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domingo, 29 de abril de 2012

Sem Limites


     Já era dia quando chegou-me ao ouvido que eu só teria mais aquele dia. A princípio julguei ser sonho, mas bastaram alguns segundos para me dar conta que era real. Da rua vinham gritos, risadas, o barulho ensurdecedor do motor dos carros. Ligaria a televisão para saber se era aquilo, mas o grito de alguém veio pela janela a confirmar minhas suspeitas: “É o fim do mundo!”, bradava o infeliz antes de ser atropelado.

     Fui até a janela e o caos se desenhou diante de meus olhos. Vi pessoas que corriam sem saber para onde ir, outras se abraçavam e choravam o fim que se aproximava, alguns gritavam eufóricos como se estivessem alegres com aquilo. Tudo era tão surreal, mas minha calma parecia ser ainda mais. Não partilhava daquilo tudo, era como se não fosse acontecer comigo, como se eu fosse um mero expectador do apocalipse iminente.

     Até que fui tocado por meus pensamentos: o que fazer? O tempo está correndo mais rápido do que antes e agora parece que pretende parar, o que fazer antes disso? Respostas surgiam de todos os cantos de meu pensar. Havia tanto a ser feito, porque as coisas tinham que ser abreviadas daquela forma? Porque, se havia pouco que eu despertara para a vida, de fato? Por mais que quisesse fazer conjecturas, era preciso definir quais seriam os últimos passos de minha existência.

     Mas escolher o que fazer não era nada fácil. Afinal, seriam os últimos momentos dessa vida conturbada. Era preciso escolher algo realmente válido. Mas o quê? Poderia ler um bom livro, ou até mesmo escutar, finalmente, os CDs da minha coleção que eu nunca sequer tirei da embalagem. Poderia ligar para meu melhor amigo e ter uma boa conversa, daquelas que fazem as horas passarem sem que se sinta. Porém, talvez ele não partilhasse do mesmo desejo.

     E se eu cedesse a todos aqueles impulsos que sempre reprimi? Aos desejos que as convenções sociais sempre me impediram de saciar? Afinal, não haveria amanhã para enfrentar as conseqüências ou a reprovação por parte dos outros. Contudo, o maldito senso de pudor, já arraigado em mim, me convencia a fazer o contrário. Talvez por não desejar ser lembrado como o cara que surtou nos últimos momentos da vida.

     Eu já havia desistido de minha idéia quando uma mulher passou em frente à minha casa. Corria nua  cantando músicas de um tempo distante. Percebi sua felicidade insana, mas não tive coragem para acompanhá-la. Ela passou e logo atrás vinha um homem. Presumi estava a segui-la. Alguns minutos depois ouvi alguns gritos, que depois se transformaram em gemidos. Decerto o homem a alcançara e estava por saciar sua derradeira vontade.

     Vi quando dois automóveis colidiram em frente à minha casa. Vinham em alta velocidade e pude ver quando se encontraram: o metal sendo retorcido enquanto os vidros estouravam em mil pedaços. Alguns segundo após a colisão, vi quando os motoristas saíram de dentro dos veículos. Ambos estavam bastante machucados, cambaleantes. Caminharam ao encontro um do outro e, em seguida, se abraçaram. Pensei serem amigos que realizavam um desejo em comum.

     A manhã avançava e eu não sabia o que fazer. Já começava a me preocupar quando ouvi aquela voz doce: “Amor, fecha essa janela. Esse barulho todo não está me deixando dormir. Vai, fecha essa janela e vem ficar comigo.” Naquele instante descobri o que faria: aproveitaria o tempo que me restava junto dela. Ficaria ali com a mulher que amo e deixaria que o mundo acabasse sem mim.


