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quinta-feira, 30 de agosto de 2012

A ária e os conselhos

     Passeava o olhar pelos campos da juventude quando me deixei seduzir por certa melodia deixada ao vento. De doces tons era composta. Provinha do mais belo instrumento. O primeiro a atrair minha atenção. Em face ao enlevo evidente, recordei o que, certa vez, disse-me meu pai: “A infância de ti se despedirá em breve. O encanto das melodias haverá de te atrair. Este só é perceptível por ouvidos de homem. Mas, tenha cuidado, às vezes, belos sons enganam”. Quisera eu tê-lo ouvido. Entretanto, ignorei o alerta, entreguei-me ao torpor daquela melodia. Tudo era perfeito então, e eu poderia permanecer naquele sonho por toda a vida. Porém, repentinamente, a música parou. E eu fiquei a dançar no silêncio. Quando me dei conta, estava só. Aquele instrumento já era tocado por outro.

     Despertei para o mundo surdo de antes. As sensações eram vazias. O silêncio de outrora, agora me machucava. Diante de minha tristeza, meu pai deu-me o alento: "A primeira sempre será eterna, pois, necessária é, para que nossos ouvidos despertem para todos os sons que passeiam pelo ar. Conhecerás muitos instrumentos, de melodias variadas. O mundo lhe aguarda. Descubra a multiplicidade dos sons, apaixone-se por eles. E, quando, dentre tantos, um te agradar de um modo diferente, venha até mim". Palavras sábias foram aquelas. Relutei, é bem verdade, mas acabei por aceitá-las.

     Segui, com passos firmes, atento a tudo que minha audição percebia. Tantas eram as melodias que eu reconhecia agora. Solitárias, melancólicas, alegres, apaixonadas. Tentavam-me, todas, a conhecer sua fonte de origem, entregar-me a elas. E, como não havia impedimentos, segui o conselho de meu pai. Pousei em meus braços muitos instrumentos e deles extrai músicas peculiares. Alguns eram doces, e por vezes me roubaram suspiros. Outros, mais enérgicos, exigiam meu fôlego para revelar o ápice de sua sonoridade. Havia, ainda, aqueles que a solidão fizera desafinar, mas que ao primeiro dedilhar recordavam seu timbre. Por vezes, me deparei com instrumentos parecidos, mas cujas melodias eram distintas. A forma não se sobrepõe à essência, afinal.

     Corri com os anos e conheci tantos instrumentos, que seria difícil me expressar em números. Entreguei-me a todos, assim como a mim também se entregaram. Descobri que, não importa o quanto o tempo castigue o instrumento, com um pouco de carinho, ele sempre revela a beleza de sua melodia. Basta apenas saber o modo exato de tocá-lo. E eu havia aprendido como fazê-lo. Contudo, embora muitos houvessem atraído minha atenção, nenhum conseguia mantê-la por muito tempo. As harmonias logo se mostravam obvias, previsíveis. Era então o momento de dizer adeus e seguir minha jornada. Eis a parte difícil: há sempre um apego entre o instrumento e aquele que o toca. Sempre que partia, deixava para trás uma última nota. Algumas de tristeza, outras de revolta. Mas, todas com um sentimento em comum: saudade.

     No entanto, ontem, veio até mim uma ária perfeita. Não era tão distinta das demais, mas me atraiu. Quis conhecer o instrumento de onde provinha. Ao chegar até ele, descobri que era especial. Quando o tomei em meus braços e ouvi um simples acorde tive vontade de render-me a seus sons. As palavras que meu pai um dia dissera fizeram sentido. Fui então à busca daquilo que ele há muito guardava. Percebendo o brilho em meus olhos, ele sorriu. Disse-me satisfeito:

"Pelo visto, seguiu meu conselho: conheceu muitos instrumentos e enfim encontrou aquele que eu havia mencionado. Em teus braços os tivesse e aprendestes a tocá-los. Muito já sabes, mas ainda resta um último conselho. É chegado o momento de se aperfeiçoar. Este que agora te toma à paixão é único. Ouso dizer que foi feito para ti. Deves agora dedicar-te a conhecê-lo a fundo, descobrir o que há por trás de cada nota, apreender a essência que o rege. Ame o seu instrumento, e ele também te amará, e te revelará a verdadeira pureza de seus sons. Mas não esqueça, ainda que o conheças tanto quanto a ti, ele jamais te pertencerá. A liberdade é o que deve lhes unir".

