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segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Sozinho

Talvez eu seja mesmo essa solidão profusa,
Que vive a prender-se em efêmeros laços.
Que se desfazem ao vento de maneira difusa,
Forçando-me procurar por novos abraços.

Tento me encontrar em lábios desconhecidos.
Em vão entrego-me a esta busca desmedida.
Sigo alimentando meus sonhos desiludidos
Neste devaneio eterno que me guia a vida.

Cedo aos desejos que meus olhos despertam.
Engano-me com o falso brilho do olhar alheio.
E com os beijos que dessa solidão libertam
E me guiam aos poucos enquanto vagueio.

Mas as esperanças em mim se mantém,
Ainda sobrevivem neste coração hostil.
Esperam o dia em que amarei também,
Em que me farão livre deste destino vil.




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segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Diálogo

     O sol está a pôr-se no horizonte. As ruas da cidade pulsam com o fluxo incansável das pessoas que retornam para casa. Eduardo segue pela avenida principal apressado, mas não caminha em direção à sua residência. Ele anda mais um pouco e entra em um bar. Está vazio, a não ser por um homem sentado sozinho em uma mesa ao fundo, é Ricardo, que o aguarda. Eduardo caminha até ele. Senta-se à mesa. Os dois se encaram por um instante. Ricardo principia o diálogo:
     Você e esse seu olhar arrogante, te julgas tão superior a mim. Talvez seja isso o que motiva tal ira cega, que te trouxe até aqui em uma tentativa desesperada de entender as razões de tudo o que aconteceu. Poderia permanecer em silêncio deixando que as tuas dúvidas te consumissem e teus pensamentos se desdobrassem e mil hipóteses. Mas, não teria tanta graça assim, prefiro apontar suas falhas e te fazer perceber que és o único responsável pelo ocorrido.
     Não me julgo superior, simplesmente sou. Olhe para si, veja que minha superioridade lhe saltará aos olhos. Não há em ti atrativos como os meus. Aquela que pensas ter tomado de mim, é apenas mais uma dentre tantas outras que partilham de minha cama. Meu erro foi ter dado um pouco mais de atenção a ela do que devia a fiz sentir-se especial. Coitada. Mal sabe que não representa nada. Assim como o que houve entre vocês nada significa para mim. –Responde Eduardo com firmeza.
     Então devo supor que estás aqui por mera vontade de me ver e mensurar nossas diferenças? Acaso é isso mesmo? Afinal, se ela fosse mesmo apenas mais uma como dizes, não haveria razões que te trouxessem até aqui. Aliás, não haveria motivos para este diálogo, que agora parece se estender um pouco mais do que devia. Não sei. Algo me diz que ela possuía certa importância, afinal, um ego sólido não se abalaria por tão pouco. Negas com veemência, mas no fundo sabes que sentes por ela algo além de tua compreensão, que insistes em ignorar para não te sentires vulnerável.
     Pare com estas tolices. Tenho motivos mais contundentes para estar aqui. Pouco me importa o que houve entre vocês. O problema não é comigo, mas sim com ela. Ela é a culpada disso tudo. Fazendo-me passar por tal situação como se um tolo fosse. Trago em mim a certeza de que nada deixei faltar: meus beijos, minhas carícias... o sexo. Em tudo eu sempre satisfiz aquelas que me desejaram. Não vejo onde existam falhas em mim. Logo, só posso supor que o problema é com ela, a culpada por plantar esta dúvida em meu pensar, que me forçou a vir até aqui descobrir qual o problema dela. Não sei por que, mas algo me diz que deves saber isso. – Redarguiu Eduardo.
     É bem pior do que eu havia suposto. Padeces daquela cegueira voraz que acomete os que se deixam dominar pelo próprio ego. Nenhuma falha te salta aos olhos, a não ser as alheias. Culpá-la não é uma atitude nobre. Denota teu desejo de eximir-se de um crime que sabes ter cometido. Mas, como sei que não chegarás a tal conclusão sozinho, devo dizer-te com clareza que ela não tem qualquer problema. O único problema reside em ti.
