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terça-feira, 2 de julho de 2013

O Autor

Abriu a porta sem bater e foi logo apontando o dedo no rosto do homem de barba grisalha que estava sentado á mesa - "A culpa é tua, velho senil. Como pode fazer isso comigo? Achas mesmo já era a minha hora? Fala sério!" - "Tenha calma, meu querido. Queira se sentar, por favor." - respondeu o homem com uma cordialidade que desarmaria até o mais obstinado dos homens. Ainda nervoso, ele sentou, ameaçando agora, não com palavras, com o olhar.

- Diga-me, em que posso ajudá-lo, meu caro? - Indagou o velho.

- Ajudar? Eu quero é que você corrija todas as besteiras que fez no decorrer desses anos. As coisas não seguiram conforme eu havia previsto, meu personagem passou por uma série de problemas inesperados e, para completar, saiu da história sem ter sequer um final digno. Eu sei que é você o autor dos roteiros por aqui, então trate de consertar tudo.


O senhor sorriu de um modo gostoso, como se estivesse diante de uma criança, dessas que surgem com perguntas e afirmações, cheias de razão, e cuja ingenuidade surpreende e encanta ao mesmo tempo.

- Do que você está rindo? Acaso falei alguma besteira? Estou perdendo a paciência, responda logo velho! Porque você me tirou da história?! - A irritação era visível.

- Você não é o primeiro a entrar aqui desse modo, sabia? Algo me diz que devo ter a certeza de que não será o último. Enfim, ossos do ofício. - Respondeu o velho em tom de desabafo, mas com um leve sorriso no rosto.

- Não tenho nada a ver com seus problemas. Se recebes muitas reclamações, é porque não tem feito as coisas direito. O meu caso é exemplo disso.

- Estás mesmo convencido de que eu sou culpado por todas as suas desventuras, não é?

- Quem mais seria, senão você? Você é o autor!

- Alguma vez você chegou a pensar que pode ser o culpado por tudo?

- Não tenho culpa alguma. Li o que você escreveu no roteiro, fiz tudo certo e, no fim, as coisas deram errado.

- Esse roteiro que você tanto fala, o qual eu escrevi. O que ele dizia para você fazer?

- Não o decorei, mas ele dizia basicamente: Viva, ame, lute, conquiste.

- Pouco específico, não acha?

- Seja como for, fiz tudo isso, a meu modo, mas fiz. E no fim não deu certo.

- Entendo. Responda-me, em algum momento alguém dirigiu teus atos? Alguém te disse o que fazer? Você teve que ensaiar as falas, cenas?

- Não, as cenas eram todas no improviso. Confesso que achava isso estranho, mas nem por isso parei de atuar. Fiz o melhor que pude quando estava no palco.

- Pois é. Então reconheces que, a todo o momento, estavas livre para fazes escolhas, dizer e fazer o que bem entendesse, certo?

- Sim, isso é verdade. - Respondeu pensativo, encarando o vazio. Decerto começava a perceber o que acontecera.

- E, ainda assim, achas que a culpa é minha. Permita-me esclarecer as coisas: minha função aqui é unicamente a de trazer os personagens ao palco; nada além. Eu apenas digo o momento em que cada um deve surgir para compor a história. O desenvolvimento do personagem, assim como o tempo que ele permanecerá sob os holofotes, depende unicamente dele mesmo. O roteiro é facultativo, pode-se segui-lo ou não. Perceba que, ao final, foram suas escolhas que escrevem o roteiro. Você foi o verdadeiro autor o tempo todo.

- Talvez você tenha razão. De fato, fiz algumas escolhas equivocadas. Mas, não foram todas. Não merecia deixar o palco daquela maneira. Não teria como eu voltar, pelo menos para reparar alguns erros?

- Infelizmente, não. Uma vez fora, não há volta. É assim que as coisas são.

O rapaz levantou-se cabisbaixo e seguiu desanimado até a porta. O velho o observou com o costumeiro aperto no coração, e o olhar de quem já presenciara aquela mesma cena inúmeras vezes. Contudo, antes de sair o rapaz voltou-se ao velho:

- Posso fazer só mais uma pergunta?

- Claro. O que você quiser.

- Qual o nome desse espetáculo, no qual estive atuando por todo esse tempo?