     Depois disso, nada mais disse. Saiu sorrindo, com aquele ar de quem cumpriu seu dever. Eu saí de casa. Enquanto atravessava a rua, ouvi uma linda melodia vinda de dentro da casa de meu pai. Era bela como nenhuma outra. Revelava o quão íntimo meu pai era de seu instrumento. Enfim eu compreendi o que ele quis me dizer. Era aquele o amor do qual ele falara. Uma vez mais, segui com passos firmes, disposto a seguir o conselho que me foi dado. Mas, dessa vez, rumo à ária do amor.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Amor de Margarina

     Grande era a dúvida que me consumia, quando quis o amor me achar. Diante de mim, inúmeras opções, era preciso ponderar sobre qual a melhor delas. Afinal, a matéria era de suma importância: qual marca de margarina escolher? Após alguns minutos, já havia descartado grande parte das pretendentes. Restavam apenas três. Mas minha dúvida se dava entre duas. A terceira eu desconsiderava, já que era a margarina do comercial do casal feliz. Sim, aquele comercial que mostrava um casal bonito tomando café da manhã. O comercial que mostrava uma felicidade que parecia não ser feita pra gente como eu. Daí minha revolta com o produto.
     Após alguns minutos, a ponderação havia acabado: escolhi a margarina de sempre, que prometia entupir mais minhas artérias. Margarina de gente sozinha, que não tem com o que se preocupar. Estiquei o braço para apanhar um pote da vencedora. Eis que uma voz quebrou o silêncio: “Poderia pegar uma pra mim também?”. Olhei para o lado tentando identificar a dona da voz. Deparei-me com um anjo. Tão linda era ela, que congelei, com o braço esticado. Ela insistiu: “Pode ser dessa que você ia pegar”, disse com um sorriso simpático. Retomei o movimento, apanhei o pote de margarina e entreguei a ela. “Obrigada”, respondeu sorrindo novamente. E permaneceu ao meu lado, olhando para a prateleira.
     Estiquei o braço novamente para pegar um pote para mim. Contudo, meu pensamento me tomou e parei, uma vez mais, com o braço esticado. Imediatamente, me veio à mente tudo o que eu já ouvira falar sobre ‘amor a primeira vista’. Eu, que sempre fui cético com essas coisas, de repente, começava a ver sentido. Aquele sorriso diante de mim, talvez fosse um convite. Ela ainda permanecia ao meu lado. Talvez estivesse esperando que eu tomasse a iniciativa. O encanto que ela causara em mim havia sido diferente. Talvez fosse mesmo amor a primeira vista. Outro indício: ela escolhera a margarina de gente sozinha. Talvez tivesse ela uma vida como a minha. Talvez quisesse também libertar-se da solidão.
     Havia indícios demais. Ela ainda permanecia ao meu lado. Tentava parecer distraída, olhando para a prateleira. Talvez estivesse realmente me esperando. Era preciso arriscar, tomar uma atitude, não podia desperdiçar aquela oportunidade. Que aquele fosse o primeiro dia do resto de nossas vidas, então. Retomei o movimento, mas em direção a outro pote: o da margarina do casal feliz. Chega de margarina de gente sozinha! Nossas vidas iriam mudar. Seríamos felizes, como o casal do comercial. Apanhei o pote e respirei fundo. Voltei-me a ela para dizer algo. Porém, não tive a oportunidade. Abri a boca, mas fui calado por uma voz grave que dizia: “Amor, essa margarina não. Pega aquela outra. Igual a essa que esse cara tem nas mãos.”
     Ela olhou para mim. Em um gesto silencioso, simplesmente entreguei a ela o pote que tinha em minhas mãos e peguei o dela para mim. Em seguida, ela foi embora, levando a margarina do casal feliz, enquanto eu fiquei com a de sempre, de gente sozinha. Não preciso dizer o quão doloso foi, para mim, amá-la e depois perdê-la. Talvez eu fosse feito para a solidão mesmo. Aquele não foi o primeiro amor a dar errado. Na verdade, era apenas mais um exemplar para minha coleção de fracassos. Um exemplar exótico é bem verdade. Mas, que me machucou tanto quanto os outros. Talvez até mais.
     Contudo, era preciso ser forte. Era preciso sair dali, chegar a casa e me isolar do mundo, a fim de me recuperar. Segui então minha Via Crúcis em direção à saída. A cada passo, sentia os pedaços daquele sonho caindo ao chão. Tentava me convencer de que talvez fosse melhor seguir sozinho. Aguardei algum tempo na fila até chegar ao caixa. Cabisbaixo, pus meu pote de margarina e os outros produtos sobre o caixa. Apanhei minha carteira e ia tirar o dinheiro. Mas uma voz doce rompeu o silêncio: “Dinheiro ou cartão, senhor?”, indagou-me.
     Voltei meu olhar na direção em que veio a voz. Deparei-me com um anjo sorridente. Tão linda era ela, que me fez pensar em ‘amor a primeira vista’. Logo eu, que sempre fui cético com relação a isso. Mas, e se aquele sorriso fosse um convite. Quem sabe, uma oportunidade de deixar aquela vida de solidão. Eu não podia perder aquela oportunidade. Puxei a carteira disposto a apostar minhas fichas naquele novo amor. Mas, antes, pus a margarina de gente sozinha de volta na cesta. Dessa vez daria certo, seríamos felizes como o casal do comercial de margarina. É bem verdade, que meu coração ainda sofria pela desilusão de dez minutos atrás. Mas, é como dizem: nada melhor que um novo amor para nos fazer esquecer uma desilusão do passado.          




