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sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Abismo


Abismo

E eu suspiro descontente
Por meus pecados – aflito.
Compreeder-me? Não tente,
Apenas ouça meu grito.

Eu encaro minhas vaidades:
As maldições do meu eu.
Castigam-me as saudades,
De tudo que se perdeu.

Com minhas solidões reflito.
Meu espelho apenas reflete
O meu vazio infinito,
Mas não minha alma inerte.

Mas não quero escapismo,
Que aos covardes encanta.
Permanecerei no abismo.
Eu e minha loucura santa.

Encontrarei no futuro
Todas as razões irracionais.
E então estarei seguro
Com minhas paixões imortais.



quinta-feira, 18 de agosto de 2011

O Beija-flor e a Borboleta

     Caros leitores, eis minha primeira tentativa de escrever algo que se assemelhe a uma fábula. Portanto, conto com vocês para manifestarem sua opinião quanto ao texto. Aos que desejarem, comentem e digam o que acharam. Desde já grato.


                                                                                    Robson Heleno






         O Beija-flor e a Borboleta


    Os raios de sol reluziam sobre as pétalas orvalhadas das flores, refletindo diferentes cores, acentuando-lhes o brilho. Eram rosas, violetas, margaridas, uma infinidade de flores que coexistiam em harmonia. Orgulhosas por suas belezas, sentiam prazer em deixar seus doces perfumes no ar, os quais o vento carregava com prazer até o olfato daqueles que passavam por perto daquele santuário sutil da natureza.
     Em meio a tal cenário, um elemento se destacava: um beija-flor, que permanecia estático no ar com seu bater de asas ininterrupto. Tinha o olhar fixo no horizonte, parecia até ignorar a beleza a sua volta. Mas não era sem motivo. O jovem colibri contemplava, extasiado, o vôo de uma borboleta. Enquanto ela ia de flor em flor, ele a seguia com o olhar. Seus olhos brilhavam, ele suspirava apaixonado.
     Tudo havia começado há poucas manhãs. Ele voava solitário por entre as flores, quando notou a presença da desconhecida. A princípio o beija-flor revoltou-se: como ela ousava entrar em seu jardim sem permissão? Porém, a ira logo se dissipou. Aquela intrusa possuía uma beleza jamais vista pela inocente ave. Voava graciosa, sutil, como se acariciasse o vento com seu leve bater de asas. Diante de um ser tão diferente, o encanto surgiu de imediato. Como não admirá-la?
     Passada a primeira impressão, o beija-flor pensou em dar-lhe as boas vindas. Entretanto, a timidez não o permitia. Inseguro, ele se julgava deveras inferior à borboleta. Suas cores não eram belas como as dela, seu vôo acelerado em nada se comparava à suave valsa que ela dançava com o vento enquanto se deslocava pelo ar. Por fim concluiu que dirigir-lhe a palavra poderia parecer ofendê-la, seria insolência de sua parte.
     Mesmo assim, o contato entre os dois era inevitável, afinal, partilhavam do mesmo jardim. Não raro se cruzavam enquanto voavam por entre as flores. Ele a olhava, mas sempre que ela o correspondia, dava um jeito de desviar o olhar rapidamente. Por vezes ele se escondia por trás de alguma flor só para olhá-la mais de perto. Sempre havia alguma beleza nova a ser descoberta. À distância ele a amava.
     A cada manhã, ele prometia a si mesmo que venceria seu medo e se aproximaria dela. Não sabia ao certo o que faria, mas se conseguisse lhe dirigir a palavra já estaria satisfeito. Se ela lhe respondesse então, seria um sonho realizado. Porém, ele nunca cumpria sua promessa e adiava para o outro dia sua aproximação. “Amanhã eu a conhecerei, ela vai gostar de mim e voaremos lado a lado por esse jardim, mostrando às flores que não há nada mais belo que nosso amor”, dizia para si.
