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quinta-feira, 6 de abril de 2017

Futepolítica

Antes de qualquer coisa, permita-me pedir desculpas pelo recurso a tal metáfora, há muito vulgarizada, para ilustrar o panorama atual. No entanto, conquanto a comparação remonte a tempos anteriores ao penta, quiçá ao tetracampeonato da seleção brasileira de futebol, o fato é que a mesma segue, infelizmente (para alguns), se encaixando à realidade do país.

Nunca antes na história desse país... (você entendeu a referência, eu sei, mas, asseguro que o recurso a tal bordão foi proposital, para, dependendo da sua reação, permitir que você identifique para que time torce, nesse campeonato onde, aparentemente, só dois times jogam) ...a política foi tão debatida com ânimos futebolísticos. Falo sério. Há muito tenho observado aqueles que me cercam, e percebo que a política tem dominado boa parte dos corações (quando deveria ter por habitat natural a razão, diria).

Aparentemente, vivemos uma constante final de campeonato. Um clássico daqueles. Brasil e Argentina. Fla-Flu. Gre-Nal. Re-Pa. Esquerda-Direita. Estes últimos são os times em campo. Logo, você deve escolher sua cor, vestir a camisa, e gritar, chorar, xingar, torcer até enr(l)ouquecer. Ainda que você não seja um ávido torcedor, é preciso escolher um lado da arquibancada. Não há meio termo, neutralidade. Não pode haver.

Exemplos que evidenciam esse ponto, tivemos muitos. Vide as votações do impeachment, que tiveram os votos de deputados e senadores sendo comemorados como se gols fossem. Até mesmo os dias, coincidiram com o do futebol: um domingo e duas quartas feiras. Tudo devidamente televisionado, com ampla cobertura da imprensa esportiva política. Em todos os três jogos, o time da esquerda saiu derrotado. Há quem diga que o esporte como um todo foi prejudicado, mas, "futebol é campo e bola", diriam alguns. Logo, o que vale é o resultado.

E quem comemora e chora os resultados? A torcida, claro. E, uma vez mais, tal qual ocorre no futebol, há aqui aqueles que se organizam. De ambos os lados. Torcidas uniformizadas, coreografadas, com gritos de guerra e tudo. Às vezes, quando não tem jogo, até vão às ruas manifestar sua paixão. Infelizmente, como também ocorre no futebol, há confrontos quando essas torcidas se encontram. A paixão transborda, os ânimos não se controlam e, por fim, a resolução acaba sendo buscada no grito, no braço. Lamentável. Mas, como já fora dito antes, no fim, todos acabam se acomodando em seus lugares na arquibancada, para ver a partida (felizmente?).

Aqui também há vezes em que lances polêmicos ocorrem, cabendo aos juízes decidirem a respeito da regularidade dos mesmos. E, pasmem, também há um lado que comemora, elogia, torce pelo juiz. Ao passo que o outro, o dito "prejudicado", questiona a atuação do mesmo, aponta para o regulamento, indaga sobre a honestidade do julgador. E tudo é tão volúvel, que o juiz que hoje é o herói, no jogo seguinte pode ser o maior dos facínoras. Basta que atue de modo diverso do esperado. Sim, política futebol tem dessas coisas.

Entretanto, o mais interessante nessa comparação, está no fato de que, não importa o quanto aqueles que estão na arquibancada torçam, chorem, briguem; eles, quase sempre, não passam de meros espectadores, cujas apostas, a despeito do quão altas possam ser, independem suas vontades, estando condicionadas ao modo como os jogadores que vestem as cores do time vão se portar em campo. Irônico? Pois é. A política O futebol é assim.

Claro, não se pode ignorar que há aqueles torcedores mais ativos. Inconformados, protestam, cobram dos jogadores, do técnico, da comissão, pedem mais comprometimento, clamam por vitórias, títulos. Mas, esses renitentes não costumam ser bem vistos, nem mesmo pela própria torcida. Geralmente, lhes relegam a pecha de vagabundos. Sim, pois futebol é coisa para as horas vagas. É preciso cuidar da vida. No máximo comentar durante os intervalos. Torcer mesmo, só quando há jogo.

É preciso, no entanto, fazer uma ressalva: é verdade que há aqueles que tentam discutir o tema durante o trabalho, na mesa de bar, na faculdade. Mas, de modo geral, são embates que partem do nada para lugar nenhum. Os envolvidos no debate de digladiam, amiúde se ofendem, e no fim ninguém muda de opinião. Não há vencedores ou perdedores. No máximo, alguém sai levemente ressentido, e mais apaixonado pelas convicções próprias.

Costuma, porém, haver um uníssono entre os torcedores, o único ponto de convergência. Diz respeito àqueles que simplesmente declaram não gostar de futebol, ou, se gostam, não torcem para nenhum dos times. Ah, isso gera revolta. Há, inclusive, termos pejorativos para tratar destes indivíduos que tentam fugir da dicotomia. No entanto, de modo geral, o que se busca é emoldurar o infeliz em uma das cores, mesmo que este se manifeste em contrário. O elogio a performance de um jogador pode imediatamente ser interpretado como simpatia pelo time que o mesmo defende. Qualquer coisa pode ser utilizada para fins de enquadramento em uma das faixas dessa via de mão dupla. O que não pode é ficar no acostamento, à beira do gramado, vendo o jogo rolar. Isso não.


