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domingo, 24 de fevereiro de 2013

Clichês


Encontros de olhares - um dialogar sem palavras. Uma bebida oferecida e lá estávamos nós, partilhando informações de nossas vidas. Ela, uma viciada em trabalho que “trocara” um casamento por uma carreira de sucesso. Eu, um solteirão que sempre teve mais sorte que talento, mas que gozava da estabilidade que um bom emprego pode oferecer. Experiências de vida distintas nos tornavam interessantes, um ao outro. Telefones trocados, beijos também. Um adeus que dizia “até logo”.

Uma semana depois, um encontro. Jantar, conversa, sorrisos. Afinidades poucas, diferenças tantas. Ela parecia discordar de mim de propósito, como ninguém jamais o fizera. E isso a tornava tão interessante. Mas, ainda assim, estava envolvida. Atenciosa, parecia saborear cada palavra que eu dizia, enquanto corria os dedos pelos cabelos - charmosa. A noite avançou até minha casa. Vimos o amanhecer entre suspiros e gemidos. E foi assim que personificamos o clichê dos opostos que se atraem.


As semanas que se seguiram foram de doces descobertas. Aos poucos mostrávamos nossos segredos: os sonhos, as lembranças de infância, os medos, as fraquezas. Essas coisas que partilhamos com quem entra em nossas vidas pretendendo nela permanecer. As diferenças já não pareciam incomodar, sempre havia alguém disposto a ceder frente à opinião contrária. Não sabíamos, mas isto nutria em nós (ou pelo menos em mim) a ilusão de que, cedo ou tarde, alguém iria mudar, tornar-se aquilo que o outro desejava.

A relação evoluiu, quando os dias tornaram-se meses. Estávamos mais íntimos, e isso nem sempre era algo positivo. As “formalidades” foram se perdendo.  Meu cavalheirismo se esvaía, era agora algo prescindível.  Assim como a vaidade já não parecia ser mais tão necessária a ela. Já não procurávamos esconder nossos defeitos, fazendo-os, amiúde, mais evidentes. Acostumados um ao outro, pareciam já não haver surpresas. Sem perceber, tornamo-nos previsíveis.   

Ainda assim, algo mantinha-nos unidos. Arrisco dizer que era amor. Afinal, dizem que quando não há mais nada, somente ele prevalece, "o amor a tudo vence" – outro grande clichê. Mesmo quando não houve razões para permanecer unidos, seguimos em frente. Contudo, esse tal amor é injusto, nem sempre vem nas mesmas proporções. E conosco ele também foi marcado pela assimetria. Alguém amava demais e outro de menos. Mas isso é algo que só é perceptível por aquele em quem o amor pouco se manifesta. Infelizmente, esse não era eu.

O passar dos anos deu-me a certeza de que seria para a vida inteira. Mesmo que o mundo tentasse me mostrar o contrário, eu pouco me importava em viver aquela eterna contradição. Era ela quem me fazia feliz, afinal. Fiz planos para nós, sonhei com o futuro. No entanto, surpreendido fui, quando ela se foi sem nada dizer. Sem perceber, eu insistia em alongar uma estória cujo final há muito já havia sido escrito. Para meu azar, não quis ela realizar ao meu lado o clichê - utopia, na verdade - dos “felizes para sempre”. 


Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhTnCbBBkclLrY3kF4HWAbc9LWpInsdZvSSSiQEvwn4Sy2km_mlwKrg-i1-aqOPwiI5MmdYDFwNjoWFwd5laH-OMzgf9GLFgKCho-9Lme43aE1u3sWzmpOHneVZGZee_MW-0oPX0VRuGBqw/s320/os_opostos_se_atraem.jpg

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Instinto


    Sob o pratear da lua, eu destilava olhares e cantadas medíocres à jovem sentada à mesa junto a mim. Seu nome era Inês, e detinha de todo o meu olhar. Personalidade forte, respondia as minhas perguntas com a indiferença de quem apenas deixava o tempo passar. Cansado de meu quase monólogo, incitei-a a fazer perguntas sobre mim. “Quantos anos você tem?”, perguntou, após longo silêncio, olhando-me nos olhos pela primeira vez na noite. Embora desejasse mentir, fui sincero: “Tenho quarenta anos”.