O velho suspirou e respondeu: "Vida".



sexta-feira, 31 de maio de 2013

Divórcio

- Alô?
- Ricardo, acabou!
- Como assim? Laura? Laura, o que tá acontecendo? Fala comigo!
- Não tem muito mais a ser dito. Eu simplesmente cansei. Essa não é a vida que você me prometeu. Há muito venho sofrendo em silêncio. É melhor acabar tudo agora, já insistimos por tempo demais.
- Não! Espera, não é assim que as coisas se resolvem. Qual é o problema? Onde eu errei? Você não pode ser radical assim.
- Radical? Já suportei coisas demais. Parece não haver espaço para mim na sua vida. Se eu sair agora, aposto que não sentirás falta alguma. É simples, eu quero o divórcio. Por favor, não tente piorar as coisas.

- Calma. Eu sei que tenho trabalhado muito, mas é pensando no seu conforto e no do nosso filho. Sim, pensa no nosso filho. Como achas que ele vai reagir? Achas que ele vai sair ileso disso tudo?
- Agora você resolveu pensar nele, é? Ele só importa quando convém. Ou você sai de casa, ou saio eu. Independente disso, ele fica comigo!
- Por favor, você está nervosa. Isso não é algo a ser resolvido pelo telefone. Espera eu chegar em casa. Prometo que vamos conversar e tudo vai se resolver da melhor forma possível.
- Não adiantará. Não vai mudar as coisas.
- Por favor! Pelo nosso filho!
- Você usando ele novamente. Tudo bem, conversamos aqui então. Não por você, mas pelo nosso filho. Essa é a tua última chance!
- Certo. Quando eu chegar aí, vamos conversar, e você vai ver que as coisas não são o que parecem. Não vivemos um casamento perfeito, mas eu ainda te amo. Você e o nosso filho são tudo para mim, acredite. Não abriria mão de vocês por nada.
- Tá. Tchau.
- Tchau. Eu te amo.

Ele deixa o telefone sobre cama e fica pensativo por um instante. Uma jovem sai do banheiro enrolada em uma toalha e secando os cabelos. Olha-o nos olhos e indaga:

- Quem era? Ouvi o telefone tocar. Aposto que era a sua mulher.
- Sim, era ela.
- Até quando vou ter que suportar isso?
- Meu amor, você precisa ter paciência. As coisas não são tão simples. Já te disse que meu casamento está em ruínas. Não existe amor, estamos juntos apenas pelas aparências.
- Se são apenas aparências, porque você não termina tudo de uma vez?
- Não posso. Tenho um filho, esqueceu? Precisas ser paciente. Eu tenho que preparar o terreno, minha mulher não vai aceitar tão facilmente. Você precisa ter calma. No momento certo eu pedirei o divórcio e poderemos ficar juntos. Você sabe que é o amor da minha vida. Só precisas esperar.
- Sei... e o que ela queria?
- Nada de importante. Apenas precisarei chegar em casa um pouco mais cedo. Ela quer falar algo sobre nosso filho. Mas, não fica assim. Ainda tenho uma hora. Vem, deita aqui comigo.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Verdades

"E a verdade então será de barro, e poderosos serão os oleiros", bradou o bêbado. Pouco depois tomou o derradeiro gole de cachaça, que de tão longo não deixou o ar chegar aos pulmões. Afogou-se na fonte de prazer, o infeliz. No entanto, disseram que o encontro da cabeça com a calçada fora o responsável pelo falecer. Eu tinha nove anos, não sabia nem o que era a vida, que dirá a morte. Lembro que sol estava quente e que minha mãe me mandara comprar algo na mercearia. Sobretudo, lembro das palavras do bêbado. Profeta maldito, iluminado nas últimas palavras. Nos derradeiros segundos, tivera sua epifania. Acho que talvez as dissera para mim. Não para quem eu era, mas para quem sou nestes quarenta e poucos anos miseráveis.

Sobre o papel medíocre, marchetado em preto, meu nome jazia, responsabilizando-me pela falácia. De repente o café cotidiano ficou amargo enquanto as palavras do profeta morimbundo me vinham à mente. Serena pediu-me o jornal. Mastigou, silenciosa, as palavras, enquanto o pão com manteiga esperava sobre a mesa. Ao final da leitura já não tinha fome. Pensativa, ficou a olhar a fumaça que fugia da minha xícara. Esperei pelo golpe, como o gladiador que não deseja a luta. Ela nada disse. Engoliu a revolta, mesmo sabendo que ficaria empachada. Levantou da mesa, beijou-me o rosto e saiu. Ficamos eu e o pão, sem as esperadas reações. Como ele não quisesse conversa, parti.