Você talvez deva estar pensando que a metáfora foi um tanto forçada. Ou então, reducionista. É possível. O texto parte de uma inquietação de quem simplesmente observa. Sim, aquele que ao final subscreve é um desses infelizes que insiste em sentar à beira do gramado, apenas para acompanhar o jogo, sem torcer por nenhum dos lados. Isso lhe incomoda? Se sim, fique à vontade para vestir sua camisa, apontar o dedo e tentar me enquadrar em uma das torcidas. Posso até me sentar junto a você na arquibancada, para conhecer de perto sua paixão. Porém, se a reação foi outra, e você percebeu que há a opção de simplesmente não torcer, seja bem-vindo. Sente-se à beira do gramado também e observe: a paixão, a torcida, o jogo. Daqui, é possível ver e ouvir alguns lances que o barulho da torcida acaba por abafar.

quarta-feira, 8 de março de 2017

Amor Obsoleto

     “Procura-se amor obsoleto”, foi o título que escreveu para o anúncio que pôs no jornal, este já não em papel, material bastante utilizado outrora, mas há muito superado pelas letras iluminadas de telas sensíveis ao toque. Em verdade, jornais impressos eram uma das muitas coisas do passado que lhe faziam falta. Caso ainda existissem, mais fácil seria encontrar o item procurado, dada probabilidade de partilhar interesses em comum com os leitores remanescentes. Mas, tal qual o amor buscado, a combinação entre papel e tinta tornara-se obsoleta, arcaica.

    Ainda assim, seu anúncio estava agora nos classificados. Era um texto estático, simétrico, objetivo, com palavras bem escolhidas. Letras pretas arredondadas num fundo branco. Uma ilha minimalista em meio ao oceano de imagens coloridas e em movimento, clamando por atenção para toda a sorte de ofertas e procuras. Se lido em comparação aos demais, figurava como poesia, honesta e serena, sem a necessidade de atenção, vez que buscava um olhar que transcendesse a curiosidade fugaz.



     Em poucos minutos, uma resposta. Duas. Dez. Horas depois, centenas, milhares. Logo se tornaram incontáveis. Elogios, cumprimentos, críticas. Grande parte dizia tratar-se de uma ideia genial. “Tal manifestação nos força a refletir acerca de uma época passada, em que o amor era norteado por outros valores, que a sociedade foi perdendo ao longo do tempo, sufocando, em meio a tecnologia e o consumo”, escreveu o crítico de um jornal em nota lançada no dia seguinte. E as manifestações ao anúncio se multiplicavam vertiginosamente.Três dias depois, uma equipe de televisão batia-lhe à porta. Queriam uma entrevista exclusiva com o autor do alardeado texto. Escondera-se, porém. Mas eles não desistiram. Os fios do telefone logo tiveram de ser arrancados, pois o toque tornara-se constante. Isolara-se, pensando que logo o esqueceriam. Mas, a televisão já exibia detalhes de sua vida pessoal. Uma foto de sua ficha profissional, a única disponível dada a sua aversão esse tipo de coisa, ilustrava todas as matérias.

     Arrependia-se, agora, de ter feito o anúncio. Jamais quisera tamanha atenção para si. Pelo contrário, desejava se esquivar de toda a publicidade, com suas discretas palavras, a fim de atrair alguém de gostos similares, cujo anseio por um relacionamento nos moldes descritos seria seu ponto de convergência. No entanto, a julgar pelas coisas que já havia lido e visto até então, atraíra apenas o perfil diametralmente oposto. Queriam todos conhecer tal figura peculiar, não por questões de identificação, mas sim por curiosidade.

     Dias se passaram sem que suas cortinas fossem abertas. Equipes de jornalistas acampavam em frente à sua casa. Vizinhos que jamais lhe digiram a palavra, davam entrevistas descrevendo seus hábitos, como se lhe fossem íntimos. Porém, o estopim se deu quando alguém do passado, com quem tivera um relacionamento equivocado, aproveitou-se da situação para projetar a própria imagem. Se deu conta, então, que não havia como resistir. Não iria cessar enquanto não desse o que queriam.
Exatas duas semanas depois, vestiu-se com suas roupas costumeiras e saiu discretamente, como se fosse comprar cigarros na conveniência. Mal abriu a porta e a avalanche de repórteres caiu sobre si. Perguntavam-lhe tudo, de uma só vez. Balbuciou o que pôde, e entrou em um carro que estava parado diante de si com as portas abertas. Adentrou sem saber a quem pertencia o veículo. Queria sair dali apenas. Deparou-se, então, com homens de terno, cheios de propostas. Queriam suas ideias para o que desse: livros, filmes, e tudo o mais.

     Era coisa demais para um reles anúncio. “Qual o problema desse mundo?”, indagava em solilóquio. Sobretudo, quando começou a ver pessoas usando roupas similares às suas nos dias que se seguiram. Lançara moda. Uma vez mais, sem querer. Logo estava na televisão vivenciando a loucura de conversar com alguém sem olhar em seus olhos, tendo de alternar o olhar entre esta ou aquela câmera. Recusava os roteiros, porém. Forçava os apresentadores a fazerem perguntas diferentes. Queria irritá-los, contrariar a audiência. Mas tudo era visto como marca de autenticidade. E admirado.

     Deu-se conta, então, que aquilo tudo não acabaria tão cedo quanto havia planejado. Não importa o que fizesse. Viu-se cercado por pessoas e coisas que jamais desejou. Ironicamente, tornara-se uma pessoa pública. Embora fosse o mesmo, não parecia ser o autor do alardeado anúncio. Pelo menos não aos olhos das pessoas a quem este fora direcionado. Imaginava-os taxando-lhe de oportunista. Isso lhe corroía. Percebera que seguia por trilhos infindos. Jamais fora assim. Era preciso descarrilar. Mas, como?

