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terça-feira, 31 de maio de 2011

O Bordel

     Na pequena cidade de Vila Menina não havia homem mais conhecido que Tião Junqueira. Homem simples, natural da terra, que se criara sem jamais apartar-se do seio desta. Afamado por seu destaque nos negócios, detentor de terras e do único entreposto comercial do lugar. Como qualquer homem rico da época, recebera o título de coronel. Era respeitado por seus concidadãos, temido pela criadagem.
     Mas o que lhe conferia fama mesmo era a beleza de sua família. Não bastasse ter se casado com D. Laura, a mais bela mulher da cidade, aquele homem fora abençoado com seis lindas filhas. O que não era seu maior orgulho, afinal, como todos os homens, desejara um herdeiro macho para assumir os negócios quando adulto. Queria tanto, que tentou seis vezes. Não obtendo sucesso em nenhuma destas, ele desistiu. Mesmo porque, temia que seu filho nascesse lobisomem.
     Com o passar dos anos, foi se conformando com suas filhas. Amava-as tanto, que as protegia do mundo como podia. Tarefa fácil durante a infância. Porém, as meninas cresceram e começaram a atrair os olhares da reduzida, mas ativa, população masculina do lugarejo. Percebendo isso, Coronel Tião proibiu-as de sair de casa sem ele. E isto se aplicava também à D. Laura. Passavam os dias reclusas, exceto aos domingos, quando o Coronel ia com a família até a igreja.
     Este ritual dominical parava o lugar, literalmente. O casarão do Coronel localizava-se bem ao centro da cidade, em frente à pracinha. A igreja ficava exatamente em frente ao casarão, na outra extremidade da praça, de modo que bastava atravessá-la para chegar à missa. Mesmo assim, todos ficavam na praça esperando até que a comitiva fizesse o pequeno trajeto. Os homens aguardavam ansiosos para se deleitar com a beleza das mulheres da família Junqueira. As mulheres ficavam para observar as roupas usadas pelas moças. Invejavam o fato de que estas jamais repetiam um vestido, prova da riqueza do Coronel Tião, que toda semana encomendava vestidos para as filhas e a esposa. Um sonho para a maioria das mulheres do local.