Oito horas da manhã e o trânsito era o purgatório. Nem mesmo o Vivaldi aliviava. Não olhava os retrovisores, temendo encarar a mim mesmo. O som das buzinas batia ao vidro. Ou seria mais um pedinte? Não vi, não quis ver. Temia o olhar deles também. Quis ter asas para fugir. Meu possante carro avançava, era agora a maior das futilidades. Eu estava atrasado para um importante compromisso indesejável. Enfrentaria a corriola de cabeça erguida. Não sabia como, mas o faria. O sol quis se esconder, por um instante cri no milagre de uma chuva que me levasse de volta para casa. Era só uma nuvem, que sequer lacrimejou. Não haveria álibi para a fuga.

Ainda no estacionamento, olhares me eram disparados. Minha doença estava estampada em minha testa. Até ontem intocável eu era. Hoje o mundo parecia me julgar. Meu erro já era do conhecimento de todos. Mas não haveria fogueira para este herege. Não em praça pública. Por isso eles tentavam me queimar aos poucos, em seu não tão silencioso cochicho. Atravessei a porta de entrada e senti o ar caindo sobre meus ombros. Nem mesmo o sorriso diário da secretária eu ganhei. Limitou-se a apontar o caminho que eu já conhecia. A familiaridade que eu julgava ter naquele ambiente, definitivamente inexistia agora. Eu era corpo estranho, deveria ser eliminado. A demissão era o mínimo. Mas eu julgava ser essa uma hipótese tão boa, que sequer a considerava.

No elevador, a coragem quis nascer. Encarei a todos com o meu 'bom dia'. Quando só, enfrentei a mim no espelho, pela primeira vez no dia. A escalada não tinha fim. Uma pequena tela mostrava o número dos andares, contava os segundos de minha agonia. Mesmo parado, sentia meu corpo doer. Ao final, a paisagem não compensaria o esforço. Lá no alto, as portas se abririam no inferno, e nem minhas preces poderiam me livrar. Mas era preciso enfrentar o monstro que ousei despertar. A coragem menina eu já tinha. Só faltavam-me as armas. Palavras? Acaso poderia eu entregar minha salvação nas mãos de meus algozes?

Sentei à mesa e todos os olhares se voltaram a mim. Atiraram sobre a mesa a edição do jornal. Indagaram os motivos. Em poucos minutos, eu era  metralhado por afirmações to tipo:"Você é pago para moldar fatos!"; "A verdade é como aquelas mulheres que precisam de maquiagem para atrair olhares!"; "A diferença entre heróis e bandidos está em nossas mãos". Em cerca de cinco minutos, muito fora dito na tentativa de me convencer de meu pecado. Mas o golpe final veio das mãos do grão-inquisidor, o proprietário do jornal: "Meu caro, hoje o mundo está alicerçado em fatos manipulados. Se concordamos que algo aconteceu, não há necessidade de provas para tal. Compreendo sua boa intenção, mas deste ponto não há mais volta. Revelações poderiam comprometer a estrutura. No entanto, admiro sua coragem, o último a tentar algo parecido feneceu pregado a uma cruz. Belo exemplo".

Convencido de minha chaga, deixei a sala surpreso por dela sair vivo. A frase do embriagado ressoou novamente em minha mente. Uma vez mais ao elevador, enquanto lamentava a morte prematura da coragem outrora engendrada, veio a mim, então, a epifania de uma vida: se temos o poder da verdade, somos deuses. Por um instante, maravilhei-me com a idéia. Segundos depois, ela passou a me assombrar. Afinal, meu crime impresso tornara-me um traidor. Ciente de já não ser um deus, um rosto de repente surgiu na tela que outrora mostrava os números. Viera ele corroborar minha condição de mortal. Era ele, o Pilatos, a selar meu destino. "Não se preocupe, será apenas um acidente, todos estão sujeitos a algo assim". Antes que pudesse digerir as palavras, tudo se apagou. Meus pés deixaram o chão e tive a certeza de que o elevador despencava. Nos poucos segundos restantes, recordei aquele dia, na infância. Diferentemente do bêbado, eu não teria ninguém para ouvir minha profecia derradeira. Na verdade, sequer formulei alguma.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Mártir


Meu pai era militar, desses que acreditam ser o mundo um paletó de medalhas. Minha mãe era uma sonhadora: um desses espíritos livres que dão o azar de serem enclausurados em um corpo frágil, obrigados a se submeter à força alheia. Puxei a ela, dizia meu pai em momentos de raiva. Queria ele que eu fosse um burocrata, desses que guarda desejos em gavetas e faz da armação dos óculos sua barricada. A ideia de que um filho pudesse superar as conquistas do Coronel jamais fora cogitada. Mas, nasci para viver, e esse era meu defeito. Embora mamãe jamais manifestasse qualquer opinião, eu via no brilho do olhar dela a admiração que sentia por mim, a cada vez que eu desafiava meu velho pai.