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terça-feira, 7 de agosto de 2012

Observador

     Como costumam dizer, ao chegar, já peguei o bonde andando. Ninguém parou para me ver. Talvez por isso observar tenha sido minha sina. Afinal, quando não se é visto, ver é o que nos resta. Logo que pude, escolhi sentar à janela, só para ver o que o mundo tinha para me mostrar. E foi assim que meu olhar se acostumou a passear pelo mundo enquanto me mantive passageiro da vida. Muito do que sei, aprendi com os olhares. Uma parte naqueles que lancei ao horizonte. Mas, grande parte, também, nos olhares alheios, sempre cheios de intenções, vontades. Tanto vi que, por vezes, me perco em minhas memórias. No entanto, diria que algo me ocorre neste momento.
     Recordo que era cedo quando a mentira se mostrou a mim pela primeira vez. No início, mostrou-se bela, capaz de seduzir facilmente um olhar jovem como o meu. E o fez tão bem. Caí em seus braços como quem busca a redenção. Confesso que, por um instante, fui feliz. Mas, logo fui traído. As palavras que me salvaram se voltaram contra mim. Por fim aprendi, a duras penas, que, nem sempre, devo me render ao que atrai meus olhos. Preferi então encarar a face grave da verdade. Ela não seduz, muito menos faz promessas. Mas jamais te trai com sorrisos dissimulados.
     Sempre estive sozinho. Por isso, foi fácil afeiçoar-me àquela que primeiro correspondeu ao meu olhar. Lá de cima, ela brilhou, igualmente a mim, solitária. Parecia compreender minha dor. Foi assim que me enamorei da lua. Porém, era um amor daqueles difíceis. Dias inteiros eu tinha que esperar para vê-la. E, nos dias em que ela não vinha, conheci a dor que roubou minhas lágrimas. Fui apresentado também à saudade, que veio em silêncio e apertou-me o peito sem dó. Após muito sofrer, por fim, desisti daquele amor impossível. Talvez tenha sido melhor.
     Desde então, resolvi olhar o amor de perto. Esquadrinhá-lo, a fim de abstrair sua essência. Como se isso fosse possível. Levei certo tempo até perceber que minha empreitada era falha desde o início. Mas consegui vislumbrar algumas coisas. Muitos foram os amantes que vi pelo caminho. Alguns deles, isolados nas ilhas do amor a dois. Julgavam que assim estariam seguros, protegidos. Contudo, por vezes eram surpreendidos pelas tormentas da vida, que, não raro, devastavam tudo. Os que sobreviviam, restauravam a ilusão de outrora e seguiam, aguardando a próxima tempestade.
     Mas havia aqueles que diziam não ter nascido para viver em terra. Ou pelo menos se convenciam disso. Não buscavam segurança ou proteção. Diziam-se afeitos à adrenalina das marés. Zombavam dos ‘ilhados’. Preferiam se afogar no mar das possibilidades a se render à monotonia de uma vida a dois. E muitos se afogavam, quando vinham as tormentas. Os que sobreviviam, acabavam por procurar por terra firme. Salvo alguns poucos, que optavam por se arriscar uma vez mais.
     Eu muito já havia visto até então. Contudo, decidi vivenciar o amor uma vez mais. E ao destino coube essa parte. A tarde se despedia, em um daqueles dias em que o Sol faz questão de mostrar-se belo ao se pôr, quando veio a mim o amor. Sentou-se ao meu lado e, com aqueles olhos castanhos, se pôs a olhar pela minha janela. Como quem desejasse adentrar em meu mundo. Quando já havia visto o suficiente, me encontrou encantado. Havia em mim a certeza de que aquela era minha ilha. Porém, quis ela saber se seria a primeira flor a desabrochar em meu coração.
     As palavras vieram, e junto a elas, a lembrança de minha alva amada, que a noite caminha pelo céu. A mentira me pareceu irresistível, mas fechei os olhos para encarar a verdade. Respondi que outra já havia deixado em mim sua marca. Não a vi me abandonar, mas já podia sentir o abraço frio da saudade. Uma primeira lágrima quis se mostrar, mas uma palavra doce a conteve. “A verdade nem sempre é escrita com lágrimas”, sorriu-me. Pegou em minha mão, e me convidou para viver o que há muito eu somente havia visto. E foi assim que dei adeus à vida de observador do mundo. Hoje devoto minha atenção apenas àquele olhar castanho, pois, hoje, ele é meu mundo.

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quarta-feira, 25 de julho de 2012