     Quando chegavam à igreja, sempre a encontravam vazia. A população aguardava a entrada da família do Coronel, e só entravam depois que estes estavam acomodados. No decorrer da missa, enquanto a mulher e as filhas faziam suas preces, o Coronel olhava em volta, a fim de flagrar algum infeliz afoito que ousasse olhar demais sua família. Aquele que fosse pego não tardaria a receber alguma punição. Certa vez um rapaz não apenas ficou olhando as filhas do Coronel, como também o lançou um olhar desafiador quando foi flagrado. No dia seguinte apareceu sem os dentes e com vários hematomas no corpo, vítima de um assalto onde nada lhe roubaram.
     O Coronel Junqueira morria de ciúmes de suas filhas. Um dia, enquanto conversava com João da Rabeca, seu amigo desde infância, foi indagado sobre quando iria deixar que sua filha mais velha se casasse. Houve uma mudança brusca de humor, e a resposta colérica deixou bem claro: Nunca! Dito isso, o Coronel partiu enfurecido, como se tivesse sido vítima de grave ofensa. Desse dia em diante, ele nunca mais tornou a falar com João da Rabeca, tomando-o por inimigo.
     A extrema proteção do Coronel suscitava comentários pela cidade. Todos pensavam que era porque o Coronel julgava não haver naquele lugar gente a altura de suas filhas. Mas, quando todos viram o Coronel expulsar a chicotadas o filho de um fazendeiro de uma cidade vizinha, que queria tomar uma de suas filhas por esposa, todos ficaram sem entender. Porque tanto ciúme? Porque prender a família daquele jeito? Todos se perguntavam calados. Ninguém ousava questionar a postura daquele homem. Pelo menos não diante dele.
     E o tempo passava sem que o Coronel mudasse seu pensamento. Quando iam à rotineira missa, todos podiam ver nos olhos, tanto das filhas quanto da mulher, a melancolia da resignação. Mas elas sempre sorriam, faziam questão de parecerem felizes, embora talvez não fossem. D. Laura tinha 42 anos, mas não demonstrava qualquer marca do tempo, sua beleza reluzia igualmente a das filhas. A filha mais velha completara 23 anos, e as gêmeas caçulas 18. Eram belas mulheres, desejadas por todos, mas eram intocáveis.
     O Coronel Junqueira já chegara aos 48 anos e esbanjava saúde. Todos diziam que ele chegaria facilmente aos 60, idade tida como a expectativa de vida média de um homem da época. Porém, contrariando as previsões, o Coronel viria a falecer bem mais cedo. Certa tarde, o Coronel estava deitado em sua rede após o almoço, quando foi acometido por uma crise de vômitos. A crise não cessou e o Coronel abraçou a morte vomitando o próprio sangue.
     Decretou-se luto oficial na cidade. Todos fizeram questão de lotar o minúsculo cemitério do lugar para prestar sua última homenagem ao falecido. Pelo menos isso era o que diziam, mas, na verdade, todos estavam ali para ver a família chorar e, quem sabe, dizer-lhes uma palavra de conforto. Antes do enterro, vários homens fizeram questão de dizer algumas palavras de exaltação sobre o benquisto Coronel Tião Junqueira. Muitos repetiam as mesmas coisas que alguém já havia dito antes, mas, que importa? A intenção era falar qualquer coisa e tentar atrair o olhar de uma das familiares do defunto.
     Passado o enterro as mulheres voltaram à clausura. Todos imaginavam o quanto estavam sofrendo aquela enorme perda. Apenas as criadas entravam e saiam do casarão. Uma mais lacônica que a outra. O único homem que adentrou o casarão durante o luto foi o tabelião, e isso porque precisava ler o testamento, afinal, o comércio não parava, era preciso que a esposa assumisse os compromissos e desse seguimento aos negócios para garantir o sustento da família.
