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quinta-feira, 9 de maio de 2013

Mártir


Meu pai era militar, desses que acreditam ser o mundo um paletó de medalhas. Minha mãe era uma sonhadora: um desses espíritos livres que dão o azar de serem enclausurados em um corpo frágil, obrigados a se submeter à força alheia. Puxei a ela, dizia meu pai em momentos de raiva. Queria ele que eu fosse um burocrata, desses que guarda desejos em gavetas e faz da armação dos óculos sua barricada. A ideia de que um filho pudesse superar as conquistas do Coronel jamais fora cogitada. Mas, nasci para viver, e esse era meu defeito. Embora mamãe jamais manifestasse qualquer opinião, eu via no brilho do olhar dela a admiração que sentia por mim, a cada vez que eu desafiava meu velho pai.

Sabendo não ser capaz de conter meu ímpeto, após quatorze anos de labuta, o Coronel resolveu delegar sua função. “Vais para a escola militar, para aprender a ser homem”, ele me disse naquela manhã de domingo, enquanto eu flertava com as nuvens. Certo estava de que, se eu seguisse carreira, teria de obedecê-lo, pois seria meu superior. Meu sorriso irônico o matou, mas não o dissuadiu. Na manhã seguinte eu parti, com algumas roupas e muita coragem na mala. Mamãe chorava silenciosa à porta. Meu pai tinha no rosto aquele ar de vitória. Entregou-me pessoalmente ao comandante e deu recomendações expressas para que pusessem minhas ideias na masmorra.

O tratamento que recebi naquele quartel para estudantes foi crucial para mim. Embora já sentisse na pele a repressão paterna, percebi que ali as proporções eram muito maiores. Minha mania de observação me permitiu compreender a mecânica por trás de tudo o que ali era ensinado. O objetivo não era impedir-nos de voar, mas sim estabelecer uma direção a ser seguida por toda a vida. Sabendo disso, me protegi. Fiz-me de cego, cultivando em mim a tão combatida criticidade. Esta seria minha maior arma um dia, e eu sequer imaginava.

Seis meses depois, voltei para casa. O uniforme engomado e os cabelos curtos arrancaram um sorriso do Coronel, que logo foi sucedido de inúmeras perguntas. Entreguei-lhe uma carta e abracei minha mãe. Ao ler o escrito, meu pai silenciou. O comandante responsável por mim o aconselhava a deixar-me viver. A mudança de opinião se devia ao suicídio cometido pelo filho do mesmo, o qual possuía a mesma idade que eu, e não resistira à repressão paterna. Meu pai beijou-me a fronte e nunca mais me direcionou qualquer palavra de censura. Mas eu sabia que eu era a maior decepção de sua vida. Mas não me importava com isso. Ele cortara as asas de minha mãe, não faria o mesmo comigo.

Observei atento, a realidade ao meu redor. Descobri que minha família era composta por representantes dos três tipos de pessoas que compunham a sociedade da época: os poderosos dominantes, representados por meu pai; os submissos silenciosos, que tinham minha mãe como representante; e os subversivos pensadores, com os quais eu me identificava. A partir de então, minha mente se pôs a trabalhar e milhares de ideias se enraizaram em mim. Conforme elas amadureciam, eu sentia a necessidade de encontrar pessoas com crenças similares às minhas. A ânsia sobrepujou a cautela. Este foi meu erro.

Aos dezoito anos, descobri ser o destino um cavalo arredio. Quis eu lhe impor rédeas, e por muito pouco não fui ao chão. Longe de casa estava. Entre amigos, pensava. Após bebidas e “drogas” dei voz ao coração, narrei minhas insatisfações, crente que eles concordariam comigo. Enganei-me e, pela segunda vez, fui posto a ferros. Traidores. Maldita seja minha verborragia, pensei. Porém, logo depois me redimi comigo mesmo. E segui cultivando meus ideais no silêncio da cela. Felizmente, o curto tempo na escola militar me ensinara a ser paciente. Mas dessa vez precisei ser um pouco mais. Cinco foram os anos que passei no cárcere.

Quando enfim liberto, quis gritar ao mundo. Mas já sabia o deveria fazer: apeguei-me ao papel e à tinta e engendrei aquilo que seria ideário de uma geração. Minhas palavras atingiram bases sólidas e eu as vi ruir aos poucos. Mas a segurança do anonimato só agradaria a meu pai. Escondido atrás da mesa com minha caneta, eu personificava, em parte, o sonho medíocre do Coronel. Vendo-me sofrer, mamãe afagou-me os cabelos e disse “vai”. Lancei-me ao campo e dei um rosto ao movimento. Dei a cara e esperei o tapa.


