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terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Dolente

Agarrei-me a esperanças decadentes,
Tentando em vão calar meu desespero.
Vi os meus pobres sonhos tão doentes
E as saudades a tomar-me por inteiro.

Quando o tempo tomou-a em seus braços,
Colhi os sorrisos que ficaram pelo caminho.
Meu coração já se desfazia em pedaços,
Palpitando sem vida, chorava sozinho.

Embora hoje tenha este olhar dolente,
Sei que hei de superar tão aviltante fado.
Lograrei do Amor, o mais nobre ente,
A dádiva de ser novamente amado.

E quando o sorriso retornar-me à face
E meu coração enfim palpitar com vigor,
Deixarei que meu destino se entrelace
Ao de quem queira devotar-se ao amor.






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terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Talento

     De longe, a lua podia ver aquela cena. Na verdade, era dela a pouca luz que invadia o lugar. Folhas de papel espalhadas pelo chão, todas escritas, mas algo as diferia: algumas estavam limpas, outras se embebiam no sangue quente que escorria lentamente do pescoço de Juan. Este, já não esboçava qualquer reação, contemplava o vazio, esperando até que o brilho de seu olhar se disssipasse. A alguns metros, a fumaça do cigarro denotava a presença de mais alguém. Era Inácio. Com um sorriso de satisfação, ele observava a tudo enquanto apreciava a morte que lentamente tomava Juan em seus braços. Aquele era o desfecho esperado para a noite, Inácio parecia contente. Estava livre da agonia que o consumira durante todo o dia. A marca do tiro no pescoço de Juan, associada à arma nas mãos de Inácio são evidencias claras de que havia sido um assassinato. Entretanto, antes de tomar qualquer partido, voltemos algumas horas no tempo, para entender melhor os fatos.
     Eram seis da manhã, a cidade começava a despertar. Inácio não estava acordando, sequer havia dormido, aliás, há três dias não dormia. Precisava concluir a obra de sua vida, ou pelo menos a que devia ser. Inácio estava completando cinqüenta anos naquele dia. Segundo dizem, chegava ao limiar da vida de um homem, o momento em que é preciso desacelerar e colher os frutos de todo o trabalho da juventude. Infelizmente, as coisas não eram assim para Inácio. Embora em tempos não muito distantes, tivesse sido rico, naquele momento seu patrimônio se resumia a uma máquina de escrever e uma cabeça cheia de idéias “brilhantes”. Nem mesmo a casa onde estava instalado lhe pertencia, aliás, era seu último dia como proprietário, no dia seguinte a propriedade iria a leilão. Mas, Inácio via todas as adversidades como um incentivo para seguir produzindo. Era a trama perfeita, a obra de uma vida, ele pensava a cada página que terminava.
     Às sete horas, um intervalo. Uma pausa para um café e reflexões. Por um breve instante Inácio relembrou tempos de outrora, viu-se feliz, junto à esposa, que agora era ex. Recordou os dias de verão na casa de praia, que teve que vender para bancar seu primeiro livro. Junto a esta lembrança veio a imagem de Juan. Eis que ira ganhou seu lugar em meio às doces lembranças. Sim, Inácio recordou o dia em que Juan veio até ele: Inácio publicara um conto de sua autoria em uma revista regional, atraiu elogios, e também a atenção de Juan. Dono de uma editora em decadência, Juan lhe propôs uma parceria, era o momento perfeito para Inácio investir na carreira de escritor. Contudo, como a editora não dispunha de recursos, a primeira obra deveria sair inteiramente por conta do autor. Inácio mostrou alguns contos que havia escrito no decorrer de sua vida. “Tens o talento natural. Uma coletânia de contos. Será um sucesso, faremos dez mil volumes para a primeira edição. Em poucos meses terás dobrado o teu investimento. Conquistarás fama e, quiçá, uma cadeira na ABL.” Disse Juan empolgado. Inácio deixou-se persuadir como uma criança que se ilude com qualquer promessa.
