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domingo, 23 de agosto de 2015

O abutre

Ainda resta em mim um pouco de vida, embora boa parte dela já tenha se espalhado pelo chão. Não parece, mas ainda respiro. Uma respiração lenta e leve, sutil demais para ser notada. Mesmo eu, já tenho minhas dúvidas se ainda estou vivo, ou se isso não é o princípio do inferno, para onde eu certamente irei (como se eu acreditasse nessas coisas). Ou então, é apenas o mero delírio louco de minha mente vacilante. Seja como for, meus olhos, mesmo enrubescidos pelo sangue, ainda conseguem ver borrões de imagens. Até quando? Não sei dizer.
Neste mar revolto, que é agora a minha mente, lembranças da infância se alternam com o que eu fiz no dia de hoje. Um frenesi de imagens sem sentido algum. Ana Maria me dá um beijo sob o pé de ameixa. Eu apanho a mochila, abraço minha mãe e saio de casa apressado. A professora chama meu nome e me entrega uma prova que eu certamente não mostrarei para os meus pais. Meu chefe mistura o café e o leite, fazendo aquele barulho insuportável da colher batendo nas laterais da xícara. Esqueço as chaves, e volto ao escritório para apanhá-las. Um homem passa por mim, correndo e gritando.
Eu estou morrendo. Eis minha única crença. O mormaço desagradável do asfalto quente umedecido me sufoca. Ou talvez seja apenas o sangue se inundando os meus pulmões. Talvez eu ainda tenha dois ou três minutos de consciência, antes de que tudo escureça. Moveria meu corpo, para ficar em uma posição menos desconfortável, mas mal tenho forças para respirar. E, porque diabos eu iria querer conforto numa hora dessas? Porque pentear os cabelos antes de encarar o vendaval? Vaidade? Estupidez?
De repente, a lucidez. Enfim lembro o que aconteceu. Eram dois homens. Corriam atrás daquele que por mim passou. Dei azar. Conformaram-se comigo, e deixaram o outro fugir. Queriam meu dinheiro, minha carteira, minha vida. Esta última não puderam levar de mim. Não para si. Então, em um ímpeto egoísta, contentaram-se em simplesmente me privar dela. Soubesse eu que o desfecho seria esse teria, pelo menos, tentado reagir. Mas, nunca tive desses impulsos heroicos. Talvez por um sentimento de autopreservação, que de nada me adiantou, veja você.
Agora me vejo deitado, contando a finitude dos segundos que me restam. Qual o narrador de minha história, em terceira pessoa, vejo quando ele se aproxima de meu corpo. Ele sente o cheiro de morte. Decerto passou a semana esperando por isso. Eis o ápice do seu dia. Seus olhos brilham. Ele se aproxima de minha carcaça vagarosamente. Sabe que ainda estou ali, que meu corpo ainda não jaz sem dono. Ele, então, aguarda. É paciente, como os abutres costumam ser.
À meia noite e doze minutos, dou meu último suspiro. Ele já está ali há pouco mais de sete minutos, contemplando satisfeito o meu agonizar. Senti sua presença desde que chegou. Com cautela, ele se aproxima. Certifica-se de que eu estou morto, e então parte para a ação. É a hora de saciar sua fome. Traz a mão ao bolso de traz da própria calça e apanha sua ferramenta. Debruça-se sobre meu corpo sem pudor. Por segundos, analisa o melhor ângulo. Parte para a ação. A câmera já está acionada. Em poucos segundos, sou fotografado como se minha imagem fosse digna de contemplação.


