calado. Vivia de pensar nos canto. Trabalhava modo insatisfeito, como não quisesse fazer as coisas. Era mais bom de conversa que de serviço.
     Certa feita o João deu de aparecer com livro no trabalho. “Livro é coisa de gente rica”, eu dizia pra ele. Mas ele não ouvia, ficava lendo no almoço. O problema é que depois ele já fazia isso direto. Enrolava serviço pra ficar folheando. Tava ficando sabido, dava pra perceber quando ele vinha conversar com a gente. Até o dia que o chefe descobriu. Riu do João, disse que aquilo não era pra ele. João deu resposta e o patrão mandou ele embora. Justa causa, ele disse. Teve gente que gostou, achava o João metido a besta. Eu fiquei triste. Mas, fazer o quê?
     Passou um tempo e o João apareceu de volta. Chegou com nós, falando que nós era vítima de injustiça. Dizia que o patrão não gostava dele, nem de ninguém. Disse que todo mundo era explorado, ganhava menos que merecia. Até palavra nova ele arranjou, falava de um tal de capitalismo. Dizia que ele era o culpado por a gente trabalhar tanto. Que ele corrompia os homem, que era o maior dos mal. Devia de ser coisa dos livro. Ninguém entedia muita coisa, mas ele falava bonito. Pediu ajuda pra todo mundo, dizia que ia pra justiça contra o patrão. Falou que tinha sido enganado, e que ia provar. Que o chefe ia pagar caro pra ele. Que quem apoiasse ele, ia ser ajudado depois.
     Muita gente ficou com medo no começo, mas ele era bom de convencimento. No fim todo mundo tava com ele. O João se tornou como líder pra nós, sabe. Ele falava, nós ouvia. Todo mundo confiava nele. Era um de nós que tinha um conhecimento que nós não tinha. Ele falava dos direito que a gente tinha. Que depois que ganhasse o patrão na justiça, nós tudo ia melhorar de vida. Que a vitória dele era vitória de todo mundo. E nós apoiava ele.
     E veio o dia do João enfrentar o patrão. Todo mundo tava do lado dele. Se ele ganhasse, nós tudo ganhava. Se ele perdesse...ninguém nem pensava nisso. O João ia ganhar, não tinha erro. E aí nós acompanhou ele. E viu quando o juiz deu vitória pro João. Todo mundo comemorou. Foi coisa grande, dessas de sair no jornal. O patrão foi obrigado a pagar dinheiro muito pro João. Todo mundo começou a fazer plano. João tinha prometido que ia ajudar nós, de certo ia dividir o dinheiro com todo mundo.
     Pois é...passada a euforia, o João veio com nós. Agradeceu e tudo mais. Disse que era vitória importante pra nossa classe. E que ia ajudar nós tudo, conforme tinha prometido. Todo mundo se animou pensando na generosidade do João. Pois é...o que nós esquecia, é que o João sempre teve com nós, mas nunca foi um de nós. João pensava diferente, como eu disse no início. A gente nasceu pra ser peão. Mas o João, não queria pé no chão. E só quando ele disse a ajuda que ia dar, que a gente percebeu isso.
     Depois que o chefe perdeu na justiça, a empresa dele faliu. Todo mundo ficou desempregado. O João, rico que tava, abriu uma empresa. E pra ajudar nós tudo, como tinha prometido, contratou todo mundo. Pra mostrar que era bom, aumentou nosso salário em uns dez tostões. Agradeceu todo mundo e nunca mais se misturou com nós. Não tratava mais ninguém pelo nome. Só vinha pra cobrar serviço. A vida se manteve a mesma, só mudou o patrão. Ninguém entendeu o que tinha acontecido com o João. Alguns diziam que ele nunca foi gente boa, que sempre enganou todo mundo. Outros diziam que foi o dinheiro que mudou a cabeça dele. Mas, cá pra nós, eu tenho meu palpite: pra mim, isso foi coisa do tal capitalismo.