     Pensei em contar-lhe o que acontecia. Mas me contive. Seria egoísta pelo menos uma vez na vida. Mas o seria por um amor incondicional, que seria meu último desejo. E, apenas o fiz, por imaginar que aquela seria uma vontade em comum. Sabia que naquele momento poderia viver o amor pelo amor, sem preocupações ou conjecturas sobre um futuro incerto. Enfim poderia amar sem medo, sem limites.





quarta-feira, 18 de abril de 2012

Sonho

   Certa vez me achei em um lugar desconhecido. Era belo, bem mais que os demais. A paisagem era um deleite ao meu olhar: um vasto campo coberto pela verde relva ornado aqui e ali por árvores marchetadas de frutas, que eram como ornatos coloridos contrastantes ao céu límpido acima, manchado em alguns pontos por pequenas nuvens. A suave canção regida pelos pássaros acarinhava-me os ouvidos. O sol luzia majestoso, mas não me aquecia de todo. Era como se ele beijasse o meu rosto enquanto a brisa o afagava.
     Diante de tantas belezas, não me contive, me pus a explorar aqueles campos idílicos. A cada passo, sentia-me leve, como se a liberdade por fim fosse real, não a mera abstração da qual sempre ouvi falar. Cheguei, por fim, a um vale onde um rio convertia-se em cachoeira. Detive-me por alguns instantes contemplando o espetáculo que a luz criava ao atingir as gotículas de água que passeavam pelo ar. Ficaria o dia inteiro naquela hipnose maravilhosa.
     Contudo, ouvi uma voz macia, feminina, chamar meu nome. Procurei curioso, pela fonte daquele chamado, mas nada vi. Repentinamente, a cachoeira já não era mais atraente, descobrir a dona daquela voz tornou-se minha vontade. Segui através das margens do rio ignorando os peixes que saltavam intentando furtar minha atenção. Caminhei alguns minutos para enfim encontrá-la sentada sob uma árvore. Parecia me esperar. Acompanhou-me com o olhar enquanto eu me aproximava.
     Contive os passos diante dela, esperando por alguma palavra. Mas ela nada disse. A ousadia me impeliu a sentar ao seu lado. Por alguns segundos ela olhou em meus olhos. Por fim sorriu. Pegou em minhas mãos e, sem nada dizer, convidou-me a segui-la. Corremos através dos campos. Meu fôlego parecia infinito, tive certeza disso quando chegamos onde ela desejava. Estávamos em um lugar alto, uma espécie de montanha, de onde eu podia ter mais bela das visões. O sol já se punha no horizonte. Assumia agora uma tonalidade avermelhada tão sedutora ao meu olhar.
     Entretanto, ela não me levara ali para ver o sol se pôr. A moça então chamou meu nome uma vez mais. Olhei em sua direção e lá estava ela, mais linda que antes, tendo o vermelho do sol refletido no brilho de seu olhar. Porém, não estava sozinha. Ao seu lado, estavam todas as pessoas que amei em minha vida: meus pais, familiares, amigos; pessoas que há muito eu não via; pessoas que há muito eu havia perdido. A única desconhecida ali era a moça.
     Naquele momento a verdade por fim veio a mim. Aquilo não era real. Estava imerso em mais um daqueles sonhos que vêm para nos trazer à mente as lembranças que se perdiam na memória; que parecem ter por fim renovar nossas forças para prosseguir. A moça, percebendo que eu sabia que tudo aquilo era fantasia, abraçou-me com força, beijou-me e disse: “Por favor, fique, esse é o mundo que mereces. Aqui não há dor, tristeza ou solidão.”
     Despertei repentinamente em meu quarto. Ainda sonolento, abri os olhos. Deparei-me com as paredes sujas a minha volta, o barulho dos carros que corriam lá fora, o cheiro incômodo da fumaça que atravessava a janela entreaberta, o calor que me fazia suar. Poderia ter levantado para enfrentar mais um dia, mas decidi voltar a dormir. A moça estava certa, sonhar era melhor. Não que me faltasse coragem para encarar a vida real. Apenas percebi que, quando a realidade se mostra difícil, o melhor a fazer é se apegar aos sonhos, pois somente eles nos levam a mundos perfeitos.  