     Eis que o primeiro livro de Inácio foi lançado. A priori, atraiu a atenção do público, mas logo veio a crítica e, com seus comentários negativos acerca da obra, pôs fim ao pretendido sucesso. Inácio entristeceu-se com o prejuízo, mas ainda mais com o fracasso. Porque não reconheciam seu talento para a escrita? Mas Juan tratou logo de explicar que o mercado literário é traiçoeiro, mas que isso não era um fator determinante. Disse a Inácio que um livro de contos não atraía a atenção devida. O sucesso estava nos romances. “Não há tempo para escrever um romance, tenho meu trabalho”, argumentava Inácio. Entretanto, Juan persistia: “Peça férias, é tempo suficiente para se dedicar a uma obra. Sei que tens uma boa idéia. Não desista do seu talento”. A insistência foi tamanha, que Inácio acabou cedendo. Entregou-se durante trinta dias à produção do dito romance. Mas, qualquer um deve saber que não se escreve uma boa obra em tão pouco tempo. As férias acabaram, mas Inácio permaneceu em casa escrevendo. Estava obcecado, tanto que ignorava a possibilidade de perder o emprego.
     Um mês se passou sem que Inácio fosse trabalhar. Quando procurado, ele apenas respondeu: “Estou trabalhando!”. E foi assim que perdeu o emprego. Junto com este a esposa também. Cansada de ver seu marido se perder encorajado diariamente por Juan, Cecília disse adeus. Embora o amasse, ela podia ver o fim daquela história. Não queria fazer parte daquilo. Inácio notou sua ausência por uns dias, mas a escrita já o dominava. Já não vivia no mundo real, mas sim naquele que criava a cada parágrafo escrito. Juan “cuidava” de suas finanças para que ele pudesse se dedicar inteiramente à produção. E foi assim que o patrimônio de Inácio foi sendo dilapidado aos poucos. Após seis meses a obra estava pronta. Um romance futurista, uma idéia fadada ao fracasso. Contudo, aos olhos de Juan se tornaria um clássico da literatura pós-moderna.
     Inácio enfim despertava para o mundo novamente. Foi quando se deu conta de que seu romance lhe custara não apenas o seu tempo, mas também sua esposa e seu dinheiro. Restava-lhe apenas a casa em que vivia, herdada de seu pai. “Sacrifícios necessários”, dizia Juan. E usou deste mesmo argumento quando disse a Inácio que precisaria penhorar a casa se quisesse publicar seu romance. Inácio recusou-se a princípio, afinal, a editora de Juan já gozava de certa estabilidade e poderia arcar com os custos. Mas, Juan utilizou-se uma vez mais de sua retórica charlatanesca e acabou por convencer o tolo Inácio. “O sucesso quer aqueles que estão dispostos a arriscar. Este é o momento, aposte suas fichas!”, dizia Juan com um sorriso no rosto.
     E Inácio arriscou. Arriscou e perdeu feio. Seu romance conseguiu um fracasso maior que a obra anterior. A crítica o chamava de louco insistente. As livrarias rejeitavam a obra, pois sabiam que era um prejuízo certo. Inácio não entendia de onde vinha tamanho azar. A escrita era o seu maior talento, seu dom, Juan lhe convencera disso. Juan, o homem que veio até ele anos atrás, falido, o incentivara a enveredar por aquele caminho. Ironicamente, Juan agora prosperava, e quem decretava falência agora era Inácio. Diante da crise, as coisas começaram a se esclarecer na mente de Inácio. Mas, tudo já havia se perdido, não havia nada que pudesse ser feito. Desesperado, ele procurou Juan, sabia que, se estava naquela situação, era por culpa deste. Contudo, tinha um plano em mente.
     Foi após muita insistência que Juan resolveu atendê-lo. O tom bajulador havia sumido, restara um olhar arrogante e palavras de deboche. “Tenho um novo romance. Este será um sucesso, preciso apenas de uma chance”, disse Inácio. Juan sorriu. “Estás falido, como pretendes publicá-lo se não tens dinheiro?”, indagou-lhe. “Tenho uma propriedade. Estava no nome de um primo. Pretendo usá-la agora. É preciso arriscar até a última ficha, lembra?”. Juan pareceu interessado. “Pois bem, imagino que precisarás de tempo e dinheiro. Aqui está o dinheiro. Tens um mês para produzir o romance, nada além”. Antes de ir, Inácio assinou uma promissória, onde se comprometia a ceder sua última propriedade caso a obra não estivesse pronta na data marcada. Inácio assinaria qualquer coisa, afinal, a casa em questão não existia. Estava falido, o que mais tinha a perder?    