     Em uma manhã chuvosa, escondeu-se sob um sobretudo, cobriu o rosto com chapéu e óculos, e partiu. Ruas pouco movimentadas conduziram-lhe até a entrada de um café, esperando encontrar a calmaria que estes lugares costumam fornecer a leitores e escritores. No entanto, surpreendeu-se com uma televisão ligada, magnetizando os olhares para si. Pediu um café, para não perder viagem. Mas, antes de partir, se deparou com uma notícia sobre si. Em suma, com base em seus rendimentos, concediam-lhe o título de “produto mais promissor do ano”.

     Era o que precisava. Enfim, encontrara o próprio calcanhar de Aquiles. Produtos costumam ser bem sucedidos quando são inovadores. No seu caso, a inovação residia em seu jeito antiquado. Tratou, pois, de abdicar deste. Começou por adotar a indumentária “dos dias atuais”. Depois, reduziu seu discurso ao ordinário. Por fim, pôs-se a sabotar as próprias ideias. A empreitada foi um sucesso. Em pouco mais de um mês, naufragara sua marca. Tornou-se um fracasso em vendas, personificando o significado de prejuízo.

     Feito isso, só precisou contar com a facilidade com que a sociedade descarta os produtos, para ser esquecido de vez. Retornou ao velho apartamento. Tentou voltar à vida de antes, mas, além do esquecimento, granjeara o desprezo de seus antigos colegas de trabalho. “Reciprocidade, enfim”, pensou satisfeito. Sem poder trabalhar, restou-lhe viver dos dividendos obtidos – que não foram poucos, diga-se de passagem – durante o cataclismo que vivera durante cerca de seis meses. Algo de positivo teria de subsistir, afinal.

     Dar-se-ia por encerrada a sua história. Era o que pensava, pelo menos. Porém, eis que passados quase dois anos desde o famigerado anúncio, deparou-se com um envelope (item de colecionador), passado por baixo de sua porta. Abriu-o cuidadosamente. Dentro, um pequeno bilhete com os seguintes escritos:



Não coube em si. Apertou o papel contra o rosto. Textura e cheiro. Era real. Encontrara, enfim. No verso do bilhete, um horário, um endereço. Como faziam os antigos. Sorriu. Foi até a sala dos fundos e ligou o computador pela segunda vez, desde que o comprara. Em poucos minutos, removeu o anúncio há muito postado. Ignorou o fato de que as respostas já não eram elogiosas, mas de desdém. Por fim, desligou o computador da tomada. Servira ao seu propósito. Tornara-se obsoleto.

sábado, 26 de novembro de 2016

O velho e o tempo

     Foi em um dia de chuva forte, dessas que nos prendem em casa. Cuidava eu de meus afazeres de menino, ao passo que meu avô velhava em sua cadeira de balanço. Lembro-me de ter lhe entregue minha atenção no instante em que ele pôs a mão no pulso e desabotoou seu velho relógio. Em seguida, começou a dar corda nele, deixando o olhar passear pela rua, que se banhava na água da chuva.

     Conquanto aquilo não fosse nada de extraordinário, e sim um hábito do velho, reconheço que foi a primeira vez que reparei em seu costume. O relógio, se bem lembro, era bastante antigo, um dos primeiros modelos fabricados no país. O dourado desbotado e a pulseira de couro ressequida não só atestavam sua idade, como também corroboravam a história que meu avô costumava contar sobre como ganhara aquele relógio. Dizia ele: 

“Quando completei 18 anos, tudo o que eu mais queria na vida era uma lambreta. Pedi uma ao meu pai e ele me indagou sobre o motivo de meu querer. Eu poderia ter lhe dito que era para poder impressionar as garotas, mas tudo o que conseguir dizer foi que ‘com a lambreta eu conseguiria chegar rápido onde quisesse, que não perderia mais tempo’. Meu pai sorriu e não me disse nada. Saiu de casa sozinho, sem avisar a ninguém e passou o dia fora. 

À noite, quando ele voltou, eu estava ansioso, pensando que ele me traria a dita lambreta. Não consigo descrever a decepcionante surpresa que tive quando ele me entregou aquela pequena caixinha de madeira. Relutei em abri-la, tentando evitar a frustração. Mas o olhar de meu pai me obrigou e, quando vi o relógio, simplesmente emudeci. 

Meu pai tirou-o da caixa e o pôs em meu pulso. Em seguida, me deu o maior presente que eu poderia receber. Olhando em meus olhos, proferiu suas sábias palavras: Filho, quero que você olhe para este relógio. Perceba que ele é capaz de contar o tempo, mas não o controla. Ao contrário do que você pensa, não se ganha ou perde tempo. Ele é mais forte que todos nós. É uma fera que não se pode domar. Pouco importa se você irá depressa ou devagar a algum lugar, você só chegará se o tempo permitir”.

     Naquela época eu não entendia o significado daquela história. Na verdade, apesar de tê-la ouvido por diversas vezes, a única ocasião em que eu, de fato, lhe dei atenção, foi naquela tarde chuvosa. Após perceber que eu o observava em silêncio, meu avô me pôs em seu colo e fez questão de contá-la novamente. Algo me diz que ele sabia que aquele era o momento exato, quando enfim teria a minha atenção. 