Ganhamos ainda mais força e, de repente, éramos milhares, rumo ao triunfo. Os intocáveis temiam-nos. Desesperados, atingiram a mim, crendo ser eu o coração. Meu corpo se despedaçou, e eles comemoraram. Contudo, este foi seu erro: tornei-me um mártir. Minha voz permaneceu viva, e foi questão de tempo até o recomeço. Meu nome virou símbolo, e jamais esquecido. Com meu sangue, escrevi meu nome nas linhas da história.

Anos depois reencontrei minha mãe por entre as nuvens, satisfeita como jamais a vira. Sua liberdade viera enfim. Ela contou-me das transformações ocorridas, e de como eu me tornara o orgulho de uma geração. Dei-lhe a mão e corremos rumo ao sol poente. Lembrei-me então do Coronel. Jamais o encontrei perdido pelo céu. Às vezes me pergunto se foi por ele não ter asas, ou se ele as possuía, mas o peso das medalhas não o deixava voar.


quinta-feira, 2 de maio de 2013

O viúvo


Foi em uma manhã de quarta feira, ao despertar, que o Jair notou que algo não estava certo. Levantara antes de Dalva, pela primeira vez em dez anos de casamento. Estranhou, afinal, ela sempre aguardava ao lado da cama até que ele acordasse. Com um jeito todo próprio, lhe desejava seu “bom dia”, sempre com frases doces, do tipo: “Bora! Levanta e vai trabalhar!”. Contudo, agora quem estava ao lado da cama era o Jair, olhando-a com certo espanto. Percebendo-a quieta demais, aproximou-se. Dalva parecia não respirar. Ao encostar o ouvido sobre o colo gélido, Jair arrepiou-se com o silêncio.

O que se seguiu foram horas de telefonemas e todos aqueles procedimentos que sucedem o óbito. O Jair foi o responsável por tudo. Desde a escolha do caixão, até à feitura do café, que foi servido no velório. Esta última tarefa em nada lhe era estranha, já que Dalva o obrigava a fazer café todos os dias. Todos os que provaram o café elogiaram a habilidade do viúvo. Acerca deste, indagava-se também sobre como seria o futuro sem a esposa. Um casamento longo como aquele sendo interrompido por uma fatalidade, certamente a vida não seria mais a mesma. Jair bem sabia.

O funeral foi na quinta-feira, pela manhã. Todos estavam admirados com a força mostrada por Jair. O semblante sério, inabalável, escondia a dor que por dentro o consumia. Pelo menos esse era o comentário que se disseminava entre os presentes. Alguns ofereciam seu ombro amigo, caso o viúvo desejasse desabafar. Cordialmente, o Jair agradecia, e dizia estar bem, apesar de tudo. Arrisco dizer que a comiseração em relação a ele, era bem maior que o pesar pela defunta. Não fossem as lágrimas derramadas pelos parentes, poder-se-ia dizer que a morta era mera coadjuvante.

Finda a cerimônia, as pessoas foram saindo, até que restasse apenas o Jair. Quando se viu só, ele enfim desabafou. Cuspiu no túmulo e se pôs a amaldiçoar a nova hóspede do cemitério. Alguém que por ali passasse, teria escutado coisas como:

- “Já vai tarde! Agora sim eu volto a viver. Maldito foi o dia em que eu botei aquela aliança no teu dedo e disse “sim” para o padre. Mas agora eu estou livre. Acabou o tormento. Lembra-se daquelas panelas que me forçavas a arear? Vou usar todas como urinol! E tua coleção de bibelôs de porcelana? Vou me divertir quebrando de um a um! Mas não agora. Agora eu vou aproveitar um pouco. Fica aí, que eu vou curtir. E fica tranquila que todos os anos, no Dia de Finados, eu venho aqui para cuspir na tua sepultura de novo!”.

E o Jair saiu pelas ruas, arrotando liberdade. Parou no primeiro bar que avistou e pediu uma dose da bebida mais forte. Após essa primeira, outras tantas vieram. E até o anoitecer o Jair já havia feito vários amigos de copo. As “moças” o chamavam de Jairzinho, e a vida era um carnaval. E entre bebidas, sexo e farra o viúvo desapareceu durante todo o fim de semana. A dieta alcoólica provocou um estado de embriaguez constante, de modo que a sobriedade somente retornou na manhã de quarta-feira.