quarta-feira, 4 de abril de 2012

(Re)começo

     Sorrateira, sentou-se ao meu lado. A despeito de seu silêncio, o perfume denunciou sua presença. A discrição conteve meu ímpeto de olhá-la de súbito. Mas pouco resisti, após alguns segundos, lá estava eu a admirá-la em silêncio. Passou a mão pelos cabelos. Pediu uma bebida. Sabia ser possuidora de meu olhar naquele instante. Aproveitando-se disso, dardejou-me um olhar inesperado. Confesso que tremi, mas tentei parecer firme. Ela me manteve em sua mira. Parecia esperar por algo. Esconderam-se as palavras. Restou-me apenas um tímido ‘oi’. Era o suficiente.
     Principiamos uma conversa, daquelas despretensiosas, mas cheias de intenções. Para ajudar na fluidez da prosa, pedi um uísque. Algo que eu jamais provara. Contudo, eu estava com sorte. A ardência do primeiro gole converteu-se em uma vermelhidão instantânea em meu rosto, o que denunciou minha inexperiência com o álcool, mas também furtou algumas risadas de minha parceira. Embora desconcertado, encarei aquilo como um bom sinal. Pedi outra dose. A conversa prosseguiu.
     A priori, pensei em não falar muito sobre mim. Confiava na teoria de que ‘elas sempre tem mais a dizer’. Contudo, ela era tão simpática, que não envolver-me pareceu impossível. Muito me disse sobre si, suas preferências, seus desejos. A cada minuto parecia mais preso ao encanto daquela desconhecia. Era incrível como ela possuía tudo o que eu há muito buscava. Além do que, meus olhos pareciam apaixonados por aquele rosto. Insistiam em permanecer presos àquela visão.
     As horas passaram por mim, que fixado na conversa, não percebi que a madrugada chegava. Devo reconhecer que as doses de uísque contribuíram um pouco para que a noção de tempo se perdesse em mim. Contudo, ela estava atenta. Disse-me que era tarde, que precisaria ir. Convidou-me para acompanhá-la, terminar a conversa em outro lugar. Discordar era impossível. Mesmo porque, o torpor da embriaguês já se apoderava de mim. Sabemos bem como as pessoas ficam suscetíveis quando excedem seus limites. Meu caso era bem mais delicado, eu sequer sabia possuir um limite até então.
     Combinamos que a conversa teria prosseguimento na casa dela. Como ela não me deixou dirigir, seguimos em seu carro. Durante o caminho, trocamos algumas palavras. Porém, ao chegarmos a casa, nada mais foi dito. Toda a formalidade do diálogo deu lugar às intenções, que durante toda a noite estiveram escondidas em nossas palavras, olhares. Surpreendia-me a cada instante. Ela me beijava, acariciava-me como se já me conhecesse, se soubesse exatamente minhas preferências. Sonhei, mesmo antes de dormir.
     Despertei em um quarto que, embora não fosse o meu, me parecia bastante familiar. Ouvi passos no corredor. Uma voz de criança. Vesti-me apressadamente. Fui até a porta e não ouvi mais nada. Abri-a se segui pelo corredor que parecia levar ás demais dependências da casa. Haviam quadros fixados às paredes. Observei cada um enquanto seguia com cautela. Eram-me familiares, mas não sabia dizer de onde. Após alguns metros, nas paredes não havia mais quadros, mas sim fotografias.
     Observei-as. Eram fotos da moça que eu conhecera noite passada. Em algumas ela estava sorrindo. Em outras parecia mais séria. Em algumas ela estava abraçada a uma criança. Estava a poucos passos do que parecia ser a sala da casa. Restava apenas mais uma fotografia a ser vista. Passei por ela com calma. Parei a sua frente e a olhei. O choque foi inevitável: na imagem estava a moça abraçada a mim e ao menino das fotos anteriores. Sorríamos. Parecíamos felizes. Mas, como aquilo era possível? Desesperei-me.