    O velho contou tudo com calma, olhando em meus olhos, mas sem cessar o movimento que fazia com as mãos calmamente, dando corda no velho relógio. Quando ele terminou, fiquei em silêncio por alguns instantes observando seu movimento quase de mecânico. Por fim, perguntei: “Vovô, por que o senhor dá corda no relógio todas as tardes?”. 

     Ele me olhou por alguns instantes, sabia o que dizer, mas queria que eu entendesse, por isso quis escolher as palavras. Não saberia dizer qual foi o tom utilizado pelo pai do meu avô, quando lhe deu o relógio, mas imagino que tenha sido bastante parecido ao que o velho usou naquele instante para me explicar, pois sempre que recordo, é como se pudesse ouvi-lo falando uma vez mais. 

“Hoje, meu filho, só me resta dar corda neste velho relógio. Este é o meu afazer diário, o que me mantém vivo. Houve um tempo, é verdade, em que esta era apenas uma dentre tantas coisas que eu tinha para fazer durante o dia, mas hoje é diferente. Posso esquecer tudo, menos essa obrigação. Desde que o ganhei, não houve um dia sequer que eu tenha esquecido. Sabe por quê? Porque este relógio conta o meu tempo. É preciso que estes ponteiros trabalhem, para que eu saiba que o tempo está passando. Não sei quanto tempo terei, mas graças a ele posso saber quanto já tive. Por isso dou corda, porque se um dia o relógio parar, o tempo correrá e me deixará para trás”. 

     Ainda que ele tenha se esforçado para ser claro, eu não entendi muita coisa. Depois daquele dia, houve outras tardes chuvosas. Mas havia sempre algo mais interessante a fazer que ficar observando o velho se balançando em sua cadeira e dando corda em seu relógio. A despeito de meu desdém, ele seguia com sua missão, todas as tardes. 

     Até que um dia, quando eu já não tinha as tardes livres, meu celular tocou. “Teu avô”, disse minha mãe. Corri para casa e encontrei-a aos prantos no sofá, enquanto meu pai tentava consolá-la. Vovô falecera. O velório foi em casa, caixão aberto. Aproximei-me e meu olhar não procurou seu rosto, mas sim seu pulso. O velho relógio, que tanto trabalhara durante aqueles anos, estava parado. Os ponteiros enfim descansavam. O tempo deixara vovô para trás.



sexta-feira, 4 de novembro de 2016

O Desfecho

“Por que isso está acontecendo comigo? ”, indagava a si mesmo desesperado, enquanto andava em círculos, tentando, em vão, pensar. Queria chorar, mas o desespero era tal que nem mesmo as lágrimas queriam presenciar. Soltava gritos abafados, grunhidos, batia a cabeça na parede. Teria acordado a casa inteira, não estivesse sozinho. “O que o meu pai faria? ”. Como se uma luz pairasse sobre si, de súbito parou. Encheu um copo com água, tomando-o em seguida com a avidez daquele que bebe um antídoto ao saber que possui veneno correndo por suas veias. Puxou uma cadeira. Observou-a por alguns segundos. Sentou-se, por fim. 

Respirou fundo. Passou a mão nos cabelos desgrenhados. Apanhou um pedaço de papel e uma caneta para tentar organizar os pensamentos. Mas, embora mais calmo, ainda tremia. Decidiu repassar tudo mentalmente. Fechou os olhos, para se isolar na própria mente. Pôs-se a descrever em voz alta para si mesmo: “Deixei meus pais no aeroporto. Fui dar uma volta no carro novo. Tomei algumas cervejas. Voltei para casa. Atrope...”, sua voz engatou. Quis chorar. Respirou novamente. Engoliu a seco. Continuou: “Atropelei uma pessoa. Fugi o mais rápido que pude. ” 

Ficou em silêncio por alguns instantes, repassando os fatos que acabara de listar. De repente, levantou e correu até a garagem. Acendeu a luz e caminhou para a frente do carro. Observou calmamente, avaliando os danos. Inexplicavelmente, havia apenas um leve arranhão, quase imperceptível. Alguns respingos de sangue. Mais abaixo, algo que lhe causou um calafrio jamais sentido: uma mecha de cabelos loiros estava presa em um vão de encaixe do para-choque. Lembrava agora: a mulher estava de costas, o impacto a jogara para baixo do carro. Por isso aquele vestígio. Logo concluiu: era preciso se livrar de qualquer coisa que o pudesse incriminar. 

Apanhou a mangueira e um esfregão e foi limpando, como podia, os vestígios de sangue. Cuidadosamente, esfregou cada centímetro do para-choque do carro. No entanto, mesmo com muito esforço, não conseguia desprender aquela mecha de cabelos loiros. Forçou o jato de água na direção, passou o esfregão diversas vezes. Por fim, aceitou que teria de retirá-la com as mãos. Procurou por luvas, mas não encontrou nenhuma. Conformou-se em pôr uma das mãos dentro de uma sacola plástica. Apanhou um punhado de fios e puxou, mas os cabelos molhados escorregaram através do plástico liso. 

O desespero começou a lhe invadir novamente. “Por que não sai? ”, falava com a voz embargada. Desistiu. Foi até a cozinha e apanhou uma faca. Cortou uma parte dos cabelos. Mas, embora encurtados, eles ainda estavam ali, destacavam-se na cor preta do para-choque. Quis arrancá-los, mas escorregavam ainda mais, agora que estavam curtos. “Por que diabos você cortou, seu estúpido? ”. Ajoelhou. Tentou novamente. Relutou, mesmo sabendo que teria que usar as próprias mãos, sem proteção alguma, se quisesse tirar aquela derradeira prova de seu crime. 

