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sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Liberdade

     "Eis as provas. Basta abrir o envelope e as duvidas já não habitarão seus pensamentos."  – Disse o detetive, após deixar o envelope sobre a mesa da lanchonete em que se encontrara com Miguel.
     Este observou o pacote por alguns instantes. Em seguida pôs outro envelope sobre a mesa, o qual o detetive apanhou com ligeireza. Ambos abriram os pacotes ao mesmo tempo. As reações foram completamente dispares: o detetive sorria ao conferir as cédulas que retirara de seu envelope; Miguel deixava escapar lágrimas silenciosas enquanto observava calmamente as fotos que retira do seu.
     As imagens eram parecidas. Os mesmo elementos as compunham: o quarto era o mesmo, a mulher também, o homem idem. O elemento distinto de uma foto para outra eram as roupas que os personagens usavam, o que denotava uma sucessão de dias. A mulher era Ângela, esposa de Miguel; o homem Renato, um conhecido do homem que observava as fotos. As imagens eram comprometedoras, a priori mostravam os dois trocando carícias, porém a última fotografia mostrava-os transando sobre a cama.
     Percebendo as lágrimas de Miguel, o Detetive principiou uma frase de consolo, mas bastou um olhar de seu cliente para que percebesse que o melhor que seu silêncio era mais conveniente ao momento. Miguel levantou-se. Deixou sobre a mesa algumas notas para que o outro pagasse a conta e saiu. Seus passos eram firmes, confiantes. Mas as lágrimas insistiam em escapar de seus olhos. Entrou no carro obstinado. Apanhou a arma que estava no porta-luvas, conferiu as balas. Partiu sem pressa rumo ao prédio em que residia.
     Aquela era uma manobra atípica. Miguel deveria estar trabalhando naquele horário. Mas, conseguira a tarde de folga após negociar com seu chefe. Passados três meses de investigações, Miguel enfim tinha certeza. Era esta quem o guiava agora. Se o Detetive não estivesse enganado, aquele era o horário em que os dois costumavam se encontrar. Mais alguns minutos e eles seriam flagrados. Não haveria como argumentar. Miguel ainda vertia lágrimas, mas seu olhar parecia mais sereno.
     Ao chegar, Miguel avistou o carro de Renato parado na vaga de estacionamento do vizinho. Estacionou o carro em sua vaga costumeira. Usaria o elevador, mas preferiu as escadas. Talvez quisesse um pouco mais de tempo para refletir sobre o que faria. As lágrimas já haviam cessado. Apenas a mão esquerda tremia segurando o revólver. Após subir as escadas, Miguel atravessou o corredor que levava ao seu apartamento. Enquanto caminhava, observou a porta do apartamento vizinho e pareceu hesitar. Mas seguiu em frente.
     Assim que entrou na sala de seu apartamento, Miguel notou o som abafado que vinha do quarto. A porta estava fechada, mas ainda assim era possível escutar os gemidos. Ele caminhou até o lugar de onde vinham os sons. A mão que segurava a arma já não tremia. Com a outra mão ele abriu a porta e adentrou rapidamente. O casal foi tomado pelo susto. Os dois o olhavam com a arma em punho. Os gemidos libidinosos de Ângela agora eram substituídos por um choro amedrontado. Renato pedia a Miguel que ele se acalmasse. Ângela tentava, em meio às lágrimas nervosas, esboçar um pedido de perdão.
     O olhar frio e a expressão firme no rosto de Miguel conseguiam ser ainda mais assustadores que a arma que ele tinha em mãos. Renato e Ângela, que outrora partilhavam do prazer, agora dividiam a certeza de que morreriam. Miguel caminhou até a cama onde os dois tremiam envoltos no lençol molhado de suor. O casal fechou os olhos e se abraçou. Morreriam juntos. Esperaram o som dos tiros. Mas tudo o que escutaram foi o “adeus” de Miguel. Abriram os olhos e puderam vê-lo saindo pela porta. Ele havia deixado a arma sobre a cama.
     O casal não entendeu o significado daquilo. Ângela estava estática, temendo que Miguel retornasse para enfim matá-los. Renato imaginava que ele o estaria aguardando para um duelo ou coisa parecida, por isso havia deixado aquela arma. Mas ambos estavam enganados. Miguel jamais voltaria. Após cruzar a porta do quarto, ele trazia um inexplicável sorriso de felicidade no rosto.
     Atravessou o corredor e parou diante da porta do apartamento vizinho. Bateu à porta, ansioso. O homem que a abriu tinha um olhar aflito, que clamava pelas palavras que Miguel tinha a dizer. Mas, antes de dizer qualquer palavra, este lhe beijou os lábios com emoção. Mas o rapaz queria alguma resposta, e só ficou satisfeito quando Miguel sussurrou em seu ouvido:
     “Acabou. Acabou o fingimento. Agora somos livres. Já não preciso viver com ela. Chega dessa farsa. Enfim serei feliz.”
     O rapaz esboçaria ceticismo, mas o brilho no olhar de Miguel não mentia. Ele falava a verdade. Enfim os dois poderiam assumir para o mundo o que há tantos anos escondiam. Miguel já não precisava fingir. A vida de antes ficara para trás. Aquele envelope de fotos fora sua carta de alforria. As lágrimas, o grito silencioso de liberdade. A arma abandonada, o último resquício de uma vida não lhe pertencia. Miguel enfim era livre para viver aquele amor.


sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Abismo


Abismo

E eu suspiro descontente
Por meus pecados – aflito.
Compreeder-me? Não tente,
Apenas ouça meu grito.

Eu encaro minhas vaidades:
As maldições do meu eu.
Castigam-me as saudades,
De tudo que se perdeu.

Com minhas solidões reflito.
Meu espelho apenas reflete
O meu vazio infinito,
Mas não minha alma inerte.

Mas não quero escapismo,
Que aos covardes encanta.
Permanecerei no abismo.
Eu e minha loucura santa.

Encontrarei no futuro
Todas as razões irracionais.
E então estarei seguro
Com minhas paixões imortais.



quinta-feira, 18 de agosto de 2011

O Beija-flor e a Borboleta

     Caros leitores, eis minha primeira tentativa de escrever algo que se assemelhe a uma fábula. Portanto, conto com vocês para manifestarem sua opinião quanto ao texto. Aos que desejarem, comentem e digam o que acharam. Desde já grato.


                                                                                    Robson Heleno






         O Beija-flor e a Borboleta


    Os raios de sol reluziam sobre as pétalas orvalhadas das flores, refletindo diferentes cores, acentuando-lhes o brilho. Eram rosas, violetas, margaridas, uma infinidade de flores que coexistiam em harmonia. Orgulhosas por suas belezas, sentiam prazer em deixar seus doces perfumes no ar, os quais o vento carregava com prazer até o olfato daqueles que passavam por perto daquele santuário sutil da natureza.
     Em meio a tal cenário, um elemento se destacava: um beija-flor, que permanecia estático no ar com seu bater de asas ininterrupto. Tinha o olhar fixo no horizonte, parecia até ignorar a beleza a sua volta. Mas não era sem motivo. O jovem colibri contemplava, extasiado, o vôo de uma borboleta. Enquanto ela ia de flor em flor, ele a seguia com o olhar. Seus olhos brilhavam, ele suspirava apaixonado.
     Tudo havia começado há poucas manhãs. Ele voava solitário por entre as flores, quando notou a presença da desconhecida. A princípio o beija-flor revoltou-se: como ela ousava entrar em seu jardim sem permissão? Porém, a ira logo se dissipou. Aquela intrusa possuía uma beleza jamais vista pela inocente ave. Voava graciosa, sutil, como se acariciasse o vento com seu leve bater de asas. Diante de um ser tão diferente, o encanto surgiu de imediato. Como não admirá-la?
     Passada a primeira impressão, o beija-flor pensou em dar-lhe as boas vindas. Entretanto, a timidez não o permitia. Inseguro, ele se julgava deveras inferior à borboleta. Suas cores não eram belas como as dela, seu vôo acelerado em nada se comparava à suave valsa que ela dançava com o vento enquanto se deslocava pelo ar. Por fim concluiu que dirigir-lhe a palavra poderia parecer ofendê-la, seria insolência de sua parte.
     Mesmo assim, o contato entre os dois era inevitável, afinal, partilhavam do mesmo jardim. Não raro se cruzavam enquanto voavam por entre as flores. Ele a olhava, mas sempre que ela o correspondia, dava um jeito de desviar o olhar rapidamente. Por vezes ele se escondia por trás de alguma flor só para olhá-la mais de perto. Sempre havia alguma beleza nova a ser descoberta. À distância ele a amava.