     Dentre os elementos do testamento do Coronel, estavam: duas fazendas situadas nas imediações de Vila Menina; O casarão onde a família vivia; o prédio onde funcionava o comércio e todas as mercadorias nele contidas. Não havia qualquer quantia em dinheiro guardada, pois o coronel havia feito grandes investimentos em mercadorias numa tentativa de comercializar com as cidades vizinhas. Mesmo assim, a família dispunha dos meios necessários a sua subsistência e para manter o luxo ao qual estava acostumada.
     Embora todos imaginassem que D. Laura iria assumir a administração dos negócios, ela acabou por surpreender a todos. Iria manter a casa e os luxos da família, porém com um estabelecimento que revolucionaria o comércio local. Findado os sete dias de luto, todos se surpreenderam quando, ao entardecer, uma criada abriu as portas e janelas do casarão. Não bastasse isso, o silêncio funesto foi quebrado por uma musica que vinha de dentro do lugar. Todos se olhavam sem entender o que acontecia.
     Foi quando, na varanda do casarão, D. Laura apareceu com suas filhas. Estavam sorridentes e bem vestidas. Mas com vestidos diferentes, decotados, provocantes. A cor vermelha tingia-lhes os lábios. Atônitos, os homens observavam-nas. Então D. Laura os surpreendeu, convidando-os para entrar, pois a noite seria de diversão. Aquelas palavras fizeram com que milhares de sorrisos brotassem nos rostos masculinos. Todos sabiam do que se tratava, mas era bom demais para acreditar: D. Laura, a mulher reclusa e suas castas filhas haviam inaugurado o primeiro bordel de Vila Menina.
     A festa de inauguração durou três dias ininterruptos. Era como se um feriado prolongado estivesse se instaurado naquele lugar. Nem mesmo a prefeitura funcionou nestes dias. Solteiros, casados, viúvos, todos queriam visitar o estabelecimento. As mulheres da cidade, revoltosas, tentaram esboçar alguma reação, mas foram duramente reprimidas pelos maridos e pais. O progresso havia chegado àquele lugar, a mercadoria sexual era lucrativa demais.
     A casa logo ganhou fama, de modo que os homens das cidades vizinhas vinham de longe para se render aos encantos de D. Laura e suas filhas fogosas. Na ausência de um nome, os homens da cidade batizaram o lugar de “Cabaré do Junqueira”. Era uma espécie de homenagem gozadora àquele que durante tanto tempo manteve a família na linha dura e que deveria estar revirando-se no túmulo enquanto os corpos que ele tanto preservou eram barganhados por qualquer um que dispusesse de dinheiro suficiente.
     A rapidez com que a família superou o luto, e o modo lascivo e promíscuo como aquelas mulheres se portavam, gerou comentários. Surgiu o burburinho de que o temido Coronel Junqueira havia sido envenenado por D. Laura, a qual, apoiada por suas filhas, viu no veneno a forma mais rápida de encurta a vida daquele tirano. Mas nada foi provado. Outra questão foi levantada: será aquele comportamento havia sido causado pelo trauma da perda do homem de pulso que comandava a casa? Ou será que D. Laura e suas filhas reprimiram desde sempre sua ninfomania, escondendo-a por trás de orações vazias e uma falsa submissão?
     Estas perguntas jamais foram respondidas e o “Cabaré do Junqueira” não só se tornou o mais promissor negócio de Vila Menina, como acabou por dar ponta-pé inicial para que aquela atividade se tornasse a principal em toda a cidade. Hoje, Vila Menina é conhecida por seus inúmeros bordéis, que movimentam a economia local, e incentivam o turismo. Porém, o mais famoso de todos sempre foi, e sempre será, aquele fundado pela família do um dia respeitado e temido Coronel Tião Junqueira.


