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segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Realista

     Teus olhos brilharam e isso me enfraqueceu. Era algo novo, desconhecido para mim. Havia emoção em ti, diria que talvez paixão. Minhas palavras fugiram de mim neste instante. Então me abraçastes e teu corpo quente se encaixou tão bem ao meu. Isto contrariou o que para mim era costumeiro. Queria sair dali, mas meu corpo não me obedecia. Então ele deu o último imperativo: meus olhos se fecharam e em teus braços adormeci.
     Foi a melhor noite de sono que tive em muito tempo. Acordei sem saber ao certo onde estava, nem porque aquele sorriso estava em meu rosto. Onde estava o meu mau humor matinal? Que lençóis macios eram aqueles? De quem seria aquele quarto aconchegante? Onde quer que eu esteja uma coisa me veio à mente: quebrei as regras. Na verdade, seria “a regra”. Uma norma pessoal que me mantivera solteiro até então.
     Qual seria essa norma? Bem... acho que já ultrapassamos aquele estágio em que eu deveria ter vergonha de falar sobre mim não é? Pois bem, te direi. Eu jamais dormia em outra cama que não fosse a minha. Não importa onde minha noite começasse, eu saberia que ela acabaria em meu quarto. Seria o momento em que eu encararia o espelho, às vezes orgulhoso por mais uma noite de sexo casual satisfatório; talvez indignado, sentindo o vazio inerente a esse tipo de relacionamento.
     Seja como for, eu sempre acordava da mesma forma: mal humorado, porém disposto para seguir a rotina. E assim minha vida seguiria, não fosse aquela noite de maio em que te conheci. Serias apenas mais uma. Mais uma noite de sexo sem compromisso, sem significado. Contudo, me surpreendestes. Em tudo. E o quando teus olhos brilharam tudo teve sentido. Não era aquele brilho de prazer orgástico que eu costumava ver em outros olhos. Havia verdade, havia desejo, havia algo que eu desconhecia. Não bastasse isso, todos os teus gestos me surpreenderam. Teu abraço carinhoso. A forma como teu corpo pedia ao meu para que ficasse.
     Tive a certeza de que nada era como antes no momento em que você apareceu à porta trazendo o café da manhã. Imaginei estar sonhando. Mas, era real. Tive certeza disso quando fizemos amor uma vez mais. Não preciso dizer que meu dia estava sendo totalmente diferente do habitual. Isso me fez sentir ótimo. E eu queria mais. E mesmo passando a semana inteira contigo, eu julguei ser pouco. É como se na tua ausência o tempo não passasse. E após a noite passada eu tive a certeza.
     Sei que talvez isso soe estranho, mas não quero te assustar. Sinto algo por ti que não consigo definir. Apenas sei que quero estar contigo enquanto eu viver. Quero ver o brilho dos teus olhos até o fim de meus dias. Quero o teu abraço perfeito. Quero adormecer e acordar sabendo que isso tudo é real. Quero casar com você. Você quer casar comigo?
     Ela não respondeu. Apanhou o celular que estava sobre a cama entre os dois e pareceu digitar alguma coisa.
     Aflito, ele insistiu. “Quer casar comigo? Sim ou não?”
    Ela pediu que ele aguardasse um instante. Em seguida respondeu:
     “De fato, suas palavras me soaram verdadeiras. Posso dizer que os momentos que estivemos juntos foram ótimos. Como já haviam me dito, és um excelente amante.”
 
     Ele pareceu não entender as últimas palavras. - “Como assim? Quem lhe disse o que?”
    “É... neste momento preciso ser bastante sincera com você. Você saiu com algumas das minhas amigas e, há mais ou menos um mês, uma delas ficou bastante triste após ter sido usada por você. Elas diziam que você merecia uma lição. Mas, te julgavam à prova de tudo. Foi então que, ao questioná-las, me desafiaram. Na verdade fizemos uma aposta. Eu deveria conseguir manter um relacionamento com você por mais que uma noite. Provar que você poderia se envolver. Mas, acabou sendo melhor do que eu esperava.”
     Ele apenas a observava boquiaberto sem acreditar.
     Ela continuou:
     “Acabei de enviar para as minhas amigas, a gravação de tudo o que você me disse agora, assim como o pedido de casamento. Imagino o quanto elas devem estar se divertindo agora ao escutarem que você caiu tão bem em um orgasmo fingido. Deve ser doloroso para você ouvir isso. Mas, é a vida, o que se pode fazer?”
     Realmente, não havia nada a ser feito. Ele apenas se levantou em silêncio. Olhou-a nos olhos novamente. Os olhos dela ainda brilhavam, mas não como antes. Agora eles não apaixonavam, ofendiam, ironizavam. Ele vestiu suas roupas saiu sem dizer nada. Mesmo porque, o que poderia ser dito?