  Ela ficou em silêncio. “Até quantos pretendes viver?”, foi a resposta que dela obtive. A pergunta pareceu-me estranha, incomum demais. Preferi descontrair: “Sei lá, até uns cem, eu acho”. Recebi outro olhar, de interesse agora. Em minha ingenuidade, jamais poderia imaginar o quão decisivas aquelas perguntas eram. Minhas respostas forneceram os dados que ela necessitava. Palavras que tomaram as rédeas da noite, que, ao contrário do que eu ousei imaginar, não seria tão longa.

    “Faltam cinco minutos para meia noite, já é tarde”. Disse ela e, em seguida, chamou o garçom. Pediu a conta e levantou-se da mesa. Sem entender, perguntei se havia dito algo de errado. Ela sorriu: “Não. Apenas acho que devemos conversar em um lugar mais reservado. Sua casa, talvez”. Surpreso, apenas assenti com a cabeça e sorri por dentro. Fiz questão de pagar a conta, e me desfiz em galanteios no caminho até meu apartamento. Ela parecia indiferente a tudo, mas me dardejava olhares encorajadores.

    Quando no elevador, tentei beijá-la. Mas, ela me repeliu. Queria deixar claro que era a dona da situação. Sem ter mais o que fazer, fui paciente. Ao chegar, deixei-a e entrar primeiro. Ao acender as luzes, o cetim do vestido brilhou ao chão: completamente nua, ela me observava. Pensei, naquele instante, saber perfeitamente quais eram as intenções daquela estranha. Uma vez mais, fui ingênuo. A nudez expõe, mas não revela. Não revela pensamentos, intenções. Quando aprendi isso, já era tarde demais.



   Ao vê-la daquela forma, despida, exposta, tive a conhecida sensação de domínio. Arranquei minhas roupas e, voraz, fui ao encontro daquelas curvas. Avancei com força e caímos, entre beijos e carícias, sobre sofá. Deixei o corpo falar por mim, cedi ao desejo, ao instinto – minha fraqueza. Queria possuí-la, mas meus toques não correspondiam de todo à minha vontade. Sentia um leve torpor me dominar, e o vigor se perder. Até que, por fim, me vi imobilizado. Com um leve empurrão, ela me jogou ao chão. Em seguida vestiu-se e veio senta-se em um lugar próximo a mim.

    Eu tentei falar, mas já sentia a dificuldade até para respirar. Ela olhou o relógio. “Faltam dez minutos para uma hora, já é tarde”. Olhou-me com a indiferença conhecida pela última vez. Seguia rumo à porta quando, num esforço desesperado, consegui balbuciar a última pergunta da minha vida: “Por quê?”.

   Ainda de costas, ela principiou um monólogo que eu talvez compreendesse, não estivesse a vitalidade me deixando. Recordo apenas de algumas frases. Algo como: “Sempre permito que os anos desejados sejam minutos...Não haverá dor, talvez agonia...Apenas cinco minutos até a droga fazer cessar os batimentos cardíacos...Vocês são sempre iguais, querem sempre a mesma coisa...Desde que eu era apenas uma menina...O tempo passa, nada muda...Vocês não merecem a vida...Não é trauma, não é vingança, é apenas instinto...”


Fonte imagem: http://extra.globo.com/incoming/3524599-32d-c7a/w640h360-PROP/2011122012622.jpg

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Soft Porn

“O sussurro grave ao meu ouvido, mais que uma promessa, era um convite ao prazer. Aquela era a resposta após tantos meses de flerte disfarçado em cortesia. Desde o primeiro dia, nos desejamos, mas as coisas não eram tão simples. Ele era casado, eu noiva. De todas as formas, aquilo era errado. Confesso que sabia que cedo ou tarde algum dos lados ia ceder. Mas, ao primeiro toque, percebi que seriamos nós dois a sucumbir ao desejo.

Fechei os olhos, e senti que já não poderia resistir. Quis me controlar, repelir a investida, mas não tive forças, ou não quis ter. Aqueles dedos se enterraram em meus cabelos, agarrando-os em seguida e puxando-me para si. Ante a intensidade daquele beijo, minhas palavras convertiam-se em suspiros. Quis pensar nas consequências, mas não tive tempo. As mãos firmes percorriam meu corpo. Querendo ou não, o pecado estava sendo cometido. Se seria punida de qualquer forma, porque não aproveitar?