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segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Tentações

     Em eterno flerte com minha pobre alma, lá estão elas. Vivem a testar minha resistência. Quando fortalecido estou, a mim, pouco se mostram. Mas, se me mostro fraco, me caçam com olhar predador. Parecem pressentir minha vulnerabilidade. Ponderam seus ataques cuidadosamente. Às vezes sutis, me tentam com olhares, sorrisos. Quando vorazes, investem diretamente, sem temer conseqüências. Atiçar é o seu dever. Vencer-me, seu prazer. Resistir é meu calvário. Mas, nem sempre.
     Contudo, reconheço, são elas que temperam minha vida. Afeito sou desse jogo de resistência, essa eterna vontade de fazer o que quero, mas não posso. Assim me conheço, me fortaleço. Afinal, jamais temerei uma tentação a qual já resisti. Da mesma forma, lembro de evitar àquelas que certa vez sucumbi. Contudo, bom seria se as coisas fossem tão simples. Infelizmente, não são. As tentações são perspicazes demais para se deixarem resistir tão facilmente.
     Elas conhecem meu gosto, se adéquam a ele. Mutantes que são sempre me surpreendem. Imprevisíveis, de tudo fazem para seqüestrar minha atenção. Por vezes, conseguem. O que torna o jogo mais interessante. É da natureza das tentações a renovação. A elas convém a necessidade de provocar, seduzir. Do contrário, perdem seu status, tornam-se costumeiras. É sempre fácil resistir ao que já conheço. O desconhecido é o que me provoca receio. Assim como incita minha curiosidade.
     Tão subjetivas, são as tentações. Conhecem as fraquezas de cada um. Jamais despertam interesses semelhantes. São nossos demônios particulares, que buscam no mundo aquilo que ao nosso ardor atrai. Cegam a racionalidade algumas vezes. Alimenta-se de nossas paixões. São criadas por nós, para nós. Por vezes potencializadas pelo objeto de nossa cobiça. Seja este material, afetivo. Representam a luta contra nosso inimigo mais forte: nós mesmos. Vencer não é tão simples.
     Como havia dito antes, nem sempre resisto. Vez ou outra é preciso lutar contra gigantes, batalhas hercúleas, daquelas que não originam vencedores ou vencidos. Nestes casos, o melhor a fazer é por fim à guerra antes de seu princípio. Culpado será Davi por, na ausência de pedras, abraçar Golias? No entanto, existem momentos em que as vontades se encontram. Tentação e tentado que se desejam com ardor irresistível, como precisassem um do outro. São casos raros, é verdade, mas acontecem. Haverá culpados então?
     Sempre presentes na minha vida, e na de todos, estão elas. Do contrário, não pediríamos, em preces, forças para não “cair em tentação”. Contudo, diria que elas é que “caem sobre nós”. São nuvens a mudar nossos tempos de calmaria. Sempre dispostas a tornar as coisas mais difíceis, interessantes. Não temos controle sobre suas ações. Mas somos senhores das nossas. Resistir ou sucumbir é questão de escolha. Contudo, lembre-se: uma tentação jamais vem sozinha, por trás de sua sedutora face, há um mar de conseqüências. Depois de vencido, aceitá-las é preciso.



Fonte Imagem: http://geracaocrista.com/wp-content/uploads/2011/08/tenta%C3%A7%C3%A3o.jpg

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

A ária e os conselhos

     Passeava o olhar pelos campos da juventude quando me deixei seduzir por certa melodia deixada ao vento. De doces tons era composta. Provinha do mais belo instrumento. O primeiro a atrair minha atenção. Em face ao enlevo evidente, recordei o que, certa vez, disse-me meu pai: “A infância de ti se despedirá em breve. O encanto das melodias haverá de te atrair. Este só é perceptível por ouvidos de homem. Mas, tenha cuidado, às vezes, belos sons enganam”. Quisera eu tê-lo ouvido. Entretanto, ignorei o alerta, entreguei-me ao torpor daquela melodia. Tudo era perfeito então, e eu poderia permanecer naquele sonho por toda a vida. Porém, repentinamente, a música parou. E eu fiquei a dançar no silêncio. Quando me dei conta, estava só. Aquele instrumento já era tocado por outro.

     Despertei para o mundo surdo de antes. As sensações eram vazias. O silêncio de outrora, agora me machucava. Diante de minha tristeza, meu pai deu-me o alento: "A primeira sempre será eterna, pois, necessária é, para que nossos ouvidos despertem para todos os sons que passeiam pelo ar. Conhecerás muitos instrumentos, de melodias variadas. O mundo lhe aguarda. Descubra a multiplicidade dos sons, apaixone-se por eles. E, quando, dentre tantos, um te agradar de um modo diferente, venha até mim". Palavras sábias foram aquelas. Relutei, é bem verdade, mas acabei por aceitá-las.