     A cada manhã, ele prometia a si mesmo que venceria seu medo e se aproximaria dela. Não sabia ao certo o que faria, mas se conseguisse lhe dirigir a palavra já estaria satisfeito. Se ela lhe respondesse então, seria um sonho realizado. Porém, ele nunca cumpria sua promessa e adiava para o outro dia sua aproximação. “Amanhã eu a conhecerei, ela vai gostar de mim e voaremos lado a lado por esse jardim, mostrando às flores que não há nada mais belo que nosso amor”, dizia para si.
     O colibri não sabia, mas a graciosa borboleta detinha sentimentos semelhantes por ele. Na verdade, ela o amava antes mesmo de ele a haver visto. Ela havia acabado de sair do casulo, preparada para a derradeira etapa de sua vida, quando o viu cortar o ar rapidamente e parar para beijar uma rosa. Ele foi a primeira imagem que ela avistou. Acabou por segui-lo, e descobriu que ele vivia naquele jardim. Decidiu que ficaria ali. Cedo ou tarde eles se aproximariam e ali escreveriam sua história de amor.
     E os dias se passavam e nada mudava. O beija-flor seguia esperançoso, desafiando a si mesmo, diariamente, na tentativa de se aproximar. Enquanto isso a borboleta já não sabia o que fazer, voava perto dele, olhava em seus olhos, mas não era correspondida. Sentia-se rejeitada. Por vezes pensou em aproximar-se do colibri, mas o recato não lhe permitia tal ousadia. Era preciso esperar, cedo ou tarde ele a notaria. E nessa eterna aflição sucediam-se as manhãs.
     Eis que um dia tudo mudaria. O beija-flor, cansado de amar em silêncio, decidiu que acabaria com o sofrimento. Estava disposto a se aproximar da borboleta e dizer-lhe o que sentia. Não se importava que o que aconteceria depois disso, apenas queria ser ouvido. E, assim, preparou-se para encontrá-la. Esperou-a ansioso no jardim, mas ela não apareceu. Imaginou que ela o havia abandonado. Mas não desistiria tão facilmente. Iria encontrá-la, mesmo que para isso precisasse abandonar seu jardim.
     Então, despediu-se de suas flores e preparou-se para partir. Porém, antes que deixasse o jardim ele teve uma surpresa: ao pé de uma árvore avistou-a deitada, quase imóvel, a não ser pela respiração fraca. Ele se aproximou depressa e pousou ao lado dela. Percebeu que a pobre borboleta estava morrendo. Aqueles eram seus últimos suspiros. Utilizando as poucas forças que lhe restavam, ela olhou-o nos olhos.
     Ele diria o que sentia, mas ela o conteve. Queria apenas que ele a ouvisse. Então lhe disse fracamente: “Perdoa-me, mas tenho que partir. Infelizmente não disponho de tantos dias quanto você. Dói-me saber que não o verei por mais uma manhã. Mas alegro-me porque estás aqui. Sei que é tarde, mas saibas que te amo.”. Ao término da última palavra a vida abandonou-a.
     Incrédulo, o pobre beija-flor amaldiçoava o destino, que matou sua felicidade antes que ela pudesse alçar seu primeiro vôo. Sentia ódio de si próprio por não ter não ter dito o que sentia, enquanto podia. Uma vez mais estava solitário em seu jardim. Mas este não era mais como antes. As flores já não tinham cor, seu perfume se esvaíra e até o sol já não brilhava como antes. Desiludido, o beija-flor partiu em um vôo sem fim e jamais foi visto. Depois de algum tempo, outros colibris vieram viver no jardim. E as flores contavam como testemunhas fiéis, a triste fábula do beija-flor e a borboleta.