     O mês se passou depressa e Inácio entregou-se completamente à escrita. Juan o visitava diariamente para saber do andamento. Era uma espécie de pressão psicológica, mas também para certificar-se de que não ficaria pronto a tempo. Contudo, Inácio sempre desconversava e não revelava sequer o tema da obra.
     Eis que o último dia do prazo chegou. Inácio já escrevia por dias a fio. Madrugara em frente a maquina de escrever, quando parou para tomar um café e se perdeu em lembranças. Mas a lembrança de Juan lhe trouxe à mente a motivação para escrever, e ele prosseguiu. Já era noite quando parou. Aguardaria a chegada de Juan. Olhou uma vez mais para a notificação de que sua propriedade seria leiloada. Apanhou o retrato da ex-esposa. Tanto havia se perdido em tão pouco tempo. Mas hoje a história veria seu fim glorioso.
     Um carro parou a porta. Era Juan. Trazia no rosto um sorriso confiante. “Onde está, quero ver?”, perguntou. Inácio apontou para uma pilha de papel sobre a mesa. “Ali. Mas antes, vamos conversar um pouco”, disse a Juan. Este não parecia muito disposto a conversas, foi à mesa e apanhou as folhas de papel. Começou a ler um breve resumo do romance:
     “Esta obra narra a história de um homem que tinha uma vida boa, mas não percebia. Gozava de certa estabilidade e riqueza, tinha o amor de uma mulher. Mas amava ainda mais a escrita. E foi esta sua maior fraqueza. Sim, ele viveu feliz até o dia em que um ser maligno de palavras fáceis o convenceu a viver esse amor além dos limites possíveis. Tentou-lhe o quanto pode, até que este fosse despojado de tudo aquilo que tinha.
     Entretanto, certo dia este homem despertou de seu triste devaneio. Viu-se sozinho, tendo consigo apenas uma idéia. Eis que ele agarrou-se a esta idéia e...”
     Juan parou de ler. Encarou Inácio por alguns instantes.
     - “É uma comédia autobiográfica?”, indagou com sarcasmo.
     -“Não. Essa história não tem nada de cômico. Mas, confesso que a todo o momento busquei elementos reais para enriquecer minha estória. Leia a última página.” – Respondeu Inácio.
     Juan avançou até a última página. Leu-a em silêncio. Olhou espantado para Inácio. O que estava escrito na página era a descrição perfeita da cena que se desenrolava. O ambiente descrito era o mesmo, os personagens estavam sentados exatamente como Juan e Inácio estavam. Até mesmo os diálogos se aproximavam. Juan parecia assustado com tudo aquilo. Virou a página, mas não havia um desfecho escrito.
     -“Onde está o final?” – Perguntou nervoso.
     -“Escreverei agora.” – Falou Inácio. Em seguida apontou uma arma e puxou o gatilho.
     O tiro foi certeiro. As folhas de papel se espalharam pelo chão. Juan foi caindo vagarosamente enquanto o sangue jorrava do orifício em seu pescoço. Ele diria algo, mas era impossível. Inácio apanhou um cigarro e ficou admirando enquanto a vida de Juan se perdia. Aquele era o desfecho perfeito para a sua história. Quando Juan já não esboçava qualquer sinal vital, Inácio foi até sua velha máquina de escrever. Sentou-se inspirado e com calma redigiu detalhadamente o que havia acontecido na última hora. A obra enfim estava pronta. Esta era, na verdade, um retrato de sua própria vida. Enfim ele tinha certeza de que escrevera uma história de verdade. Lamentava não poder estar presente na publicação nem colher os louros da fama.  Em seguida, apanhou a arma usada para matar Juan e pôs um fim a própria vida. Não havia qualquer razão para prosseguir, não iria para a cadeia. Isso tiraria a glória do autor e poderia impedir o sucesso de sua obra. Seu desfecho deveria seguir o que estava escrito. Só assim todos enfim reconheceriam seu talento.