Abri os olhos e, como quem desperta de um sonho, assumi o controle da situação. Mas dessa vez estava obstinada. Avancei com furor sobre ele, atirando-o sobre a mesa do escritório. Surpreso com a iniciativa, ele se deixou dominar. Os documentos, outrora tão importantes, agora ocupavam papel secundário, caídos ao chão. O calor aumentava, e logo foram nossas roupas que se tornaram desnecessárias. O despir violento não se importava com os botões que se perdiam.
O ardor do momento nos fazia ignorar os limites. As persianas entreabertas permitiam que alguém do prédio vizinho avistasse facilmente nossa cena, que ali se desenrolava. A porta destrancada era um facilitador para um possível flagrante. Se alguém nos visse, nossas carreiras e vidas estariam destruídas. Mas nós simplesmente não nos importávamos com isso. Aquele risco apimentava as coisas. A sensação de perigo e o prazer se entrelaçavam em meio à nossa lascívia.

Nossos corpos se envolviam em meio ao suor, no entanto ainda havia uma barreira a ser vencida. A última parte da minha lingerie, era o derradeiro limite. Eu desejava me livrar da minha calcinha que, embora pequena, agora me sufocava. Mas resisti , pois queria que ele me libertasse. Estremeci quando ele baixou-a até os joelhos. Displicente, deixou os dedos passearam por entre as minhas coxas até que enfim alcançaram minha...”

     Dona Olga então largou o livro. Sentia um calor familiar se espalhar por seu corpo. Excitada pela imaginação, quis ser tocada como a personagem descrevia. Mas o ronco do marido, que dormia ao seu lado, logo fez com que tudo se dissipasse. Olhou o relógio e viu que era tarde. Precisaria acordar cedo, levar as crianças à escola, cuidar da casa. Fechou o livro e o pôs sobre o criado mudo.

     Em seus pensamentos, invejava a personagem do livro. Indagava se algum dia tivera algo como aquilo. O sexo mensal era muito mais uma obrigação que um deleite. Lançou um último olhar para o livro. A literatura soft porn era agora sua única fonte de prazer. Mas, a julgar pela frase na capa, que dizia algo como “Mais de 1 milhão de exemplares vendidos”, concluiu que não devia ser a única. Infeliz consolo. Por fim, conformou-se. Adormeceu, então, sufocando a vontade, como era de costume.



Fonte imagem: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh8k_eKfAzcoFJ8AKCi2L8ymmpK2WJ6YqjHhXxWygToGR0060Y24019ZAaByxjNPgMPCKbvneCBgyEnHUIV1mGDL09cMoSQ6pV3ZDuk6YwSsA6XqYqBqFGO9r2dnSHSu92mA9XRNCREhhA/s1600/sexo+(1).jpg

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Fragilidade


     Vestiu-se de orgulho e respondeu: "Na verdade, não lembro. Não sinto falta!"; quando perguntada sobre há quanto tempo estava sozinha. Aquele tipo de resposta firme combinava mais com a personagem que escolhera representar. Aquelas roupas, maquiagem e atitudes não lhe pertenciam. Mas eram necessárias. A vida não reconhece fragilidade, bate com força, para machucar. Ela bem sabia. Sabia também que aquela resposta jamais fora verdadeira. Seu coração tinha o registro perfeito de cada segundo desde aquele adeus. Ela se odiava por isso. Contudo, na guerra não se pode fraquejar.

     As amigas, diante daquela resposta, reagiram de diversas maneiras. As jovens devotaram-lhe um olhar de admiração. As mais maduras, ceticismo. Estas conheciam bem aquele jogo, em algum momento da vida já haviam se utilizado de estratégia semelhante. Contudo, não ousariam atentar contra a máscara da semelhante. O inimigo era outro. Por fim, convencionou-se um brinde e algumas gargalhadas. É preferível o sorriso às lágrimas. Afogue-se a tristeza em álcool, faça-se crer feliz, e o mundo a sua volta parecerá mais belo.