     No entanto, antes que pudesse esboçar qualquer reação. Senti quando alguém me abraçou por trás. A julgar pelo abraço à altura da minha cintura, presumi que era uma criança, ou alguém muito baixo. Olhei e vi que era o menino da foto. “Bom dia papai, que bom que você voltou!” sorriu para mim. Fiquei estático. Nada entendi. Ela então surgiu ao fim do corredor. Percebendo meu nervosismo, veio até mim e tentou me acalmar com um abraço. Mas parecia impossível, a necessidade de compreender tudo aquilo me corroia. Coração acelerado, respiração difícil, porque tudo aquilo? Desmaiei.
     Acordei no mesmo quarto familiar de antes. Não estava sozinho desta vez. Sentada à cama a moça acariciava meu rosto. Pensei em fugir, mas meu corpo pesava. Ela então apanhou um álbum de fotografias. Com lágrimas no olhar, começou a mostrar-me fotos nossas. Algumas imagens mostravam o que parecia ser nosso casamento. Outras a gravidez, os primeiros anos do filho que parecia ser nosso. Aquilo tudo me confundiu ainda mais. Percebendo que eu nada entendia, decidiu falar-me:
     “Somos casados há oito anos. Aquele menino é nosso filho, tem seis anos. Sei que não recordas de nada, mas não é sua culpa. Há um ano você sofreu um acidente no trabalho. Aparentemente, nada grave lhe acontecera. Todos disseram ser um milagre, dadas as circunstâncias do fato. Viestes para casa e a nossa vida seguiria. Porém, após algumas semanas, começastes a ter alguns lapsos de memória, nada que suscitasse grandes preocupações. Tinhas dificuldades para lembrar nomes, lugares.
     Contudo, com o passar dos meses vi as coisas se agravarem. Em alguns instantes não reconhecias nem a mim, nem ao nosso filho. Mas, após alguns minutos parecias voltar ao normal. Precisavas de tratamento. Mas, antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, desaparecestes pela primeira vez. Preocupei-me, acionei a polícia, mas, em três dias voltastes para casa. Não entendias meu desespero, era como se aqueles três dias sequer existissem.
     Busquei ajuda. Fomos a diversos especialistas, mas nenhum conseguia identificar o problema, diziam que sua saúde estava perfeita. Na ânsia de estar enganada, convenci a mim mesma que eles estavam certos. Alguns dias se passaram sem qualquer sintoma se manifestar. Enfim parecia que tínhamos nossa vida de volta. Senti-me tão confiante que achei que poderias retomar a rotina de trabalho. Fostes ao trabalho como costumavas fazer, mas não voltastes. Isso aconteceu há dois meses.
     Procurei por você todos os dias. Angustiava-me saber que eu era a culpada por te perder. Vi minha esperança se esvair por meus dedos a cada dia. Até que, ontem, desisti por completo. Senti-me derrotada. Fui àquele bar para tentar fugir de mim. Sequer acreditei quando te vi sentado. Pensei em correr e te abraçar, mas temia sua reação. Foi então que sentei ao teu lado e te encarei desejosa de que recordasses tudo quando olhasse em meus olhos. Mas, tua reação me disse o contrário. Pensei em fugir dali, mas me surpreendestes com teu cumprimento. Percebi então que para te trazer de volta, teria que conquistar-te novamente, como na noite em que nos conhecemos. Foi o que fiz. Sei que isso tudo deve parecer loucura. Mas, é essa a verdade. Agora que estás aqui, por favor, não vá, fique. Se preciso for, viveremos tudo de novo.”
     Atendi àquele pedido e fiquei. Infelizmente as lembranças das fotografias jamais voltaram a mim. Mas, pude construir novas recordações com minha família. Diria que minha vida (re) começou naquela noite em que aquela mulher sentou-se ao meu lado naquele bar e me deu tudo o que eu havia perdido.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Pecados