sábado, 21 de maio de 2011

Tentação

Haverá poesia em teu olhar?
E em teus sorrisos canção?
Serão teus lábios os portais
Que o meu destino guiarão?

É meu mais puro idílio.
Vejo em ti a inspiração,
Que guia meus versos incertos.
Certezas da contemplação.

Versos que correm sorrateiros,
Escorrem pela minha mão.
E com um beijo no papel
Realizam a imaginação

Não quero métrica ou regra,
Mas sim a crua criação.
Palavras livres das amarras
E das tiranias da razão.

Porque teu ser enigmático
Instiga-me à produção.
Inquietando-me a alma,
Irresistível tentação.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Rotineiro

    Elisa, moça sonhadora, no ápice de sua beleza, clamava por um amor como se a vida lhe fosse imperfeita na ausência deste. André, rapaz sorridente, atraente, mas não belo, ávido romântico que destilava seus cortejos pela vizinhança. Uma tarde de sol, uma rua estreita, a pressa cotidiana. Esbarraram-se. Os olhos desconcertados dela encontraram o olhar sagaz do rapaz. Um sorriso, um café, um encontro.
     Encantos surgidos, palavras trocadas, afinidades criadas. Para Elisa, um vislumbre de afeto, uma chance de amor. Para André, uma moça formosa, uma conquista iminente. Egos elevados. Vaidades exaltadas. O idílio de um romance, por parte dela. O devaneio de uma aventura fugaz, para ele. Disparidades íntimas passíveis de mudanças pela ação do tempo.
     Outros encontros, novos olhares, maiores encantos. Palavras, sorrisos, toques, mãos, lábios, beijos. Atração, desejo, paixão. A moça se rendia cada vez mais às investidas do rapaz, mas tudo dentro dos limites que a sociedade impunha. Ele a cobiçava cada vez mais, abusava do romantismo para avançar sobre as muralhas de pudor que protegiam aquele corpo. Mas mal sabia que as proteções que ruíam eram as do coração da moça.
     Embora negasse, o amor já criara raízes em seu coração. Ela tinha certeza disso. Fazia planos para um futuro, os quais ele se limitava a confirmar. Era visível que tinham planos distintos. Mas não há quem consiga reprimir uma mulher que ama. Palavras doces, pedidos, chantagens sutis, objetivos alcançados. Ele foi se rendendo aos poucos: uma aliança, um pedido, um vestido, um altar. Quando percebeu estavam casados.
     O desejo lascivo o levara até ali, enfim teriam a tão esperada noite. Lua de mel, ardor, luxúria. Esta última palavra resumiu os primeiros meses do casamento. Porém, com o passar do tempo, o casamento se mostrou mais complexo que o esperado. Contas, cobranças, desavenças. A beleza já não se fazia tão presente. O romantismo também não. A cada dia se desconheciam mais e mais.
     Estranhos sob o mesmo teto, que se reconheciam vez ou outra em um olhar, um gracejo, uma transa. Mas isso não era o bastante para manter aquele casamento em ruínas. Porém, um motivo surgiria. Uma noite fria, o calor dos corpos, a vontade do corpo, uma gravidez inesperada. Um filho que poderia melhorar as coisas. Mas, só contribuiu para agravar.
     Ainda na gravidez, as brigas aumentaram. Palavras duras, agressões verbais, ou não, orgulho ferido, rosto machucado. Covardias crescentes. Uma denúncia, um perdido de perdão, uma retração, promessas de mudanças. Surgidas por um tempo, mas logo deixadas de lado. O nascimento do filho, uma trégua. Novos tempos, problemas, agressões. Palavrões, empurrões, socos. Uma nova denúncia, uma prisão.
     Mas seguir em frente não era fácil, contas a pagar, um filho para sustentar. O arrependimento, uma decisão, um erro. Ele voltou, mas já não era o mesmo. Viveram em paz por um momento, uma ilusão de felicidade. Porém, ele não havia esquecido. A raiva permanecia latente em seu coração. Ela não aceitava isso, questionava. Bastou um desentendimento, um grito, um tiro. Era o fim do romance da moça, e da aventura do rapaz. Apenas mais um crime rotineiro dentre muitos que aparecem nos jornais. Uma estória cujo final não é feliz.


Fonte Imagem: http://4.bp.blogspot.com/_jlFSRXthfu8/SPCzrKnVimI/AAAAAAAAAIo/sVHMWBHTuHY/s400/66_jornal.jpg

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Engano

    Quando juntos, éramos a personificação do amor. Carícias, beijos, promessas. Protagonizávamos cenas quentes dirigidas pela paixão voraz. Compartilhávamos sonhos para um futuro próximo. Tínhamos uma eternidade pela frente. Entretanto em pouco tempo tudo mudou completamente. Sem justificativas ela saiu do meu mundo, deixando-me perdido. Confesso que não entendi seus motivos, mas agora já não importa.
     Sentir-me traído foi inevitável. Havia muito mais que desejo entre nós. Havia verdade, pureza de sentimentos. Pelo menos eu acreditei nisso. Acreditei com tamanha veemência e por tanto tempo, que parecia impossível me imaginar na situação em que estou agora. Sim, é difícil aceitar o que estou prestes a fazer, mas é a única opção que me resta. A única em que confio.
      Perdê-la foi difícil. Porém vê-la com ele foi demais. Foi um golpe inesperado. Não tive estabilidade para suportá-lo. Mas, após certo tempo, consegui me recuperar. Não aceitaria isso tão facilmente. Não depois de tudo o que vivemos. Ela não pode entrar e sair da minha vida como bem entende. Não é justo ser feliz sem ser comigo. Não depois de tudo que tínhamos planejado. Teríamos uma vida só nossa.
     Por tempos pensei em um modo para tê-la novamente. De todas as possíveis opções, só uma me pareceu coerente. E nela apostei tudo. Conseguir a arma não foi tão difícil, afinal, ninguém revista o carro de um oficial quando este deixa as dependências do quartel. A verdadeira dificuldade foi conseguir o local exato para me posicionar. Mas nada que o aluguel de um apartamento em frente ao que ela mora não resolvesse.
     Estou aqui há mais de duas horas. A arma está perfeitamente ajustada. Pela mira de precisão posso ver perfeitamente o quarto onde ela dorme. Mais precisamente estou apontando para a cama que ela compartilha com aquele infeliz que a roubou de mim. Mas hoje essa será definitivamente minha. Morreremos juntos. Ela pela bala ardente, eu pelo poderoso veneno. Meu sacrifício voluntário será a maior prova do que sinto.
     As luzes do quarto acabam de se acender. Ela adentra e se atira à cama. Está linda como sempre, mas parece cansada. É a primeira vez em quatro anos que a vejo. É incrível perceber que o tempo não deixou suas marcas naquele rosto que parece tão jovial quanto antes. Ela está na mira. Este seria o momento perfeito para atirar, mas a imagem dela não me deixa. Agora só consigo observá-la.