Sabendo não ser capaz de conter meu ímpeto, após quatorze anos de labuta, o Coronel resolveu delegar sua função. “Vais para a escola militar, para aprender a ser homem”, ele me disse naquela manhã de domingo, enquanto eu flertava com as nuvens. Certo estava de que, se eu seguisse carreira, teria de obedecê-lo, pois seria meu superior. Meu sorriso irônico o matou, mas não o dissuadiu. Na manhã seguinte eu parti, com algumas roupas e muita coragem na mala. Mamãe chorava silenciosa à porta. Meu pai tinha no rosto aquele ar de vitória. Entregou-me pessoalmente ao comandante e deu recomendações expressas para que pusessem minhas ideias na masmorra.

O tratamento que recebi naquele quartel para estudantes foi crucial para mim. Embora já sentisse na pele a repressão paterna, percebi que ali as proporções eram muito maiores. Minha mania de observação me permitiu compreender a mecânica por trás de tudo o que ali era ensinado. O objetivo não era impedir-nos de voar, mas sim estabelecer uma direção a ser seguida por toda a vida. Sabendo disso, me protegi. Fiz-me de cego, cultivando em mim a tão combatida criticidade. Esta seria minha maior arma um dia, e eu sequer imaginava.

Seis meses depois, voltei para casa. O uniforme engomado e os cabelos curtos arrancaram um sorriso do Coronel, que logo foi sucedido de inúmeras perguntas. Entreguei-lhe uma carta e abracei minha mãe. Ao ler o escrito, meu pai silenciou. O comandante responsável por mim o aconselhava a deixar-me viver. A mudança de opinião se devia ao suicídio cometido pelo filho do mesmo, o qual possuía a mesma idade que eu, e não resistira à repressão paterna. Meu pai beijou-me a fronte e nunca mais me direcionou qualquer palavra de censura. Mas eu sabia que eu era a maior decepção de sua vida. Mas não me importava com isso. Ele cortara as asas de minha mãe, não faria o mesmo comigo.

Observei atento, a realidade ao meu redor. Descobri que minha família era composta por representantes dos três tipos de pessoas que compunham a sociedade da época: os poderosos dominantes, representados por meu pai; os submissos silenciosos, que tinham minha mãe como representante; e os subversivos pensadores, com os quais eu me identificava. A partir de então, minha mente se pôs a trabalhar e milhares de ideias se enraizaram em mim. Conforme elas amadureciam, eu sentia a necessidade de encontrar pessoas com crenças similares às minhas. A ânsia sobrepujou a cautela. Este foi meu erro.

Aos dezoito anos, descobri ser o destino um cavalo arredio. Quis eu lhe impor rédeas, e por muito pouco não fui ao chão. Longe de casa estava. Entre amigos, pensava. Após bebidas e “drogas” dei voz ao coração, narrei minhas insatisfações, crente que eles concordariam comigo. Enganei-me e, pela segunda vez, fui posto a ferros. Traidores. Maldita seja minha verborragia, pensei. Porém, logo depois me redimi comigo mesmo. E segui cultivando meus ideais no silêncio da cela. Felizmente, o curto tempo na escola militar me ensinara a ser paciente. Mas dessa vez precisei ser um pouco mais. Cinco foram os anos que passei no cárcere.

Quando enfim liberto, quis gritar ao mundo. Mas já sabia o deveria fazer: apeguei-me ao papel e à tinta e engendrei aquilo que seria ideário de uma geração. Minhas palavras atingiram bases sólidas e eu as vi ruir aos poucos. Mas a segurança do anonimato só agradaria a meu pai. Escondido atrás da mesa com minha caneta, eu personificava, em parte, o sonho medíocre do Coronel. Vendo-me sofrer, mamãe afagou-me os cabelos e disse “vai”. Lancei-me ao campo e dei um rosto ao movimento. Dei a cara e esperei o tapa.