     A relação de Juan e Fernanda era daquelas cujas raízes formaram-se na adolescência. Vizinhos, viram seu laço de amizade se fortalecer aos poucos, até o dia em que descobriram a presença do amor entre eles. Como a união fazia gosto a todos, o namoro deu o início formal à história que há muito começaram. Fernanda era moça bela. Dir-se-ia encantadora como as ninfas de Apolo. Cobiçada por muitos, mas possuída somente por Juan. Este era admirado por sua sagacidade. As moças atribuíam-lhe um charme irresistível. Embora jovem, demonstrava habilidade precoce nos negócios da família. Ninguém negava seu futuro promissor.
     A vida adulta principiava a mostrar suas cores quando Juan e Fernanda decidiram se casar. Ele detinha um cargo de chefia na empresa do pai e conquistara grande parte de seus objetivos. O casamento era, para ele, o que faltava para completar sua vida. Ela pensava de modo distinto. Ainda cursava a faculdade e tinha grandes planos para a carreira profissional, um casamento a atrapalharia, de certa forma. Contudo, o amava e não queria magoá-lo. Assim, quando Juan, diante de todos os familiares e amigos, pediu-a em casamento. Ela aceitou, embora vacilante, com aquela certeza incerta.
     A idéia do casamento agradou a todos. Exceto por Luiz, primo de Fernanda. Ambos tinham a mesma idade. Cresceram juntos. Fernanda o amava como a um irmão. No entanto, ele a via de modo distinto. Desejava-lhe desde o dia em que, quando ainda eram crianças, por inocência pueril, ela prometera-lhe que um dia casar-se-iam. Desde então tudo mudou. Para ele, a destino havia sido traçado e nada poderia mudá-lo. Permaneceu com esta certeza até ver Juan pedir sua amada em casamento. Pior foi ouvi-la aceitar segundos depois. Luiz não se conteve: golpeou a mesa com força e saiu. A reação de Luiz surpreendeu os familiares, que desconheciam seus sentimentos por Fernanda. Contudo, já era esperada pela moça.
     Luiz era daqueles coadjuvantes com anseios a protagonista. Desde o princípio odiou Juan. Detinha manifesta inveja deste, tanto pelo sucesso profissional, mas, mais ainda, por ele ter Fernanda. Queria equiparar-se a Juan, mas via-se incapaz. Embora houvesse tentado por vezes obter o sucesso, acabou por desistir. Era daqueles que nem o maior dos incentivos é capaz de motivar. Rendia-se facilmente à preguiça, que lhe impelia ao ócio e à vadiagem. Eis o motivo pelo qual Luiz não executou nenhum dos planos que idealizara para evitar aquele casamento.
     Juan e Fernanda casaram-se em outubro. Era o casal mais feliz do mundo, nos primeiros anos. Porém, às vezes o amor não resiste ao tempo que, por vezes, modifica os indivíduos, não só no físico, mas também no pessoal. Após dez anos de casamento, Fernanda permanecera praticamente a mesma. Embora se notasse em sua aparência a maturidade, ainda havia nela muito da menina de outrora.  Juan, porém, já não era mais o mesmo. Rendera-se à gula, mal que combatia desde a infância, e engordara significativamente. Fernanda já não via nele o rapaz charmoso com quem casara.