     Então ele aparece na mira. Curva-se sobre ela e beija-lhe os lábios. Maldito! Faz isso apenas para zombar de mim. Se eu puxasse o gatilho agora, não haveria como errar. Mas essa bala não pertence a ele. Somente aquela que eu amo é digna dela. Eles estão abraçados agora. É o momento perfeito para atirar e roubá-la daqueles braços. Mas antes vou me certificar que estaremos juntos. Preciso selar meu destino também. Alguns goles são suficientes para tal.
     Agora já está feito. Só falta disparar a bala e abraçar a felicidade eterna com minha amada. Vou mirar no coração dela e... como? O que essa criança faz sobre a cama abraçada a eles dois? Será...não, não pode ser! O sorriso da criança é igual ao dela. Não! Esse era nosso maior sonho...como ela pôde? Ela me prometera que jamais teria um filho com ele, que assim que se divorciassem nos ficaríamos juntos para sempre. Que eu deixaria de ser amante.
     Ela já não o amava! Porque isso? Essa criança? Eu fui o que? Uma vaidade? Uma simples aventura? Um caso extraconjugal sem qualquer significado? Será que foi tudo um engano? Não, não é justo. Eles não podem ser felizes. Vou por um fim nisso tudo. Todos devem pagar pela minha dor. Não mereço isso. Só preciso puxar o gatilho e...não, minha mão está dormente. Não consigo mexê-la. Não! O veneno! Droga! Partirei sozinho sem que ela sequer saiba? Ó infeliz destino, não me fez digno nem de minha vingança.