    Desde o término do casamento, ela não saíra. Aquela era a primeira noite de uma nova mulher que nascia. Era o que ela dizia para si. É certo que há muito o trabalho era seu único amante. O cotidiano quis, aos poucos, sufocá-la com sua monotonia. Mas ela não se rendeu. Quis recomeçar. Mas a renovação precisava ser visível, por isso a mudança radical de estilo. Para convencer mais, uma nova postura precisava ser adotada. Por isso as palavras e gestos falseados. Ela incorporou bem a personagem. Atraiu atenção. Adquiriu confiança.

     Após algumas bebidas, já acreditava ser essa “femme fatale”, que dardejava olhares, intimidando até o mais ousado dos homens. Sentia-se fera, era preciso escolher a presa. Alguém, por fim, agradou-lhe. A barreira do primeiro olhar foi vencida. Alguém haveria de se aproximar. Em outros tempos, o recato a impediria. Mas a mulher de agora não podia esperar. As amigas ansiavam por seu movimento. O olhar de dúvida de algumas era o melhor dos incentivos. A atitude é a melhor das provas. Aquele seria seu teste.

    Quis levantar-se, mas uma mão pousou em seu ombro. O olhar de espanto no rosto das amigas confirmou aquilo que ela já sabia. Olhou para trás: com um sorriso cínico, o ex-marido parecia estar ali para cumprimentá-la. Contudo, a julgar pela bela mulher que o acompanhava, pareceu mais uma afronta. Ela sentiu-se ruir por dentro. Não estava preparada para aquele encontro. Fugiria se pudesse. Um turbilhão de lembranças varreu sua mente numa fração de segundo. Mas tratou de matá-las. Sentiu uma lágrima nascer.

     Entretanto, como antes fora dito, ela sabia interpretar bem a personagem. Sufocou a lágrima delatora e voltou-se a ele. Com um sorriso no rosto, cumprimentou o ex e sua acompanhante. O ar de rigidez adotado permitiu, inclusive, ironizar a aparência da moça. Sentindo-se ofendido, ele se foi. Não preciso dizer que este gesto rendeu alguns outros brindes. A atitude despertou a admiração de todas. Ela estava orgulhosa de si. Regozijou-se de seu feito. Convencida de que não havia mais nada a provar, quis ir pra casa. Este foi seu erro.

     A madrugada às vezes é mais fria. Ela sabia disso, mas esquecera. Quando se viu sozinha, diante do espelho, não pode se enganar. Ao remover a maquiagem, era como se desse adeus à personagem. Estava desprotegida novamente. Não podia resistir nem mesmo a si mesma. A lágrima suprimida horas atrás voltou, acompanhada de muitas outras. Ela não quis as conter. “A mudança que vem de dentro sempre demora um pouco mais”, dizia para sim. Abraçou-se ao travesseiro e chorou até adormecer a dor. Amanhã voltaria à personagem, afinal o mundo não precisava conhecer sua fragilidade.



Fonte imagem: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhOPnwmIE8pXIROEpyWDXLhgNNEkaMCgK5KBGCsNH-tpUI94eBPvHDxtCHartBHxh-ABE-q5qH9Hho8jthTlEIsjDy19NMdy3cVcP9-vqfuRrszJSPgaYfSF86L1Vp7nnPeYr_8tGEsWaub/s400/tumblr_lb88saa2891qb5buto1_500.jpg

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Esquecido


A lua já correu o céu muitas vezes, desde aquele primeiro encontro. Não recordo o ano, mas, em minha memória, sei que era novembro, e que ela fazia aniversário naquela noite. Diante dos olhares de todos os presentes, fomos apresentados. A timidez inicial se perdeu em meio a empatia instantânea que entre nós surgiu. Ao primeiro sorriso, eu senti que aquele era apenas o início de uma longa história. Ao o primeiro abraço carinhoso, descobri que ali nascia o nosso amor.

Após aquela noite, nossas vidas se uniram, como se fossem partes de um todo que, antes separadas, agora haviam se encontrado para permanecerem assim para sempre. Passávamos grande parte do dia juntos. Durante as noites eu ficava ao seu lado em silêncio, velando por seu sono, esperando amanhecer para receber minha maravilhosa recompensa: o primeiro sorriso do dia. E como ela gostava de sorrir para mim. Aquele riso era a personificação de minha felicidade.