     Não obstante, Juan permitiu que o espírito capitalista fincasse suas raízes em si. Suas prioridades se referiam apenas ao trabalho e às posses: não só as que alcançara, mas também as que almejava. Fernanda já não representava para ele o amor, mas sim a conveniência. A avareza que cultivava em si, o impelia a valorizar apenas aquilo que estava ao alcance monetário. Não havia naquele homem espaço para meras abstrações. Já não era dono do próprio tempo, o importante era lucrar, tudo o mais podia esperar. Inclusive Fernanda.
      Luiz, que sempre acompanhara a relação do casal ao longe, tinha ciência do abismo que os separava. Sentiu então que era o momento para, enfim, ter Fernanda para si. Para isso dispunha de tempo, afinal, a herança dos pais o perpetuara no ócio a que era acostumado. Enquanto Juan dedicava-se ao trabalho, ao lucro; Luiz demonstrava empenho semelhante em se aproximar de Fernanda. E não foi difícil para ele penetrar naquela fortaleza cujas estruturas ruíam solitárias. Luiz tinha como arma principal as palavras. Foi com elas que tomou de assalto o coração de Fernanda. Ele sabia que ela sempre tivera por fraqueza a vaidade. Esta, como sabemos, tende a ser como a jovem ingênua, que se rende facilmente a elogios, mesmo os mais dissimulados.
     Foi assim que Fernanda entregou a Luiz o que ele tanto queria. A idéia do adultério pesava-lhe a consciência, mas ela dizia para si que o culpado por tudo era Juan. Tanto disse que logrou convencer-se. Deixou que Luiz conhecesse seu ardor. Luxuriosa, libertou todos os desejos que reprimira durante anos, visando resguardar a imagem de boa esposa. Sentia-se amada, uma vez mais. No entanto, mera ilusão era esta. O desejo de Luiz era daqueles que são engendrados pelo ego que, uma vez satisfeito, desaparece sem deixar vestígios.
     Ao perceber que saciara a vontade, Luiz pensou em por um fim em tudo. Porém, não seria tão simples. Teve esta certeza quando Fernanda disse-lhe que ele seria o responsável por seu divórcio. Luiz compreendeu que a situação seguia por rumos inesperados. Era preciso deter Fernanda enquanto ainda havia tempo. Marcaram um encontro no lugar de sempre. Não houve beijos nem abraços. Apenas palavras. Luiz foi o mais canalha dos homens. Era preciso, sua intenção era destruir qualquer sentimento ligado a si em Fernanda. E conseguiu.
     Fernanda voltou para casa e aguardou pacientemente até a chegada de Juan. Jantaram juntos, como há muito não faziam. Em seguida ela o arrastou para o quarto e o amou. Com paixão, com violência. Como se pedisse perdão. Como se os últimos anos inexistissem. Juan não entendeu nada a princípio. Depois, deixou de tentar entender. Por uma noite esqueceu tudo e sentiu que Fernanda era, de fato, a mulher de sua vida. Traçou planos de viagens, renovarem os votos de casamento. Por fim, adormeceu.
     Na manhã seguinte, Juan despertou com o alvoroço em sua casa. Vozes vinham de fora, seguidas de batidas fortes à porta. Foi até a porta: era a polícia. Procuravam por Fernanda. A acusação era Assassinato. A vítima, Luiz. Os motivos eram desconhecidos, mas, a julgar pelo corpo retalhado, ela o fizera motivada por uma ira imensurável. Juan correu até o quarto. Então a encontrou com uma faca cravada ao peito. Em meio ao sangue havia um bilhete. Juan apanhou-o lacrimejante. Havia apenas uma frase escrita: “Rendi-me ao pior pecado.”    



