Páginas

domingo, 24 de agosto de 2014

A conversa

Sob o lençol, juras de amor e planos para o futuro foram traçados. Os desgrenhados cabelos e o cheiro de prazer liberto denotavam o que haviam feito. As pernas ainda se entrelaçavam e, entre beijos e olhares, palavras eram trocadas. Tinham tanto em comum. Bem mais até do que podiam imaginar, já que, antes daquela tarde, tudo se resumia a um discreto flerte. Mas, o sexo revela, e já não havia o que esconder. Agora conheciam sua verdadeira afinidade. Tudo seria prefeito, não fosse ela casada. 


Roupas vestidas, maquiagem retocada. Um último beijo e, da porta para fora, retomariam a encenação diária. Ele, o solteirão workaholic, sempre ocupado demais para relacionamentos. Ela, a mulher exemplar, dividida entre o trabalho e os filhos. Não fosse o amor das palavras, facilmente tomar-se-ia aquela relação por uma aventura conveniente, para driblar a rotina. 

Meses de encontros furtivos passaram, e os laços se estreitaram. Eis que um  dia ela adentra o quarto desesperada. Cauteloso, ele tratou de fechar a porta e as cortinas, para, enfim saber o que houve. "Precisamos conversar. Ele descobriu tudo. Vai nos matar, tenho certeza!", dizia tentando não chorar. Não se pode negar que aquela afirmação causou certo abalo, mas, ele se manteve firme. Com uma forçosa expressão de desdém, se pôs a indagar a respeito. 

"Como você sabe disso? Ele lhe falou alguma coisa? Ele lhe agrediu? Ele seguiu você? Ele sabe quem sou eu?". Apesar da inabalável expressão no rosto, a quantidade de perguntas em tão pouco espaço de tempo revelou seu desespero. Ela, percebendo isso, sentiu abrandar em si a confiança que até então depositara nele. Pensou. Escolheu as palavras e, por fim, disparou: "Ele disse que precisamos conversar; que sabe tudo o que temos feito, que sabe quem é você; e que eu preciso escolher, definir meu futuro, antes que seja tarde." 

Da firmeza no olhar, nada restara. Sentado na cama, com a cabeça entre as mãos, ele tentava compreender tudo. "Você precisa escolher...", repetiu para si. Porém, antes que pudesse concluir, ela o fez: "Mas eu já escolhi: ficaremos juntos. Sei que você me ama e, convenhamos, cedo ou tarde isso aconteceria. Não vai ser fácil, imagino. Divórcio, guarda dos filhos, partilha de bens, enfim, o importante é que não precisamos mais esconder o que sentimos." 

Aquela conversa toda em nada o agradava. Qual um enxadrista experiente, tratou de pensar nos movimentos possíveis e em suas eventuais consequências. Encarava o vazio pensativo. Por fim, voltou para ela um olhar apaixonado, deixando claro qual seria seu próximo movimento. "Estou disposto a enfrentar tudo por você. Ele quer conversar, e sabe quem sou eu. Se tivesse de fazer algo, já teria feito. Haja o que houver, estou disposto a assumir nosso amor. Por hora, você precisa relaxar, e eu estou aqui para isso.", disse acariciando-lhe o rosto, beijando-a, ao final. Tentou em vão parecer calmo.

Naquela tarde, as horas foram breves. Amaram-se sem o costumeiro ardor. Ele parecia tenso, distante, totalmente diferente do que fora nas tantas outras vezes. Ela, visivelmente desapontada. Ao findar da tarde, planejaram o que fariam nos próximos dias: ela conversaria com o esposo; ele ligaria no dia seguinte para saber o resultado. Algumas palavras foram trocadas depois. Despediram-se, mas não com a afetuosidade costumeira. Quem os visse, diria que eram casados há anos, enfrentando uma crise. Seguiram então seus caminhos. 

Ele, atordoado, tratou de se desfazer do celular e desmarcou os compromissos da semana. Desapareceria por alguns dias. Conquanto sentisse um leve remorso, via aquilo como um sacrifício necessário. "Sempre foi uma amor impossível, jamais daria certo.", dizia para si. Mas, no fundo, lamentava por ter mentido. Se o fizera para ela, ou para si, o tempo diria.

Quanto a ela, seguiu o combinado: voltou para casa. Mas, não houve conversa alguma. Fez o jantar. Cuidou dos filhos. Amou o esposo e, por fim, viu-o adormecer. Ficou acordada ainda por um tempo, imaginando o que teria acontecido, caso não tivesse inventado aquilo tudo. Ele a desapontara, afinal.  Sempre achara que aquele papo de amor era só para tornar tudo mais verossímil. Riu por um instante, ao lembrar do esforço dele, tentando enganar a si mesmo. Por fim, suspirou: "Já não se fazem mais amantes como antigamente...". Abraçou o esposo e dormiu.


Fonte imagem: http://1.bp.blogspot.com/-ZbecrK3mMVU/UfsPlQ9pYaI/AAAAAAAAFr0/ySj5AR_EI-A/s400/cama.jpg