Fonte Imagem: http://www.abril.com.br/imagem/relacionamento-segredo-05g.jpg

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Prisioneiro

     “Se eu me arrepender agora, serei perdoado?” – perguntou Marcos.
     “Não tem volta. Sua sentença já foi prolatada. Não existe possibilidade de perdão.” – respondeu o guarda.
     “Ótimo. Mesmo porque, seria inútil me arrepender de um crime que não cometi. Não é mesmo?”
     “Ainda insiste nisso. Cale a boca e me diga logo o que vai querer para sua última refeição.
     “Tudo bem. Quero o feijão que minha mãe fazia. Aquele que eu costumava comer a cinco anos atrás, antes de vocês me prenderem. Mas, espere. Isso agora é impossível, não? Será porque ela faleceu há dois anos e eu sequer pude dar-lhe o último adeus? Enfim, quanta hipocrisia você me oferecer um último desejo vil em troca de tudo aquilo que vocês me roubaram.” – Falou com uma ironia áspera.
     “Dane-se. Daqui a poucas horas você não vai mais poder se lamentar. Tanto faz se sua barriga vai estar cheia ou vazia.”
     Após dizer isso o guarda seguiu pelo longo corredor que separava aquela ala das demais deixando Marcos sozinho. A contar daquele instante, ele tinha pouco mais de 3 horas vida. Como não havia manifestado desejo por uma última refeição, passaria aquele curto tempo com a certeza de não ser incomodado. Mas o que se passa pela cabeça de um homem que sabe que cada segundo é um passo dado rumo ao abismo que o separará para sempre da vida que conhece?
     No caso de Marcos isso pouco importava. Já estava morto há tempos. O que se seguiria seria uma mera formalidade para afirmar a quem duvidava que, de fato, já não havia vida naquele homem. Aquele olhar vazio denotava perfeitamente o desejo de já não existir. O ódio que, a princípio, se apoderara de Marcos, já havia perdido forças e se via vencido pela conformidade. Não havia nada a ser feito. Como pode um homem lutar contra as imposições de quem detém o poder? Impossível.
     Há poucos anos, a vida era diferente para Marcos. Crescera em uma favela da periferia da cidade. Vítimas das contradições sociais, vivenciou de perto os problemas que só afetam às classes baixas. Ainda na infância perdeu o pai vítima de uma bala perdida. Perdeu alguns amigos para o tráfico. Outros para a violência comum das grandes cidades. Todos imaginavam um futuro semelhante para ele. Mas ele queria mais para si. Queria vencer esse mundo injusto do qual era parte.
     Embora fosse de família humilde, ele prometera para si desde o início que um dia seria alguém. Esforçava-se para isso. Um futuro o aguardava na faculdade. Engenharia era o curso escolhido. Seria o primeiro da família a “alcançar o nível superior”. Sua mãe orgulhava-se, afinal, todos a julgavam incapaz de criar um filho, sozinha, depois que ficou viúva. Mas, ela provou o contrário. Aos dezoito anos, Marcos estava no último ano do ensino médio e todos os professores previam um futuro promissor para o rapaz.
     Faltavam dois meses para a prova do vestibular, quando um professor de física ofereceu a Marcos uma bolsa em um dos melhores cursinhos da cidade. O rapaz aceitou sem nem pensar. A mãe, embora orgulhosa, demonstrou receio quanto a tal proposta. Temia que Marcos sofresse algum preconceito por ser de pobre ou, o que era mais fácil, por ser negro. Mas, após muita insistência ela permitiu.
     E veio o primeiro dia de aula. Marcos saiu de sua casa na periferia da cidade e após tomar três conduções conseguiu chegar ao cursinho. O professor o aguardava à entrada do lugar. Talvez porque temia que o porteiro fizesse o rapaz passar por algum constrangimento. Desde a entrada Marcos despertou olhares. Talvez fosse o primeiro negro a adentrar aquele ambiente. As pessoas apontavam para ele e comentavam entre si.
     “Ignore-os. Isso acontece com qualquer novato. Lembre-se porque está aqui. Não deixe que ninguém fique entre você e seus sonhos. Concentre-se nas aulas e tudo dará certo.” – Disse o professor na tentativa de tranqüilizar o aprendiz.
     De fato, Marcos ignorou qualquer recepção hostil e manteve o foco nas aulas. Respondeu a perguntas, tirou dúvidas. Atraiu olhares para si, alguns de admiração, mas muitos de inveja. Após responder uma pergunta, foi presenteado com um livro por um dos professores, como uma espécie de incentivo. A alegria foi tamanha que ao término da aula o rapaz saiu correndo. Queria chegar logo em casa para contar à mãe como foi seu dia.
     Já havia caminhado três quarteirões e estava na metade do caminho até a parada de ônibus quando lembrou que havia esquecido o caderno embaixo de uma das cadeiras. Voltou correndo para apanhá-lo antes que o porteiro fosse embora. Já estava escuro e a rua estava deserta. Quando estava a poucos metros do cursinho ouviu um gemido. Conteve os passos. Olhou para o lado e viu um beco que ficava ao lado de um prédio de luxo. Aproximou-se da entrada e pode ver caído sobre uma pilha de lixo, um rapaz, mais ou menos da sua idade, agonizando ensangüentado.