     Acaso achas que deixarei que tuas palavras inflamem a infeliz dúvida que trago comigo? Sei que não fiz nada de errado, apenas quero a confirmação disso. Não deixei faltar aquilo que ela me pedia com palavras, ou simplesmente com o corpo. Por diversas noites vi o prazer desenhar naqueles olhos, e ouvi seus sussurros chamarem por meu nome. Porém, há algum tempo cessaram, como se eu já não a satisfizesse. Mas em nada mudei. Então, só posso concluir que foi ela quem mudou.
     A cada palavra que dizes vejo o quão digno de pena és. Decerto pensas que só de carícias e prazer vive uma mulher? Que podes responder a todas as perguntas com uma única resposta? Enganas-te. Imagino que, em um primeiro momento, era suficiente para ela. Mas em pouco tempo teus encantos evaporaram, se perderam sem que te desses conta. Foi então que ela veio até mim. Pois sabia que eu tinha o que ela precisava, o que você jamais poderia dar. – Afirmava Ricardo com serenidade.
     E há pouco dizia que eu sou egocêntrico. Vejo que teu ego também sabe falar por ti. Mas diga-me, o que deixei faltar? Se é que deixei. – Indagou Eduardo. Era possível ver a aflição em seu olhar.
     Não é meu ego que se manifesta neste momento. Digo-te com plena lucidez que não sabes tanto quanto pensas. Quando ela veio a ti, tinha consigo a carência física, que soubestes suprir com as carícias que de tanto falastes. Mas em pouco tempo estas cessaram, então surgiram outras sedes que não soubestes saciar. Deves lembrar aqueles dias que ela vinha a ti em silêncio e olhava em teus olhos. Tentavas o gesto costumeiro, mas ela te rejeitava. Não por não te desejar, mas sim porque há dias em que uma mulher apenas quer tua atenção, desejando que a abraces forte e faça-a sentir-se segura, protegida, que a faça perceber que estarás sempre ao seu lado.
     Em outros dias, ela parecia não se importar com o que fazias e, como não a compreendias, partias para os braços de outras, deixando-a solitária. Nesses dias, ela estava a testar teu amor, tentando saber se é correspondida por ti e, novamente, falhastes. Por vezes ela veio até você querendo expor o que sentia, mas a ignorastes e uma vez mais a deixastes sozinha. Eis mais um erro teu. Há dias em que uma mulher apenas quer ser ouvida, não importa se concordas ou não com o que ela diz, apenas ouça o que ela tem para dizer e ela te devotará seu amor.
     E foi ela quem te relatou tudo isso? – Indagou Eduardo com o desânimo típico de quem percebe que errou.
     Vejo que teu olhar já não tem o mesmo brilho arrogante de outrora. Mas não, ela não me contou nada, sequer mencionava teu nome quando comigo estava, diria que esquecia você completamente. Mas é fácil adivinhar quais foram teus atos. Como? É simples, nestes dias em que tu falhaste, ela veio até mim e eu sabia exatamente o que ela procurava. Sabia como satisfazê-la sem que ela precisasse me dizer uma palavra sequer. Veja que a beleza que ostentas foi inútil nestes momentos. Mas não se culpe não se pode ter tudo. E ela já não podes ter, pois aquele amor que um dia ela quis entregar a ti, já me pertence, e dele farei bom proveito, de um jeito que tu jamais faria.
     Eduardo encarou-o fixamente por alguns instantes. Parecia processar ainda aquelas palavras. Engoliu seco. Pôs a cabeça entre as mãos e ficou em silêncio. Ricardo nada mais disse. Apenas retirou-se, deixando-o sozinho. Mas, enquanto se levantava, pôde ver as lágrimas que escorriam pelas mãos daquele belo homem que há pouco ostentava sua superioridade inabalável. Elas representavam a dor de quem descobre que não era tudo o que pensava ser.
                        