     O colibri não sabia, mas a graciosa borboleta detinha sentimentos semelhantes por ele. Na verdade, ela o amava antes mesmo de ele a haver visto. Ela havia acabado de sair do casulo, preparada para a derradeira etapa de sua vida, quando o viu cortar o ar rapidamente e parar para beijar uma rosa. Ele foi a primeira imagem que ela avistou. Acabou por segui-lo, e descobriu que ele vivia naquele jardim. Decidiu que ficaria ali. Cedo ou tarde eles se aproximariam e ali escreveriam sua história de amor.
     E os dias se passavam e nada mudava. O beija-flor seguia esperançoso, desafiando a si mesmo, diariamente, na tentativa de se aproximar. Enquanto isso a borboleta já não sabia o que fazer, voava perto dele, olhava em seus olhos, mas não era correspondida. Sentia-se rejeitada. Por vezes pensou em aproximar-se do colibri, mas o recato não lhe permitia tal ousadia. Era preciso esperar, cedo ou tarde ele a notaria. E nessa eterna aflição sucediam-se as manhãs.
     Eis que um dia tudo mudaria. O beija-flor, cansado de amar em silêncio, decidiu que acabaria com o sofrimento. Estava disposto a se aproximar da borboleta e dizer-lhe o que sentia. Não se importava que o que aconteceria depois disso, apenas queria ser ouvido. E, assim, preparou-se para encontrá-la. Esperou-a ansioso no jardim, mas ela não apareceu. Imaginou que ela o havia abandonado. Mas não desistiria tão facilmente. Iria encontrá-la, mesmo que para isso precisasse abandonar seu jardim.
     Então, despediu-se de suas flores e preparou-se para partir. Porém, antes que deixasse o jardim ele teve uma surpresa: ao pé de uma árvore avistou-a deitada, quase imóvel, a não ser pela respiração fraca. Ele se aproximou depressa e pousou ao lado dela. Percebeu que a pobre borboleta estava morrendo. Aqueles eram seus últimos suspiros. Utilizando as poucas forças que lhe restavam, ela olhou-o nos olhos.
     Ele diria o que sentia, mas ela o conteve. Queria apenas que ele a ouvisse. Então lhe disse fracamente: “Perdoa-me, mas tenho que partir. Infelizmente não disponho de tantos dias quanto você. Dói-me saber que não o verei por mais uma manhã. Mas alegro-me porque estás aqui. Sei que é tarde, mas saibas que te amo.”. Ao término da última palavra a vida abandonou-a.
     Incrédulo, o pobre beija-flor amaldiçoava o destino, que matou sua felicidade antes que ela pudesse alçar seu primeiro vôo. Sentia ódio de si próprio por não ter não ter dito o que sentia, enquanto podia. Uma vez mais estava solitário em seu jardim. Mas este não era mais como antes. As flores já não tinham cor, seu perfume se esvaíra e até o sol já não brilhava como antes. Desiludido, o beija-flor partiu em um vôo sem fim e jamais foi visto. Depois de algum tempo, outros colibris vieram viver no jardim. E as flores contavam como testemunhas fiéis, a triste fábula do beija-flor e a borboleta.

Fonte Imgem: http://4.bp.blogspot.com/_1ECCrdR7a8M/TKtciky78gI/AAAAAAAAAIg/gSTV_adSfjY/s1600/Beija-flor.jpg

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Timidez

Ó timidez cruel, covardia ingrata,
Que me prende com seus laços,
Forçando-me a seguir teus passos.
Desatino infeliz que maltrata.

De que vale viver a eterna cobiça,
Um sonho vão que me consome,
Que me tenta a gritar este nome.
Que minha pobre alma enfeitiça.

Quisera ter da coragem a posse,
Ser detentor da feroz ousadia
De um notívago que encara o dia,
Sem temer despedida precoce.

Mas tenho por companheira a fé,
Que me incita a buscar o destino,
Ser mais homem e menos menino.
Atirar-me, sem medo, contra a maré.