     Marcos correu para socorrê-lo. Tomou-o nos braços. Em seus últimos suspiros o rapaz se debatia espalhando sangue por toda a roupa de Marcos. Este decidiu correr para pedir ajuda. Correu em direção à saída do beco, mas, antes que chegasse até a rua, uma viatura da polícia parou. Ele tentou alertar aos policiais, mas eles sequer quiseram ouvi-lo. Jogaram-no ao chão e lhe desferiram vários golpes antes de algemá-lo. Enquanto isso, outro policial caminhou até a pilha de lixo e encontrou o outro garoto, já sem vida.
     Marcos foi autuado em flagrante sem qualquer chance de defesa. Enquanto sua mãe não chegou à delegacia, foi torturado por vários policiais que queriam uma confissão. Marcos era inocente, mas só sua mãe acreditava nele. Não havia provas da autoria do crime. Contudo, como o rapaz assassinado era filho de família influente, Marcos permaneceu preso. Entre todo o processo, decorreram três anos desde o ocorrido até o dia do julgamento.
     Chegado o dia, a defesa não havia consegui reunir muitas provas da inocência de Marcos. A acusação, pelo contrário, tinha várias provas. Desde a faca utilizada para esfaquear a vítima, que não continha digitais ou qualquer vestígio que provasse ter sido usada por Marcos; até mesmo um vídeo da câmera de segurança do prédio adjacente ao beco, que mostrava imagens de um rapaz negro mais forte, que trajava uma camisa de cor diferente da que Marcos usava no dia, arrastando a vítima para o beco.
     Por si só, essas provas já invalidavam a acusação contra Marcos. A defesa tentou reafirmar a inocência pedindo para que o vídeo da câmera de segurança fosse adiantado alguns minutos, até o instante que mostrava o verdadeiro assassino saindo do beco e, depois, o momento em que Marcos entrou para ajudar o rapaz. Porém, esses instantes haviam sido apagados. Segundo disseram, a câmera havia dado defeito.
     A defesa não conseguiu nenhuma testemunha. Talvez porque ninguém queria depor a favor do rapaz pobre que não pertencia ao bairro onde o crime aconteceu. Porém, a acusação trouxe várias. Diversos amigos da vítima que alegaram que o jovem assassinado tinha envolvimento com drogas e que devia para traficantes. Alguns chegaram até a apontar Marcos como o traficante. Diante disso, a acusação induziu o tribunal a pensar que tudo era apenas mais um crime de acerto de contas. Que o jovem traficante da favela havia ceifado a vida do pobre rapaz de classe média por uma quantia irrisória qualquer, fruto de uma atividade ilícita.
     Em face de tais argumentos, e do fato de que o juiz havia sido corrompido pela família da vítima, Marcos foi condenado à pena de morte por injeção letal. Esta sentença, cruel e extremamente arbitrária, apenas refletia os traços da sociedade do país do ocorrido. A elite detinha o controle de tudo e sua vontade era perpetuada enquanto seu poder financeiro pudesse arcar com os caprichos dos “poderosos”.
     A defesa tentou recorrer, mas sem sucesso. A condenação foi demais para a mãe de Marcos. Cardíaca, ela acabou passando mal. Uma ambulância levou-a até o hospital, porém, a deficiência do sistema de saúde público acabou por fazê-la sua vítima. Marcos soube a notícia na cadeia. Privado de sua liberdade, ele teve que lamentar em sua cela. A data da execução foi agendada para dois anos após o julgamento. Segundo rumores, porque a família da vítima exigiu tal prazo. Decerto queriam que o rapaz sofresse as mazelas do sistema penal antes de perder a vida.
     E assim Marcos permaneceu padecendo enquanto aguardava sua sentença definitiva. Blasfemava, indagava aos céus o motivo de tamanha injustiça. Mas a revolta logo se desfez. De nada adiantaria. Por mais que quisesse, não podia ir contra o “sistema”. Do rapaz alegre e esperançoso de outrora, já não restava nada. Era apenas um ser vazio, indigno até das coações dos demais presos.
     Marcos olhava as nuvens que apareciam através das grades da cela quando sentiu que alguém chegara à porta da cela. Era o guarda que vinha informa-lhe que seu dia havia chegado. Este lhe explicou o procedimento que seria utilizado, como se saber que dormiria antes de morrer fosse tranqüilizar Marcos. Um breve diálogo se seguiu entre ambos até que Marcos se viu sozinho novamente.
     Em sua solidão ele aguardava o passar do tempo. Já estava preparado para aquele momento desde o dia em que sua mãe havia falecido. Desejava a morte como se ela fosse uma linda virgem a atirçar-lhe a libido. Então as grades se abriram. Era chegado o momento. Caminhou pelo corredor de olhos fechados. Esperava dormir para não mais acordar. Ou então, como ele havia se convencido, acordaria enfim daquele pesadelo. Em instantes abraçaria sua tão amada mãe e esqueceria essa vida. Já não seria mais prisioneiro das injustiças.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Liberdade