A julgar pela ressaca, Jair jurava haver despertado em plena quarta-feira de cinzas. Poderia até não o ser para as demais pessoas, mas, para ele, sim. Embora deitado, sentia a cabeça girar. Estava em um quarto desconhecido, deitado em uma cama com pelo menos cinco outras pessoas. Transtornado das ideias, só conseguiu se situar quando alguém perguntou que dia era aquele, e ele se ouviu responder: “quarta-feira”. Imediatamente, lembrou-se que completava uma semana da morte de Dalva. Se não estivesse enganado, a missa de sétimo dia seria naquela manhã.

Em um sobressalto, pôs-se de pé, incomodando os demais, que ainda dormiam. Percebendo-se apenas com a roupa de baixo, tratou de procurar suas roupas dentre as tantas jogadas ao chão. Juntou algumas peças conhecidas, outras nem tanto, e vestiu-se. Saiu à rua apressado, passando a mão pelos cabelos, pondo a camisa para dentro das calças. Sequer sabia onde estava. Mas, era preciso chegar à missa a tempo. Apanhou o primeiro ônibus que passou e seguiu.

Após uma hora rodando pela cidade, conseguiu chegar à igreja. Quando entrou, o Padre já estava nos ritos finais. Após a bênção, este pediu que algum querido da homenageada viesse ao altar para proferir algumas palavras. Imediatamente, todos os olhares se voltaram para o Jair, que, sentado em um banco ao fundo, lutava contra a dor de cabeça e a náusea. Percebendo o silêncio, o viúvo entendeu a mensagem. Pôs a expressão grave no rosto e se encaminhou ao altar, tentando não cambalear.

Já diante do microfone, olhou para todos os presentes e tentou pensar em algo para dizer. Embora desejasse amaldiçoar uma vez mais a Dalva e expor para todos a tirana que era fora naqueles dez anos de casamento, porém sabia que seria julgado. Por isso, procurava palavras melhores. Mas raciocinar era difícil. A farra fora intensa, a ressaca o era ainda mais. Não suportando o peso da cabeça, apoiou-a nas mãos e ficou imóvel por alguns minutos. Arrisco dizer que nesse instante Jair tirou um breve cochilo.

As pessoas presentes, no entanto, interpretaram a situação de modo diverso. Comentavam a infelicidade do pobre viúvo. Cochichavam entre si coisas como:

- “Pobre Jair, olha como ele tá acabado. Eu sabia que ele estava se fazendo de forte. Aposto que após o enterro ele desabou.”.

- “Ele amava tanto a Dalva, não vai suportar viver sem ela. Olha o estado dele, e isso porque não faz nem uma semana que a ela faleceu.”.

E o Jair, que a estas alturas já havia sido gentilmente retirado do altar pelos coroinhas, pensava apenas em chegar a casa para se recuperar, cumprir as promessas que fizera a Dalva no cemitério para depois cair na gandaia novamente.


quinta-feira, 11 de abril de 2013

O espetáculo

Apoiou-se no pé direito para subir no palco, ritual indispensável, segundo sua superstição. Por trás das cortinas, sentiu o conhecido frio na barriga antes de entrar. Respirou fundo, trazendo para si ar e coragem. As alvas cortinas se abriram e, com um sorriso no rosto, ele surgiu. A roupa colorida de mangas bufantes, puída em alguns pontos, a maquiagem exagerada, os enormes sapatos e o nariz vermelho apresentaram à platéia o Palhaço Paçoca. Se a memória não lhe fosse traiçoeira, aquela era a sua milésima apresentação, era preciso que o show fosse inesquecível a todos. Ele certamente capricharia.

Lançou o olhar à platéia, em busca de um rosto mais amigável, com o qual pudesse fazer seus gracejos. Frustrou-se, porém, ao ver que pouca atenção devotavam ao palco. Com o olhar atento e o dedos inquietos, as crianças se concentravam em seus celulares, como se o palco estivesse vazio. Mas o palhaço não se abateu. Aquela não era a primeira vez que precisaria conquistar os olhos e ouvidos da platéia. Experiente, buscou nos arquivos da mente o melhor de suas piadas, carregando nos trejeitos e distorcendo o timbre da voz.