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quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Calouros

     Post dedicado a todos os Calouros de 2012 da UFPA, em especial aos amigos Higo Nakagima, Emanoeli Feitosa, Vitor Baima, Camila Miranda, Wylliams dos Anjos, Adriele Barros e aos muitos outros amigos vitoriosos. Assim como, àqueles que um dia foram calouros e, assim como eu, se emocionaram com ao ver a alegria dos novos vitoriosos.


     Calouros

     Há mais ou menos um ano, vivenciei um dos melhores dias da minha vida: aquele em que passei na UFPA. O tempo passou, algumas coisas mudaram no decorrer desse ano, e com tantas novidades, acabei por esquecer a sensação daquele dia de janeiro onde o sonho se fez real. Na verdade, esquecer não é a palavra exata, afinal, hoje descobri que existem momentos que simplesmente possuem o poder de se eternizar em nossas vidas. Existem sensações que não se perdem, apenas ficam guardadas em um lugar especial de nossos corações, esperando para vir à tona no momento exato, hoje descobri isso.
     Embora a divulgação do resultado de uma universidade cause um frenesi em muitos, esperava que este fosse um dia normal. Entretanto surpreendi-me a me ver com o ouvido colado ao rádio escutando com atenção, aguardando sair o nome de algum amigo, conhecido. Confesso que senti por alguns instantes a aflição de um ano atrás. Assim como senti também a euforia ao ouvir o locutor dizer o nome que eu esperava ouvir. Porém, tive também a sensação desagradável, conhecida de anos anteriores, de esperar por um nome que não foi dito. Enfim, percebi que poderia sentir novamente o que pensei ter se perdido em mim.
     Aos poucos, vi passarem por mim aqueles, que assim como eu o fiz um dia, sorriam orgulhosos pela vitória alcançada. Traziam no olhar o brilho de um dia pude ver no meu, o brilho característico da felicidade de ter conseguido alcançar uma conquista que, para alguns, parece tão distante que chega a ser tida como impossível. Eufóricos ou contidos, todos estavam felizes, comemoravam ao seu modo. Cursos diferentes, histórias de vida distintas, um mar de sonhadores que tinha em comum a realização de seus sonhos.  
     Diante disso, era impossível não me emocionar, as lembranças de um ano atrás ganharam vida novamente. Mas, era o dia deles, dos vitoriosos de hoje, a mim só restou a doce nostalgia e a euforia de vê-los vencer e me sentir feliz por eles, junto a eles. Apesar disso, hoje tive a certeza que, por mais que o tempo passe, jamais deixarei de sentir o que senti hoje. Pois sempre que eu ver os calouros comemorando, lembrarei que um dia já o fui também, e que também comemorei o sabor da vitória.
    Por isso, gostaria de parabenizar a todos aqueles que hoje tiveram o prazer de soltar o grito que permaneceu preso na garganta, que viram todo o seu esforço ser recompensado, que perseveraram e conquistaram a vitória. Parabéns Calouros de 2012! Este foi apenas o primeiro grande passo de uma caminhada cujos rumos vocês definirão. Tenham a humildade e a sabedoria por companheiras e tudo dará certo. Bem vindos a este novo mundo cujas possibilidades infinitas são limitadas apenas por suas escolhas. Bem vindos à UFPA! \o/