Respirou fundo. Tirou a sacola da mão trêmula. Agarrou o que pôde dos cabelos e tentou puxar. Faltaram-lhe forças. Quis vomitar. Aspirou o ar com força. Apanhou com a ponta dos dedos uma porção dos fios dourados e puxou para si. Era o ângulo exato para desengatar. A mecha se soltou, enfim. Quis sorrir, mas, para a sua surpresa, as raízes dos fios ainda estavam presas ao seu pedaço de carne originário. Diante de seus olhos, oscilou, como um pêndulo macabro, aquela parcela de couro cabeludo, exalando ainda cheiro o de sangue. Tão forte quanto pôde, ele atirou longe o naco de pele, e vomitou tudo o que havia em seu estômago. Quando terminou, olhou para o carro. Aparentemente intacto, não dava qualquer mostra do que havia acontecido. Respirou aliviado. 

Caminhou até a cozinha. Parou no corredor. O coração disparou novamente. “O GPS do carro tem o registro do horário e do caminho que fiz. Preciso apagar tudo”. Correu de volta até o carro. A mão trêmula acionou o GPS do veículo. O sistema era novo. Ele ainda não sabia usar. Procurou pelas configurações. “Registros”. “Rotas recentes”. “Apagar rotas recentes”. “Você tem certeza? ”, indagou o aparelho. “Sim! Pelo amor de Deus! ”. “Registro de rotas recentes apagado”. Um peso parecia ter saído de seus ombros. Pousou a cabeça no encosto do banco. Quis se desesperar ao pensar que alguma câmera de segurança poderia ter registrado o ocorrido, mas lembrou que era madrugada, não havia movimento na rua, e o local do acidente não era residencial, apenas uma estrada erma. Respirou novamente. “Jamais descobrirão”. Enquanto repetia para si, adormeceu. 


Acordou com um gosto amargo na boca, e um desconforto no corpo. Saiu do carro e olhou novamente a dianteira do veículo. Estava intacta, de modo que chegou a cogitar se tudo não passara de um pesadelo. Contudo, enquanto caminhava até a porta, seu olhar, que displicentemente varria o chão da garagem, parou exatamente no lugar onde repousava um pedaço escurecido de carne de onde brotavam fios loiros brilhantes. Despertou de vez. Apanhou no chão a sacola, que outrora fizera as vezes de luva, juntou a pútrida evidência e amarrou o recipiente. Atirou a ao lixo, por fim, ciente de que aquela última aresta restava aparada. 

O sol brilhava através da janela. Tomou um banho e se sentiu renovado. Foi até a cozinha comer alguma coisa. Ligou a televisão. Enquanto passava geleia em um pão, o jornal da manhã noticiou: “Uma mulher foi atropelada nesta madrugada. Morreu na hora. A despeito do local onde o crime aconteceu e da falta de testemunhas, a polícia pode chegar até um suspeito. Segundo informações, a poucos metros do corpo, foi encontrada a placa de um veículo com vestígios de sangue. A perícia tenta agora identificar se o sangue na placa pertence à vítima. Caso haja a confirmação, será possível identificar o autor do crime. ” 

Atônito, ele largou o que tinha nas mãos. O desespero da noite passada invadiu-o de todo. Ele voltou até a garagem novamente. Parou diante do veículo, mas tinha os olhos fechados. Não queria olhar. Permaneceu por vários minutos ali, parado, criando coragem para encarar os fatos. Por fim, abriu os olhos com cuidado. O borrão preto foi ficando cada vez mais nítido, até que, com os olhos completamente abertos, ele recebeu o golpe: não havia placa alguma. Emudeceu. Chorou. Estava perdido. Iria preso. Seus planos, seus sonhos, tudo perdido. 

“Por que eu não fiz o que meu pai mandou e vim direto para casa? Por que isso está acontecendo comigo? Eu não posso ir preso. Eu tenho apenas 19 anos. Por que? Por que? ”. 

Horas de agonia se passaram. Ele caminhava em círculos dento da casa. A cada minuto, ia até a janela e observava o movimento da rua. “A polícia vai chegar a qualquer momento”, pensava. Abriu uma garrafa de uísque do pai. Quis tomar tudo em um só gole. Queria fugir. Seria pior quando o encontrassem. Era uma decepção para a família. O que seus pais diriam? Logo o resultado da perícia iria confirmar que ele era o assassino. Viriam direto até a sua casa. Estava perdido. Precisava fazer alguma coisa. Mas o que? 

O dia passara depressa. Começava a escurecer. Ele já não conseguia ver toda a movimentação da rua. Logo a casa estaria cercada. A polícia estava prestes a chegar. Quis ligar para o pai, pedir socorro. “O que meu pai faria? ”. Dessa vez não funcionou. O pai jamais teria cometido um erro daquele tipo. Ele agora chorava. Analisou como pode as possibilidades. Concluiu, por fim, que só havia um desfecho aceitável. Foi até a cozinha. Apanhou uma faca. Aproximou-a do pescoço. Faltou-lhe coragem. Queria morrer. Mas não era capaz. Subitamente, parou. Tivera a derradeira ideia. Caminhou até a garagem. Entrou no carro. Ligou o veículo. Pensou em fugir. Mas ali permaneceu. Passados alguns minutos, sentiu-se cansado. Uma sonolência lhe tomou. Adormeceu. Jamais despertou. 