Ainda ao meu lado, ele confere as imagens que capturou. Inclina o pescoço em alguns momentos. Já não o vejo, mas sou capaz de sentir seus gestos. Ele corre o dedo frenético sobre a tela do aparelho. Está feito. Em alguns minutos, serei visto por milhares, milhões. Ele então parte satisfeito. Sequer olha para trás. Conseguiu o que queria. Serei o assunto da madrugada. Minha morte será comentada exaustivamente, até o próximo ataque seu, ou de outro abutre. Sim, o bando é grande. Multiplicam-se cada vez mais. E, o pior de tudo, aumenta também a sua plateia. Ávidos consumidores da desgraça alheia. Riem, choram, emocionam-se, compadecem-se. Uma verdadeira catarse de bolso. Portátil. Para ser devorada a qualquer momento, por alguns instantes, e depois descartada.

Eu ainda contemplo o que restou de mim, após o ataque do abutre. Ao longe lamento. Sei que sou apenas mais um em seu acervo de mortes. Ele as coleciona. Vangloria-se por tê-las nas memórias. Orgulha-se em compartilhá-las. Indiferente às reações, aos danos, à dignidade das vítimas. Ele apenas deseja estar lá no momento certo, na hora exata. Sedento pela morte alheia. Decerto sonha em ter um final semelhante. Ter atenção total. Maldito seja!


Fonte da imagem: http://wp.clicrbs.com.br/impressaodigital/files/2014/08/photo.jpg

quarta-feira, 20 de maio de 2015

A dança das folhas


Um pássaro cruzava o céu e, sem saber, levava o meu olhar consigo. Mas, a brisa logo passava por mim, fazendo-me fechar os olhos, para sentir seu toque. O cheiro de flor de maracujá. A terra úmida de orvalho sob os meus pés descalços. Não é difícil lembrar essas coisas. Na verdade, sinto como se ainda estivesse lá, e não aqui, em meio a todo esse concreto sufocante. É que parte de mim, inevitavelmente, ainda está presa àquele cenário do passado, que já não existe.

Contemplar o mundo era o meu passatempo favorito, aos nove anos. Não que a vida adulta tenha mudado minha predileção. Apenas já não disponho de tempo para devotar a tão maravilhosa atividade. Claro, em certos momentos, é inevitável. Mesmo hoje, em meio aos passos apressados, cruzando as avenidas da cidade, amiúde entrego minha atenção a algum traço de beleza que atravesse o meu caminho. E não me refiro a mulheres, apenas. Contudo, nada que se compare ao que um dia fui.

Tenho tantas imagens em minha mente, que lamento por não ter o talento necessário para externá-las em papel e aquarela. No entanto, creio que, dentre tudo o que vi, e que até o fim de minha vida verei, não há algo que se compare ao que meus olhos testemunharam naquela tarde de fim de março. Algo único, que sobrevive em minhas memórias somente. Tanto que, não raro, em sonhos volto àquele cenário. Os sons, as cores, o misto de medo e excitação.

Enfim, acredito já haver atiçado o suficiente sua curiosidade. Maldade seria, agora, não compartilhar contigo minha experiência. Então, contar-lhe-ei o que vi e vivi naquela tarde. É possível que o relato não seja tão fiel quanto deveria. É que, com o passar do tempo, as cores ficam desbotadas, inevitavelmente. Mas, a essência persiste. Não espere um final surpreendente, nem nada do tipo. Apenas escrevo tais linhas para evitar que o que vi morra comigo. Não me julgue.

Já haviam se passado duas horas desde o almoço. O trabalho recomeçara. Minha mãe estendia roupas no varal, enquanto meu pai terminava de consertar a cerca, quebrada na noite anterior por uma novilha que fugira. Não preciso dizer que ele não estava muito satisfeito com tal atividade. Em seu cronograma mental, planejara um reparo no telhado do curral. Havia duas ou três vacas prenhes, que dariam a luz em algumas semanas. Além do que, era preciso fazer preparativos para a estação chuvosa.

Do alto, o sol cumpria bem o seu papel. Mas, meu pai usaria seu chapéu independente disso. Pelo simples prazer do costume. Apesar do calor, minha mãe não se queixava. Gostava de ver como as roupas secavam depressa. Naquela tarde, eu a ajudava segurando os prendedores. Ela estendia a roupa e voltava-se a mim para pegar um, sempre me presenteando com um sorriso doce. Como era linda a minha mãe. Meu pai era um homem de sorte.