Fonte Imgem: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiNHGHc_4TLeg7aoUS-sHRoBGDYeoGx5oEknAjTtURiLQ1eeLb4PgcvQcF49U5r5rtGMfHEA0vMT6vhIOaccXubYeqHvlWAEF5bY_jZq0-Y93ySDaJ3ilgjIwXY9Xa7Pyz-hTbcYfqNLg/s1600/Beija-flor.jpg

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Timidez

Ó timidez cruel, covardia ingrata,
Que me prende com seus laços,
Forçando-me a seguir teus passos.
Desatino infeliz que maltrata.

De que vale viver a eterna cobiça,
Um sonho vão que me consome,
Que me tenta a gritar este nome.
Que minha pobre alma enfeitiça.

Quisera ter da coragem a posse,
Ser detentor da feroz ousadia
De um notívago que encara o dia,
Sem temer despedida precoce.

Mas tenho por companheira a fé,
Que me incita a buscar o destino,
Ser mais homem e menos menino.
Atirar-me, sem medo, contra a maré.

Ainda sentirei daqueles lábios o gosto.
E amá-la-ei sem receio ou pudor.
E quando virem o sorriso em meu rosto,
Decerto dirão: é sintoma do amor.



domingo, 7 de agosto de 2011

Segunda Chance

    Deu um passo a frente, então ouviu o barulho das grades se fechando atrás de si. Era a última vez que escutaria tal som. Começou a caminhar. Ao seu lado, dois homens armados com fuzis o acompanhavam até seu destino. Levaram-no a uma sala onde pôde enfim reaver seus pertences, dos quais se apartara há exatos dez anos. Nada de muito luxo: uma camisa branca, amarelada pelo tempo; uma calça jeans; um par de sapatos; um maço contendo cigarros tão amarelados quando a camisa; um isqueiro; algumas moedas.
      Ele vestiu as velhas roupas e foi conduzido à saída. A poucos passos do portão principal, parou e olhou para trás. A aparência do lugar mudara naqueles dez anos, mas ainda assim era deveras medonha. De onde estava ele possuía uma visão privilegiada. Tantos lugares. A memória tentou trazer-lhe à mente as más lembranças, mas ele a conteve. Esqueceria aquele lugar, e tudo o que vivenciou enquanto lá permanecera. Seguiu com seu passo firme, mas antes de cruzar o grande portão que o separava da vida nova, olhou para trás uma vez mais. Diria adeus? Não, apenas guardaria aquela imagem.
                                   
