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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

O Encontro

     Na solitária e silenciosa noite ela veio ao meu encontro. Contrariando minhas expectativas, ela era linda. Envolta em seu manto negro, ela caminhava numa sincronia hipnótica até mim. Em seus olhos havia um brilho funesto. Quando se aproximou mais, pude ver que trazia um sádico sorriso na face. Então, sorri-lhe de volta.
     Diante de meu sorriso ela conteve os passos. A expressão em seu rosto transformou-se. Seu olhar agora era de indagação. Encarava-me como se esperasse uma explicação àquele sorriso. Sem entender, eu nada disse. Ela permaneceu imóvel me interrogando com os olhos. Eu então sorri novamente e disse-lhe:
     -Estou feliz em vê-la. Na verdade já começava a pensar que não virias. Há muito tenho aguardado por este encontro. Obrigado por estar aqui.
     Minhas palavras a surpreenderam mais ainda. Imaginou que eu a havia confundido, então, tirou o capuz e mostrou-me seu rosto. Ela era perfeita, mas havia algo de sinistro- aterrorizante- em seu rosto. Uma beleza paradoxal, que apaixona e amedronta. Passei algum tempo em silêncio contemplando cada contorno que compunha aquele rosto. Estava ainda mais fascinado. Por fim respondi:
     -Acalme-se, sei quem és. Não pense que a confundi. Era você mesma quem eu estava esperando. Confesso que és o oposto de tudo que eu imaginei. Sei bem o que viestes buscar, e estou disposto a lhe entregar sem qualquer resistência.
     Ela parecia não acreditar no que estava acontecendo. Lançava-me, agora, um olhar desafiador, desejosa de me amedrontar. Empunhou sua foice e voltou a caminhar em minha direção. Eu estava contente: em poucos segundos teria fim meu tormento. Aquela seqüência de erros e desenganos seria finalmente interrompida. Não podendo conter a felicidade, eu sorri novamente.
     Mais uma vez ela parou. Percebi que meu sorriso a incomodava. Mesmo porque, jamais ouvi falar de alguém que a aguardasse com tamanha ansiedade quanto eu. Aliás, a maioria das pessoas passa a vida toda tentando evitar esse tão temido encontro. Mas eu não. Há algum tempo que sonho com este momento. Imaginei que ela esperava por uma explicação para aquela alegria. Então lhe expliquei:
     -Percebo que estás surpresa. Mas acredite, tenho razões para estar feliz. Vens agora para por o ponto final em uma história que há muito já viu seu término. Acho que jamais estive tão feliz como estou agora. O destino foi muito cruel comigo: roubou de mim aqueles que amo, e as razões para continuar existindo. Neste momento, não vais tirar-me a vida, mesmo porque, já não existe vida em mim. Vais sim libertar-me do tormento de viver e a ti serei eternamente grato.
     Após me ouvir, ela pareceu pensativa. Era como se estivesse repassando o que eu havia dito e tentando entender aquela situação. Eu a olhava como esperança. Ela então suspirou. Olhou-me novamente e voltou a caminhar até mim. Seu olhar agora estava diferente. Ela me olhava com paixão, como se estivesse flertando comigo. Imaginei ser a paixão pelo que estava prestes a fazer.
     Ela parou diante de mim. Fechei os olhos esperando o golpe iminente. Porém, o que aconteceu me surpreendeu. Ela pôs a mão em meus ombros e com os gélidos lábios deu-me um beijo ardente. Diferente de todos os outros: intenso, avassalador. Esperava estar morto quando aquele beijo terminasse. Porém, ao abrir aos olhos, percebi que estava mais vivo do que nunca.
     Olhei para ela e percebi que uma lágrima percorrera-lhe o rosto durante nosso beijo. Ela me olhava com desejo. Foi então que percebi o que acontecia. Ela não iria me matar. Por isso a lágrima. Era a primeira vez que não iria cumprir sua sentença. E o faria por haver se apaixonado por mim. Entendendo isso eu descobri que, ironicamente, também a desejava. Queria possuí-la. Queria ser amante da morte, esse seria meu motivo para viver.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Voyeur