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segunda-feira, 14 de novembro de 2011

O Amor

     Caros leitores, hoje o Súbito Objetivo completa seu primeiro ano de existência. É pouco tempo, eu sei, mas me alegra ver o quanto as coisas evoluíram no decorrer deste ano. O que começou como um simples meio para evoluir na escrita, hoje é uma atividade prazerosa e gratificante. Durante este período, tive o prazer de agradar algumas pessoas com meus textos, algumas se tornaram seguidores fiéis do blog, outras preferiram acompanhar esporadicamente. Sou grato a todos.
     Primeiramente, gostaria de agradecer aos amigos Gustavo Ferreira, André Butter e à minha irmãzinha Raissa Bahia, que foram os incentivadores e divulgadores do blog desde o início e, acima de tudo, são meus bons amigos. Agradeço também a todos os que acompanham as postagens, que comentam meus textos, seja elogiando ou criticando. Espero seguir agradando a todos com minhas humildes palavras escritas. Desejo que continuem acompanhando o blog, me ajudando a evoluir e a produzir textos cada vez melhores.
     Mas, vamos ao que interessa que o post de hoje não é apenas de agradecimentos. Em homenagem a este dia, eis um texto que trata sobre um dos temas preferidos dos românticos: o amor. Espero que minhas palavras lhes sejam agradáveis. Se gostarem, comentem, divulguem para os amigos. Gostaria muito de vossas opiniões. Obrigado.

                                                                              Robson Heleno



O Amor

     E esse tal amor, que tanto nos promete sem nos dar qualquer garantia? Que pinta sorrisos em nossos rostos e faz nossos olhos brilharem como estrelas cintilantes? Quem é esse desconhecido tão conhecido por todos? Do qual costumamos falar como se fôssemos íntimos, velhos conhecidos? Que se compromete, sem saber, a cada vez que alguém novo aparece em nossas vidas? Que é visto como a raiz e a solução dos problemas de tantos?
     Será o amor um menino peralta, que vive a brincar com nossos corações? Que em seu jogo nos tem como peças, as quais manipula a seu bel prazer conforme as regras que ele mesmo impõe? Talvez sim. Talvez o amor seja esta criança que nos tem em suas mãos e, inconseqüente, brinca com nossos destinos. Que usa fértil imaginação para criar as mais embaraçosas situações e nos força a vivenciá-las. Que, inocente, nos conduz por rumos que ele mesmo desconhece.
     Ou será o amor um homem sádico, que se diverte ao nos ver sofrer? Que traça nossos caminhos enquanto lhe convém, sem se importar em definir o final? Que com sua mente nefasta arquiteta ciladas infalíveis, nas quais sempre caímos indefesos? Talvez sim. Talvez seja o amor este sujeito maquiavélico que vive a regozijar-se com nossa dor, com nossa impotência frente a seus ditames. Que sorri enquanto nos faz verter lágrimas.
     Ou então, será o amor um velho ranzinza, que nos obriga a aturar sua teimosia? Que nos obriga sempre a enveredar por caminhos que já conhecemos, mas com a promessa de que dessa vez será diferente? Talvez sim. Talvez seja o amor esse ser teimoso, que se julga sábio e vive a se aproveitar de nossa inexperiência. Que nos convence que as coisas podem mudar, fazendo-nos arriscar uma vez mais, apostar nossa última ficha no mesmo jogo que já nos fez perder tudo.
     Será o amor um demônio, que sempre nos tenta a pecar contra nós mesmos? Que amaldiçoa nossos dias com seus desmandos maldosos? Que nos abraça calorosamente enquanto planeja em silêncio nos apunhalar pelas costas? Talvez sim. Talvez o amor este mal onipresente, que nos acompanha a cada dia, mas que se aproveita de nossas fraquezas, usando-as contra nós sempre que pode. Esse inimigo de todos, que engana, contradiz e nos corrompe.
    Mas, quem sabe não será o amor um anjo, que surge em nossas vidas repentinamente para imprimir novos ânimos aos nossos dias? Que tenta nos resgatar quando estamos perdidos pelos mares tormentosos da solidão e da tristeza? Talvez sim. Talvez seja o amor esse ente divino que nos toma em seus braços e nos leva em direção à felicidade. Que resgata a razão de nossos dias e reencontra a esperança que perdemos pelos rumos incertos da vida. Que nos faz acreditar que é possível viver suas promessas e realizar os sonhos.
     Enfim, o que será o amor? Milhões de conjecturas poderiam ser traçadas, mas nenhuma delas seria exata. Esgotar-se-iam as metáforas para descrever algo indescritível. Só é possível definir o amor quando a procura por sua definição se vê encerrada. É quando ele surge e se faz sentir, compreender. Mostrando suas múltiplas faces, fazendo-nos crer em suas “promessas” e reconhecer nossa submissão frente a sua determinação invencível. Afinal, somente os tolos tentam resistir aos desígnios do amor.


quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Apaixonar-se

     Render-se aos encantos do novo, o desconhecido que nos atrai e nos tenta a descobrir seus mistérios. Ceder ao impulso que afeta a todos, nem que seja uma única vez na vida. Entregar-se a uma vontade, sem se importar se ela será efêmera ou eterna. Deixar-se levar pelo instinto, desprovido de qualquer racionalidade, que não se pode tentar controlar. Vencer e ser vencido por esta força estranha que se chama paixão.
     Sinceramente, me agradam as paixões. Essas tempestades que surgem para quebrar a calmaria de nossos dias de verão rotineiro. Convenhamos, a vida é tão monótona sem elas. Como é interessante esse jogo de incertezas. Um jogo sem regras, é verdade, mas que nos instiga, que nos faz querer ir até o fim. Afinal, quem sabe se a paixão de hoje pode não ser o tão sonhado amor para uma vida inteira?
     Às vezes breves, às vezes não. Não há quem não se renda ao seu magnífico poder de mudar vidas. Sim, paixões são as responsáveis por aquelas alterações repentinas de humor, que nos arrancam sorrisinhos tolos, que nos fazem suspirar sozinhos. Entram em nossas vidas sem pedir licença, naqueles momentos em que se está distraído. Você decide que vai se voltar completamente para o trabalho, amigos, estudos... até que surge uma paixão e tudo é esquecido.
     Entretanto, como tudo na vida, as paixões tem seu lado negativo. Nem sempre elas acabam bem, mas isso é o de menos. Ruim mesmo é quando elas sequer começam bem. Apaixonar-se sem ser correspondido é sempre um risco iminente. Apaixonar-se não é algo simples. Principalmente porque não é algo voluntário. Não se escolhe por quem se apaixonar, você simplesmente se percebe apaixonado. Tanto que, nem sempre você se apaixona por quem quer. Sabe aqueles casais que não tem qualquer afinidade, mas que não se desgrudam? Pois é.
     Mas, apesar dos pesares, defendo as paixões. Principalmente aquelas que nascem naquele instante singular onde os olhos se encontram e nasce o desejo. Em que ambos se aproximam e trocam palavras por mera formalidade. Afinal, o que poderiam elas dizer se os olhos, como janelas escancaradas, revelam a verdade nua? Então há aquele momento em que o olhar oscila entre olhos e lábios, dizendo que é a vez da vontade assumir o controle.
     O que surge após isso? O tempo é quem dirá. Talvez a paixão acabe ao nascer do sol. Talvez ela perdure por alguns dias, meses. Talvez esse certo alguém que você conheceu sem esperar se torne parte da sua vida. Se torne aquela pessoa que você, em seus devaneios mais profundos, esperou encontrar. Com a qual você vai partilhar os seus dias. Talvez. Quem sabe? Porque não correr esse risco?

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sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Dissimulada

