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quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Lancinante amor


Lancinante amor

Passos solitários,
Olhares à lua.
Pensamentos, vários.
Silêncio na rua.


Cigarro aos dedos,
Lágrimas n'olhar.
Infinitos medos,
Vil notivagar.

Maldita saudade!
Sonhar lancinante,
Triste brevidade,
Irreal, distante.

Vã alacridade,
Trazem as lembranças
Das felicidades,
Mortas esperanças.

Consolo em saber,
Que de solidões,
Irão padecer
Outros corações.

Tal justiça injusta
Ameniza a dor,
Dolorosa custa,
Desse atroz amor.

                                                              Robson Heleno



Fonte imagem: http://1.bp.blogspot.com/-V1LUdNe44Lg/Thhq8GeJ8pI/AAAAAAAAAdM/BbRMDsnxI2o/s1600/moon.jpg

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Livre amar


Livre amar

Deixa-me ser livre
Não me prenda em verso
Livra-me da rima
Não faça o inverso



Deixa-me ser sonho
Pois quero evitar
Despertar tristonho
Lágrimas no olhar


Deixa-me, correr
Conheço o caminho
Não vais me perder
Não vivo sozinho


Deixa-me ser eu
Não temas em vão
De alvedrio, sou teu
Não por convenção.


Livre, preso estou,
Pois bem quero assim
Trancado em teu seio
Mas senhor de mim.


Natural amor
Meu a ti entrego
Por ti, assim sou,
Consciente e cego.

                                                Robson Heleno



Fonte imagem: http://www.casalsemvergonha.com.br/wp-content/uploads/2011/10/post-livre-header.jpg

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Sobre rosas e amor

Hoje o Súbito Objetivo completa 2 anos de existência. Obrigado a vocês, meus caros leitores, que me incentivam a seguir escrevendo.
Sem mais delongas, presenteio vocês com este pequeno conto que tentei escrever. Espero ter acertado nas palavras. Obrigado!