     Ela caminha calmamente. Fecha a porta. Pendura a toalha. Em seguida vira-se ao espelho. Contempla a beleza do próprio corpo nu por um instante. Então vem em minha direção. Observo tudo completamente extasiado. Ela fecha o box. Liga o chuveiro. Observa por um instante a água que cai em fios. Então, vai se molhando aos poucos. Primeiro as mãos, os pés, depois o resto do corpo.
     A água desliza por seu corpo com prazer. De olhos fechados, ela sente as gotas percorrendo-lhe os lábios, descendo pelos seios, depois a cintura, quadris, pernas, até chegarem ao chão. Insatisfeita, ela pega o sabonete e o conduz através de suas curvas para me provocar ainda mais.
     Desviar o olhar é impossível. Sigo hipnotizado por aquela cena que se desdobra diante de mim. Ela então abre os olhos e os mira em minha direção. Aquilo é tão repentino que dou um sobressalto. Então, ela deixa a água correr novamente por sua silhueta. Agora, mais provocante ainda, com as mãos, vai sutilmente retirando a espuma formada pelo sabonete.
     O que vislumbro não é mais simplesmente uma linda mulher a banhar-se sob o chuveiro. É como se eu estivesse diante de uma ninfa que se banha nas águas de cristalinas de uma cachoeira, fazendo a natureza inteira parar para contemplá-la com todo o seu encanto.  É um sonho que provoca, excita. Preso neste delírio, é impossível não desejar aquele corpo.
     Ela então decide me atiçar ainda mais: começa a lavar os cabelos. São lisos, negros, brilhantes. Os fios da água descem em paralelas perfeitas com as madeixas. Ela permanece a olhar em minha direção. Ela sabe o efeito que provoca. Sabe que neste exato momento eu estou a cobiçar-lhe como se fosse um tesouro.
     Os fios de água cessam. Com as mãos, ela retira cuidadosamente o excesso de água que insiste em agarrar-se ao seu corpo. Pega a toalha e começa a se enxugar. Então caminha em minha direção mantendo fixo o olhar em mim. Pára diante da janela e a fecha. Neste momento sou violentamente desperto de meu devaneio. O banho acabou. Já tive minha dose de prazer e êxtase diária. Agora só me resta aguardar até amanhã. Neste mesmo horário eu estarei aqui com meu binóculo para observá-la e sonhar com aquele corpo.

Fonte Imagem: http://2.bp.blogspot.com/_Qq2Qa1xyoco/TMjQjDGnd-I/AAAAAAAABo4/AHjgR_Q-KNI/s1600/voyeur.jpg

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Passado Perdido

     Não me lembro há quanto tempo estava ali. Quando dei por mim estava parado diante daquele homem olhando-o nos olhos. Era um senhor de mais ou menos oitenta anos. Seu olhar me dizia isso. Aliás, aquele olhar me dizia tanta coisa que eu simplesmente não conseguia deixar e encará-lo. Era como se fosse um livro me convidando a viajar por suas linhas cheias de palavras, querendo contar suas histórias.
     Então lhe sorri e quase que instantaneamente ele retribuiu-me. Porém, ao contrário do meu, aquele sorriso não trazia consigo aquele ar alegre. Aqueles dentes outrora brancos, tal qual como uma folha de papel, adquiriram as manchas amareladas do tempo. Tinha um tom melancólico, solitário. Impressionei-me.
     Enquanto o observava, comecei a imaginar quanta história havia por trás daquelas rugas e cabelos brancos. Quantos fatos aquele homem pode presenciar no decorrer de sua caminhada através da sinuosa estrada da vida? Quantas mulheres amou? Quantas o amaram? Terá sido feliz? Porque hoje é triste? Eram tantas perguntas. Mas eu sabia que se olhasse bem fundo naqueles olhos poderia obter as respostas.
     Embora tentasse decifrar tudo o que aquele olhar tinha a me dizer, eu só conseguia chegar a uma conclusão: independente do quanto aquele senhor tenha vivido, qualquer vestígio de felicidade parece ter se dissipado com o tempo. Tudo o que eu conseguia perceber era a tristeza que transbordava de seus olhos tristes. Mas o que motivara tal sofrimento? Porque ele parecia tão infeliz? Mais uma vez, perguntas surgiam. Eu sentia que poderia encontrar as respostas, mas não estava conseguindo.
     Seria o tempo o responsável por aquele olhar tristonho? Sim, o tempo. Ele é implacável. Corre ao sabor do próprio ritmo, sem se preocupar com quem vai ficando pelo caminho. O tempo é um juiz, cujo veredicto é infalível e irrevogável. Veredicto que dá sentido ao velho ditado do “aqui se faz, aqui se paga”. Mas o que teria feito aquele homem de tão ruim para merecer a ira do tempo?
     A cada segundo eu sentia como se aquele homem fosse bem mais que apenas um velho desconhecido. Os contornos enrugados daquele rosto maltratado pelo tempo começavam a me parecer tão familiares. A melancolia daquele olhar sofrido me era tão familiar. Era como se eu pudesse sentir a mesma dor que ele sentia. Não era comiseração, era uma dor real.
     Tão real que ele percebeu que eu compreendia e sentia o mal que lhe consumia. Vi quando uma lágrima brotou daquele olhar e escorreu suavemente pelo rosto do velho senhor. Neste momento despertei. Senti que uma lágrima corria por minha face também. Foi então que percebi o que acontecia: aquele senhor de olhar melancólico era eu. Diante do espelho eu tentava em vão resgatar o meu passado, tudo que vivi, mas que o maldito Alzheimer me roubara da memória. Por fim, eu estava certo, aquela dor era real.