Dias depois, o jornal local noticiou: 

Estudante é encontrado morto na garagem da própria casa. Aparentemente, o jovem chegou bêbado em casa e acabou adormecendo na garagem com o veículo ligado. Faleceu asfixiado pela ingestão de monóxido de carbono, um dos resíduos da queima do combustível. A polícia descarta a hipótese de suicídio. Dizem tratar-se de uma fatalidade. A família está inconsolável. O veículo, comprado no dia anterior à morte do jovem, seria seu presente de aniversário. Sequer havia sido emplacado. 

A notícia subsequente foi: 

A polícia arquivou as investigações do caso da mulher atropelada dias atrás. Após a perícia concluir que o sangue na placa encontrada próxima ao corpo era de um cachorro, e que a placa pertencia a um veículo da prefeitura, que não fora utilizado na noite do acidente, a principal linha de investigações foi descartada. A ausência de câmeras de vigilância ou qualquer testemunha ocular foi determinante para o arquivamento. Infelizmente, mesmo com toda a tecnologia, estes tipos de casos ainda são quase impossíveis de serem solucionados.



sábado, 11 de junho de 2016

A mácula

Nem mesmo a beleza da blusa de seda, cuidadosamente escolhida e passada, tampouco o colar de pedras delicadas, foram o bastante para apaziguar a energia dos olhares que lhe foram lançados, quando adentrou à sala de espera. Cadeiras voltadas em direção à porta, faziam de quem entrava, uma espécie de distração aos olhos cansados de esperar. Mas ela, embora não os visse todos, pode sentir a mudança nos olhares, quando caíram sobre sua figura. Alguns franziam a testa, outros desviavam o olhar, havia ainda alguns que simplesmente a encaravam. Seja qual fosse a reação, ela sabia que os pensamentos eram similares. Estavam todos desconfortáveis com sua presença.

Era a primeira vez, desde a reviravolta, que saía de casa para tratar de assuntos que não envolviam a própria saúde. A despeito de toda a relutância da família, insistira. Era aquele o primeiro passo de um recomeço. Devotara toda a manhã à escolha da roupa com a qual sairia, o batom que daria brilho aos empalidecidos lábios, os sapatos, a bolsa. Enfim dava voz à vaidade, da qual tivera que abrir mão, nos últimos meses. Era jovem e bela, embora a enfermidade houvesse embotado estas características. Mas, estava vencendo. O tratamento se aproximava do fim, a vida retomaria seu curso. Daí o porquê de seu entusiasmo.

Contudo, ao ser friamente fuzilada por aqueles olhos, percebeu que haveria um caminho mais longo a percorrer. Era como se todos fizessem questão de transparecer que sua figura lhes era incômoda. Quis chorar, correr, sair dali. Mas, resistiu. Não saberia explicar de onde tirou forças. Apanhou uma senha, e voltou o olhar procurando um lugar para sentar. Todas as cadeiras estavam ocupadas. Os que sentados estavam, se olharam, como dissessem “é preciso ceder um lugar, quem o fará?”. Um homem sentado na primeira fileira se levantou e se afastou para um canto. Nada disse. Era claro que não fora impelido por educação ou gentileza. Ela o agradeceu, mas não obteve qualquer resposta.

Estava, enfim, misturada à massa, mas ainda sentia o peso dos olhares sobre si. Sabia que, se pudessem, todos afastariam suas cadeiras para longe. Entristecida, ela abaixou a cabeça. Olhou para as próprias roupas. Estava bonita, mas ninguém percebera. Fechou os olhos. Pode sentir o aroma do perfume que estava usando. Mais um detalhe a ser ignorado. Uma vez mais, quis chorar. Era como se personificasse a morte, ou coisa pior. Sua doença era uma mácula, que inspirava um misto de temor e desprezo. Temor de um dia se ver em tal situação. Desprezo por ela estar ali, mostrando ao mundo sua imagem enferma e incômoda.


“Mamãe, porque a moça não tem cabelos, e está usando esse pano no rosto”, perguntou uma criança sentada algumas fileiras atrás. Ela aguardou por uma resposta. Mas, tudo o que pôde ouvir foi o som da mãe repreendendo a criança, silenciando-a. Sentiu seu sentimento se transformar. Revoltava-se agora com aquela atitude. Seria tão difícil explicar à criança que certas doenças afetam o corpo de forma a debilitá-lo? Por que silenciar, e propagar a ignorância, que já inundava o local? Voltou seu olhar para trás. Explicaria que estava doente, mas que logo ficaria curada. Que não se tratava de nada contagioso, mas sim de uma enfermidade da qual qualquer um podia padecer. Diria que a máscara em seu rosto era para protege-la das impurezas do ar. Esclareceria tanto quanto fosse necessário.

Contudo, ao fazer o movimento voltando-se para trás, percebem que todos, quase que ao mesmo tempo, se encolheram, com repulsa à possibilidade de aproximação. Viu-se, então, desarmada por aquele gesto. Retornou à posição em que estava anteriormente. Baixou a cabeça novamente. Se deu conta de que seria preciso ter forças. Indagou se estaria realmente preparada para lidar com tudo aquilo. Talvez fosse melhor ficar um pouco mais em casa, aguardar o fim do tratamento, e só voltar quando sua aparência já não fosse incômoda. Devia ter dado ouvido aos familiares que tanto pediram para que ela ficasse em casa. Permaneceu envolta em tais pensamentos por alguns minutos.