Sobre rosas e amor


Por um instante, quis desistir. No entanto, contrariando a todos os avisos, seguiu em frente e pulou o muro. Diante de seus olhos, um belo jardim, onde o predominante verde era marchetado pelo vermelho das rosas. A maravilhosa imagem, o paralisou por alguns segundos. Era mais belo do que podia imaginar. Mas o encanto foi logo superado pelo temor, ao se dar conta do risco que corria. Determinado a não perder mais tempo, caminhou em direção à roseira mais próxima.
Correu os dedos pelas pétalas da mais robusta rosa. Disposto estava a colhê-la. Com cuidado, desceu a mão até a base da flor, tentando encontrar um modo de evitar os espinhos. O nervosismo o fazia tremer. Receoso, ele só pensava em pegar aquela rosa e sair. Quando ia colher a rosa, uma voz grave o surpreendeu:
- Peça pelo menos permissão a ela, antes de colhê-la, já que a mim não pediu. – Falou, calmamente, um senhor de barba grisalha, que o observara desde o início.
Em meio ao susto, o sobressalto, inevitável, fez o jovem arranhar o braço nos espinhos. Espantado, caiu ao chão sem palavras. Lá permaneceu imóvel, aguardando a próxima reação. Mais que tudo, ele queria correr. Mas suas pernas não obedeciam. À sua frente estava aquele que todos temiam: o velho do roseiral. Desde a infância ouvira histórias sobre aquele homem. Ele sabia que, se tudo fosse verdade, jamais sairia dali com vida.
Segundo diziam, aquele homem perdera a sanidade após a morte da esposa. Enquanto ela ainda vivia, havia um belo roseiral, envolta da casa. Este era uma bela visão a todos que passavam perto da propriedade. Era tão bem cuidado. Contudo, quando ela faleceu, ele mandou construir elevado muro no entorno da propriedade, de modo que só se via o telhado casa. Isolou-se, desde então, e jamais deixava a propriedade. Havia quem dissesse que o roseiral não mais existia. Afirmavam outros que ainda estava lá, escondido por trás dos muros. Estes últimos baseavam-se no aroma das rosas, que era possível sentir ao se aproximar do lugar.
Porém, ninguém se aventurava a tentar confirmar se os boatos eram verdadeiros. Temerosos ante a possível cólera contra aqueles que adentrassem a propriedade, preferiam propagar o mito do velho do roseiral, disseminando no imaginário das crianças a figura de um ancião insano, capaz de cometer as maiores atrocidades contra aqueles que ousassem adentrar em seus domínios. Era incrível como essas estórias ganhavam um ar verossímil nas narrativas contadas ao pé da fogueira em noites de luar.
O jovem agora sabia que o roseiral não desaparecera, pelo contrário, permanecia tão vivo e belo como sempre fora descrito. Assim como, tomara conhecimento de que o velho, de fato, também existia. Embora não visse naquele homem idoso a amedrontadora figura que imaginara, temia não viver para relatar tais coisas. Até então, tudo era verdade, havia certa probabilidade de aquele senhor ser, realmente, o tão afamado facínora. Mesmo diante de tamanho risco, o jovem não se arrependia de estar ali. A sua vontade era ínfima ante o motivo que o impelira a cometer aquela loucura. Era uma dessas razões –irracionais- do coração, capazes de suscitar a intrepidez até no mais covarde dos homens.
O velho olhava para o rapaz caído ao chão em silêncio. Parecia igualmente pensativo. Desde que mandara erguer aqueles muros, ninguém jamais invadira suas terras. Até então, julgava ser a proteção alta demais para que alguém tentasse pular. No entanto, enganara-se. Aquele jovem conseguira vencer o obstáculo com uma facilidade admirável. Intrigado, desejava descobrir a razão que fizera o jovem investir em tão arriscada manobra. Afinal, uma queda daquela altura poderia causar a morte.