sábado, 7 de maio de 2011

Desconhecida

    Voltava para casa pelo caminho costumeiro quando a monotonia se desfez: vi se desenhar no horizonte a silhueta daquela mulher. Em um primeiro olhar, mesmo a distancia, percebi que se tratava de uma desconhecida. Ela andava sobre a linha do trem, devagar como se estive perdida. Olhava por todos os lados tentando se orientar. Parecia assustada. Definitivamente não sabia onde estava muito menos para onde estava indo.
     À medida que eu me aproximava, ia notando os detalhes de sua beleza: lindos cabelos lisos que dançavam ao ritmo do vento; contornos bem delineados que se acentuavam a cada passo. A curiosidade era inevitável, e me impelia a chegar mais perto para ver o rosto da desconhecida. Menos de quinze metros nos separavam quando ela notou minha presença. Olhou assustada para trás e ameaçou correr.
     Vendo a reação da moça, apeei o cavalo e fui caminhando em direção a ela. Ela, ainda assustada, encheu-me de perguntas: queria saber onde estava; onde a linha do trem levava; quem eu era. Nervosa e atordoada, ela começou a chorar. Tentei acalmá-la para saber como havia chegado até ali. Aos poucos fui ganhando sua confiança e ela começou a me contar sua estória.
     Ela havia fugido de casa durante sua festa de noivado. Seria um casamento de interesses, uma espécie de aliança entre famílias. O noivo era alguém que ela sequer conhecia, com o dobro da idade dela. Enquanto me contava tudo, as lágrimas inevitavelmente corriam por seu belo rosto. Fugir foi sua decisão, a primeira de toda uma vida de dominação por parte da família, que sempre determinou seus passos sem sequer se preocupar com o que ela queria.
     Eu, de certa forma, podia entendê-la. Eu vivia algo semelhante: meu sonho sempre foi sair daquele lugar, conhecer outros lugares, pessoas diferentes, e não ser mais um caipira que pensa que o mundo acaba nos limites de suas terras. Entretanto esses nunca foram os planos dos meus pais. Segundo eles, eu deveria aprender a lidar com a terra para ter competência de administrar a propriedade quando a herdasse.
     Ela percebeu que suas palavras me deixaram pensativo. O sol estava a se por no horizonte. Em poucos minutos estaria escuro, eu não podia deixá-la seguir. Disse-lhe que tinha um lugar onde ela poderia ficar, e que poderia partir ao amanhecer. Ela recusou a princípio, mas depois aceitou. Montei-a em meu cavalo e segui. Iríamos para minha casa. Porém reconheci que seria má idéia, meus pais não entenderiam. Então seguimos para um celeiro abandonado.
     Ao chegarmos ela se assustou com o lugar. Era evidente, acostumada ao luxo de um quarto, imaginar-se dormindo naquele celeiro era impensável. Entretanto, percebendo que não havia alternativa, ela aceitou, mas com a condição que eu velasse por seu sono. Eu aceitei, e o faria, não fosse ela me chamar para conversar no meio da noite alegando não conseguir dormir. Entre palavras e olhares, trocamos confidências, desejos. Por fim descobrimos que, mesmo vindo de mundos diferentes, tínhamos semelhanças demais para serem ignoradas.
     A noite avançava e, aos poucos, aquela inocente conversa foi nos levando a toques, carícias, beijos. Então nos amamos. Eu jamais havia estado com uma mulher antes, mas minha inexperiência foi propícia afinal, ela também se resguardara pura até aquele momento. E entre sussurros e gemidos apaixonados, vivemos o devaneio de um amor eterno. Porém, veio o dia para trazer-nos de volta à realidade.
     Acordei com um sorriso no rosto, que se desfez ao perceber a ausência dela. Procurei-a, mas ela já havia partido. A decepção era inevitável. Mas o orgulho tentava me consolar: ela havia entrado em minha vida casualmente, muito justo que saísse dela quando julgasse conveniente. Apesar disso eu não me conformava, havia algo mais que a atração racional entre nós. Tentei voltar à minha vida normal, mas algo mais forte que eu me impedia.
     Ponderei por vezes o que fazer dali em diante. E foi com a convicção cega, mas acertada, do amor que optei por segui-la. Eu sabia a rumo que ela havia tomado, em poucas horas de cavalgada estaríamos juntos novamente. Tudo o que eu mais queria ela tomá-la em meus braços e não mais deixá-la fugir. Dane-se o mundo e a vida que eu tinha neste lugar, jamais pertenci a ele. Minha vida iria de delinear por novos rumos, eu seria senhor de meu destino. As palavras daquela moça, a atitude dela era um exemplo a ser seguido. Ela era minha musa inspiradora, em diversos sentidos.
     Embora o galope de meu cavalo fosse veloz, meu pensamento ia onde ela estava mil vezes a metro que eu avançava. Olhar fixo no horizonte, coração acelerado. Toda velocidade do mundo era pouca para a minha ansiedade. Segui a linha do trem até a ponte que era fronteira entre os dois estados, depois que a cruzasse estaria livre, bastaria encontrá-la e ser feliz. Mas minha esperança se desfez quando, ao atravessar a ponte, avistei por entre os trilhos aquele corpo dilacerado.
     Avancei com o cavalo pedindo a Deus para não ser ela. Mas minha prece foi tardia. Era a minha desconhecida, que agonizava em seus últimos momentos de vida. Ela nada pode me dizer, mas percebi que ela tivera a infelicidade de prender a perna entre um dos trilhos. Minhas lágrimas eram inevitáveis. Vê-la naquele estado era algo completamente inimaginável. Ela olhava em meus olhos querendo dizer-me algo, mas era impossível. Dali em diante não tive condições de voltar. Desde então sigo vagando através dessa linha sem saber onde vou chegar. A mim só restou seu último suspiro e a lembrança da desconhecida que mudou minha vida.      