     Àqueles que, infelizmente, não alcançaram a vitória desta vez, peço que não desistam. Lutem por seu sonho, a vitória jamais é tardia. Persistam com vontade que ela há de chegar, e quando vier, terá um sabor a mais, acreditem.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Pensamento

     Uma vez mais ela passa por mim. Por um instante nossos caminhos se cruzam. Mas, rapidamente volto à minha solidão.  Alguém percebe e vem até mim.
    “Vejo que tens um grande carinho por ela.” – Afirma.
     “Bem maior que o que tenho por mim.” – Respondo enquanto a acompanho com o olhar.
     “Ao que me parece amas em silêncio. Porque não te declaras?
     “Não. As coisas não são tão simples como parecem. Há muito mais que a distância física entre nós. Um oceano de diferenças nos separa. Mas em meus sonhos a tenho. Pelo menos isso. Lá ela habita meu mundo. Sou o arquiteto de mil maravilhas para encantar minha amada. Construo castelos, só para torná-la rainha. Pinto as mais belas paisagens, só para ver surgir em seu rosto o brilho do encanto. Colho a rosa mais delicada, de aroma mais suave, só para mostrar que esta é inferior, se comparada à sutileza e ao perfume de minha musa. E todas as noites a lua vem mais perto, só para admirar junto a mim a beleza de minha ninfa. E não há uma vontade dela que eu não realize. É o nosso lugar idílico.”
     “Mas, e se acaso a sorte olhasse em teus olhos, e te concedesse um desejo. O que pedirias?” – Pergunta-me curioso.
     “Um pensamento. Um pensamento daquela que amo.” – Respondo convicto.
     “Um pensamento? Mas porque, dentre uma infinidade de coisas, pedirias um pensamento?” – Insiste em indagar-me.
     “Porque um pensamento seria o bem mais precioso que dela eu poderia querer. Mais valioso que qualquer coisa que possas imaginar. Um tolo pediria um beijo. Mas, a mim não interessa algo tão ínfimo. O desejo que habita em mim clama por bem mais que isso. Por isso escolheria um pensamento. Nele inexistem as fronteiras, as limitações, nada é impossível. Meus sonhos poderiam alcançar a realidade. O infinito amor que sinto poderia enfim ser pleno.”
     “Mas, um pensamento por vezes é breve, se perde facilmente. E se for um mau pensamento?” – Questiona esperando por minha reação.
     “Pouco importaria se ela pensasse em mim apenas por um segundo ou se não seria um bom pensamento. Pois, esta fração de tempo seria a eternidade de que eu precisaria. Sim, um pensamento só para mim, dentre tantos outros que se entrelaçam incansáveis naquela mente. Afinal, o que importaria não seriam o tempo ou a intenção, mas sim o fato de que eu havia conseguido penetrar naquele pensar. E uma vez que lá estivesse eu deixaria minhas marcas. E estas não se apagariam, pois eu permaneceria ali e, cedo ou tarde, ela haveria de me presentear com outro pensamento. E depois outro, e mais outro, e aos poucos eu a conquistaria.
     E devagarzinho ela conheceria meu amor, e já não estaríamos tão distantes. Neste momento, eu assumiria um lugar não só em seus pensamentos, mas também em sua vida. Poderia então encarar aqueles olhos, não mais ao longe, agora bem de perto, tão perto que nossos lábios facilmente se encontrariam e eu poderia então sentir este sabor que hoje me limito a imaginar. E o que começou com um breve pensar, se tornaria real, assim como o meu sonho de amá-la. E viveríamos esse devaneio por toda a vida.
     “Mas, não seria mais fácil pedir o amor dela à sorte?” – Questiona-me uma vez mais.
     “Talvez sim. Mas não haveria verdade nesse amor. Seria algo forjado, artificial, sem qualquer encanto para mim. Não seria a mesma coisa. Um pensamento me possibilitaria plantar a semente do meu amor naquele coração. Regá-la dia após dia, vendo-a se desenvolver, fincar suas raízes sem pressa para fixar-se. Até o momento em que estivesse grande o suficiente para gerar seus frutos que eu colheria a cada sorriso, beijo ou suspiro de minha amada. Por isso eu desejaria um pensamento, pois, diferente do que muitos pensam, o amor nasce com um simples e breve pensamento para só depois, se apoderar do coração.”