Esforço vão, concluiu após alguns minutos. Pela primeira vez, em trinta anos de carreira, pareceu que não haveria sorrisos. Observou mais atentamente. As crianças eram diferentes daquelas que vira em outros tempos: meninas com maquiagens e adornos, como se mulheres fossem; meninos de olhares maliciosos, que pareciam ter deixado a infância pelo caminho. O silêncio no ambiente constrangia, torturava o pobre palhaço. Lembrou-se, porém, que certa vez aprendera um truque de mágica com um amigo. Pensou em usá-lo, seria infalível.

Pediu então a ajuda de um voluntário da platéia. Ninguém levantou a mão. Ele insistiu, convidando em tom de quase súplica. As crianças permaneceram cabisbaixas, imóveis, a não ser pelas mãos, entregues aos gadgets. Imaginou que talvez elas fizessem, entre si, críticas silenciosas ao show. Era preciso reverter a situação. Aquela apresentação deveria ser inesquecível. Caminhou até a platéia e tentou se aproximar de alguém. Mas foi surpreendido por um copo atirado de uma das cadeiras de trás. Este o acertou em cheio, espalhando em seu rosto um líquido qualquer, que borrou-lhe a maquiagem. A platéia enfim sorrira. Ao fundo alguém gritou, "Ei, você é muito ruim. Se mata!", e todos se desfizeram em gargalhadas.

Indignado, o palhaço pediu um intervalo e foi para trás das cortinas tentar recompor a maquiagem e a auto-estima. Sentou-se diante do espelho, e pôde ver, entre a pintura borrada, uma ruga no canto de seus olhos. O tempo havia passado, estava velho. Talvez velho demais para seguir com aquilo. Lembrou-se do homem por trás da maquiagem, que sempre viveu à sombra do personagem. Era o Palhaço Paçoca há tanto tempo, que sequer recordava desse homem que sofreu os efeitos do tempo. Àquela altura da vida, tinha apenas o palco. Família, amigos, tudo sacrificou em prol da paixão pelo ofício. O ar jovial do palhaço em nada se parecia com este senhor sentado em frente ao espelho.

À mente, veio-lhe um conselho recebido há muitos anos. Um amigo de profissão o dissera: "Cedo ou tarde não haveria mais lugar para o nosso ofício. Será preciso se adaptar às mudanças do tempo". Esta última parte fixou-se em seu pensamento. De fato, era preciso renovar-se. Os tempos eram outros, a piada de 30 anos atrás certamente não funcionaria. Há tempos os show já não faziam sucesso, a quem ele queria enganar? Se queria salvar aquela apresentação, era preciso voltar ao palco e fazer aquilo que o público esperava. Riram-se de sua humilhação, aquela era a chave.

Paçoca então refez a pintura do rosto como pôde. Já não se importava tanto com ela. O palhaço já sabia exatamente o que devia fazer. Rumou ao palco e atravessou as cortinas. A platéia permanecera como antes, exceto por alguns olhares que, surpresos, eram direcionados ao palco agora. O Palhaço Paçoca pediu a atenção. Tirou do bolso um revólver. Pôs o cano na boca e, antes que alguém pudesse dizer qualquer coisa, puxou o gatilho. O corpo caiu ao chão e o sangue que espirrou nas cortinas, foi como tinta, em uma tela branca, formando uma pintura grotesca.

A platéia não acreditava no que vira. Alguns, imediatamente, levantaram de seus lugares e correram para perto do corpo para fotografá-lo. Alguém gritou ao fundo: "Eu filmei tudo com o meu celular!". Outros diziam: "Posta logo no youtube!". Os pais, ao ouvirem o som do tiro, apareceram e ficaram horrorizados com aquela cena. As crianças não se continham, falavam entre si, compartilhavam fotos do corpo na internet. Enfim, o Palhaço Paçoca, de fato, havia acertado. Oferecera exatamente o que aquele público desejava. Seu milésimo espetáculo fora um sucesso, afinal.




Fonte imagem: http://listmoor.com.br/wp-content/uploads/palhaco-morto.jpg

sábado, 30 de março de 2013

Fotografias


Sentado à beira do abismo, cansei de esperar a terra ceder. Resolvi adiantar o fim, ele era inevitável afinal. A vida chegara ao seu limiar, mesmo meu sorriso era de desprazer. Empunhei então um antigo álbum de fotografias, e decidi morrer de nostalgia. Tão certo estava do poder lesivo de minha arma, que acreditava ser apenas questão de tempo até ver findo meu infeliz tédio. Caminhei pela varanda da casa à procura de um lugar à sombra, onde pudesse sentir a brisa, mas que permitisse ao sol lançar sobre mim alguns raios de luz. Derradeira vaidade. Sentei-me, por fim, sob uma mangueira que ficava no quintal. Respirei fundo e abri o álbum.