     “Eu te amo!”, ela me disse. Dissimulada. Enganou-me pela primeira vez. Talvez porque naquele momento aquelas eram as únicas palavras que importavam. Nossa relação já atravessava alguns meses e eu não sabia o que ela sentia. A certeza de meus sentimentos contrastava, a todo instante, com a incerteza das atitudes dela. Por vezes acreditei ser amado. Mas em alguns outros momentos percebia meu ledo engano. Mas persisti, sentia que era amado, ainda que nem sempre.
     Foi a mais ou menos um ano que ela me disse as tão esperadas palavras. Uma ligação de um desconhecido para o celular dela motivou uma briga. Eu atendi e ele disse ser o seu namorado. Não entendi, pensava que eu o era. As incertezas ganharam força. Decidi dar por encerrada nossa história, mas, nos último ato ela me surpreendeu. Disse-me aquilo que eu esperava escutar durante todo aquele tempo. Confiei naquelas palavras cegamente. Ignorei tudo, e permanecemos juntos.
     “Eu te amo!”, sussurrou em meu ouvido. Dissimulada. Deixei-me enganar uma vez mais. Muita coisa mudara desde a primeira vez. Eu já não tinha dúvidas, simplesmente ignorava o que era evidente. Todos me alertavam que eu estava seguindo por um caminho obscuro. Mas, cego, eu só conseguia enxergar a luz daqueles olhos que brilhavam falsamente para mim. Eu me apegava à ilusão daquele amor como se ele fosse real.
     Eis que ela veio até mim. Seu olhar parecia sério. “Tenho algo a dizer.”. “Eu também tenho, meu amor.”, respondi tentando retribuir o tom cordial. Ela principiaria, mas não me contive. Apanhei a caixinha que estava em meu bolso e mostrei-lhe a aliança. “Quer casar comigo?”, perguntei. Ela sorriu desconcertada e me abraçou. Parecia querer me dizer algo, mas não o fez. Quando indaguei sobre o que ela tinha a me dizer, ela sussurrou em meu ouvido o que eu precisava ouvir.
     “Eu te amo!”, disse-me diante de todos. Dissimulada. Pela última vez acreditei naquelas palavras. Aquele era o dia mais feliz da minha vida: o dia do meu casamento. Estávamos perante o altar. Horas antes, meus amigos haviam tentado me dissuadir daquela união, mas eu fui persistente. Contrariei a todos por acreditar que seria dono da felicidade se prosseguisse com aquilo tudo. Embora tivesse minhas dúvidas, algo me mim me tentava a crer que eu devia me casar.
     A cerimônia teve início e todos a olharam com reprovação enquanto ela vinha até mim. Eles, diferente de mim, conheciam sua verdadeira face. Ela parecia feliz, mas de um modo diferente de mim. Estávamos diante do padre. Então ele perguntou se havia algo que pudesse impedir nossa união. Para minha surpresa, mais de uma pessoa se manifestou. Observei a reação de todos e compreendi que talvez estivesse errado em prosseguir com aquilo. Desistiria do casamento, mas, ela olhou em meus olhos e usou de seu artifício perante todos. Ela sabia que eu acreditaria uma vez mais. E então nós nos casamos.
     Os primeiros dias foram maravilhosos, mas, aos poucos fui conhecendo-a de verdade. Já não podia ignorar as coisas como antes. Comecei a perceber nos gestos dela que não era amado. Aquele casamento apenas fora conveniente. Não havia reciprocidade de sentimentos, mas sim alguém que soubera enganar bem. Alguns meses passaram e percebi que não poderia amar por dois. Foi então que, desiludido, a abandonei e solicitei o divórcio. Ela não esperava por essa minha reação e surpreendeu-se mais ainda quando percebeu que havia me perdido.
     “Eu te amo!”, ela me disse em meio às lágrimas. Arrependida. E aquelas palavras soaram de um modo desconhecido. Talvez porque fosse aquela a primeira vez que ela as dizia com veracidade. A princípio pensei ser medo de me perder, mas aos poucos constatei que ela já não fingia. Ela implorava por meu perdão em pedia para voltar. Dizia-me tudo aquilo que eu sempre sonhara ouvir. Foi então que, percebendo minha indiferença, ela me disse que me amava. Era seu último apelo. Então ficou em silêncio esperando minha resposta.
     “Eu te amo!”, respondi docemente. Pude ver a felicidade se desenhando naquele rosto. Ela não podia conter a alegria. Abraçava-me fortemente com medo de me perder. Por dentro, eu me divertia com a ironia daquele momento. Já não nutria qualquer sentimento por aquela mulher. Aquelas haviam sido as palavras mais vazias que eu já dissera em toda a minha vida. Mas não o fiz por ser dissimulado. Eu simplesmente havia me adaptado às regras do jogo que ela criou. A diferença é que os papéis haviam se invertido.


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