Ganhamos ainda mais força e, de repente, éramos milhares, rumo ao triunfo. Os intocáveis temiam-nos. Desesperados, atingiram a mim, crendo ser eu o coração. Meu corpo se despedaçou, e eles comemoraram. Contudo, este foi seu erro: tornei-me um mártir. Minha voz permaneceu viva, e foi questão de tempo até o recomeço. Meu nome virou símbolo, e jamais esquecido. Com meu sangue, escrevi meu nome nas linhas da história.

Anos depois reencontrei minha mãe por entre as nuvens, satisfeita como jamais a vira. Sua liberdade viera enfim. Ela contou-me das transformações ocorridas, e de como eu me tornara o orgulho de uma geração. Dei-lhe a mão e corremos rumo ao sol poente. Lembrei-me então do Coronel. Jamais o encontrei perdido pelo céu. Às vezes me pergunto se foi por ele não ter asas, ou se ele as possuía, mas o peso das medalhas não o deixava voar.


quinta-feira, 2 de maio de 2013

O viúvo


Foi em uma manhã de quarta feira, ao despertar, que o Jair notou que algo não estava certo. Levantara antes de Dalva, pela primeira vez em dez anos de casamento. Estranhou, afinal, ela sempre aguardava ao lado da cama até que ele acordasse. Com um jeito todo próprio, lhe desejava seu “bom dia”, sempre com frases doces, do tipo: “Bora! Levanta e vai trabalhar!”. Contudo, agora quem estava ao lado da cama era o Jair, olhando-a com certo espanto. Percebendo-a quieta demais, aproximou-se. Dalva parecia não respirar. Ao encostar o ouvido sobre o colo gélido, Jair arrepiou-se com o silêncio.

O que se seguiu foram horas de telefonemas e todos aqueles procedimentos que sucedem o óbito. O Jair foi o responsável por tudo. Desde a escolha do caixão, até à feitura do café, que foi servido no velório. Esta última tarefa em nada lhe era estranha, já que Dalva o obrigava a fazer café todos os dias. Todos os que provaram o café elogiaram a habilidade do viúvo. Acerca deste, indagava-se também sobre como seria o futuro sem a esposa. Um casamento longo como aquele sendo interrompido por uma fatalidade, certamente a vida não seria mais a mesma. Jair bem sabia.

O funeral foi na quinta-feira, pela manhã. Todos estavam admirados com a força mostrada por Jair. O semblante sério, inabalável, escondia a dor que por dentro o consumia. Pelo menos esse era o comentário que se disseminava entre os presentes. Alguns ofereciam seu ombro amigo, caso o viúvo desejasse desabafar. Cordialmente, o Jair agradecia, e dizia estar bem, apesar de tudo. Arrisco dizer que a comiseração em relação a ele, era bem maior que o pesar pela defunta. Não fossem as lágrimas derramadas pelos parentes, poder-se-ia dizer que a morta era mera coadjuvante.

Finda a cerimônia, as pessoas foram saindo, até que restasse apenas o Jair. Quando se viu só, ele enfim desabafou. Cuspiu no túmulo e se pôs a amaldiçoar a nova hóspede do cemitério. Alguém que por ali passasse, teria escutado coisas como:

- “Já vai tarde! Agora sim eu volto a viver. Maldito foi o dia em que eu botei aquela aliança no teu dedo e disse “sim” para o padre. Mas agora eu estou livre. Acabou o tormento. Lembra-se daquelas panelas que me forçavas a arear? Vou usar todas como urinol! E tua coleção de bibelôs de porcelana? Vou me divertir quebrando de um a um! Mas não agora. Agora eu vou aproveitar um pouco. Fica aí, que eu vou curtir. E fica tranquila que todos os anos, no Dia de Finados, eu venho aqui para cuspir na tua sepultura de novo!”.

E o Jair saiu pelas ruas, arrotando liberdade. Parou no primeiro bar que avistou e pediu uma dose da bebida mais forte. Após essa primeira, outras tantas vieram. E até o anoitecer o Jair já havia feito vários amigos de copo. As “moças” o chamavam de Jairzinho, e a vida era um carnaval. E entre bebidas, sexo e farra o viúvo desapareceu durante todo o fim de semana. A dieta alcoólica provocou um estado de embriaguez constante, de modo que a sobriedade somente retornou na manhã de quarta-feira.