As horas da tarde haviam avançado e o sol já se preparava para ir deitar. O cesto de roupas já estava vazio. Já não havia nenhum prendedor em minhas mãos. Meu pai, contudo, seguia em seu trabalho. Não raro ele avançava pelo começo da noite. Era desses homens que detestam deixar algo pela metade. E, a julgar pelo tanto que ainda havia a ser feito, ele demoraria ainda algumas horas até acabar o reparo. Certamente estaria amaldiçoando a novilha fujona, por tê-lo feito começado tarde.

Caminhávamos em direção à varanda de casa, quando o vento passou por nós apressado, assoviando. Atravessou o terreiro e passou por meu pai, quase levando o seu chapéu. Depois, ficou no descampado, girando desorientado, sem saber para onde ir.

- Olha lá, meu filho, a dança das folhas. - Disse mamãe apontando o dedo.

Voltei o olhar para onde estava o vento, e vi as folhas secas, que antes descansavam deitadas, volteando sobre a terra, uma atrás da outra, em impressionante sincronia, como se dançassem quadrilha junina. O vento ditava o ritmo, e elas obedeciam, bailando satisfeitas. Algumas, de tão velhas, já se desfaziam em meio à festa. Era a derradeira glória. O último sopro de vida aos seus corpos moribundos.

O enlevo que me tomou não pode ser descrito. Era algo realmente belo, digno de ser contemplado. Imerso naquele espetáculo, desliguei-me completamente do mundo. Tanto, que sequer me dei conta do que acontecia. Parecia tão natural que a coreografia se tornasse mais complexa, que o ritmo acelerasse gradativamente. Porém, quando minha mãe avançou sobre mim, jogando-nos ao chão, tentando me proteger, despertei. Com as mãos, ela tentava tapar meus olhos e ouvidos.

- Não olhe para lá. Concentre-se na minha voz. Vai ficar tudo bem. – Disse e, em seguida, começou a cantar baixinho em meu ouvido, tentando desviar minha atenção.

Apesar de todos os seus esforços, eu podia ouvir o som do vento rosnando enfurecido. Sem muito esforço, consegui livrar meus olhos do abraço protetor. Contemplei o mais belo espetáculo de todos. Uma orquestra regida pelo vento tocava um misto de sons: madeira estalando, metal retorcendo, telhas e tijolos se quebrando. Tudo isso tendo como base o som pesado do vento. As folhas acompanhavam a canção em seu balé frenético, rodopiando pelo ar, descendo ao chão para fazer um gracejo e depois voltando ao ar novamente. Mas, já não estavam sozinhas. Bailavam agora acompanhadas de pedaços de telha, galhos secos. Até as roupas que mamãe deixara no varal, haviam entrado na dança. E se divertiam, sem se importar se estavam se sujando novamente.





Eis a última imagem que tenho na mente. Depois disso, lembro de ver minha mãe me acordando e me apertando contra o peito em prantos. Parecia aliviada. O lugar estava irreconhecível. Todos indagavam como teríamos sobrevivido. A casa, os animais, tudo havia desaparecido. Não mais vi meu pai. O corpo dele nunca foi encontrado. Durante muitos anos, me convenci de que ele havia seguido a trupe das folhas. Decerto se encantara também pelo espetáculo. Eu o invejava.

A vida nos obrigou a vir para a cidade, e abandonar meu paraíso da infância. Jamais voltei lá. Mas, ainda tenho viva em minha mente a lembrança dos anos que ali vivi. Se fecho os olhos, sou capaz de ver a pequena casa, minha mãe estendendo as roupas no varal, meu pai consertando alguma coisa com seu chapéu na cabeça. Temo, é verdade, que os anos roubem essas lembranças de mim, um dia. Mas, tenho certeza que não há nada que me faça esquecer o que vi naquela tarde de março. Nada será capaz de me fazer esquecer a dança das folhas.