No entanto, nunca fora afeita a resignação. Não era culpada pela ignorância daquelas pessoas. Não devia simplesmente desistir da vida, para evitar aquele tipo de reação. Não saíra de casa, depois de tanto tempo, para simplesmente fraquejar. Já havia lutado tanto, era preciso vencer mais aquela batalha. De súbito, uma ideia se apossou de sua mente. Antes de pô-la em prática, questionou se não estaria sendo perversa demais. Porém, não devia nada àquelas pessoas, que desde o primeiro olhar, não se preocuparam em poupá-la. Decidiu-se, então. Que a ignorância deles lhes servisse de punição.

Ela então ergueu a cabeça. Olhou para os lados. Levantou-se da cadeira lentamente, simulando fraqueza, embora não a sentisse. Percebeu que a observavam. Ela estava na primeira fileira de cadeiras, de modo que, ao voltar-se para trás, podia ver todos os que ali estavam sentados. Cuidadosamente, tirou a máscara cirúrgica que havia em seu rosto. Os olhares agora estavam apreensivos. Uma vez sem a máscara, sorriu, como se desse a eles uma última chance. Ninguém sorriu de volta. Ela então, utilizando-se de todas as forças, tossiu bem alto, fazendo questão de espalhar o máximo de perdigoto pelo ar.

Era como se houvesse despejado uma bomba no local. Os que sentados estavam, correram depressa em direção à porta de saída. Empurrando-se e acotovelando uns aos outros, tentavam desesperadamente sair da sala, temendo um possível contágio pela doença mortal que devia acometer aquela moça. Uns gritavam por socorro, outros prendiam a respiração. Mesmo quando todos haviam conseguido sair, ela ainda podia ouvir o som vindo de fora, de gente caindo pelas escadas. Contemplou, então, os lugares vazios. Tinha um sorriso de satisfação no rosto. Apanhou a máscara e pôs no rosto novamente.


A tela presa à parede emitiu um sinal, e exibiu o número da senha a ser atendida. Ela olhou a própria senha. Havia cerca de doze números até que o seu fosse chamado. Mas, viu que, sobre uma das cadeiras vazias, um papel com o número chamado fora abandonado. Apanhou o mesmo e entrou na sala de atendimento. Naquele mesmo dia, durante o jantar, seus familiares preocupados, indagaram como havia sido a experiência. Ela se limitou a dizer: “Foi boa. Depois que você aprende a lidar com as pessoas, tudo fica mais fácil”.

segunda-feira, 14 de março de 2016

Nosso anjo

Como que em preces, tinha as pequenas mãos unidas, com os dedinhos entrelaçados. Mas, as súplicas eram todas nossas. O semblante sereno, nos trazia paz e tristeza ao mesmo tempo. Era um anjo. Nosso anjo, que nos deixava, prematuramente. Eis o cerne de toda a dor. E não havia, entre nós, quem não fosse invadido por aquele sentimento de desolação. Mesmo aqueles que não nos eram próximos, se viam tomados pela comiseração. A vida escrevera uma passagem trágica no roteiro, e não havia como estarmos preparados para tal reviravolta.

Impossível olhar seu pequeno rosto, cercado de alvas flores, e não pensar em toda a vida que ele poderia ter tido. Seus brinquedos consigo, sem a vida que os anime. Os primeiros passos, palavras, as descobertas da primeira infância, a janelinha que um dia se abriria em seu sorriso. Tantos sorrisos que já não teremos, já não veremos. Tantas linhas de uma história que, infelizmente, não será escrita.

Entre orações e cânticos, o anseio por alento, não só para as nossas almas, mas para aquela que nos deixou. O clamor em uníssono pelo amparo divino, a união pela dor. Provas de que há, na morte, algo que nos mostra o quão ínfimas são as vicissitudes cotidianas, assim como nossas vaidades. Sempre há muito a aprender. Terá sido esta, talvez, a missão de nosso pequeno anjo? Nos unir e nos dar lições?

Sim, pois muito aprendemos com ele, durante sua breve passagem. Seu apego à vida neste quase um ano, nos mostrou que é preciso lutar até o fim. E não há quem possa dizer que ele não lutou. Mas, infelizmente, não há triunfo em todas as batalhas. E, nesta última, o perdemos.


Ao entregá-lo de volta à terra, derradeiras e inevitáveis lágrimas. Já não o veremos. Residirá, agora, em nossos corações. Guardaremos em nós sua doce lembrança. A recordação de uma vida que agora se resume em saudades. Seu nome entalhado em mármore, e saudades. Eis o que nos resta.


Pierry Silva Guimarães.
25/04/2015 - 13/03/2016



terça-feira, 1 de março de 2016

A vida não segue trilhos

 “A vida não segue trilhos”, a frase ecoou em minha mente, e despertei daquela espécie de transe que só o prazer oferece. Ofegante, eu tinha sob mim o corpo nu daquela moça que eu sequer sabia o nome. Nosso suor era um só, assim como nossos corpos conectados. O pulsar do meu coração, no entanto, era o único que eu conseguia sentir. Foi quando me dei conta que tinha as mãos envoltas no pescoço da moça. Pior ainda, eu apertava forte. Soltei-a em um sobressalto e, já de pé, observei seu corpo imóvel sobre o sofá. “Está morta. Eu a matei.”, pensei. “A vida não segue trilhos”, repeti involuntariamente.