segunda-feira, 12 de março de 2012

Lâminas e lágrimas

Lâminas e lágrimas

Laceram-nos a pele, impiedosas,
Trazendo a dor que já conhecem
Aos corações que em vão padecem
 Por recordações imperiosas.

Atravessam tão sutis, silenciosas,
Nossas infelizes faces indefesas,
Expondo nossas solidões coesas
Como fossem feras insidiosas.

Seus talhos por vezes profundos
Não se mostram de todo ao olhar.
Com seu minúsculo traço a enganar
Quem desconhece nossos mundos.
Deixam-nos sempre suas máculas,
Que cicatrizes nem sempre são,
Imprimindo por vezes ao coração
Aquela rude languidez vernácula.
               
Mas a doce esperança salvadora,
Lâminas e lágrimas, pode vencer.
Da vil derrota faz em nós renascer
A perdida capacidade sonhadora.

E aquele devaneio da felicidade
Há de ser-nos novamente palpável
Quando a nós outro ser amável
Conquistar com sua afabilidade.


Robson Heleno                                        



sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Promessa

     Quando anunciou a data do casamento, durante o jantar, Marcelo viu o sorriso de contentamento surgir na face de todos. Luana, a noiva, detinha um brilho peculiar no olhar. O rapaz beijou-a, como prova de um amor que seria eterno. Em seguida foi cumprimentado pelo sogro e pelo pai. Enfim os laços da antiga amizade entre as famílias seriam sacramentados. Todos exalavam felicidade. Aquele casamento era objeto de desejo desde que Marcelo e Luana eram crianças. O destino fora generoso ao uni-los, agora o sonho se tornaria realidade.
     Luana era menina prendada, daquelas criadas à moda antiga: “para casar”. Dona de uma beleza delicada possuía os olhos azuis da mãe e a pele alva do pai. No entanto, encantava muito mais por seu jeito meigo, sempre tão doce e sutil. Mas, como fora sempre mimada pelos pais, era excessivamente sensível, se ofendia com qualquer palavra dita em tom mais alto ou de forma grosseira. Eis a grande dificuldade enfrentada por Marcelo desde o início. O rapaz fazia o tipo galã, acostumado a conquistas fáceis, não estava habituado a cativar mulheres com gestos e palavras doces. Contudo, como se apaixonara, viu-se forçado aprender como lidar com Luana. “Tudo pelo amor!”, dizia.
     Ao custo uma mudança de postura radical e muita paciência, Marcelo conquistou a moça. Começaram um namoro que, como sabemos, já tinha a aprovação das famílias desde a primeira troca olhares. O rapaz esforçava-se para agradar a amada, falava macio, aprendia poemas, era deveras carinhoso. Sabia que aquele amor demandava calma e, embora a deseja-se com todas as suas forças, ponderava seus beijos e carícias. Controlava-se o quanto podia. Luana era para ele um cristal a ser manipulado com toda sutileza possível, a simples idéia de um dia magoá-la o aterrorizava.
     Após um ano de namoro, vislumbraram o matrimônio. Marcaram a data em segredo. Anunciaram-na durante um jantar entre as duas famílias. Fora a surpresa mais agradável. Dali a dois meses subiriam ao altar, era preciso principiar os preparativos. As famílias divergiam quanto às proporções da festa: os pais da noiva queriam algo luxuoso, invejável; os pais de Marcelo optavam pela simplicidade discreta, justamente para não despertar a inveja, que tanto mal faz aos jovens casais. Por fim, decidiram consultar o casal. Marcelo se anulou, entregou a decisão à noiva. A jovem quis que a festa fosse modesta, mas a lua de mel seria na Europa. Ninguém ousou contrariá-la.
     Eis que o sonhado dia chegou. Do altar, Marcelo contemplava a igreja cheia de familiares e amigos enquanto aguardava Luana. Então, iniciou-se a marcha nupcial. A noiva surge à porta da igreja. Parecia um anjo naquele vestido branco ornado de cristais. Os olhos do noivo brilhavam. Conforme ela se aproximava, ele entrava em conflito consigo: admirava aquele ser celestial, mas ao mesmo tempo a desejava sem aquele vestido, era capaz de imaginá-la nua. “Primeiro o sagrado, depois o profano.”, disse para si, tentando refrear o desejo.
     Após a cerimônia, todos foram para a festa que, apesar de simples, aparentemente, agradou a todos. Os noivos dançaram, posaram para fotos, agradaram os convidados. Luana parecia estar em seu dia de maior esplendor, era impossível não corresponder àquele sorriso constante em seu rosto. Marcelo também demonstrava felicidade, mas dentro de si contava os minutos para estar a sós com a esposa. Afinal, passara um ano contendo suas vontades, enfim poderia tocar aquele corpo. Como percebesse isso, o pai da noiva chamou o genro para uma breve audiência antes do fim da festa.
     -Sei que estás ansioso por esta noite, posso ver em teus olhos. Mas, tenha cautela. Lembre-se que Luana é uma moça delicada, certas coisas podem assustá-la em um primeiro momento. – Aconselhou o sogro a Marcelo.