A memória, que já enfrentava a ação do tempo, me fez demorar algum tempo até reconhecer as pessoas na primeira fotografia. Nela havia duas crianças de mãos dadas: Julia e eu. Talvez tivesse eu 12 anos no momento registrado na imagem, Julia devia ser mais nova poucos meses. Recordei algumas poucas coisas daquele tempo: o sorriso de minha mãe, os conselhos de meu pai, as tardes de futebol na pracinha. Por fim, me veio a mente a lembrança do primeiro beijo, dado em Julia, meu primeiro amor talvez. Meras memórias incertas, nada que, de fato, me emocionasse.

Supondo que aquela primeira parte continha apenas imagens da infância, fechei o álbum novamente e abri em uma página aleatória, localizada mais ao meio. A fotografia da vez era dos tempos de faculdade. Muitas pessoas compunham a imagem, foi tirada durante uma passeata a qual não recordo o dia ou o motivo. Ao centro da imagem, Soraia segurava em minha mão. Era uma jovem branca que esbanjava jovialidade. Eu também era belo naqueles tempos. Talvez tivesse amado Soraia mais que a mim mesmo, mas por algum motivo ela não permanecera em minha vida. Tal conclusão pôs fim a qualquer faísca que pudesse tentar aquecer meu envelhecido coração.

Avançando mais um pouco as páginas, deparei-me com uma foto de meu casamento. Helen e eu fazíamos aquela tradicional pose em que o casal brinda com os braços entrelaçados. De repente, veio a mim a doce lembrança daquele dia. A felicidade com que subimos ao altar, o nervosismo que senti ao responder o “sim” ao padre. Lembrei ainda do quanto resisti para tirar aquela fotografia. Sempre achei a pose ridícula, mas agora percebia que a imagem ficara bela afinal. Helen parecia um anjo naquele dia, e eu jurava ser eterno. Infelizmente não aguentamos o peso da vida a dois. Decidi seguir à próxima imagem antes que as dolorosas memórias da separação despertassem.

As fotografias que se seguiram mostravam uma fase de minha vida em que nada era certeza e as paixões eram voláteis. Foram anos vividos intensamente, que talvez tenham sidos bons, mas que agora me pareciam perdidos. Em comum, as fotos tinham apenas a minha presença, os rostos ao lado do meu nas imagens mudavam conforme a paisagem. Eram aventuras, laços momentâneos, de desejo e liberdade. Talvez, algum daqueles sorrisos tivesse-me feito ter vontade de ficar um pouco mais. Mas o fato é que eu, por algum motivo, sempre partia. Em suma, eram páginas vãs de minha vida, tratei de seguir em frente.

Prossegui à penúltima página, esperando que uma fotografia mais recente fosse capaz de provocar em mim o efeito que buscava desde o início, e que as imagens anteriores não conseguiram. Meu olhar se encheu de doçura, quando vi a imagem de Ana sentada ao meu lado sob a mesma árvore onde eu estava agora. Uma única lágrima percorreu meu rosto, mas secou solitária, sem que outra a seguisse o caminho que ela traçara. A emoção fora minguada pela lembrança da perda. Sofrera tanto quando aquele câncer a roubou de mim, que agora já não doía mais. Desfiz-me da dor, que levou consigo as boas lembranças.



Faltava-me apenas uma página agora. Mas já não havia, em mim, ânimo para prosseguir em minha empreitada. Meu plano fracassara: todas aquelas pessoas passaram pela vida e foram importantes, mas agora, nada representavam, não passavam de imagens no papel, meras fotografias. A tão desejada nostalgia não viera para sufocar-me. Em seu lugar, eu sentia o vazio, que parecia corroer-me por dentro, como se o sangue fosse ácido a desfazer o coração a cada respiração. Criei coragem e virei a página. O susto trouxe consigo a conclusão derradeira, a resolução de minha vida. Desfaleci solitário, pois mesmo o sol se escondera atrás das nuvens. Sobre meu colo, caiu o álbum aberto na última página, em branco. Não havia imagem alguma nele, pois, desde a morte de Ana, minha vida se perdera. Morri tardiamente, após descobrir que há muito já não vivia.