Escritor

     Permita-me adentrar em teu pensar por meio destas palavras. Deixe-me te conduzir pelos mundos que te incito a criar. É o que faço de melhor, diriam alguns. Meu verbo é o pincel que traceja cenários na tela de tua imaginação. Sou o artista, é bem verdade, mas me limito a assinar a obra. É tu, caro leitor, quem determina as cores e as formas que a imagem final terá. Somos ambos livres, embora necessários um ao outro. Atados por esse laço de alvedrio. É verdade, devo confessar, que foi a liberdade quem me engendrou. Na verdade, a ânsia por ela.
     “A vida é uma só.”, eles diziam. Contudo, eu sempre discordei. Sabia que apenas os tolos se deixam limitar. Escolhi viver muitas outras vidas além da minha. Tornei-me então escritor. Com a caneta em mãos, posso ser quem eu quero: há dias em que quero ser herói; às vezes quero ser bandido; por vezes desejo ser os dois. Não existem amarras. O tempo é meu cavalo, a galopar na velocidade que desejo. Posso ser criança hoje; velho amanhã. Minha imaginação é quem dá rumos a tudo.
     As fronteiras do espaço, igualmente, inexistem. Ontem mesmo dei a volta ao mundo. Hoje mais cedo estive no Egito a contemplar as pirâmides. Agora aqui estou, a invadir sua casa, caminhando por sua mente. Talvez jamais tenhas me visto. Mas isso não importa. Ainda que eu usasse minhas amigas palavras para descrever-me, me imaginarias a teu modo. Eis a melhor parte de tudo isso. Posso ter inúmeros rostos. Basta contar com tua imaginação. Ela é nosso trunfo maior.
     Mas, foi outro dia que tudo ganhou outras cores. Enquanto o amor passava por mim, alguém me disse: “Só se ama uma vez na vida”. Como era de se esperar, discordei. Apanhei a caneta e resolvi viver tantos amores quanto pudesse. Mas, amar em prosa não me satisfez. Resolvi então ser poeta, para sorrir e chorar por amores que jamais tive, mas que a mim pertencem. Amores meus, que compartilho com quem ousa ler minhas palavras. Amores que são meus e teus, caro leitor. Amores eternos, tão intensos quanto queiramos que eles o sejam.
     Mas, alguém me indagou: “E a vida que sempre te pertenceu?”. Desta eu não esqueci. Embora, por vezes, nela atue como coadjuvante. Aproveito cada passo, enquanto, por ela, caminho sem pressa. Vejo tantos que correm dizendo para si que a vida é breve. Talvez estejam certos. Contudo, não temo o amanhã que pode não vir. Pois sei que sempre viverei, através de minhas palavras, na tela de tua imaginação, caro leitor. Em cores e formas cada vez mais distintas, mas em um quadro assinado por mim.


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quarta-feira, 18 de julho de 2012

Efêmeros

     “Estavas, linda Inês, posta em sossego,/ De teus anos colhendo doce fruto,/ Naquele engano da alma, ledo e cego,/Que a Fortuna não deixa durar muito...”, escreveu, certa vez, Camões ao terceiro canto de seu épico “Os Lusíadas”. Em decassílabos, conta-nos o episódio de Inês de Castro. No entanto, mais que isso, induz a uma reflexão acerca da vida. Afinal, qual Inês, vivemos a enganar, leda e cegamente, nossas almas, tentando esquecer que a vida não nos pertence, que à Fortuna cabe decidir se o próximo passo será o último, ou não.