sábado, 10 de dezembro de 2011

Carma

     E cá estou eu, uma vez mais, desejando o que não me pertence. O que não posso ter. Talvez seja esse meu carma, minha maldição. Justo agora que a tormentas se convertiam em leve brisa. Mas é sempre assim, não há como prever uma paixão. A vida segue sua calmaria e eis que meu olhar se depara com o olhar alheio e quando percebo já aconteceu. Não que isso ocorra com freqüência, mas, quando acontece, é simples dessa forma. Até eu fico intrigado com isso.
     Contudo, tenho por sina desenvolver paixões impossíveis. Amores platônicos, se assim preferir. Desta vez não é diferente. Ultimamente, tenho devotado meus suspiros a uma ninfa da qual não posso ser deus. Personificamos um contraste ironicamente trágico: pertencemos a mundos distintos. Sinto-me como o trovador, que se limitava a rimar seus versos amorosos para uma dama palaciana inalcançável. E eu que pensava que isso jamais existira.
     Foi dia desses que descobri meu tormento. Desde então, tenho vivido a eterna tentativa de arrancar de mim um sentimento que, dia após dia, se enraíza com força nas fibras de meu pobre coração solitário. É um padecer doloroso, mas que cessa com apenas um olhar dela. Cada sorriso que ela me lança me faz crer suportável qualquer dor. Mas, até quando poderei pagar um preço tão alto por tão pouco? Até quando suportarei sacrificar-me por dois?
     No momento, faltam-me as respostas. Mesmo porque, a falta de certezas é quem me atormenta. Sim, não há nada que me diga ser impossível consolidar o que sinto. Ninguém me impede. Nesta batalha, meu único inimigo sou eu mesmo. Tenho antes de lutar contra minhas próprias fraquezas, meus temores, minhas inseguranças. Reconheço que a possibilidade de alcançar o amor vale qualquer risco, mas algo me impede com força hercúlea.
     Mil resoluções, em vão, pensei, mas todas se desfizeram diante dela. Não conheço as razões disso, mas me vejo fraco diante de seus encantos. As palavras fogem de mim como se delas inimigo eu fosse. Meu olhar não encontra forças para enfrentar o dela. Sinto-me vulnerável diante daqueles olhos. Entretanto, meu vigor, perdido num instante, se restaura com um breve abraço. Vivo a contradição de temer meu desejo iminente de estar com ela.
     Devo confessar, enfim, que não sei ao certo o que fazer. Há, em mim, a impetuosidade que me instiga a enfrentar o mundo, se preciso for, para alcançar uma certeza, seja ela qual for. Talvez assim se abrandasse meu tormento com a dádiva da reciprocidade, ou com a dor da rejeição. Mas em mim há também uma inclinação, ainda que mínima, à desistência. Mas qual rumo tomar? Acovardar-me com a incerteza, ou arriscar até o que não tenho no destino incerto?
     Quisera eu, que o desenrolar de uma paixão fosse tão simples quanto seu princípio. Mas a cada dia me convenço mais de que tudo nessa vida se encaminha para a complexidade. Quisera eu ter a certeza de que o que sinto alcançará a magnitude do tão falado amor, desconhecido que jamais cruzou meu caminho. Já não fujo dele, mas ele insiste em se esconder. Deverei eu então ir a sua procura? Deverei eu por fim ao dito carma que persegue, provando ao mundo e a mim mesmo que tudo não passou de um engano?