Fonte imagem:http://3.bp.blogspot.com/-K412P5-Ccrk/TidqmIxPizI/AAAAAAAAAL0/JiIooJU5B_8/s1600/folhas+ao+vento.jpg

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Agramatical

Domingo a noite. Com o controle remoto na mão, ele passeia compulsivamente pelos canais incontáveis da tv por assinatura. Ela se distrai com uma revista semanal qualquer sobre a vida alheia. Uma janela aberta deixa entrar a brisa fria da noite. Ela então larga a revista e pede:

- Me abraça, amor. Tá frio.

- Abraça-me. Assim é o correto. - Responde ele automaticamente, sem tirar os olhos da tv.

- Ah, tanto faz.

- Tanto faz não. Pede do modo correto, que eu vou.

- Deixa de ser chato e vem logo.

- Chato? Como assim? Eu estou querendo te ajudar. Você sabe que não vai aprender se não praticar. - Diz voltando-se a ela, já com a tv desligada.

- É sério que você vai querer insistir nisso?

- Vou.

- Amor, é domingo. Me deixa.

- Fez de novo. O certo é deixe-me.

- Esquece isso, vai. Não quero brigar com você.

- Esquecer? Você sabe que “isso” faz parte da minha vida. Afinal, de que adianta ensinar a gramática da nossa língua para outros, e deixar você, minha esposa, na ignorância?

- Como é? Ignorante? Você acha que eu sou ignorante?

- Não, amor...

- Nada de “não amor”. Eu ouvi muito bem. Você me chamou de ignorante.

- Não no sentido pejorativo, por favor. Digo ignorante no sentido de desconhecer, não ter a informação.

- Ah, quer dizer que isso agora é um problema pra você? Agora minha ignorância incomoda, é isso?

- Não, não. Por favor, você não está entendendo.

- Claro que não. Eu sou ignorante, esqueceu? Espera que eu vou alí buscar um papel pra você desenhar, que aí eu vou entender.

- Calma. Vamos esquecer isso, ok?

- Não. Nada de esquecer. Quero saber: desde quando minha ignorância passou a ser um problema pra você?

- Não existe isso de...

- Bora? Quero saber. No início não tinha nada disso. Você nunca se incomodou, dizia até que achava interessante a nossa relação, que era difícil existir um casal como a gente.

- Mas eu ainda acho. Nada mudou.

- Mudou sim. Agora até o modo como eu falo te incomoda. Seu estúpido.

- Quer saber? Incomoda sim. Para falar a verdade, é o seu maior defeito.

- Ah...é?

- É sim! Você sabe que eu me importo com isso e nunca tentou melhorar.

- Então quer dizer que isso é realmente muito importante para você?

- É claro que sim.

- Então, posso te fazer uma pergunta?

- Faz.

- Porque quando a gente tá transando e eu falo: “Vai amor! Me come! Me come!”, você nunca se irritou?

- Ante o golpe inesperado, ele silencia. Tenta obter um resposta qualquer. “Tudo depende do contexto...”, diria. Mas, lembra de como ela sabe extamente o que dizer na hora do amor. O sexo é algo agramatical, por assim dizer. Enfim, não havia como argumentar.

- Viu só? Não é tão importante assim. Agora cala a boca e vem me abraçar.


- Perdida a discussão, só resta a ele acatar a ordem da companheira. Cinco minutos depois, os dois fazem amor, sem regras ou normas regendo o que é dito, sussurrado ou gemido. O assunto nunca mais será alvo de discussão entre o casal, exceto em ocasiões estratégicas, onde funcionará como uma espécie de afrodisíaco.


Fonte imagem: http://revistashape.uol.com.br/images/stories/antigo/CasalCamaMat.jpg