     Segui, com passos firmes, atento a tudo que minha audição percebia. Tantas eram as melodias que eu reconhecia agora. Solitárias, melancólicas, alegres, apaixonadas. Tentavam-me, todas, a conhecer sua fonte de origem, entregar-me a elas. E, como não havia impedimentos, segui o conselho de meu pai. Pousei em meus braços muitos instrumentos e deles extrai músicas peculiares. Alguns eram doces, e por vezes me roubaram suspiros. Outros, mais enérgicos, exigiam meu fôlego para revelar o ápice de sua sonoridade. Havia, ainda, aqueles que a solidão fizera desafinar, mas que ao primeiro dedilhar recordavam seu timbre. Por vezes, me deparei com instrumentos parecidos, mas cujas melodias eram distintas. A forma não se sobrepõe à essência, afinal.

     Corri com os anos e conheci tantos instrumentos, que seria difícil me expressar em números. Entreguei-me a todos, assim como a mim também se entregaram. Descobri que, não importa o quanto o tempo castigue o instrumento, com um pouco de carinho, ele sempre revela a beleza de sua melodia. Basta apenas saber o modo exato de tocá-lo. E eu havia aprendido como fazê-lo. Contudo, embora muitos houvessem atraído minha atenção, nenhum conseguia mantê-la por muito tempo. As harmonias logo se mostravam obvias, previsíveis. Era então o momento de dizer adeus e seguir minha jornada. Eis a parte difícil: há sempre um apego entre o instrumento e aquele que o toca. Sempre que partia, deixava para trás uma última nota. Algumas de tristeza, outras de revolta. Mas, todas com um sentimento em comum: saudade.

     No entanto, ontem, veio até mim uma ária perfeita. Não era tão distinta das demais, mas me atraiu. Quis conhecer o instrumento de onde provinha. Ao chegar até ele, descobri que era especial. Quando o tomei em meus braços e ouvi um simples acorde tive vontade de render-me a seus sons. As palavras que meu pai um dia dissera fizeram sentido. Fui então à busca daquilo que ele há muito guardava. Percebendo o brilho em meus olhos, ele sorriu. Disse-me satisfeito:

"Pelo visto, seguiu meu conselho: conheceu muitos instrumentos e enfim encontrou aquele que eu havia mencionado. Em teus braços os tivesse e aprendestes a tocá-los. Muito já sabes, mas ainda resta um último conselho. É chegado o momento de se aperfeiçoar. Este que agora te toma à paixão é único. Ouso dizer que foi feito para ti. Deves agora dedicar-te a conhecê-lo a fundo, descobrir o que há por trás de cada nota, apreender a essência que o rege. Ame o seu instrumento, e ele também te amará, e te revelará a verdadeira pureza de seus sons. Mas não esqueça, ainda que o conheças tanto quanto a ti, ele jamais te pertencerá. A liberdade é o que deve lhes unir".

     Depois disso, nada mais disse. Saiu sorrindo, com aquele ar de quem cumpriu seu dever. Eu saí de casa. Enquanto atravessava a rua, ouvi uma linda melodia vinda de dentro da casa de meu pai. Era bela como nenhuma outra. Revelava o quão íntimo meu pai era de seu instrumento. Enfim eu compreendi o que ele quis me dizer. Era aquele o amor do qual ele falara. Uma vez mais, segui com passos firmes, disposto a seguir o conselho que me foi dado. Mas, dessa vez, rumo à ária do amor.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Amor de Margarina