Ainda sentirei daqueles lábios o gosto.
E amá-la-ei sem receio ou pudor.
E quando virem o sorriso em meu rosto,
Decerto dirão: é sintoma do amor.



domingo, 7 de agosto de 2011

Segunda Chance

    Deu um passo a frente, então ouviu o barulho das grades se fechando atrás de si. Era a última vez que escutaria tal som. Começou a caminhar. Ao seu lado, dois homens armados com fuzis o acompanhavam até seu destino. Levaram-no a uma sala onde pôde enfim reaver seus pertences, dos quais se apartara há exatos dez anos. Nada de muito luxo: uma camisa branca, amarelada pelo tempo; uma calça jeans; um par de sapatos; um maço contendo cigarros tão amarelados quando a camisa; um isqueiro; algumas moedas.
      Ele vestiu as velhas roupas e foi conduzido à saída. A poucos passos do portão principal, parou e olhou para trás. A aparência do lugar mudara naqueles dez anos, mas ainda assim era deveras medonha. De onde estava ele possuía uma visão privilegiada. Tantos lugares. A memória tentou trazer-lhe à mente as más lembranças, mas ele a conteve. Esqueceria aquele lugar, e tudo o que vivenciou enquanto lá permanecera. Seguiu com seu passo firme, mas antes de cruzar o grande portão que o separava da vida nova, olhou para trás uma vez mais. Diria adeus? Não, apenas guardaria aquela imagem.
                                   