     O hoje costuma ser vivido com vistas ao amanhã. Olvidar nossa efemeridade é necessário. Contudo, não raro, o destino vem nos lembrar que só vivemos quantos dias ele nos permite. Falta-nos o controle. Só podemos detê-lo se eventualmente desejamos antecipar a primeira e única certeza que temos. Caminhamos por uma corda bamba sem fim, sobre um precipício. Somente podemos escolher entre pular ou seguir nos equilibrando, tendo a certeza de que cedo ou tarde a corda será rompida. Cair é inevitável.
     Para alguns, a caminhada é mais longa. Eis um dos motivos que sempre nos faz crer que nossa corda haverá de resistir por muitos passos. Passamos então a ignorar o trajeto, apenas o fazemos, imaginando que ainda o tempo será nosso aliado. Mas, jogamos com probabilidades, incertezas. Cada dia vivido é uma vitória, ainda que nem sempre o vejamos dessa forma. Só atentamos para o real valor de nossos passos quando a corda de alguém que está ao nosso lado se rompe. Somente então nos recordamos que o risco é iminente.
     Presenciar a queda de um semelhante nos choca, nos entristece. Ainda mais se este é próximo, se dera tantos passos quanto nós, ou menos. Pensativos, despertamos por alguns instantes de nosso torpor. As luzes se acendem e vemos que somos mais frágeis do que pensávamos. Descobrimos que nem sempre a corda se rompe porque o tempo a desgastou. Que, às vezes, é repentino, sem explicação. Ficamos indignados, desolados. Mas, infelizmente, a vida é assim. Não há como mudar. Por essência somos feitos de vidro. Há muito lutamos contra essa fragilidade. Tentamos, em vão, converter-nos em aço, para que, um dia quem sabe, possamos resistir à queda.
     Vendo-nos vulneráveis aos desmandos do destino, tentamos nos consolar. Alguns se convencem que cair talvez seja melhor, já que não haverá mais a necessidade de manter o equilíbrio. Há aqueles que preferem acreditar que a queda é apenas um recomeço, que ao fundo do abismo tudo é belo e a vida continua em felicidade plena. Outros, porém, em nada crêem, apenas se vivem, esperando o momento em que a corda haverá de romper-se e tudo terá fim. Apesar das diferenças, todos têm uma crença em comum: um dia cairão.
     Então, diante disso, alguns se desesperam. Os menos fortes, incapazes de conviver com o destino incerto, desistem da caminhada. Os mais se convencem de que a Fortuna lhes será complacente e seguem confiantes, se equilibrando. Contudo, a grande maioria de nós, embora saiba que cedo ou tarde sua travessia terá fim, decide prosseguir como a Inês camoniana, colhendo o fruto dos anos que lhes restam, neste ledo e cego engano da alma. Talvez seja mais fácil esquecer que somos efêmeros. Afinal, não somos senhores de nós mesmo, a Fortuna é quem decide ao final.