     Grande era a dúvida que me consumia, quando quis o amor me achar. Diante de mim, inúmeras opções, era preciso ponderar sobre qual a melhor delas. Afinal, a matéria era de suma importância: qual marca de margarina escolher? Após alguns minutos, já havia descartado grande parte das pretendentes. Restavam apenas três. Mas minha dúvida se dava entre duas. A terceira eu desconsiderava, já que era a margarina do comercial do casal feliz. Sim, aquele comercial que mostrava um casal bonito tomando café da manhã. O comercial que mostrava uma felicidade que parecia não ser feita pra gente como eu. Daí minha revolta com o produto.
     Após alguns minutos, a ponderação havia acabado: escolhi a margarina de sempre, que prometia entupir mais minhas artérias. Margarina de gente sozinha, que não tem com o que se preocupar. Estiquei o braço para apanhar um pote da vencedora. Eis que uma voz quebrou o silêncio: “Poderia pegar uma pra mim também?”. Olhei para o lado tentando identificar a dona da voz. Deparei-me com um anjo. Tão linda era ela, que congelei, com o braço esticado. Ela insistiu: “Pode ser dessa que você ia pegar”, disse com um sorriso simpático. Retomei o movimento, apanhei o pote de margarina e entreguei a ela. “Obrigada”, respondeu sorrindo novamente. E permaneceu ao meu lado, olhando para a prateleira.
     Estiquei o braço novamente para pegar um pote para mim. Contudo, meu pensamento me tomou e parei, uma vez mais, com o braço esticado. Imediatamente, me veio à mente tudo o que eu já ouvira falar sobre ‘amor a primeira vista’. Eu, que sempre fui cético com essas coisas, de repente, começava a ver sentido. Aquele sorriso diante de mim, talvez fosse um convite. Ela ainda permanecia ao meu lado. Talvez estivesse esperando que eu tomasse a iniciativa. O encanto que ela causara em mim havia sido diferente. Talvez fosse mesmo amor a primeira vista. Outro indício: ela escolhera a margarina de gente sozinha. Talvez tivesse ela uma vida como a minha. Talvez quisesse também libertar-se da solidão.
     Havia indícios demais. Ela ainda permanecia ao meu lado. Tentava parecer distraída, olhando para a prateleira. Talvez estivesse realmente me esperando. Era preciso arriscar, tomar uma atitude, não podia desperdiçar aquela oportunidade. Que aquele fosse o primeiro dia do resto de nossas vidas, então. Retomei o movimento, mas em direção a outro pote: o da margarina do casal feliz. Chega de margarina de gente sozinha! Nossas vidas iriam mudar. Seríamos felizes, como o casal do comercial. Apanhei o pote e respirei fundo. Voltei-me a ela para dizer algo. Porém, não tive a oportunidade. Abri a boca, mas fui calado por uma voz grave que dizia: “Amor, essa margarina não. Pega aquela outra. Igual a essa que esse cara tem nas mãos.”
     Ela olhou para mim. Em um gesto silencioso, simplesmente entreguei a ela o pote que tinha em minhas mãos e peguei o dela para mim. Em seguida, ela foi embora, levando a margarina do casal feliz, enquanto eu fiquei com a de sempre, de gente sozinha. Não preciso dizer o quão doloso foi, para mim, amá-la e depois perdê-la. Talvez eu fosse feito para a solidão mesmo. Aquele não foi o primeiro amor a dar errado. Na verdade, era apenas mais um exemplar para minha coleção de fracassos. Um exemplar exótico é bem verdade. Mas, que me machucou tanto quanto os outros. Talvez até mais.
     Contudo, era preciso ser forte. Era preciso sair dali, chegar a casa e me isolar do mundo, a fim de me recuperar. Segui então minha Via Crúcis em direção à saída. A cada passo, sentia os pedaços daquele sonho caindo ao chão. Tentava me convencer de que talvez fosse melhor seguir sozinho. Aguardei algum tempo na fila até chegar ao caixa. Cabisbaixo, pus meu pote de margarina e os outros produtos sobre o caixa. Apanhei minha carteira e ia tirar o dinheiro. Mas uma voz doce rompeu o silêncio: “Dinheiro ou cartão, senhor?”, indagou-me.
     Voltei meu olhar na direção em que veio a voz. Deparei-me com um anjo sorridente. Tão linda era ela, que me fez pensar em ‘amor a primeira vista’. Logo eu, que sempre fui cético com relação a isso. Mas, e se aquele sorriso fosse um convite. Quem sabe, uma oportunidade de deixar aquela vida de solidão. Eu não podia perder aquela oportunidade. Puxei a carteira disposto a apostar minhas fichas naquele novo amor. Mas, antes, pus a margarina de gente sozinha de volta na cesta. Dessa vez daria certo, seríamos felizes como o casal do comercial de margarina. É bem verdade, que meu coração ainda sofria pela desilusão de dez minutos atrás. Mas, é como dizem: nada melhor que um novo amor para nos fazer esquecer uma desilusão do passado.          