     "Eis as provas. Basta abrir o envelope e as duvidas já não habitarão seus pensamentos."  – Disse o detetive, após deixar o envelope sobre a mesa da lanchonete em que se encontrara com Miguel.
     Este observou o pacote por alguns instantes. Em seguida pôs outro envelope sobre a mesa, o qual o detetive apanhou com ligeireza. Ambos abriram os pacotes ao mesmo tempo. As reações foram completamente dispares: o detetive sorria ao conferir as cédulas que retirara de seu envelope; Miguel deixava escapar lágrimas silenciosas enquanto observava calmamente as fotos que retira do seu.
     As imagens eram parecidas. Os mesmo elementos as compunham: o quarto era o mesmo, a mulher também, o homem idem. O elemento distinto de uma foto para outra eram as roupas que os personagens usavam, o que denotava uma sucessão de dias. A mulher era Ângela, esposa de Miguel; o homem Renato, um conhecido do homem que observava as fotos. As imagens eram comprometedoras, a priori mostravam os dois trocando carícias, porém a última fotografia mostrava-os transando sobre a cama.
     Percebendo as lágrimas de Miguel, o Detetive principiou uma frase de consolo, mas bastou um olhar de seu cliente para que percebesse que o melhor que seu silêncio era mais conveniente ao momento. Miguel levantou-se. Deixou sobre a mesa algumas notas para que o outro pagasse a conta e saiu. Seus passos eram firmes, confiantes. Mas as lágrimas insistiam em escapar de seus olhos. Entrou no carro obstinado. Apanhou a arma que estava no porta-luvas, conferiu as balas. Partiu sem pressa rumo ao prédio em que residia.
     Aquela era uma manobra atípica. Miguel deveria estar trabalhando naquele horário. Mas, conseguira a tarde de folga após negociar com seu chefe. Passados três meses de investigações, Miguel enfim tinha certeza. Era esta quem o guiava agora. Se o Detetive não estivesse enganado, aquele era o horário em que os dois costumavam se encontrar. Mais alguns minutos e eles seriam flagrados. Não haveria como argumentar. Miguel ainda vertia lágrimas, mas seu olhar parecia mais sereno.
     Ao chegar, Miguel avistou o carro de Renato parado na vaga de estacionamento do vizinho. Estacionou o carro em sua vaga costumeira. Usaria o elevador, mas preferiu as escadas. Talvez quisesse um pouco mais de tempo para refletir sobre o que faria. As lágrimas já haviam cessado. Apenas a mão esquerda tremia segurando o revólver. Após subir as escadas, Miguel atravessou o corredor que levava ao seu apartamento. Enquanto caminhava, observou a porta do apartamento vizinho e pareceu hesitar. Mas seguiu em frente.
     Assim que entrou na sala de seu apartamento, Miguel notou o som abafado que vinha do quarto. A porta estava fechada, mas ainda assim era possível escutar os gemidos. Ele caminhou até o lugar de onde vinham os sons. A mão que segurava a arma já não tremia. Com a outra mão ele abriu a porta e adentrou rapidamente. O casal foi tomado pelo susto. Os dois o olhavam com a arma em punho. Os gemidos libidinosos de Ângela agora eram substituídos por um choro amedrontado. Renato pedia a Miguel que ele se acalmasse. Ângela tentava, em meio às lágrimas nervosas, esboçar um pedido de perdão.
     O olhar frio e a expressão firme no rosto de Miguel conseguiam ser ainda mais assustadores que a arma que ele tinha em mãos. Renato e Ângela, que outrora partilhavam do prazer, agora dividiam a certeza de que morreriam. Miguel caminhou até a cama onde os dois tremiam envoltos no lençol molhado de suor. O casal fechou os olhos e se abraçou. Morreriam juntos. Esperaram o som dos tiros. Mas tudo o que escutaram foi o “adeus” de Miguel. Abriram os olhos e puderam vê-lo saindo pela porta. Ele havia deixado a arma sobre a cama.
     O casal não entendeu o significado daquilo. Ângela estava estática, temendo que Miguel retornasse para enfim matá-los. Renato imaginava que ele o estaria aguardando para um duelo ou coisa parecida, por isso havia deixado aquela arma. Mas ambos estavam enganados. Miguel jamais voltaria. Após cruzar a porta do quarto, ele trazia um inexplicável sorriso de felicidade no rosto.
     Atravessou o corredor e parou diante da porta do apartamento vizinho. Bateu à porta, ansioso. O homem que a abriu tinha um olhar aflito, que clamava pelas palavras que Miguel tinha a dizer. Mas, antes de dizer qualquer palavra, este lhe beijou os lábios com emoção. Mas o rapaz queria alguma resposta, e só ficou satisfeito quando Miguel sussurrou em seu ouvido:
     “Acabou. Acabou o fingimento. Agora somos livres. Já não preciso viver com ela. Chega dessa farsa. Enfim serei feliz.”
     O rapaz esboçaria ceticismo, mas o brilho no olhar de Miguel não mentia. Ele falava a verdade. Enfim os dois poderiam assumir para o mundo o que há tantos anos escondiam. Miguel já não precisava fingir. A vida de antes ficara para trás. Aquele envelope de fotos fora sua carta de alforria. As lágrimas, o grito silencioso de liberdade. A arma abandonada, o último resquício de uma vida não lhe pertencia. Miguel enfim era livre para viver aquele amor.


sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Abismo


Abismo

E eu suspiro descontente
Por meus pecados – aflito.
Compreeder-me? Não tente,
Apenas ouça meu grito.

Eu encaro minhas vaidades:
As maldições do meu eu.
Castigam-me as saudades,
De tudo que se perdeu.

Com minhas solidões reflito.
Meu espelho apenas reflete
O meu vazio infinito,
Mas não minha alma inerte.

Mas não quero escapismo,
Que aos covardes encanta.
Permanecerei no abismo.
Eu e minha loucura santa.

Encontrarei no futuro
Todas as razões irracionais.
E então estarei seguro
Com minhas paixões imortais.



quinta-feira, 18 de agosto de 2011

O Beija-flor e a Borboleta

     Caros leitores, eis minha primeira tentativa de escrever algo que se assemelhe a uma fábula. Portanto, conto com vocês para manifestarem sua opinião quanto ao texto. Aos que desejarem, comentem e digam o que acharam. Desde já grato.


                                                                                    Robson Heleno






         O Beija-flor e a Borboleta


    Os raios de sol reluziam sobre as pétalas orvalhadas das flores, refletindo diferentes cores, acentuando-lhes o brilho. Eram rosas, violetas, margaridas, uma infinidade de flores que coexistiam em harmonia. Orgulhosas por suas belezas, sentiam prazer em deixar seus doces perfumes no ar, os quais o vento carregava com prazer até o olfato daqueles que passavam por perto daquele santuário sutil da natureza.
     Em meio a tal cenário, um elemento se destacava: um beija-flor, que permanecia estático no ar com seu bater de asas ininterrupto. Tinha o olhar fixo no horizonte, parecia até ignorar a beleza a sua volta. Mas não era sem motivo. O jovem colibri contemplava, extasiado, o vôo de uma borboleta. Enquanto ela ia de flor em flor, ele a seguia com o olhar. Seus olhos brilhavam, ele suspirava apaixonado.
     Tudo havia começado há poucas manhãs. Ele voava solitário por entre as flores, quando notou a presença da desconhecida. A princípio o beija-flor revoltou-se: como ela ousava entrar em seu jardim sem permissão? Porém, a ira logo se dissipou. Aquela intrusa possuía uma beleza jamais vista pela inocente ave. Voava graciosa, sutil, como se acariciasse o vento com seu leve bater de asas. Diante de um ser tão diferente, o encanto surgiu de imediato. Como não admirá-la?
     Passada a primeira impressão, o beija-flor pensou em dar-lhe as boas vindas. Entretanto, a timidez não o permitia. Inseguro, ele se julgava deveras inferior à borboleta. Suas cores não eram belas como as dela, seu vôo acelerado em nada se comparava à suave valsa que ela dançava com o vento enquanto se deslocava pelo ar. Por fim concluiu que dirigir-lhe a palavra poderia parecer ofendê-la, seria insolência de sua parte.
     Mesmo assim, o contato entre os dois era inevitável, afinal, partilhavam do mesmo jardim. Não raro se cruzavam enquanto voavam por entre as flores. Ele a olhava, mas sempre que ela o correspondia, dava um jeito de desviar o olhar rapidamente. Por vezes ele se escondia por trás de alguma flor só para olhá-la mais de perto. Sempre havia alguma beleza nova a ser descoberta. À distância ele a amava.