Fez um breve movimento com a mão, e o jovem fechou os olhos, como se aguardasse o primeiro golpe. O velho sorriu:
- Está com medo? Não pretendo lhe machucar. Assim como a rosa também não pretendia. Apenas o fez porque você quis tomá-la contra sua vontade.
O jovem permaneceu estático, mas com uma expressão de surpresa no olhar. Passados alguns segundos, levantou-se com calma, sem desviar o olhar dos olhos do velho. Com cautela, observou o espaço ao redor. Concluiu que não havia como sair sem ter que passar pelo velho. Disposto estava a correr, mas o velho o surpreendeu:
-Há quanto tempo você gosta dela? – Indagou. Vendo a reação do jovem, teve certeza de que fizera a pergunta certa.
-Como sabe que ela existe? – Respondeu o jovem, assumindo uma distância que julgava ser segura. 
-Como não poderia existir? Não vejo outra razão para alguém pular um muro de cinco metros apenas para colher uma rosa.
Optou o jovem pelo silêncio. Era estranho demais, para ele, falar sobre algo tão íntimo com alguém que, há poucos segundos, imaginava que seria seu algoz. O velho, percebendo o desconforto do rapaz, deu novo rumo à conversa.
-Há alguns anos atrás esses muros não existiam. O roseiral era mais bem cuidado do que hoje é. Eu era feliz.  – Falou enquanto observava uma rosa que pendia de um galho ao seu lado. – Mas o tempo trouxe mudanças: impôs barreiras ao meu coração, assim como eu impus a este roseiral.
-Porque muros tão altos? – Quis saber, por fim, o rapaz.
-Para proteger o roseiral, é tudo o que me resta. – A emoção na voz era perfeitamente perceptível.
-Proteger do que? – Seguiu o jovem, curioso.
-Das pessoas.
-Não entendo.
-Não entende porque você pensa igual a todos. Por isso achou tão simples por a mão em uma das rosas e roubá-la para si, como se tivesse o direito de possuir o que não lhe pertence.
- Mas, é apenas uma rosa. Tantas outras ficariam. Eu só queria uma.
- Apenas uma rosa? Você, realmente, não sabe nada sobre elas. Toda rosa é única, assim como a moça que você deseja presentear. Tal qual esta, as rosas também possuem sentimentos. Se você as trata com carinho, elas desabrocham vivazes, dispostas a encantar tudo a sua volta. Mas se as abandona, perdem o brilho, murcham antes mesmo de mostrar seu esplendor ao mundo.
- Porque então você as esconde do mundo? Acaso as deseja só para si?
-Não. Não seria tão egoísta, meu jovem. Acontece que poucos compreendem o que acabo de lhe dizer. Raros são os que entendem que uma rosa apenas é capaz de transmitir sentimentos, por ser também dotada destes. No seu caso, a flor que pretendias colher sem permissão, deixaria o seio da roseira contrariada. Assim, por mais que tuas intenções fossem puras, elas não seriam transmitidas pela rosa, porque esta traria em si a mágoa por ter sido roubada. Não seria ela capaz de expressar o amor que sentes.
- Mas, eu não sei se o que sinto é amor. O que acontece quando não sabemos o sentimento que possuímos? – O jovem agora já não parecia apreensivo. Perguntava com curiosidade, demonstrando o maior dos interesses na conversa.
- Meu jovem, embora eu não saia daqui, tenho ciência do que se diz ao meu respeito, a brisa me traz o que é dito nas proximidades. Além disso, este muro tão alto não foi construído sem uma finalidade. Qualquer um pensaria duas vezes antes de tentar pulá-lo. No entanto, você o fez com a facilidade de quem não teme. Esta coragem só pode advir de um sentimento verdadeiro como o amor.
- Eu sei que sinto algo forte. Mas não sei se é amor.
- Não precisas saber o que é o amor para senti-lo. Acaso sabias o que era o vento, na primeira vez que o sentistes correr por teu rosto, acariciando levemente teus cabelos? Imagino que não. Da mesma forma é o amor. Quando você descobre o que é o amor, se dá conta que já amava há muito tempo, apenas não sabia dar nome ao que sentias.