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sexta-feira, 6 de julho de 2012

Segredos

     Contava os passos quando nela esbarrei. Até aí, nada demais, não fosse ela se desculpar com aquele sorriso sínico. A desconfiança de que o choque fora proposital não me deixou seguir. Em alguns minutos estávamos sentados à mesa de um café contando nossas histórias. Basicamente, eu era o rapaz que seguia desenhando um caminho, cujo esboço já havia sido traçado desde o nascimento. Ela desenhava à mão livre, se permitia errar, corrigir, errar novamente. Seríamos o clichê dos opostos que se atraem. A idéia me era atraente, confesso. Mas, ao passar de mais alguns minutos, a revelação: ela era casada.
     Imediatamente tive a sensação de que não deveria estar ali. Flertar com uma mulher comprometida não estava nos planos. Jamais esteve. Mas, digamos que ela era bastante persuasiva. Prendia-me o seu olhar. O inimigo mais perigoso é sempre aquele que tem pleno conhecimento do poder que possui. E ela sabia deter o controle da situação, desde o primeiro olhar. A princípio eu até tentei por fim ao diálogo. Contudo, após alguns instantes, tratei de esquecer que havia qualquer impedimento.    
     Revelado o seu segredo, não havia mais porque manter os pudores formais daquela conversa. Afinal, sabíamos o rumo que deveríamos seguir a partir de então. Se eu ali permaneci, mesmo sabendo que estava a cobiçar a rosa do jardim alheio, é porque estava disposto voar pelos céus junto a ela, mesmo que com asas de cera. A partir de então, era preciso vivenciar cada arriscado segundo. Não havia tempo a perder. O sol começava a se pôr no horizonte, a noite que nascia testemunharia nossos primeiros beijos, sussurros, gemidos.
     Rapidamente os dias passaram. Nossos encontros eram sempre na casa dela. As horas que ela estivesse solitária eram minhas. O receio era inevitável, mas o risco iminente atiçava-nos o ardor. Sempre havia mais calor nos abraços, mais desejos nos beijos, que, por vezes, vorazes, convertiam-se em mordidas, como quisesse ter para si os meus lábios. Parecia não haver limites. Éramos simétricos. Éramos lascivos. Éramos amantes. O laço que nos unia era feito de um desejo inesgotável.
     Contudo, não raro, o coração sente-se tentado pelo prazer. Apega-se ao calor de outro pulsar que se assemelhe ao seu com certa freqüência. Vem daí o dito amor. Este ousou tomar as rédeas da situação. O cômodo prazer descompromissado de cada dia deixou de satisfazer. Já não convinha o costumeiro adormecer solitário. Por fim, tornei-me um desses coadjuvantes com aspirações a protagonista. Ela percebeu. Tentou dissuadir-me de todas as formas. Fingi concordar. Mas, a obstinação estava arraigada, nem eu mesmo podia refrear o ímpeto.
     Foi um domingo, o dia escolhido para por fim a farsa. Pouco me importava o desfecho, precisava libertar-me da aflição de amar a quem não me pertencia. Meus passos eram firmes, mas o coração vacilava. Então me vi frente à porta daquela casa onde se engendrara o amor. A mão trêmula tocou a campainha. Esperava pelo olhar indagador seguido pela voz grave do traído. No entanto, ela abriu a porta. Surpresa, ela tentou me conter com perguntas. Não dei atenção.
     Adentrei apressado esperando encontrá-lo em algum dos cômodos. Mas só ela estava em casa. Indaguei sobre ele. “Saiu há pouco, mas já deve estar voltando. Vá embora”, disse-me nervosa. Recusei-me. Fiquei a esperar, vendo a aflição crescer em minha amada. A verdade seria revelada. Uma hora arrastou-se sem que ele aparecesse. O nervosismo voltou a mim. Ela me implorava para ir embora. Mantive-me irredutível. As horas passavam. Ela então passou a me ameaçar. Embora eu temesse, decidi ir até o fim.
     Veio a noite e tudo ficou claro: ele não viria. Ela já parecia indiferente. Comecei a duvidar se ele de fato existia. Indaguei-a. Irritada, ela revelou seu verdadeiro segredo: jamais fora casada. O homem nas fotos era seu pai. Vivia sozinha desde que ele falecera. Tentei perguntar algo mais, esclarecer as dúvidas em minha mente. Mas ela me expulsou. “Acabou. Esqueça-me.”, disse sem uma lágrima sequer no olhar. Caminhei pela rua tentando entender o que se passava. Talvez o segredo fosse a fantasia dela, o tempero daquela relação baseada em um pecado não cometido. Esta foi a melhor das explicações que encontrei. No dia seguinte a procurei. Mas encontrei a casa vazia. Ela havia partido. Não mais a vi. Eu a perdi, só porque tentei tê-la para mim. O curioso é que ela sempre foi só minha. Eu apenas não sabia. Nunca deveria ter sabido.