      Com o pé direito ele pisou fora da penitenciária. Respirou fundo, olhou as nuvens, estava livre enfim. Iniciaria uma nova vida, mesmo porque a antiga se perdera há muito. Seu crime? Render-se ao desejo infame e desenfreado que sentira pela filha do chefe durante uma festa. Tinha vinte e cinco anos à época. Era um jantar de confraternização com todos os membros da empresa. A garota chamou-lhe a atenção desde o primeiro momento. Seria algo normal, se ela não tivesse apenas oito anos de idade.
      Imaginando que ninguém perceberia, ele desapareceu com a criança enquanto todos estavam distraídos. Porém, bastaram alguns minutos até que um convidado o encontrasse violentando a criança em um dos quartos. A revolta imediata fez com que o sentimento de justiça viesse à tona, aquele instinto bárbaro que se apodera dos homens diante de algo tão execrável. Espancar-no-iam até a morte. Porém, alguém chamou a polícia, que chegou a tempo de levar-lo quase sem vida.
      Por sorte ou destino, como queira, ele sobreviveu. Condenado a dez anos, foi transferido à maior casa de detenção do estado. Foram anos de abusos- de todos os tipos. Diariamente violentado, ele sofria, mas não ousava manifestar-se. Arrependia-se todas as noites, quando o sono lhe faltava. Contava os dias, na expectativa de poder novamente viver. Queria guiar o próprio destino uma vez mais. Jamais perdera a fé. Mesmo sendo o preso mais odiado, não cultivava rancor dentro de si. Tinha plena consciência que era responsável por tudo aquilo.
      Sentir-se livre era um sonho realizado. Uma nova chance, não a perderia. Recomeçaria a vida com humildade.  “Todos merecem uma segunda chance.”, dizia para si. A estrada em frente ao presídio foi seu primeiro desafio. Caminhou bons vinte quilômetros até chegar à cidade mais próxima. Entretanto, o povo de lá não era muito hospitaleiro. Talvez porque era ponto de passagem de todos os ex-presidiários. Não sendo bem recebido, ele rumou para a capital. Venceu uma partida de sinuca em um bar de beira de estrada e ganhou como prêmio uma carona.
      Ao chegar à cidade, surpreendeu-se com as mudanças. Era uma cidade diferente, maior. Em um bairro periférico ele conseguiu um emprego: seria garçom de um restaurante. Embora estive qualificado para algo bem melhor, considerava que o homem que um dia foi havia morrido levando consigo seus títulos e defeitos. Era um novo homem. Em pouco tempo ganhou a confiança dos patrões, que cederam a ele um quarto que ficava atrás do estabelecimento. Tornou-se benquisto pela vizinhança. A nova vida com a qual sonhara era real. O passado já não o atormentava, enfim era feliz.
      Eis que uma noite um jovem casal adentra o estabelecimento. Com a cordialidade costumeira, ele os atende. Eram jovens, comemoravam o aniversário de namoro. Pareciam felizes, mas algo o intrigara: a moça, furtivamente, o encarava. Constrangido, ele pediu que outro garçom atendesse a mesa e saiu para tomar um ar. Observava as estrelas quando ela apareceu à porta dos fundos do restaurante. Ele se surpreendeu com a ousadia. Decerto ela dissera que ia ao banheiro e mudou o rumo, afinal, a porta em que estava era logo ao lado da do banheiro feminino.
      A moça veio sem desviar o olhar dos olhos dele. Esboçou um sorriso e perguntou-lhe o nome. Desconcertado, ele respondeu. Jamais imaginara uma situação como aquela. Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, a moça o beijou. Empurrou-o contra o muro e tentou abrir sua camisa. Ele ia dizer algo, mas ela disse: “Vamos, tempos pouco tempo.”. Embora confuso aquilo tudo o excitava. Na ânsia de saciar a vontade da moça, bem como a própria, ele arrastou-a para o quarto dos fundos.
      Sequer acenderam as luzes, ela o empurrou contra cama. De onde estava ele podia ver os contornos daquele corpo jovial. Ela tirou a blusa e o provocou. Voraz, ele avançou para beijar-lhe os seios. Porém, antes que seus lábios pudessem sentir o calor da bela jovem, ele sentiu algo frio perfurar-lhe a garganta. Caiu de joelhos diante dela com a faca presa em seu pescoço, agora, ensangüentado. Tentou falar, mas o sangue o sufocava aos poucos. Queria olhar para ela, mas a escuridão não o permitia.
      A jovem afastou-se dele e acendeu as luzes. Apanhou a blusa ao chão e vestiu-a. Olhou para o infeliz que agonizava e sorriu. Ele lançou-lhe um olhar de indagação. Ela se sentiu obrigada a responder:
      “Não se faça de desentendido. Pensou que eu esqueceria o mal que me fez? Durante toda a minha adolescência sonhei com esse momento. Só não imaginei que seria tão fácil. Sim, eu sabia que você estava trabalhando aqui. Foi tudo planejado. Ou achas que eu viria a uma espelunca dessas para comemorar meu aniversário de namoro?”
      Enquanto ouvia aquelas palavras, ele sentia seus membros adormecendo. Estava morrendo, mas ainda teve tempo de olhar aquele rosto novamente: a criança que abusara havia crescido e estava cobrando-lhe o preço pelo mal que há muito fizera. Antes de dar seu último suspiro, ela ajoelhou-se diante dele com um pano em mãos. Passou-o pelo cabo da pequena faca que, por sinal, pertencia ao restaurante. Queria apagar possíveis digitais. Este movimento acabou por enterrar ainda mais a faca sufocando-o. Ele tentou puxar a faca, mas já não tinha forças. Ela o encarou novamente antes de ir embora, então disse:
      “A ferida que você abriu jamais cicatrizou. Nunca escapei das lembranças daquele dia. Roubastes minha vida e achou que poderia pagar por isso. Você pagou sua dívida com a justiça, mas não comigo. Todos merecem uma segunda chance, menos você.”
      Após dizer tais palavras, ela saiu rapidamente, mas teve o cuidado de fechar a porta. Sentou-se à mesa com o namorado, que sequer imaginava o que ela fizera naqueles dez minutos de ausência. Jantaram e em seguida foram embora. Os outros garçons notaram a ausência do companheiro, mas só o encontraram horas depois. As mãos sujas de sangue e as digitais dele na faca sugeriram a hipótese de suicídio. Hipótese que foi confirmada assim que a polícia levantou a ficha do moribundo. “Ele era ex-presidiário, abusou de uma criança, não conseguiu conviver com a culpa.”, disseram.