Nossa relação se fortalecia dia após dia. Eu era seu confidente, conhecia os maiores segredos daquele coraçãozinho. Eu estava com ela em seus momentos felizes. Quando ela estava triste, meu abraço a consolava. Se ela sentia medo, lá estava eu para encorajá-la com minha presença. Durante muito tempo foi assim. Acompanhei as mais belas fases daquela vida, devotando todo o amor que podia. E sempre fui fiel, pois somente a ela pertenciam meus abraços.

Os anos se passaram e pude contemplar de perto o alvorecer de sua juventude. A vi tornar-se mais bela, enquanto lapidava os contornos de sua personalidade. Confesso que sentia-me, a cada dia, mais encantado por ela. E eu não era o único, ela agora despertava olhares - sentimentos - em todos aqueles que por ela passavam. Mas, embora aos olhos do mundo agora ela fosse outra, eu poderia ver por trás daquele sorriso, a menininha que há muito eu havia conhecido.

Sem que me desse conta, as coisas foram mudando. Já não passávamos mais tanto tempo juntos. Havia dias em que eu mal a via. Em outros ela simplesmente não me dava atenção. Ela estava sempre ocupada demais, pensando em muitas outras coisas. Eu já não sabia tanto de sua vida. Solitário, eu sofria. Contudo, vez ou outra ela vinha até mim, com aquele jeito meigo que eu já conhecia. Isto bastava para me fazer esquecer tudo.

Mesmo diante de todas as mudanças, eu me convencia de que, cedo ou tarde, as coisas voltariam a ser como antes. Enganava-me, porém. Certo dia, veio ela até mim. Enchi-me de amor esperando por sua atenção. Mas, ela simplesmente me tomou pelo braço, e me escondeu no armário. Eu não entendia o que acontecia, até o momento em que alguém entrou no quarto junto a ela. Escondido na escuridão solitária, a ouvi falar àquele estranho palavras de amor, como um dia dissera a mim.

Revoltei-me, mas nada podia fazer. Decidido estava a tomar satisfações quando ela viesse me libertar da prisão em que havia me enclausurado. No entanto, alguns dias passaram e ela não apareceu. Meus olhos, agora acostumados à escuridão, pediram-me para explorar aquela maldita prisão. Permiti, e só então tomei conhecimento de tudo: naquele armário estavam guardadas diversas coisas conhecidas por mim, que eu há muito não via; dentre elas, jaziam os brinquedos que ela ganhara na noite em que nos conhecemos.

Entristecido, observei todos aqueles brinquedos, duramente banhados pela poeira do esquecimento. Lembrei-me que, no decorrer dos anos, aos poucos ela os havia substituído por outras coisas. Encegueirado pelo amor, eu ignorara todos aqueles sinais. Como havia sido tão ingênuo, a ponto de achar que jamais chegaria minha hora. Recordo que alguém me dissera, certa vez, que aquele seria meu destino. Maldita profecia acertada.

Agora eu sabia que, entre mim e as demais coisas daquele armário, havia algo mais em comum, além do fato de partilharmos o mesmo espaço: a poeira também recairia sobre mim, e eu também seria esquecido. Ainda assim, eu não conseguia ter por ela outro sentimento que não fosse amor. Já que não mais estaríamos juntos, pelo menos restavam-me as lembranças, a elas me apeguei. Prometi a mim mesmo que todos os dias relembraria nossa história, como agora acabo de fazer. Apenas faço isso, pois, mesmo sabendo que serei esquecido, fui feito para amar, e a amo demais para esquecê-la.



Fonte imagem: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg7P68lymvxxg9DvW8h5DFuP47GGqy1Bb4reabOY3o0NlzyUSs3H72IhU5IVNwlHCezjJovHHoWw_SmBRXUc9lkO7GtGSv8mB5FbRCOJ5YqZR-JQalMsEVFLWKk6kLBOa4ICF86OtZqZmI/s400/Bear_Hug_by.jpg

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Próximo ato


       Caro leitor, agradeço a você que acompanhou o Súbito Objetivo no decorrer deste ano. Espero que neste ano que se iniciará, eu possa continuar, com meus humildes textos, agradando cada vez mais. Este é o último post do ano, portanto, desde já desejo-lhe um Ano Novo de prosperidade e felicidades. Obrigado.
                                                                                 Robson Heleno