quarta-feira, 4 de maio de 2011

Passional

     Encaro esses olhos que transbordam ódio. A mão trêmula aponta a arma cujo cano gélido pressiona violentamente minha testa. Aquele dedo acaricia o gatilho indecisamente, basta um leve movimento e meu destino estará selado. A expressão no rosto de meu algoz me assusta, mas ainda assim sinto pena dele. Pobre homem traído. Vítima das circunstâncias, de uma mulher promíscua, da vida atroz.
    Cada respiração, agora, é como um troféu. Não sei quanto tempo me resta, mas sei que o julgamento daquele homem é o que vai determinar tudo. Somente a absolvição interessa. Mas como esperar isso se sou culpado? Réu confesso pelo ato infame que estava a praticar quando, inesperadamente, aquele homem arrebentou a porta com um tiro e adentrou apontando-me a arma ainda fumegante.
     Não há como me eximir da culpa, pelo menos ele já me vê como condenado. Sabe Deus porque ainda pondera sobre apertar ou não o gatilho. No canto do quarto a responsável por toda a cena que se desenrola chora envolta em um lençol encardido. Chora, mas não ousa manifestar-se. Pelo contrário, observa-nos discretamente, como se estivesse apenas esperando o desfecho disso tudo.
     Eu gostaria de lançar-lhe um olhar indagador, mas sei que se desviar o olhar um pouco que seja, ele pode puxar o gatilho e por fim a isso tudo. Ah, se ele soubesse que sou tão vítima quanto ele. Se ele soubesse que também fui enganado por ela. Como eu ia adivinhar que aquela moça distinta que sempre me atiçava durante as aulas monótonas de filosofia era casada? Ela é tão jovem. Ele é tão velho. Por isso foi tão fácil acreditar que era pai dela.
     Ele está chorando agora. Deve estar lamentando ter sido tolamente enganado. Sua respiração está mais ofegante. A mão treme ainda mais. Ele olha na direção dela e uma expressão de surpresa se desenha em sua face. Volto meu olhar na mesma direção, mas antes que possa vê-la ouço o barulho de um tiro. Imagino que ele puxou o gatilho, mas ele é quem cai diante de mim com o sangue a escorrer-lhe pela testa.
     “Estou salvo!”, pensei. Mas assim que ela surge em meu campo visual, a vejo com uma arma em mãos. Ela levanta e, sem lágrima alguma, caminha até mim. Imagino que ela vai me abraçar. Entretanto sou surpreendido novamente: ela pára diante de mim, apanha a arma que estava caída ao chão e assume a posição que seu marido ocupara há segundos atrás. Olho em seus olhos e não consigo ver qualquer sentimento. Suas mãos não tremem. Novamente tenho o cano daquela arma pressionando minha testa, porém, com mais firmeza dessa vez.
     Perguntaria a ela a razão daquilo tudo, mas antes que eu possa abrir a boca ela puxa o gatilho. Caio ao chão, mas ainda consigo sentir quando ela, após limpar a arma com a qual havia tirado a vida do próprio marido, põe a mesma em minhas mãos. Estou desfalecendo, mas consigo entender o que acontece: fui uma mera peça em um jogo de interesses, uma peça de sacrifício.
     O cenário justificaria tudo: um quarto de motel, um marido traído tomado pela fúria e um amante jovem, ambos armados. Esses elementos combinados eram o que ela precisava. Agora só resta esperar a polícia chegar, alegar que, em meio à fúria, um tirou a vida do outro, e ficar com a herança do marido, principal objetivo de um casamento interesseiro. Era um crime passional, arquitetado por uma mente extremamente racional.