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segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Sozinho

Talvez eu seja mesmo essa solidão profusa,
Que vive a prender-se em efêmeros laços.
Que se desfazem ao vento de maneira difusa,
Forçando-me procurar por novos abraços.

Tento me encontrar em lábios desconhecidos.
Em vão entrego-me a esta busca desmedida.
Sigo alimentando meus sonhos desiludidos
Neste devaneio eterno que me guia a vida.

Cedo aos desejos que meus olhos despertam.
Engano-me com o falso brilho do olhar alheio.
E com os beijos que dessa solidão libertam
E me guiam aos poucos enquanto vagueio.

Mas as esperanças em mim se mantém,
Ainda sobrevivem neste coração hostil.
Esperam o dia em que amarei também,
Em que me farão livre deste destino vil.




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segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Diálogo

     O sol está a pôr-se no horizonte. As ruas da cidade pulsam com o fluxo incansável das pessoas que retornam para casa. Eduardo segue pela avenida principal apressado, mas não caminha em direção à sua residência. Ele anda mais um pouco e entra em um bar. Está vazio, a não ser por um homem sentado sozinho em uma mesa ao fundo, é Ricardo, que o aguarda. Eduardo caminha até ele. Senta-se à mesa. Os dois se encaram por um instante. Ricardo principia o diálogo:
     Você e esse seu olhar arrogante, te julgas tão superior a mim. Talvez seja isso o que motiva tal ira cega, que te trouxe até aqui em uma tentativa desesperada de entender as razões de tudo o que aconteceu. Poderia permanecer em silêncio deixando que as tuas dúvidas te consumissem e teus pensamentos se desdobrassem e mil hipóteses. Mas, não teria tanta graça assim, prefiro apontar suas falhas e te fazer perceber que és o único responsável pelo ocorrido.
     Não me julgo superior, simplesmente sou. Olhe para si, veja que minha superioridade lhe saltará aos olhos. Não há em ti atrativos como os meus. Aquela que pensas ter tomado de mim, é apenas mais uma dentre tantas outras que partilham de minha cama. Meu erro foi ter dado um pouco mais de atenção a ela do que devia a fiz sentir-se especial. Coitada. Mal sabe que não representa nada. Assim como o que houve entre vocês nada significa para mim. –Responde Eduardo com firmeza.
     Então devo supor que estás aqui por mera vontade de me ver e mensurar nossas diferenças? Acaso é isso mesmo? Afinal, se ela fosse mesmo apenas mais uma como dizes, não haveria razões que te trouxessem até aqui. Aliás, não haveria motivos para este diálogo, que agora parece se estender um pouco mais do que devia. Não sei. Algo me diz que ela possuía certa importância, afinal, um ego sólido não se abalaria por tão pouco. Negas com veemência, mas no fundo sabes que sentes por ela algo além de tua compreensão, que insistes em ignorar para não te sentires vulnerável.
     Pare com estas tolices. Tenho motivos mais contundentes para estar aqui. Pouco me importa o que houve entre vocês. O problema não é comigo, mas sim com ela. Ela é a culpada disso tudo. Fazendo-me passar por tal situação como se um tolo fosse. Trago em mim a certeza de que nada deixei faltar: meus beijos, minhas carícias... o sexo. Em tudo eu sempre satisfiz aquelas que me desejaram. Não vejo onde existam falhas em mim. Logo, só posso supor que o problema é com ela, a culpada por plantar esta dúvida em meu pensar, que me forçou a vir até aqui descobrir qual o problema dela. Não sei por que, mas algo me diz que deves saber isso. – Redarguiu Eduardo.
     É bem pior do que eu havia suposto. Padeces daquela cegueira voraz que acomete os que se deixam dominar pelo próprio ego. Nenhuma falha te salta aos olhos, a não ser as alheias. Culpá-la não é uma atitude nobre. Denota teu desejo de eximir-se de um crime que sabes ter cometido. Mas, como sei que não chegarás a tal conclusão sozinho, devo dizer-te com clareza que ela não tem qualquer problema. O único problema reside em ti.