     A cada manhã, ele prometia a si mesmo que venceria seu medo e se aproximaria dela. Não sabia ao certo o que faria, mas se conseguisse lhe dirigir a palavra já estaria satisfeito. Se ela lhe respondesse então, seria um sonho realizado. Porém, ele nunca cumpria sua promessa e adiava para o outro dia sua aproximação. “Amanhã eu a conhecerei, ela vai gostar de mim e voaremos lado a lado por esse jardim, mostrando às flores que não há nada mais belo que nosso amor”, dizia para si.
     O colibri não sabia, mas a graciosa borboleta detinha sentimentos semelhantes por ele. Na verdade, ela o amava antes mesmo de ele a haver visto. Ela havia acabado de sair do casulo, preparada para a derradeira etapa de sua vida, quando o viu cortar o ar rapidamente e parar para beijar uma rosa. Ele foi a primeira imagem que ela avistou. Acabou por segui-lo, e descobriu que ele vivia naquele jardim. Decidiu que ficaria ali. Cedo ou tarde eles se aproximariam e ali escreveriam sua história de amor.
     E os dias se passavam e nada mudava. O beija-flor seguia esperançoso, desafiando a si mesmo, diariamente, na tentativa de se aproximar. Enquanto isso a borboleta já não sabia o que fazer, voava perto dele, olhava em seus olhos, mas não era correspondida. Sentia-se rejeitada. Por vezes pensou em aproximar-se do colibri, mas o recato não lhe permitia tal ousadia. Era preciso esperar, cedo ou tarde ele a notaria. E nessa eterna aflição sucediam-se as manhãs.
     Eis que um dia tudo mudaria. O beija-flor, cansado de amar em silêncio, decidiu que acabaria com o sofrimento. Estava disposto a se aproximar da borboleta e dizer-lhe o que sentia. Não se importava que o que aconteceria depois disso, apenas queria ser ouvido. E, assim, preparou-se para encontrá-la. Esperou-a ansioso no jardim, mas ela não apareceu. Imaginou que ela o havia abandonado. Mas não desistiria tão facilmente. Iria encontrá-la, mesmo que para isso precisasse abandonar seu jardim.
     Então, despediu-se de suas flores e preparou-se para partir. Porém, antes que deixasse o jardim ele teve uma surpresa: ao pé de uma árvore avistou-a deitada, quase imóvel, a não ser pela respiração fraca. Ele se aproximou depressa e pousou ao lado dela. Percebeu que a pobre borboleta estava morrendo. Aqueles eram seus últimos suspiros. Utilizando as poucas forças que lhe restavam, ela olhou-o nos olhos.
     Ele diria o que sentia, mas ela o conteve. Queria apenas que ele a ouvisse. Então lhe disse fracamente: “Perdoa-me, mas tenho que partir. Infelizmente não disponho de tantos dias quanto você. Dói-me saber que não o verei por mais uma manhã. Mas alegro-me porque estás aqui. Sei que é tarde, mas saibas que te amo.”. Ao término da última palavra a vida abandonou-a.
     Incrédulo, o pobre beija-flor amaldiçoava o destino, que matou sua felicidade antes que ela pudesse alçar seu primeiro vôo. Sentia ódio de si próprio por não ter não ter dito o que sentia, enquanto podia. Uma vez mais estava solitário em seu jardim. Mas este não era mais como antes. As flores já não tinham cor, seu perfume se esvaíra e até o sol já não brilhava como antes. Desiludido, o beija-flor partiu em um vôo sem fim e jamais foi visto. Depois de algum tempo, outros colibris vieram viver no jardim. E as flores contavam como testemunhas fiéis, a triste fábula do beija-flor e a borboleta.