A julgar pela ressaca, Jair jurava haver despertado em plena quarta-feira de cinzas. Poderia até não o ser para as demais pessoas, mas, para ele, sim. Embora deitado, sentia a cabeça girar. Estava em um quarto desconhecido, deitado em uma cama com pelo menos cinco outras pessoas. Transtornado das ideias, só conseguiu se situar quando alguém perguntou que dia era aquele, e ele se ouviu responder: “quarta-feira”. Imediatamente, lembrou-se que completava uma semana da morte de Dalva. Se não estivesse enganado, a missa de sétimo dia seria naquela manhã.

Em um sobressalto, pôs-se de pé, incomodando os demais, que ainda dormiam. Percebendo-se apenas com a roupa de baixo, tratou de procurar suas roupas dentre as tantas jogadas ao chão. Juntou algumas peças conhecidas, outras nem tanto, e vestiu-se. Saiu à rua apressado, passando a mão pelos cabelos, pondo a camisa para dentro das calças. Sequer sabia onde estava. Mas, era preciso chegar à missa a tempo. Apanhou o primeiro ônibus que passou e seguiu.

Após uma hora rodando pela cidade, conseguiu chegar à igreja. Quando entrou, o Padre já estava nos ritos finais. Após a bênção, este pediu que algum querido da homenageada viesse ao altar para proferir algumas palavras. Imediatamente, todos os olhares se voltaram para o Jair, que, sentado em um banco ao fundo, lutava contra a dor de cabeça e a náusea. Percebendo o silêncio, o viúvo entendeu a mensagem. Pôs a expressão grave no rosto e se encaminhou ao altar, tentando não cambalear.

Já diante do microfone, olhou para todos os presentes e tentou pensar em algo para dizer. Embora desejasse amaldiçoar uma vez mais a Dalva e expor para todos a tirana que era fora naqueles dez anos de casamento, porém sabia que seria julgado. Por isso, procurava palavras melhores. Mas raciocinar era difícil. A farra fora intensa, a ressaca o era ainda mais. Não suportando o peso da cabeça, apoiou-a nas mãos e ficou imóvel por alguns minutos. Arrisco dizer que nesse instante Jair tirou um breve cochilo.

As pessoas presentes, no entanto, interpretaram a situação de modo diverso. Comentavam a infelicidade do pobre viúvo. Cochichavam entre si coisas como:

- “Pobre Jair, olha como ele tá acabado. Eu sabia que ele estava se fazendo de forte. Aposto que após o enterro ele desabou.”.

- “Ele amava tanto a Dalva, não vai suportar viver sem ela. Olha o estado dele, e isso porque não faz nem uma semana que a ela faleceu.”.

E o Jair, que a estas alturas já havia sido gentilmente retirado do altar pelos coroinhas, pensava apenas em chegar a casa para se recuperar, cumprir as promessas que fizera a Dalva no cemitério para depois cair na gandaia novamente.


quinta-feira, 11 de abril de 2013

O espetáculo

Apoiou-se no pé direito para subir no palco, ritual indispensável, segundo sua superstição. Por trás das cortinas, sentiu o conhecido frio na barriga antes de entrar. Respirou fundo, trazendo para si ar e coragem. As alvas cortinas se abriram e, com um sorriso no rosto, ele surgiu. A roupa colorida de mangas bufantes, puída em alguns pontos, a maquiagem exagerada, os enormes sapatos e o nariz vermelho apresentaram à platéia o Palhaço Paçoca. Se a memória não lhe fosse traiçoeira, aquela era a sua milésima apresentação, era preciso que o show fosse inesquecível a todos. Ele certamente capricharia.

Lançou o olhar à platéia, em busca de um rosto mais amigável, com o qual pudesse fazer seus gracejos. Frustrou-se, porém, ao ver que pouca atenção devotavam ao palco. Com o olhar atento e o dedos inquietos, as crianças se concentravam em seus celulares, como se o palco estivesse vazio. Mas o palhaço não se abateu. Aquela não era a primeira vez que precisaria conquistar os olhos e ouvidos da platéia. Experiente, buscou nos arquivos da mente o melhor de suas piadas, carregando nos trejeitos e distorcendo o timbre da voz.