     Acaso achas que deixarei que tuas palavras inflamem a infeliz dúvida que trago comigo? Sei que não fiz nada de errado, apenas quero a confirmação disso. Não deixei faltar aquilo que ela me pedia com palavras, ou simplesmente com o corpo. Por diversas noites vi o prazer desenhar naqueles olhos, e ouvi seus sussurros chamarem por meu nome. Porém, há algum tempo cessaram, como se eu já não a satisfizesse. Mas em nada mudei. Então, só posso concluir que foi ela quem mudou.
     A cada palavra que dizes vejo o quão digno de pena és. Decerto pensas que só de carícias e prazer vive uma mulher? Que podes responder a todas as perguntas com uma única resposta? Enganas-te. Imagino que, em um primeiro momento, era suficiente para ela. Mas em pouco tempo teus encantos evaporaram, se perderam sem que te desses conta. Foi então que ela veio até mim. Pois sabia que eu tinha o que ela precisava, o que você jamais poderia dar. – Afirmava Ricardo com serenidade.
     E há pouco dizia que eu sou egocêntrico. Vejo que teu ego também sabe falar por ti. Mas diga-me, o que deixei faltar? Se é que deixei. – Indagou Eduardo. Era possível ver a aflição em seu olhar.
     Não é meu ego que se manifesta neste momento. Digo-te com plena lucidez que não sabes tanto quanto pensas. Quando ela veio a ti, tinha consigo a carência física, que soubestes suprir com as carícias que de tanto falastes. Mas em pouco tempo estas cessaram, então surgiram outras sedes que não soubestes saciar. Deves lembrar aqueles dias que ela vinha a ti em silêncio e olhava em teus olhos. Tentavas o gesto costumeiro, mas ela te rejeitava. Não por não te desejar, mas sim porque há dias em que uma mulher apenas quer tua atenção, desejando que a abraces forte e faça-a sentir-se segura, protegida, que a faça perceber que estarás sempre ao seu lado.
     Em outros dias, ela parecia não se importar com o que fazias e, como não a compreendias, partias para os braços de outras, deixando-a solitária. Nesses dias, ela estava a testar teu amor, tentando saber se é correspondida por ti e, novamente, falhastes. Por vezes ela veio até você querendo expor o que sentia, mas a ignorastes e uma vez mais a deixastes sozinha. Eis mais um erro teu. Há dias em que uma mulher apenas quer ser ouvida, não importa se concordas ou não com o que ela diz, apenas ouça o que ela tem para dizer e ela te devotará seu amor.
     E foi ela quem te relatou tudo isso? – Indagou Eduardo com o desânimo típico de quem percebe que errou.
     Vejo que teu olhar já não tem o mesmo brilho arrogante de outrora. Mas não, ela não me contou nada, sequer mencionava teu nome quando comigo estava, diria que esquecia você completamente. Mas é fácil adivinhar quais foram teus atos. Como? É simples, nestes dias em que tu falhaste, ela veio até mim e eu sabia exatamente o que ela procurava. Sabia como satisfazê-la sem que ela precisasse me dizer uma palavra sequer. Veja que a beleza que ostentas foi inútil nestes momentos. Mas não se culpe não se pode ter tudo. E ela já não podes ter, pois aquele amor que um dia ela quis entregar a ti, já me pertence, e dele farei bom proveito, de um jeito que tu jamais faria.
     Eduardo encarou-o fixamente por alguns instantes. Parecia processar ainda aquelas palavras. Engoliu seco. Pôs a cabeça entre as mãos e ficou em silêncio. Ricardo nada mais disse. Apenas retirou-se, deixando-o sozinho. Mas, enquanto se levantava, pôde ver as lágrimas que escorriam pelas mãos daquele belo homem que há pouco ostentava sua superioridade inabalável. Elas representavam a dor de quem descobre que não era tudo o que pensava ser.
                        

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