Fonte Imgem: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiNHGHc_4TLeg7aoUS-sHRoBGDYeoGx5oEknAjTtURiLQ1eeLb4PgcvQcF49U5r5rtGMfHEA0vMT6vhIOaccXubYeqHvlWAEF5bY_jZq0-Y93ySDaJ3ilgjIwXY9Xa7Pyz-hTbcYfqNLg/s1600/Beija-flor.jpg

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Timidez

Ó timidez cruel, covardia ingrata,
Que me prende com seus laços,
Forçando-me a seguir teus passos.
Desatino infeliz que maltrata.

De que vale viver a eterna cobiça,
Um sonho vão que me consome,
Que me tenta a gritar este nome.
Que minha pobre alma enfeitiça.

Quisera ter da coragem a posse,
Ser detentor da feroz ousadia
De um notívago que encara o dia,
Sem temer despedida precoce.

Mas tenho por companheira a fé,
Que me incita a buscar o destino,
Ser mais homem e menos menino.
Atirar-me, sem medo, contra a maré.

Ainda sentirei daqueles lábios o gosto.
E amá-la-ei sem receio ou pudor.
E quando virem o sorriso em meu rosto,
Decerto dirão: é sintoma do amor.



domingo, 7 de agosto de 2011

Segunda Chance

    Deu um passo a frente, então ouviu o barulho das grades se fechando atrás de si. Era a última vez que escutaria tal som. Começou a caminhar. Ao seu lado, dois homens armados com fuzis o acompanhavam até seu destino. Levaram-no a uma sala onde pôde enfim reaver seus pertences, dos quais se apartara há exatos dez anos. Nada de muito luxo: uma camisa branca, amarelada pelo tempo; uma calça jeans; um par de sapatos; um maço contendo cigarros tão amarelados quando a camisa; um isqueiro; algumas moedas.
      Ele vestiu as velhas roupas e foi conduzido à saída. A poucos passos do portão principal, parou e olhou para trás. A aparência do lugar mudara naqueles dez anos, mas ainda assim era deveras medonha. De onde estava ele possuía uma visão privilegiada. Tantos lugares. A memória tentou trazer-lhe à mente as más lembranças, mas ele a conteve. Esqueceria aquele lugar, e tudo o que vivenciou enquanto lá permanecera. Seguiu com seu passo firme, mas antes de cruzar o grande portão que o separava da vida nova, olhou para trás uma vez mais. Diria adeus? Não, apenas guardaria aquela imagem.
                                   