Esforço vão, concluiu após alguns minutos. Pela primeira vez, em trinta anos de carreira, pareceu que não haveria sorrisos. Observou mais atentamente. As crianças eram diferentes daquelas que vira em outros tempos: meninas com maquiagens e adornos, como se mulheres fossem; meninos de olhares maliciosos, que pareciam ter deixado a infância pelo caminho. O silêncio no ambiente constrangia, torturava o pobre palhaço. Lembrou-se, porém, que certa vez aprendera um truque de mágica com um amigo. Pensou em usá-lo, seria infalível.

Pediu então a ajuda de um voluntário da platéia. Ninguém levantou a mão. Ele insistiu, convidando em tom de quase súplica. As crianças permaneceram cabisbaixas, imóveis, a não ser pelas mãos, entregues aos gadgets. Imaginou que talvez elas fizessem, entre si, críticas silenciosas ao show. Era preciso reverter a situação. Aquela apresentação deveria ser inesquecível. Caminhou até a platéia e tentou se aproximar de alguém. Mas foi surpreendido por um copo atirado de uma das cadeiras de trás. Este o acertou em cheio, espalhando em seu rosto um líquido qualquer, que borrou-lhe a maquiagem. A platéia enfim sorrira. Ao fundo alguém gritou, "Ei, você é muito ruim. Se mata!", e todos se desfizeram em gargalhadas.

Indignado, o palhaço pediu um intervalo e foi para trás das cortinas tentar recompor a maquiagem e a auto-estima. Sentou-se diante do espelho, e pôde ver, entre a pintura borrada, uma ruga no canto de seus olhos. O tempo havia passado, estava velho. Talvez velho demais para seguir com aquilo. Lembrou-se do homem por trás da maquiagem, que sempre viveu à sombra do personagem. Era o Palhaço Paçoca há tanto tempo, que sequer recordava desse homem que sofreu os efeitos do tempo. Àquela altura da vida, tinha apenas o palco. Família, amigos, tudo sacrificou em prol da paixão pelo ofício. O ar jovial do palhaço em nada se parecia com este senhor sentado em frente ao espelho.

À mente, veio-lhe um conselho recebido há muitos anos. Um amigo de profissão o dissera: "Cedo ou tarde não haveria mais lugar para o nosso ofício. Será preciso se adaptar às mudanças do tempo". Esta última parte fixou-se em seu pensamento. De fato, era preciso renovar-se. Os tempos eram outros, a piada de 30 anos atrás certamente não funcionaria. Há tempos os show já não faziam sucesso, a quem ele queria enganar? Se queria salvar aquela apresentação, era preciso voltar ao palco e fazer aquilo que o público esperava. Riram-se de sua humilhação, aquela era a chave.

Paçoca então refez a pintura do rosto como pôde. Já não se importava tanto com ela. O palhaço já sabia exatamente o que devia fazer. Rumou ao palco e atravessou as cortinas. A platéia permanecera como antes, exceto por alguns olhares que, surpresos, eram direcionados ao palco agora. O Palhaço Paçoca pediu a atenção. Tirou do bolso um revólver. Pôs o cano na boca e, antes que alguém pudesse dizer qualquer coisa, puxou o gatilho. O corpo caiu ao chão e o sangue que espirrou nas cortinas, foi como tinta, em uma tela branca, formando uma pintura grotesca.

A platéia não acreditava no que vira. Alguns, imediatamente, levantaram de seus lugares e correram para perto do corpo para fotografá-lo. Alguém gritou ao fundo: "Eu filmei tudo com o meu celular!". Outros diziam: "Posta logo no youtube!". Os pais, ao ouvirem o som do tiro, apareceram e ficaram horrorizados com aquela cena. As crianças não se continham, falavam entre si, compartilhavam fotos do corpo na internet. Enfim, o Palhaço Paçoca, de fato, havia acertado. Oferecera exatamente o que aquele público desejava. Seu milésimo espetáculo fora um sucesso, afinal.




Fonte imagem: http://listmoor.com.br/wp-content/uploads/palhaco-morto.jpg

sábado, 30 de março de 2013

Fotografias


Sentado à beira do abismo, cansei de esperar a terra ceder. Resolvi adiantar o fim, ele era inevitável afinal. A vida chegara ao seu limiar, mesmo meu sorriso era de desprazer. Empunhei então um antigo álbum de fotografias, e decidi morrer de nostalgia. Tão certo estava do poder lesivo de minha arma, que acreditava ser apenas questão de tempo até ver findo meu infeliz tédio. Caminhei pela varanda da casa à procura de um lugar à sombra, onde pudesse sentir a brisa, mas que permitisse ao sol lançar sobre mim alguns raios de luz. Derradeira vaidade. Sentei-me, por fim, sob uma mangueira que ficava no quintal. Respirei fundo e abri o álbum.