-Mas, e se for amor? O que devo fazer? Seria uma rosa capaz de fazê-la amar a mim também?
- Talvez já tenhas a resposta para estas perguntas. Do contrário, não estarias aqui, arriscando sua vida, fazendo de tudo por uma rosa para presentear a moça que detém teus sentimentos.
Pensativo, o jovem silenciou uma vez mais. O sol já começava a se pôr no horizonte. Ele já estava ali a mais tempo do que deveria. Se bem que, tudo havia sido diferente do que fora planejado. Ele jamais poderia imaginar que teria uma conversa como aquela com o tão temido velho senil do roseiral. Olhou para o sol poente. O senhor percebeu:
- Alguém sabe que você está aqui? – Perguntou preocupado.
- Não. Se tivesse dito a alguém, tentariam me convencer a desistir.
- Está escurecendo, você deve ir. Se quiser levar a rosa, eu consinto que a pegue. Mas, antes, precisas pedir permissão a ela, para que não fira seus sentimentos. – Disse sorrindo.
Retribuindo o sorriso, o rapaz caminhou em direção à roseira localizada ao lado do senhor. Com cautela, pediu permissão, e em seguida colheu a rosa que escolhera desde o início. Aproximou-a do rosto e sentiu seu aroma. Agradeceu ao velho e se preparou para sair. Mas o senhor o conteve:
- Esta rosa é a primeira a deixar este roseiral em muitos anos. Cuido destas roseiras com todo o meu afeto, pois são frutos de um amor passado, que insiste em se fazer presente em mim. Em toda a região não existem roseiras que produzam flores vermelhas como estas que aqui estão. Por isso, deves me prometer que, quando perguntarem como conseguistes esta rosa, responderás que viestes aqui e a roubastes. Diga que por muito pouco não perdeu a vida, mostre o arranhão em seu braço, e a estória parecerá convincente.
- Mas, porque devo mentir?
- Deves mentir para manter o roseiral protegido. Quando não havia muros, ele quase foi destruído. As pessoas vinham aqui, com intenções totalmente distintas das suas, e furtavam as rosas. Uns usavam-nas como mera decoração, até que perdessem a vida. Outros simplesmente as vendiam como se fossem uma mercadoria qualquer. Ninguém se importava com os sentimentos das rosas. Sequer acreditavam na existência deles. Por isso, os muros foram erguidos. Durante todos esses anos, dediquei minha vida a este roseiral. Jamais deixei a propriedade, pois sei que elas não sobreviveriam sem mim.
- Mas as pessoas vão continuar inventando estórias sobre o senhor. Agora que lhe conheço, sei que não é o monstro que costumam dizer.
- Prefiro assim, meu jovem. Não me importo mais com o que pensam as pessoas, tenho a verdade das rosas para mim. Prefiro ser tímido e odiado, se este for o preço a pagar para preservar meu roseiral. Do contrário, as pessoas virão e o destruirão novamente. Não sei se terei forças para ressuscitá-lo uma vez mais. – Desabafou o homem, deixando uma lágrima correr por sua face.
- Prometo fazer tudo o que puder para que ninguém ouse tentar vir até aqui. – Disse olhando nos olhos do velho. Em seguida apertou-lhe a mão.
- Que esta rosa e o seu amor sejam aceitos pela moça que amas. Desejo que sejas feliz, como uma vez fui. Se um dia quiseres voltar aqui, ficarei contente em receber sua visita.
-Eu voltarei, prometo. – Sorriu o jovem e em seguida pôs o talo da rosa entre os dentes. Correu através do terreno e por fim pulou o muro. Ao chegar do outro lado, cheirou a rosa uma vez mais. Olhou para trás e sorriu. Sentia que já não era o mesmo. Naquela tarde, não havia apenas vencido seu maior medo. Mais do que isso, aprendera uma importante lição, a qual jamais esqueceria. Uma lição sobre rosas e amor.