Fonte imagem: http://digasim.files.wordpress.com/2009/11/albumnina-5.jpg

sexta-feira, 15 de março de 2013

Relacionamentos

    Sexta-feira a noite e lá estávamos nós, uma vez mais, reunidos no espaço mais democrático e tradicional, para discussões e reflexões filosóficas, da famigerada pós-modernidade: o boteco. Éramos seis, sentados à mesa, exercitando o melhor de nossa retórica que, após alguns copos de cerveja ou de um destilado qualquer, se tornava mais fluida e passional. O assunto já oscilara entre política, religião, mercado de trabalho, inflação e futebol. Chegávamos então ao ponto mais delicado - complexo - de nossa discussão. Era, enfim, chegada a hora de falar sobre nossos relacionamentos.



    O André foi o primeiro, como sempre. Solteirão, com carteira assinada desde que eu possa me lembrar, se vangloreava diante de nós, casados. Apostava com todos que passaria pela vida sem casar, dizia ser desses que nasceu para ser só. Como já conhecíamos a ladainha, apenas ignorávamos a gabolice. Afinal, sabíamos que as coisas não eram bem assim. No passado, André tivera uma namorada, pela qual era capaz de fazer qualquer coisa. Mas, ele era mais uma infeliz vítima do temido mal de amar sozinho. Um dia ela disse adeus e ele tornou-se o que é. Logo, não fosse a frustração, estaria ele aqui, como qualquer um de nós, com aliança no dedo. Era visível que ele se sentia só, embora não admitisse. 

    "Eu amo a minha mulher, mas a minha sogra...", foi assim que o Gil começou sua manifestação. As críticas à sogra já eram tradição. Embora nenhum de nós visse qualquer problema com a pobre senhora, o Gil sempre tinha uma nova para contar. Após alguns anos, começamos a sustentar, secretamente, a teoria de que aquele era o único modo que ele dispunha para puxar assunto. Costumávamos brincar, inclusive, que se um dia a sogra morresse, ou o Gil deixaria de se manifestar por falta de reclamações; ou então assumiria de vez que sempre amou a sogra e lamentaria a falta da finada. Enquanto esse dia não chegava, apenas o escutávamos, fingindo prestar atenção, fazendo aqui e ali uma piadinha.

    O Bira costumava falar pouco, mas sempre nos surpreendia. Dentre todos nós, ele era o mais jovem. Casara cedo, após engravidar a namorada. Por conta disso, jamais se se adaptou de fato à vida de casado. Entregue às aventuras, tinha sempre uma história sobre uma vizinha, secretária, amiga do colégio...alguém que ele estava "pegando" escondido da mulher. Hoje não fora diferente: a bola da vez era a cunhada. Ele amava a mulher, mas amava ainda mais a adrenalina dos casos. De início, conversávamos com ele, aconselhávamos. Mas, todos acabaram desistindo. Algum dia quem sabe ele se aquietava. Ou então, a mulher descobriria e ele acabaria solteiro, livre para vivenciar as coisas das quais jamais abriu mão.

    Eu e o Fernando éramos os mais velhos e, aparentemente, os únicos satisfeitos com o que tínhamos. O Fernando era casado há 10 anos, não tinha filhos. Amava a mulher e sempre estava sorridente, como se a vida fosse uma eterna lua de mel. Eu estava casado há pouco mais de 12 anos, tinha dois filhos e desejava mais dois. A vida não era perfeita, mas eu amava minha esposa. Eis os motivos que faziam com que tanto as manifestações de Fernando quanto as minhas fossem breves e tediosas. Afinal, de felicidade não se queixa, se celebra. Era por isso que, quase sempre, fazíamos um brinde para que tudo se mantivesse como estava. Pelo menos para mim e para o Fernando.

    Entre nós, faltava apenas o Renato dizer suas palavras. No entanto, ele, que falara, enérgico, durante toda a noite, estava agora calado e pensativo. Separado há poucos meses, ele ainda não parecia haver superado. Respeitávamos sua situação, mas o silêncio constrangedor o forçava a dizer alguma coisa. "Hoje fazem seis meses. Eu não a vejo há quase um mês", desabafou. Todos sabíamos que, embora separados, ele e a ex costumavam se encontrar. Era visível que aquela situação fazia mal para ele.