A memória, que já enfrentava a ação do tempo, me fez demorar algum tempo até reconhecer as pessoas na primeira fotografia. Nela havia duas crianças de mãos dadas: Julia e eu. Talvez tivesse eu 12 anos no momento registrado na imagem, Julia devia ser mais nova poucos meses. Recordei algumas poucas coisas daquele tempo: o sorriso de minha mãe, os conselhos de meu pai, as tardes de futebol na pracinha. Por fim, me veio a mente a lembrança do primeiro beijo, dado em Julia, meu primeiro amor talvez. Meras memórias incertas, nada que, de fato, me emocionasse.

Supondo que aquela primeira parte continha apenas imagens da infância, fechei o álbum novamente e abri em uma página aleatória, localizada mais ao meio. A fotografia da vez era dos tempos de faculdade. Muitas pessoas compunham a imagem, foi tirada durante uma passeata a qual não recordo o dia ou o motivo. Ao centro da imagem, Soraia segurava em minha mão. Era uma jovem branca que esbanjava jovialidade. Eu também era belo naqueles tempos. Talvez tivesse amado Soraia mais que a mim mesmo, mas por algum motivo ela não permanecera em minha vida. Tal conclusão pôs fim a qualquer faísca que pudesse tentar aquecer meu envelhecido coração.

Avançando mais um pouco as páginas, deparei-me com uma foto de meu casamento. Helen e eu fazíamos aquela tradicional pose em que o casal brinda com os braços entrelaçados. De repente, veio a mim a doce lembrança daquele dia. A felicidade com que subimos ao altar, o nervosismo que senti ao responder o “sim” ao padre. Lembrei ainda do quanto resisti para tirar aquela fotografia. Sempre achei a pose ridícula, mas agora percebia que a imagem ficara bela afinal. Helen parecia um anjo naquele dia, e eu jurava ser eterno. Infelizmente não aguentamos o peso da vida a dois. Decidi seguir à próxima imagem antes que as dolorosas memórias da separação despertassem.

As fotografias que se seguiram mostravam uma fase de minha vida em que nada era certeza e as paixões eram voláteis. Foram anos vividos intensamente, que talvez tenham sidos bons, mas que agora me pareciam perdidos. Em comum, as fotos tinham apenas a minha presença, os rostos ao lado do meu nas imagens mudavam conforme a paisagem. Eram aventuras, laços momentâneos, de desejo e liberdade. Talvez, algum daqueles sorrisos tivesse-me feito ter vontade de ficar um pouco mais. Mas o fato é que eu, por algum motivo, sempre partia. Em suma, eram páginas vãs de minha vida, tratei de seguir em frente.

Prossegui à penúltima página, esperando que uma fotografia mais recente fosse capaz de provocar em mim o efeito que buscava desde o início, e que as imagens anteriores não conseguiram. Meu olhar se encheu de doçura, quando vi a imagem de Ana sentada ao meu lado sob a mesma árvore onde eu estava agora. Uma única lágrima percorreu meu rosto, mas secou solitária, sem que outra a seguisse o caminho que ela traçara. A emoção fora minguada pela lembrança da perda. Sofrera tanto quando aquele câncer a roubou de mim, que agora já não doía mais. Desfiz-me da dor, que levou consigo as boas lembranças.



Faltava-me apenas uma página agora. Mas já não havia, em mim, ânimo para prosseguir em minha empreitada. Meu plano fracassara: todas aquelas pessoas passaram pela vida e foram importantes, mas agora, nada representavam, não passavam de imagens no papel, meras fotografias. A tão desejada nostalgia não viera para sufocar-me. Em seu lugar, eu sentia o vazio, que parecia corroer-me por dentro, como se o sangue fosse ácido a desfazer o coração a cada respiração. Criei coragem e virei a página. O susto trouxe consigo a conclusão derradeira, a resolução de minha vida. Desfaleci solitário, pois mesmo o sol se escondera atrás das nuvens. Sobre meu colo, caiu o álbum aberto na última página, em branco. Não havia imagem alguma nele, pois, desde a morte de Ana, minha vida se perdera. Morri tardiamente, após descobrir que há muito já não vivia.





Fonte imagem: http://digasim.files.wordpress.com/2009/11/albumnina-5.jpg