      Com o pé direito ele pisou fora da penitenciária. Respirou fundo, olhou as nuvens, estava livre enfim. Iniciaria uma nova vida, mesmo porque a antiga se perdera há muito. Seu crime? Render-se ao desejo infame e desenfreado que sentira pela filha do chefe durante uma festa. Tinha vinte e cinco anos à época. Era um jantar de confraternização com todos os membros da empresa. A garota chamou-lhe a atenção desde o primeiro momento. Seria algo normal, se ela não tivesse apenas oito anos de idade.
      Imaginando que ninguém perceberia, ele desapareceu com a criança enquanto todos estavam distraídos. Porém, bastaram alguns minutos até que um convidado o encontrasse violentando a criança em um dos quartos. A revolta imediata fez com que o sentimento de justiça viesse à tona, aquele instinto bárbaro que se apodera dos homens diante de algo tão execrável. Espancar-no-iam até a morte. Porém, alguém chamou a polícia, que chegou a tempo de levar-lo quase sem vida.
      Por sorte ou destino, como queira, ele sobreviveu. Condenado a dez anos, foi transferido à maior casa de detenção do estado. Foram anos de abusos- de todos os tipos. Diariamente violentado, ele sofria, mas não ousava manifestar-se. Arrependia-se todas as noites, quando o sono lhe faltava. Contava os dias, na expectativa de poder novamente viver. Queria guiar o próprio destino uma vez mais. Jamais perdera a fé. Mesmo sendo o preso mais odiado, não cultivava rancor dentro de si. Tinha plena consciência que era responsável por tudo aquilo.
      Sentir-se livre era um sonho realizado. Uma nova chance, não a perderia. Recomeçaria a vida com humildade.  “Todos merecem uma segunda chance.”, dizia para si. A estrada em frente ao presídio foi seu primeiro desafio. Caminhou bons vinte quilômetros até chegar à cidade mais próxima. Entretanto, o povo de lá não era muito hospitaleiro. Talvez porque era ponto de passagem de todos os ex-presidiários. Não sendo bem recebido, ele rumou para a capital. Venceu uma partida de sinuca em um bar de beira de estrada e ganhou como prêmio uma carona.
      Ao chegar à cidade, surpreendeu-se com as mudanças. Era uma cidade diferente, maior. Em um bairro periférico ele conseguiu um emprego: seria garçom de um restaurante. Embora estive qualificado para algo bem melhor, considerava que o homem que um dia foi havia morrido levando consigo seus títulos e defeitos. Era um novo homem. Em pouco tempo ganhou a confiança dos patrões, que cederam a ele um quarto que ficava atrás do estabelecimento. Tornou-se benquisto pela vizinhança. A nova vida com a qual sonhara era real. O passado já não o atormentava, enfim era feliz.
      Eis que uma noite um jovem casal adentra o estabelecimento. Com a cordialidade costumeira, ele os atende. Eram jovens, comemoravam o aniversário de namoro. Pareciam felizes, mas algo o intrigara: a moça, furtivamente, o encarava. Constrangido, ele pediu que outro garçom atendesse a mesa e saiu para tomar um ar. Observava as estrelas quando ela apareceu à porta dos fundos do restaurante. Ele se surpreendeu com a ousadia. Decerto ela dissera que ia ao banheiro e mudou o rumo, afinal, a porta em que estava era logo ao lado da do banheiro feminino.
      A moça veio sem desviar o olhar dos olhos dele. Esboçou um sorriso e perguntou-lhe o nome. Desconcertado, ele respondeu. Jamais imaginara uma situação como aquela. Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, a moça o beijou. Empurrou-o contra o muro e tentou abrir sua camisa. Ele ia dizer algo, mas ela disse: “Vamos, tempos pouco tempo.”. Embora confuso aquilo tudo o excitava. Na ânsia de saciar a vontade da moça, bem como a própria, ele arrastou-a para o quarto dos fundos.
      Sequer acenderam as luzes, ela o empurrou contra cama. De onde estava ele podia ver os contornos daquele corpo jovial. Ela tirou a blusa e o provocou. Voraz, ele avançou para beijar-lhe os seios. Porém, antes que seus lábios pudessem sentir o calor da bela jovem, ele sentiu algo frio perfurar-lhe a garganta. Caiu de joelhos diante dela com a faca presa em seu pescoço, agora, ensangüentado. Tentou falar, mas o sangue o sufocava aos poucos. Queria olhar para ela, mas a escuridão não o permitia.
      A jovem afastou-se dele e acendeu as luzes. Apanhou a blusa ao chão e vestiu-a. Olhou para o infeliz que agonizava e sorriu. Ele lançou-lhe um olhar de indagação. Ela se sentiu obrigada a responder:
      “Não se faça de desentendido. Pensou que eu esqueceria o mal que me fez? Durante toda a minha adolescência sonhei com esse momento. Só não imaginei que seria tão fácil. Sim, eu sabia que você estava trabalhando aqui. Foi tudo planejado. Ou achas que eu viria a uma espelunca dessas para comemorar meu aniversário de namoro?”
      Enquanto ouvia aquelas palavras, ele sentia seus membros adormecendo. Estava morrendo, mas ainda teve tempo de olhar aquele rosto novamente: a criança que abusara havia crescido e estava cobrando-lhe o preço pelo mal que há muito fizera. Antes de dar seu último suspiro, ela ajoelhou-se diante dele com um pano em mãos. Passou-o pelo cabo da pequena faca que, por sinal, pertencia ao restaurante. Queria apagar possíveis digitais. Este movimento acabou por enterrar ainda mais a faca sufocando-o. Ele tentou puxar a faca, mas já não tinha forças. Ela o encarou novamente antes de ir embora, então disse:
      “A ferida que você abriu jamais cicatrizou. Nunca escapei das lembranças daquele dia. Roubastes minha vida e achou que poderia pagar por isso. Você pagou sua dívida com a justiça, mas não comigo. Todos merecem uma segunda chance, menos você.”
      Após dizer tais palavras, ela saiu rapidamente, mas teve o cuidado de fechar a porta. Sentou-se à mesa com o namorado, que sequer imaginava o que ela fizera naqueles dez minutos de ausência. Jantaram e em seguida foram embora. Os outros garçons notaram a ausência do companheiro, mas só o encontraram horas depois. As mãos sujas de sangue e as digitais dele na faca sugeriram a hipótese de suicídio. Hipótese que foi confirmada assim que a polícia levantou a ficha do moribundo. “Ele era ex-presidiário, abusou de uma criança, não conseguiu conviver com a culpa.”, disseram. 