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terça-feira, 7 de agosto de 2012

Observador

     Como costumam dizer, ao chegar, já peguei o bonde andando. Ninguém parou para me ver. Talvez por isso observar tenha sido minha sina. Afinal, quando não se é visto, ver é o que nos resta. Logo que pude, escolhi sentar à janela, só para ver o que o mundo tinha para me mostrar. E foi assim que meu olhar se acostumou a passear pelo mundo enquanto me mantive passageiro da vida. Muito do que sei, aprendi com os olhares. Uma parte naqueles que lancei ao horizonte. Mas, grande parte, também, nos olhares alheios, sempre cheios de intenções, vontades. Tanto vi que, por vezes, me perco em minhas memórias. No entanto, diria que algo me ocorre neste momento.
     Recordo que era cedo quando a mentira se mostrou a mim pela primeira vez. No início, mostrou-se bela, capaz de seduzir facilmente um olhar jovem como o meu. E o fez tão bem. Caí em seus braços como quem busca a redenção. Confesso que, por um instante, fui feliz. Mas, logo fui traído. As palavras que me salvaram se voltaram contra mim. Por fim aprendi, a duras penas, que, nem sempre, devo me render ao que atrai meus olhos. Preferi então encarar a face grave da verdade. Ela não seduz, muito menos faz promessas. Mas jamais te trai com sorrisos dissimulados.
     Sempre estive sozinho. Por isso, foi fácil afeiçoar-me àquela que primeiro correspondeu ao meu olhar. Lá de cima, ela brilhou, igualmente a mim, solitária. Parecia compreender minha dor. Foi assim que me enamorei da lua. Porém, era um amor daqueles difíceis. Dias inteiros eu tinha que esperar para vê-la. E, nos dias em que ela não vinha, conheci a dor que roubou minhas lágrimas. Fui apresentado também à saudade, que veio em silêncio e apertou-me o peito sem dó. Após muito sofrer, por fim, desisti daquele amor impossível. Talvez tenha sido melhor.
     Desde então, resolvi olhar o amor de perto. Esquadrinhá-lo, a fim de abstrair sua essência. Como se isso fosse possível. Levei certo tempo até perceber que minha empreitada era falha desde o início. Mas consegui vislumbrar algumas coisas. Muitos foram os amantes que vi pelo caminho. Alguns deles, isolados nas ilhas do amor a dois. Julgavam que assim estariam seguros, protegidos. Contudo, por vezes eram surpreendidos pelas tormentas da vida, que, não raro, devastavam tudo. Os que sobreviviam, restauravam a ilusão de outrora e seguiam, aguardando a próxima tempestade.
     Mas havia aqueles que diziam não ter nascido para viver em terra. Ou pelo menos se convenciam disso. Não buscavam segurança ou proteção. Diziam-se afeitos à adrenalina das marés. Zombavam dos ‘ilhados’. Preferiam se afogar no mar das possibilidades a se render à monotonia de uma vida a dois. E muitos se afogavam, quando vinham as tormentas. Os que sobreviviam, acabavam por procurar por terra firme. Salvo alguns poucos, que optavam por se arriscar uma vez mais.
     Eu muito já havia visto até então. Contudo, decidi vivenciar o amor uma vez mais. E ao destino coube essa parte. A tarde se despedia, em um daqueles dias em que o Sol faz questão de mostrar-se belo ao se pôr, quando veio a mim o amor. Sentou-se ao meu lado e, com aqueles olhos castanhos, se pôs a olhar pela minha janela. Como quem desejasse adentrar em meu mundo. Quando já havia visto o suficiente, me encontrou encantado. Havia em mim a certeza de que aquela era minha ilha. Porém, quis ela saber se seria a primeira flor a desabrochar em meu coração.
     As palavras vieram, e junto a elas, a lembrança de minha alva amada, que a noite caminha pelo céu. A mentira me pareceu irresistível, mas fechei os olhos para encarar a verdade. Respondi que outra já havia deixado em mim sua marca. Não a vi me abandonar, mas já podia sentir o abraço frio da saudade. Uma primeira lágrima quis se mostrar, mas uma palavra doce a conteve. “A verdade nem sempre é escrita com lágrimas”, sorriu-me. Pegou em minha mão, e me convidou para viver o que há muito eu somente havia visto. E foi assim que dei adeus à vida de observador do mundo. Hoje devoto minha atenção apenas àquele olhar castanho, pois, hoje, ele é meu mundo.

Fonte Imagem: http://blogdokelmer.files.wordpress.com/2010/06/ilha-01a.jpg