    O Renato a amava, mas sabia que aquilo devia parar. Há duas semanas prometera não mais a veria. Agora estava lá, cabisbaixo, olhando para o celular. Durante alguns minutos ninguém disse nada. Até que o celular do Renato tocou. Ele olhou para nós, sem saber o que fazer. Mas, antes que alguém pudesse dizer alguma coisa, ele atendeu. "Estou indo", respondeu e, em seguida, desligou. Olhou-nos uma vez mais, temendo os olhares de censura. Como não houvesse nenhum, se despediu e saiu. Nós sabíamos que era ela. Sabíamos também que, no dia seguinte, o Renato ligaria para um de nós querendo conversar - desabafar - sobre a recaída.

    Durante alguns minutos, permanecemos calados, devotando-nos apenas ao gosto forte de nossas bebidas. Alguém poderia ter proferido alguma crítica à atitude de nosso amigo. Mas ninguém ousou. Nem mesmo André se manifestou. Mesmo ele já havia amado alguém, sabia como eram essas coisas. Todos nós sabíamos. "Amar não é fácil", concluiu o Fernando, dessa vez não tão sorridente. Concordamos, afinal, apesar de suas peculiaridades, nossos relacionamentos tinham seus altos e baixos. Aquele era o momento difícil de Renato, deveríamos apenas apoiá-lo, como bons amigos fazem. Tomamos o que ainda restava em nossos copos e pedimos a conta. Não havia mais nada a ser dito naquela noite.



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domingo, 24 de fevereiro de 2013

Clichês


Encontros de olhares - um dialogar sem palavras. Uma bebida oferecida e lá estávamos nós, partilhando informações de nossas vidas. Ela, uma viciada em trabalho que “trocara” um casamento por uma carreira de sucesso. Eu, um solteirão que sempre teve mais sorte que talento, mas que gozava da estabilidade que um bom emprego pode oferecer. Experiências de vida distintas nos tornavam interessantes, um ao outro. Telefones trocados, beijos também. Um adeus que dizia “até logo”.

Uma semana depois, um encontro. Jantar, conversa, sorrisos. Afinidades poucas, diferenças tantas. Ela parecia discordar de mim de propósito, como ninguém jamais o fizera. E isso a tornava tão interessante. Mas, ainda assim, estava envolvida. Atenciosa, parecia saborear cada palavra que eu dizia, enquanto corria os dedos pelos cabelos - charmosa. A noite avançou até minha casa. Vimos o amanhecer entre suspiros e gemidos. E foi assim que personificamos o clichê dos opostos que se atraem.


As semanas que se seguiram foram de doces descobertas. Aos poucos mostrávamos nossos segredos: os sonhos, as lembranças de infância, os medos, as fraquezas. Essas coisas que partilhamos com quem entra em nossas vidas pretendendo nela permanecer. As diferenças já não pareciam incomodar, sempre havia alguém disposto a ceder frente à opinião contrária. Não sabíamos, mas isto nutria em nós (ou pelo menos em mim) a ilusão de que, cedo ou tarde, alguém iria mudar, tornar-se aquilo que o outro desejava.

A relação evoluiu, quando os dias tornaram-se meses. Estávamos mais íntimos, e isso nem sempre era algo positivo. As “formalidades” foram se perdendo.  Meu cavalheirismo se esvaía, era agora algo prescindível.  Assim como a vaidade já não parecia ser mais tão necessária a ela. Já não procurávamos esconder nossos defeitos, fazendo-os, amiúde, mais evidentes. Acostumados um ao outro, pareciam já não haver surpresas. Sem perceber, tornamo-nos previsíveis.   

Ainda assim, algo mantinha-nos unidos. Arrisco dizer que era amor. Afinal, dizem que quando não há mais nada, somente ele prevalece, "o amor a tudo vence" – outro grande clichê. Mesmo quando não houve razões para permanecer unidos, seguimos em frente. Contudo, esse tal amor é injusto, nem sempre vem nas mesmas proporções. E conosco ele também foi marcado pela assimetria. Alguém amava demais e outro de menos. Mas isso é algo que só é perceptível por aquele em quem o amor pouco se manifesta. Infelizmente, esse não era eu.

O passar dos anos deu-me a certeza de que seria para a vida inteira. Mesmo que o mundo tentasse me mostrar o contrário, eu pouco me importava em viver aquela eterna contradição. Era ela quem me fazia feliz, afinal. Fiz planos para nós, sonhei com o futuro. No entanto, surpreendido fui, quando ela se foi sem nada dizer. Sem perceber, eu insistia em alongar uma estória cujo final há muito já havia sido escrito. Para meu azar, não quis ela realizar ao meu lado o clichê - utopia, na verdade - dos “felizes para sempre”. 


Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhTnCbBBkclLrY3kF4HWAbc9LWpInsdZvSSSiQEvwn4Sy2km_mlwKrg-i1-aqOPwiI5MmdYDFwNjoWFwd5laH-OMzgf9GLFgKCho-9Lme43aE1u3sWzmpOHneVZGZee_MW-0oPX0VRuGBqw/s320/os_opostos_se_atraem.jpg

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Instinto


    Sob o pratear da lua, eu destilava olhares e cantadas medíocres à jovem sentada à mesa junto a mim. Seu nome era Inês, e detinha de todo o meu olhar. Personalidade forte, respondia as minhas perguntas com a indiferença de quem apenas deixava o tempo passar. Cansado de meu quase monólogo, incitei-a a fazer perguntas sobre mim. “Quantos anos você tem?”, perguntou, após longo silêncio, olhando-me nos olhos pela primeira vez na noite. Embora desejasse mentir, fui sincero: “Tenho quarenta anos”.

  Ela ficou em silêncio. “Até quantos pretendes viver?”, foi a resposta que dela obtive. A pergunta pareceu-me estranha, incomum demais. Preferi descontrair: “Sei lá, até uns cem, eu acho”. Recebi outro olhar, de interesse agora. Em minha ingenuidade, jamais poderia imaginar o quão decisivas aquelas perguntas eram. Minhas respostas forneceram os dados que ela necessitava. Palavras que tomaram as rédeas da noite, que, ao contrário do que eu ousei imaginar, não seria tão longa.

    “Faltam cinco minutos para meia noite, já é tarde”. Disse ela e, em seguida, chamou o garçom. Pediu a conta e levantou-se da mesa. Sem entender, perguntei se havia dito algo de errado. Ela sorriu: “Não. Apenas acho que devemos conversar em um lugar mais reservado. Sua casa, talvez”. Surpreso, apenas assenti com a cabeça e sorri por dentro. Fiz questão de pagar a conta, e me desfiz em galanteios no caminho até meu apartamento. Ela parecia indiferente a tudo, mas me dardejava olhares encorajadores.

    Quando no elevador, tentei beijá-la. Mas, ela me repeliu. Queria deixar claro que era a dona da situação. Sem ter mais o que fazer, fui paciente. Ao chegar, deixei-a e entrar primeiro. Ao acender as luzes, o cetim do vestido brilhou ao chão: completamente nua, ela me observava. Pensei, naquele instante, saber perfeitamente quais eram as intenções daquela estranha. Uma vez mais, fui ingênuo. A nudez expõe, mas não revela. Não revela pensamentos, intenções. Quando aprendi isso, já era tarde demais.



   Ao vê-la daquela forma, despida, exposta, tive a conhecida sensação de domínio. Arranquei minhas roupas e, voraz, fui ao encontro daquelas curvas. Avancei com força e caímos, entre beijos e carícias, sobre sofá. Deixei o corpo falar por mim, cedi ao desejo, ao instinto – minha fraqueza. Queria possuí-la, mas meus toques não correspondiam de todo à minha vontade. Sentia um leve torpor me dominar, e o vigor se perder. Até que, por fim, me vi imobilizado. Com um leve empurrão, ela me jogou ao chão. Em seguida vestiu-se e veio senta-se em um lugar próximo a mim.

    Eu tentei falar, mas já sentia a dificuldade até para respirar. Ela olhou o relógio. “Faltam dez minutos para uma hora, já é tarde”. Olhou-me com a indiferença conhecida pela última vez. Seguia rumo à porta quando, num esforço desesperado, consegui balbuciar a última pergunta da minha vida: “Por quê?”.

   Ainda de costas, ela principiou um monólogo que eu talvez compreendesse, não estivesse a vitalidade me deixando. Recordo apenas de algumas frases. Algo como: “Sempre permito que os anos desejados sejam minutos...Não haverá dor, talvez agonia...Apenas cinco minutos até a droga fazer cessar os batimentos cardíacos...Vocês são sempre iguais, querem sempre a mesma coisa...Desde que eu era apenas uma menina...O tempo passa, nada muda...Vocês não merecem a vida...Não é trauma, não é vingança, é apenas instinto...”


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