                                                   Próximo ato

     O fim de mais um ato se aproxima. Contemplamos agora seus momentos derradeiros. O clímax se apresenta para alguns, encaminhando o desfecho de situações surgidas no decorrer deste ato, ou mesmo advinda de atos anteriores. Novos conflitos surgem também, ensejando o enredo que haverá de se desenrolar no novo ato vindouro. Alguns comemoram com felicidade a conclusão de mais esta etapa do espetáculo. Outros vivem o receio de que, talvez, não tenham mais muitos atos pela frente. As emoções se entrelaçam.

     Um breve olhar para trás nos revela as tantas cenas que compuseram este ato. Intenso, passou por nós apressado, gerando o típico espanto quando nos vemos diante de seu término. Entre uma cena e outra, nos deparamos com incontáveis personagens, cujas estórias se encontraram por obra do acaso, ou não. Houve também vidas que se apartaram, para que novas linhas pudessem ser escritas. Muitos foram os novos personagens introduzidos à trama neste ato. Mas, infelizmente, tantos outros também tiveram que deixa-la. Faz parte do show, afinal.

     Diversos acontecimentos importantes marcaram esta fase. Houve até quem ousasse repetir, quem sabe para criar mais tensão, o conhecido boato de que a peça teria fim, que este seria o último dos atos. E, acredite, mesmo sendo a piada conhecida, ainda teve gente que achou graça. Outros se atemorizaram, tratando de resolver suas pendências às pressas, para que não restassem arestas ao final precoce do espetáculo. Entretanto, como fora das outras vezes, foi apenas uma mentira, daquelas que, de tão mal contada, não se sabe porque atrai atenção.

     O fato é que aqui permanecemos, encenando no palco da vida. Não houve fechar repentino de cortinas. O show continua, como sempre. E, ouso dizer, ainda há muito por acontecer nestas últimas cenas que agora se desenrolam. É preciso nos preparar para as cenas que virão.  Pois esse ato que agora se encerra, será logo sucedido por outro. A estória não tem intervalos. Talvez por isso, certa vez, disse um sábio que ‘a vida é uma peça que não permite ensaios’. Nunca palavras foram tão certas. Afinal, as cenas simplesmente acontecem, são espontâneas. A nós, personagens, cabe apenas vive-las da mesma forma.

    Se, no decorrer deste ato, sua estória não teve mudanças significativas, não desanime. Reviravoltas sempre são possíveis. O destino é quem sabe. Muito do que acontecerá, dependerá de você. É certo que, nos bastidores, existe algo maior que nós que, de uma forma ou de outra, opera para que a estória siga certos rumos. Alguns chamam de destino, outros de Deus, outros de acaso. Ainda assim, somos livres em nossas escolhas, e elas são determinantes. Lembre-se sempre que nossas conquistas e derrotas dependem, sobretudo, de nós mesmos. Afinal, neste grande espetáculo da vida, somos, ao mesmo tempo, autores, espectadores e personagens. Que venha o próximo ato! 



fonte imagem: http://www.passandoalimpo.com/feliz-ano-novo.jpg

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Lancinante amor


Lancinante amor

Passos solitários,
Olhares à lua.
Pensamentos, vários.
Silêncio na rua.


Cigarro aos dedos,
Lágrimas n'olhar.
Infinitos medos,
Vil notivagar.

Maldita saudade!
Sonhar lancinante,
Triste brevidade,
Irreal, distante.

Vã alacridade,
Trazem as lembranças
Das felicidades,
Mortas esperanças.

Consolo em saber,
Que de solidões,
Irão padecer
Outros corações.

Tal justiça injusta
Ameniza a dor,
Dolorosa custa,
Desse atroz amor.

                                                              Robson Heleno



Fonte imagem: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiToZbPMWBUP1VIIUae1RC1IamiLo1fuXnrLI5kAklV9va7wL83bLYpVfhDPJc6hOKhzz_LUwbA0zv7pnF78TxkZos8RxGv-qtD5p8-hFhupNxo9gQt99eYAeZsW1TNPl4Y-f-Wz37r4RY/s1600/moon.jpg