quarta-feira, 27 de julho de 2011

Amanhã

     A noite havia sido longa. Eu precisava daquele banho para relaxar e dar prosseguimento à segunda parte. Mas, antes de sair, o narcisismo costumeiro forçou-me a encarar o espelho. Contemplei novamente meu rosto, meu corpo atlético que, nem de longe, denotava meus quarenta anos. Enfim, era a injeção de auto-estima que faltava para inflar meu ego por completo. Agora sim podia ir ao encontro daquela que me aguardava.
     Ao sair do banheiro, um suave aroma veio até mim. As luzes do quarto estavam apagadas. Apenas uma vela acesa na cabeceira da cama iluminava o ambiente. Era dela que vinha a essência perfumada. Sobre a cama uma silhueta se desenhava em meio à penumbra. De onde estava não possuía uma visão privilegiada, por isso caminhei lentamente para poder ver melhor.
     Ao me aproximar, vislumbrei-a sobre a cama: estava deitada, completamente nua, olhava em meus olhos convidando-me a amá-la. Meus olhos passearam sem pressa por aquele corpo, como fossem turistas que, deslumbrados, caminham a passos lentos para contemplar ao máximo a paisagem a sua volta. Entretanto, aquela figura era tentadora demais para que somente meus olhos se deleitassem. Precisava saciar a vontade que dominava meu corpo.
     Avancei sobre ela com avidez, como se aquela fosse minha última noite. Entorpecer-me no calor daquele corpo não foi difícil. Aqueles beijos, suspiros, até nossa respiração parecia sincronizada. Personificamos com ardor o desejo. Ela sussurrava ao meu ouvido o que eu queria –precisava- ouvir. Parecia adivinhar meus pensamentos: ora movia o corpo lentamente ora com rapidez selvagem. Com habilidade, ela regia a sinfonia do meu gozo.
 
     Do alto de minha experiência sexual, jamais tivera noite semelhante. Aquela mulher, definitivamente, detinha o controle sobre minha volúpia. Os olhares, os gemidos, o prazer. Tudo isso fez com que minha racionalidade me abandonasse. Sem que me desse conta, esquecera-me que nosso envolvimento deveria ser apenas físico. Aquele brilho maldito já pousava em meu olhar. Eis que veio o ápice, a explosão do prazer. Foi então que, indefeso, reconheci: apaixonei-me.
     Com o corpo sobre o meu, ela me encarava enquanto sua respiração, outrora ofegante, voltava ao normal. Ela era a mistura de meus maiores anseios: a pele morena, os lábios generosos, o olhar sedutor... o sexo perfeito. Sabia que deveria ficar com ela. E eu o diria, assim que ela deitasse ao meu lado. Conversaríamos por alguns minutos. Ela não resistiria ao meu charme. Amaríamos-nos novamente até o amanhecer. Aquela noite se eternizaria em minha vida.
     Mas, me enganava. De súbito, ela se levantou. Foi até o banheiro. Imaginei que voltaria para ficar comigo. Ela voltou, apanhou as roupas que estavam espalhadas pelo chão. Vestiu-se enquanto eu a observava atônito. Depois de arrumada, caminhou até a cama. Inclinou-se sobre mim. Imaginei que me beijaria. Apenas sussurrou em meu ouvido:
     -Espero que tenha gostado de nossa noite. Em nome da agência agradeço por sua preferência. Precisando, pode contar sempre com nossos serviços. Caso queira encontrar-me novamente, meu nome é Kelly. Mas, se preferir, dispomos de várias outras acompanhantes. Tenha uma boa noite.
     Após dizer isso, ela foi embora. Solitário naquele quarto me dei conta de meu devaneio. O prazer de outrora despertara em mim a essência romântica há muito reprimida. Mas, felizmente, as palavras da prostituta foram suficientes para despertar minha racionalidade. Nos dias de hoje, amar é estar vulnerável. E esse é um luxo para poucos. O realismo do mundo me fez ser o que sou. Amanhã, ao despertar, isso tudo será um sonho. Amanhã estarei de volta à minha vida, e ao mundo dos que não podem amar. Amanhã...