FONTE IMAGEM: http://www.infoescola.com/wp-content/uploads/2010/04/rosa.jpg

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Felicidade Delirante

     Calmamente, ele afastou as cortinas com a ponta dos dedos, e lançou um olhar para o jardim do hospital. Contemplou, por um instante, os pacientes, dotados das mais variadas enfermidades mentais. Por fim, deteve seus olhos no jovem que parecia discursar, à sombra da mangueira. Observou-o com calma. De pé, ele falava e gesticulava, deixando escapar um sorriso pelo canto da boca, vez ou outra. Parecia falar para uma multidão de conhecidos. Tamanho entusiasmo impressionaria, não fossem os anos de experiência do observador.
     Decorridos alguns segundos, ele voltou sua atenção ao homem sentado a sua frente. Seu nome era Roberto, colega de profissão há alguns anos. Coincidentemente, tinham a mesma idade. Tinham a mesma formação. Mas, distintos modos de conceber o tratamento das patologias da mente. Roberto, cansado do silêncio, achou oportuno quebrar o gelo:
   “Vou buscar um pouco de café. Quer um pouco, Jonas?” – Mostrou-se gentil.
    “Na verdade, não. Ainda não vá. Conversemos um pouco sobre aquele rapaz.” – Disse e em seguida gesticulou, pedindo a Roberto que se aproximasse da janela.
     Atendendo ao pedido, Roberto chegou mais perto de Jonas e, em seguida, olhou o jovem, que agora já não discursava. Sentado ao chão, parecia escutar a opinião de seus companheiros, fazendo breves intervenções.
     “Você ficou responsável pelo tratamento deste rapaz, não foi, Roberto?” – Disse Jonas enquanto ambos olhavam pela janela.
     “Sim. Desde que ele aqui chegou, sou eu quem tem cuidado dele.”
“Pelo que vejo, trata-se de esquizofrenia. Poderia me falar mais a respeito dele?”
    “Sim, ele é esquizofrênico. Chegou aqui há nove meses. Segundo o que me foi dito, ele cresceu em uma vila não muito longe daqui. Uma destas que, nestes tempos de guerra, é invadida e pilhada pelos inimigos. Aconteceu isso com a dele. Ele foi o único sobrevivente.”
      “Isso foi há muito tempo?” – Indagou Jonas.
     “Não sei dizer. Quando ele chegou, já manifestava os sintomas de esquizofrenia. Ele só costuma falar quando está sozinho.”
     “Como anda o tratamento dele? Pelo que posso ver, não houve muito progresso.”
   “Não diria isso. Há alguns meses, comecei por ministrar medicamentos para tratar a esquizofrenia e atenuar os sintomas. Nas primeiras semanas, obtive certo êxito. Mas nada muito animador. Ele seguia sem falar com ninguém. Após algumas semanas tentando, achei por bem suspender a medicação.”
   “Mas por quê? Se havia a possibilidade de evolução, ainda que lenta, porque suspender a medicação?” – Havia um tom de indignação na voz de Jonas, daqueles característicos de quem está prestes a censurar um comportamento.
     “Sabe Jonas, nem sempre o que a medicina julga ser o melhor para o paciente, acaba o sendo.” – Respondeu com um sorriso ante a exaltação do colega.
     “Justifique-se!”
     “Eu o farei. Olhe para aquele jovem. Vê o sorriso em seu rosto?” – Lá embaixo, sentado ao pé da mangueira, o rapaz sorria como se aquele fosse o dia mais feliz da sua vida. – “Este foi o motivo pelo qual suspendi o tratamento.”
    “Não consigo compreender seu raciocínio. Seja mais explícito, por favor.” – Jonas já estava impaciente. Começava a achar que Roberto estava sendo negligente.
   “Pois bem. Após algumas semanas de tratamento com medicamentos, a esquizofrenia não havia sido totalmente controlada. Houve uma piora no quadro. O rapaz mantinha-se isolado e não se alimentava mais. Não conversava com os psicólogos, ignorava a todos. Quando estava sozinho, chorava. Aos poucos, foi desenvolvendo um quadro de depressão, que culminou com uma tentativa de suicídio.”
     “E você achou que abandonar o tratamento era o melhor a ser feito?”
   “Sim. Veja o quão feliz ele parece agora. Após alguns dias sem o medicamento, o quadro de depressão foi cessando aos poucos. Ele voltou a alimentar-se. É certo que ele permaneceu a tendo alucinações, falando sozinho. No entanto, já não havia tristeza. Sorria e era feliz. Tenho a teoria de que ele vive a ilusão de que não aconteceu o ataque à vila em que morava e que todos aqueles que ele ama estão ao seu lado novamente. Acho que é isso que o faz ser tão alegre.”
     “Então é isso? Preferes manter um paciente enfermo a tentar oferecer-lhe a cura?”
    “Cura. Para quê tentar se os progressos foram mínimos, e se assim ele é feliz? Porque tentar curá-lo e trazê-lo de volta a um mundo onde a vida que ele tinha lhe foi tirada e não há qualquer razão que o faça querer viver? Somente para provar para nós que nossa medicina é capaz de recuperá-lo? De todo modo, ele há de passar o resto da vida aqui, então, prefiro vê-lo atrelado a essa felicidade delirante. Se pretendes me censurar, saiba que pouco me importa. Quisera eu poder me perder em um mundo de felicidade eterna, como o dele. No entanto, assim como você, sou obrigado a viver nesse mundo de sanidade, onde mais vale ser normal do que ser feliz. Eu invejo aquele sorriso, porque sei que ele é real, mesmo sendo motivado por um delírio.” – Disse, em tom de desabafo.
    Em seguida, afastou-se da janela e sentou, aguardando a resposta do colega. Jonas perdeu o olhar pelo jardim por mais alguns segundos, enquanto parecia pensar. Voltou-se ao colega, mas nada disse. Em seu íntimo, sabia que concordava com ele. Não com relação ao tratamento do paciente. Mas sim quanto ao fato de também desejar viver outra vida que não aquela. Quisera ele, também, poder sucumbir a uma felicidade delirante.