segunda-feira, 25 de junho de 2012

Versos de adeus

Versos de adeus

Por vezes na cadência desse amor
Teus suspiros deram-me inspiração.
Nossa prosa ou verso arrebatador
Converteram-se em beijos e canção.

Éramos o universo em sintonia.
Do perfeito a personificação.
Presos à luxuriosa liturgia,
De corpos e prazer em expansão.

Para nós reservei a eternidade,
Mesmo sendo o futuro um mar aberto
Contigo enfrentaria as tempestades,
Seria Oasis em meu deserto.

Foste um anjo no inferno das vaidades,
Dos pecados a doce redenção
Mas quis Deus entregar-me a essas saudades
Responsáveis por minha perdição.

Teu adeus repentino me matou,
Mas a vida não me deixou partir.
Tornou-me esse vazio que agora sou.
Inimigo de meu próprio devir.

Mas bem sabes como eu sou pertinaz.
Quero sempre o destino em minhas mãos
Já não me satisfazer olhar pra trás.
Decidi não viver mais sonhos vãos.

Meus suspiros derradeiros já são.
Estes versos de adeus dedico a ti,
Provando que fostes inspiração
Dos devaneios que escrevi e vivi.

                                           Robson Heleno


Fonte imagem:  https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhm4kutYnuD2TvcHiX1UJbRdfgvolTMYKWKI981bFWlHuzNdiQIJG7Vx4T6RQu2v1vn9OSIEPNxRIJft4rMhvWEd72ibeRkGWcUcsEwMzDPDcqqaqUFsRLMI48ai0rUPIdt33QGWe910gY/s1600/escrevendo.jpg