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Guerreiro

     A cruel tirania paterna intentou afastar-nos. Criou duras barreiras para impedir-nos de concretizar este amor. Mas não há fronteiras capazes de conter o vigor hercúleo de nosso sentimento. Cá estamos para provar que nem distâncias, nem as paredes pedregosas de um castelo podem apartar-nos. Pois o que cultivamos, não pode se perder. O mundo dos homens com sua efemeridade egoísta não nos privaria de gozar a merecida eternidade.
     O doce prazer de agora olhar em teus olhos e beijar-te os delicados lábios tornam ínfimos os sacrifícios e querelas que travei para ter-te comigo novamente. Desafios homéricos quiseram me dissuadir de lutar por este momento. Mas minha bravura e a recordação de tuas últimas palavras me deram a perícia necessária para vencer os hábeis, a valentia para derrotar os fortes, a coragem para superar os temores.
     Entretanto, confesso que contei com algo mais. Talvez por sorte, ou por obra da Providência, que atendeu tuas preces. Só sei que nem mesmo o bravo Ulisses teve uma odisséia tão árdua quanto a minha. E mesmo o amor deste pela doce Penélope, se mostra pequeno ante o que agora transborda meu peito em palavras para louvar este magnificência deste momento.
     Neste momento, exércitos rumam até nós para resgatar a jóia que ousei surrupiar. Comandados por teu pai e teu noivo, milhares marcham enfurecidos, sedentos por sangue, o meu sangue. Anseiam ceifar a vida do insolente que ousou querer para si a casta princesa, futura senhora de dois reinos. Se soubessem o que me motiva, entenderiam que nem a mais violenta morte seria capaz de nos impedir.
     Não há fúria neste mundo, e em nem um outro, que seja capaz de sufocar-nos o desejo. Descobri o motivo de minha existência quando posei os olhos em tua doce figura. Nosso amor é tido como impossível pelos que se atém à hierarquia racional e injusta dos homens. Mas, provar-lhe-ei que não há barreiras para conter-nos, pois quando te beijo, sinto que somos iguais, que só existe um reino: o teu corpo, onde quero reinar absoluto.
     Pois nossos destinos já seguem por um caminho sem volta. Enganá-lo-emos com nossa audaz manobra. De nada adiantarão os milhares, já que nosso amor alcançará a eternidade. Colheremos os frutos de nosso devaneio sem que nada nos possa impedir. Aqueles que marcham sequer imaginam que sua cruzada será vã. Pois um beijo com lábios embebidos em veneno provar-lhes-á que de nada valem o aço de suas espadas contra a vontade obstinada de nossos corações.
     Creio que já deves estar farta de palavras. Então vamos apenas aguardar até que sejamos chamados ao sono eterno. Convido-te, amada minha, a contemplar a suave dança das nuvens que se entrelaçam umas às outras sem pudor. Nuvens veludosas onde caminharemos com os pés descalços, vendo de perto o sol nascer e se pôr, tendo a certeza de que isso jamais terá fim. Por teu amor me fiz guerreiro, lutei e lutaria quanto mais fosse necessário, sem me importar, pois minha vida seria vã se tivesse que a viver sem ti.


Fonte Imagem: http://www.rtve.es/resources/jpg/4/4/1256658929844.jpg