      Com o pé direito ele pisou fora da penitenciária. Respirou fundo, olhou as nuvens, estava livre enfim. Iniciaria uma nova vida, mesmo porque a antiga se perdera há muito. Seu crime? Render-se ao desejo infame e desenfreado que sentira pela filha do chefe durante uma festa. Tinha vinte e cinco anos à época. Era um jantar de confraternização com todos os membros da empresa. A garota chamou-lhe a atenção desde o primeiro momento. Seria algo normal, se ela não tivesse apenas oito anos de idade.
      Imaginando que ninguém perceberia, ele desapareceu com a criança enquanto todos estavam distraídos. Porém, bastaram alguns minutos até que um convidado o encontrasse violentando a criança em um dos quartos. A revolta imediata fez com que o sentimento de justiça viesse à tona, aquele instinto bárbaro que se apodera dos homens diante de algo tão execrável. Espancar-no-iam até a morte. Porém, alguém chamou a polícia, que chegou a tempo de levar-lo quase sem vida.
      Por sorte ou destino, como queira, ele sobreviveu. Condenado a dez anos, foi transferido à maior casa de detenção do estado. Foram anos de abusos- de todos os tipos. Diariamente violentado, ele sofria, mas não ousava manifestar-se. Arrependia-se todas as noites, quando o sono lhe faltava. Contava os dias, na expectativa de poder novamente viver. Queria guiar o próprio destino uma vez mais. Jamais perdera a fé. Mesmo sendo o preso mais odiado, não cultivava rancor dentro de si. Tinha plena consciência que era responsável por tudo aquilo.
      Sentir-se livre era um sonho realizado. Uma nova chance, não a perderia. Recomeçaria a vida com humildade.  “Todos merecem uma segunda chance.”, dizia para si. A estrada em frente ao presídio foi seu primeiro desafio. Caminhou bons vinte quilômetros até chegar à cidade mais próxima. Entretanto, o povo de lá não era muito hospitaleiro. Talvez porque era ponto de passagem de todos os ex-presidiários. Não sendo bem recebido, ele rumou para a capital. Venceu uma partida de sinuca em um bar de beira de estrada e ganhou como prêmio uma carona.
      Ao chegar à cidade, surpreendeu-se com as mudanças. Era uma cidade diferente, maior. Em um bairro periférico ele conseguiu um emprego: seria garçom de um restaurante. Embora estive qualificado para algo bem melhor, considerava que o homem que um dia foi havia morrido levando consigo seus títulos e defeitos. Era um novo homem. Em pouco tempo ganhou a confiança dos patrões, que cederam a ele um quarto que ficava atrás do estabelecimento. Tornou-se benquisto pela vizinhança. A nova vida com a qual sonhara era real. O passado já não o atormentava, enfim era feliz.
      Eis que uma noite um jovem casal adentra o estabelecimento. Com a cordialidade costumeira, ele os atende. Eram jovens, comemoravam o aniversário de namoro. Pareciam felizes, mas algo o intrigara: a moça, furtivamente, o encarava. Constrangido, ele pediu que outro garçom atendesse a mesa e saiu para tomar um ar. Observava as estrelas quando ela apareceu à porta dos fundos do restaurante. Ele se surpreendeu com a ousadia. Decerto ela dissera que ia ao banheiro e mudou o rumo, afinal, a porta em que estava era logo ao lado da do banheiro feminino.
      A moça veio sem desviar o olhar dos olhos dele. Esboçou um sorriso e perguntou-lhe o nome. Desconcertado, ele respondeu. Jamais imaginara uma situação como aquela. Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, a moça o beijou. Empurrou-o contra o muro e tentou abrir sua camisa. Ele ia dizer algo, mas ela disse: “Vamos, tempos pouco tempo.”. Embora confuso aquilo tudo o excitava. Na ânsia de saciar a vontade da moça, bem como a própria, ele arrastou-a para o quarto dos fundos.
      Sequer acenderam as luzes, ela o empurrou contra cama. De onde estava ele podia ver os contornos daquele corpo jovial. Ela tirou a blusa e o provocou. Voraz, ele avançou para beijar-lhe os seios. Porém, antes que seus lábios pudessem sentir o calor da bela jovem, ele sentiu algo frio perfurar-lhe a garganta. Caiu de joelhos diante dela com a faca presa em seu pescoço, agora, ensangüentado. Tentou falar, mas o sangue o sufocava aos poucos. Queria olhar para ela, mas a escuridão não o permitia.
      A jovem afastou-se dele e acendeu as luzes. Apanhou a blusa ao chão e vestiu-a. Olhou para o infeliz que agonizava e sorriu. Ele lançou-lhe um olhar de indagação. Ela se sentiu obrigada a responder:
      “Não se faça de desentendido. Pensou que eu esqueceria o mal que me fez? Durante toda a minha adolescência sonhei com esse momento. Só não imaginei que seria tão fácil. Sim, eu sabia que você estava trabalhando aqui. Foi tudo planejado. Ou achas que eu viria a uma espelunca dessas para comemorar meu aniversário de namoro?”
      Enquanto ouvia aquelas palavras, ele sentia seus membros adormecendo. Estava morrendo, mas ainda teve tempo de olhar aquele rosto novamente: a criança que abusara havia crescido e estava cobrando-lhe o preço pelo mal que há muito fizera. Antes de dar seu último suspiro, ela ajoelhou-se diante dele com um pano em mãos. Passou-o pelo cabo da pequena faca que, por sinal, pertencia ao restaurante. Queria apagar possíveis digitais. Este movimento acabou por enterrar ainda mais a faca sufocando-o. Ele tentou puxar a faca, mas já não tinha forças. Ela o encarou novamente antes de ir embora, então disse:
      “A ferida que você abriu jamais cicatrizou. Nunca escapei das lembranças daquele dia. Roubastes minha vida e achou que poderia pagar por isso. Você pagou sua dívida com a justiça, mas não comigo. Todos merecem uma segunda chance, menos você.”
      Após dizer tais palavras, ela saiu rapidamente, mas teve o cuidado de fechar a porta. Sentou-se à mesa com o namorado, que sequer imaginava o que ela fizera naqueles dez minutos de ausência. Jantaram e em seguida foram embora. Os outros garçons notaram a ausência do companheiro, mas só o encontraram horas depois. As mãos sujas de sangue e as digitais dele na faca sugeriram a hipótese de suicídio. Hipótese que foi confirmada assim que a polícia levantou a ficha do moribundo. “Ele era ex-presidiário, abusou de uma criança, não conseguiu conviver com a culpa.”, disseram.