“A vida não segue trilhos”, foi o que ela me disse, enquanto eu me enrolava tentando justificar o porquê de não poder entrar em seu apartamento àquela hora da noite. “Tenho trabalho amanhã, e reunião, compromissos agendados...”, dizia eu, quando ela disparou a frase que me deixaria sem argumentos. Simplesmente calei e a segui porta a dentro. Ela não acendeu as luzes. Mergulhou na penumbra e pediu que eu o fizesse. Tateei por alguns instantes pela parede, até encontrar um interruptor. Pressionei-o e, como num passe de mágica, a luz a fez surgir nua diante de mim. Deitada sobre o sofá, com as pernas cruzadas, escondia de meus olhos o mistério que estava prestes a revelar.

A frase então começou a fazer sentido. Seria o mantra de uma noite que, pela primeira vez em minha vida, era imprevisível. Há duas horas estava eu escolhendo um filme qualquer em uma loja de departamentos, para distrair minha solidão. Agora contemplava, extasiado, aquela linda vagina de pelos descoloridos e levemente arroxeados. Algo me dizia que eu nunca mais veria algo tão exótico em minha vida. Sim, pois minha nova amiga não era exatamente o tipo de pessoa com a qual eu costumava me relacionar. Era ela dessas moças descoladas, de piercings e tatuagens. Dessas cuja ousadia te faz temer e desejar ao mesmo tempo.

- Assiste esse aqui. Vai te fazer bem. - Disse ela enquanto apontava para a capa de um filme que eu não reparei qual era, pois meu olhar não foi capaz de se conter diante da tatuagem de traços delicados que começava em sua mão e serpenteava pelo braço. Encontrei o final do desenho próximo ao ombro da moça, quando me deparei que aqueles olhos em mim.

- Gostou? - Indagou. Não consegui responder nada. Voltei o olhar para o nada, enquanto fingia procurar o filme que ela indicara. A moça deu de ombros e saiu. Ela deu dois passos e, sabe-se lá por qual motivo, eu consegui balbucear algo como “Assiste comigo”.

Ela voltou sorrindo, enquanto eu permaneci imóvel, com a cara de idiota, padrão. Passou por mim, vasculhou por alguns segundos entre os filmes. Apanhou um e disparou:

- Assisto esse. Mas tem que ser na minha casa.

O máximo que consegui fazer foi assentir com a cabeça, num gesto mecânico e involuntário. Dez minutos depois eu subia em um ônibus seguindo para o lado oposto da cidade, junto àquela desconhecida, para ver um filme que eu sequer sabia qual era.

Durante todo o trajeto, ponderei sobre o que estava fazendo, e como diabos havia chegado até ali. Ela respeitou o meu silêncio, contemplando as ruas que passavam pela janela, enquanto fumava um cigarro.

Ao descer do ônibus, eu havia tomado uma decisão. Acompanharia a moça até a porta da casa dela, seja lá onde fosse. Depois daria um jeito de voltar para casa. Já tivera aventura demais por uma noite. Queria voltar para a segurança de minha rotina. E o teria feito, não fosse aquela frase para desarmar minha obstinação.

Todos estes eventos, que haviam me conduzido até ali, passaram diante de meus olhos rapidamente, até que me deparei novamente com o corpo dela estendido sobre o sofá. Ela parecia não respirar. A cada segundo, a certeza de que eu a matara aumentava. Caminhei desesperado de um lado para o outro. Fugir. Polícia. Cadeia. Palavras e ideias que corriam através de meus pensamentos. O que fazer? O desespero me invadia, e eu amaldiçoara o momento em que havia replicado à provocação dela. Tivesse ficado quieto, isso não teria acontecido. Estaria em casa, comendo comida congelada e vendo televisão, como todo bom idiota solitário costuma fazer.

Estava prestes a enlouquecer. Avistei a janela. Pensei em tomar um caminho mais fácil até o piso térreo. Não tive coragem. Fui tomado pela covardia e resolvi fugir. Corri e apanhei minha calça jogada sobre o sofá. Era só me vestir depressa e correr. Ninguém saberia que eu estive ali. Fora uma fatalidade. Eu não queria. Eu nem sabia o nome dela. Eu tremia e vestir a calça era impossível. Sentei no chão, enquanto eu tentava desesperadamente me vestir. Até que ouvi alguém tossir. Minha alma congelou.

Demorei alguns segundos para reunir coragem necessária. Quando consegui, voltei meu olhar em direção ao sofá, senti minha alma escapar junto com o suor. Ela estava voltada para mim, me olhando. Antes que eu pudesse comemorar o milagre, disparou:

- Eu falei para você não apertar muito. Se forçar demais, eu fico sem ar e desmaio. Não é assim que funciona. Você precisa sentir o meu corpo.

Atônito, eu não conseguia dizer nada.

- Vem. Tira essa roupa. Vamos tentar novamente. Eu vou te ensinar. Posso fazer em você. É gostoso.

As coisas então ficaram menos turvas em minha mente. Tudo começara com uma fita que ela envolvera no pescoço, e apertava enquanto eu a penetrava. Aos poucos, lembrei que ela confiou a mim o controle sobre a constrição da fita. Em algum momento, devo ter tirado a fita e resolvido sentir com minhas próprias mãos. O calor, o prazer. Sentir o coração pulsar nas extremidades. Não tive culpa, afinal.

“A vida não segue trilhos, né.”, ela repetiu, cínica, enquanto eu tirava a calça, liberto do desespero. Só voltaria para a minha casa três dias depois. Na semana seguinte, descarrilei de vez e vivemos juntos desde então.




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