     -Pode ficar tranqüilo, após um ano de namoro, sei bem como lidar com sua filha. Ela está em boas mãos. – Respondeu o noivo.
     -Promete-me que fará tudo cuidadosamente? – Indagou preocupado ao genro.
     -Eu a amo e lhe prometo que jamais faria algo grosseiro. – afirmou Marcelo.
     O sogro abraçou o rapaz, tinha certeza que a filha estava em boas mãos. Ao da festa, os noivos foram a um hotel. Viajariam no dia seguinte para a Itália, mais precisamente Verona, a cidade dos namorados. Porém, Marcelo não queria aguardar tanto tempo. Assim que chegaram ao hotel, o rapaz tentou consumar o casamento. Deitou Luana sobre a cama e com todo o cuidado foi desabotoando sua roupa. Beijava-a suavemente, como se cada beijo fosse um pedido de perdão por sua lascívia. Fazia tudo com muita calma, afinal, havia prometido que seria assim.
     Contudo, Luana o repeliu. Disse-lhe que estava cansada, precisava dormir. Marcelo achou melhor não insistir, temia magoar a noiva, além do que, também estava cansado. Assim passou-se a primeira noite sem que o noivo saciasse sua vontade. No dia seguinte, Luana estava radiante, quem a visse diria que a noite havia sido “agitada”. No entanto, o mau humor de Marcelo desmentia essa primeira impressão. A viagem foi longa e, ao chegarem, a moça alegou cansaço quando o rapaz a procurou. Adiou-se, uma vez mais, a noite esperada.
     Os dias que se seguiram foram regados a passeios românticos, jantares, planos para um futuro. Porém, ao cair da noite, a coisa mudava. A cada aproximação Marcelo procedia com mais cuidado ao tocar a esposa. Afagava-lhe os cabelos calmamente enquanto sua mão passeava devagar pelas curvas daquele corpo. Por vezes pensou que enfim aconteceria. Contudo, Luana se mostrava sempre pouco disposta, era como se não o desejasse. Era indiferente ao seu toque, não importava o quão sutil fosse.
     A lua de mel estava acabando e Marcelo não conseguira ir além de beijos e carícias. Isso o perturbava. Por dentro, estava quase explodindo, porém, precisava manter a calma. Na penúltima noite, após ser rejeitado uma vez mais pela mulher, quase perdeu a cabeça. Porém, lembrou-se da promessa que fizera ao sogro. Revoltado, saiu, deixando-a sozinha. Precisava acalmar os ânimos antes que fizesse algo que não deveria. Caminhou pelas ruas da cidade. Por fim parou em um bar próximo ao hotel.
     Pediu uma dose uísque. Enquanto tomava-a, pensava o que fazia de errado, mulher alguma jamais havia resistido tanto aos seus carinhos. Porque ela não o queria? Decerto não o amava. Talvez aquele houvesse casado apenas por conveniência. Como pode ser tão leviana? Juntamente com os pensamentos, fluíam as doses. Estas inflamavam as idéias na mente de Marcelo. Após algum tempo, as conjecturas tornaram-se certezas. “Ela não me ama, me enganou!”, concluiu. A bebida quente aqueceu o coração do rapaz, despertando um desejo colérico. “Ela vai me pagar!”, disse para si e em seguida saiu rumo ao hotel.
     Ao chegar ao quarto, Luana estava à varanda, observando a lua. Parecia preocupada. Diria alguma coisa, mas Marcelo tratou de calar-lhe com um beijo voraz, desses de roubar o ar. Em seguida, atirou-a sobre a cama. Avançou sobre a esposa e rasgou-lhe as roupas, sedento. Antes que Luana pudesse esboçar qualquer reação, Marcelo puxou-a para si pelos quadris e, enfim, consumou o ato, com violência, com furor animalesco. Sequer virou o corpo da esposa para olhar em seus olhos. Quem visse a cena diria se tratar de um estupro. E de fato, o era.
     Marcelo saciou sua tara. Porém, após a explosão do orgasmo, quando o prazer intenso, porém breve, cessou, as idéias tornaram ao seu curso normal. Veio então o arrependimento. O rapaz saiu de cima da amada. Temia encarar aqueles olhos que deveriam estar banhados em lágrimas após aquele crime infame. Mas, precisava encará-la, ainda que fosse a última vez. Pôs a mão sobre o corpo de Luana e virou-a com calma. Pensou em algo para dizer, mas perdeu a voz ao olhar a face da mulher. A expressão de dor esperada não se mostrara naquele rosto, pelo contrário, Luana sorria e tinha no olhar um brilho de satisfação.
     Assustado, o rapaz demorou a entender. Então a esposa o abraçou forte. “Eu te amo!”, disse-lhe com voz fogosa. Por fim, ele compreendeu: às claras, Luana era afeiçoada a sutilezas, mostrava-se sensivelmente frágil; porém, quando as luzes se dissipavam, era do tipo que se deixava dominar por um desejo selvagem, gostava de ser possuída com força, como se mordidas e tapas fossem carícias. Marcelo então se lembrou da promessa que fez ao sogro. Não pode conter o riso: “Promessa, ah! Promessa.” Até o último dia da lua de mel Marcelo não teve descanso, havia despertado uma fera luxuriosa insaciável.


Fonte imagem: http://cdn.mundodastribos.com/361711-casamento.jpg

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Armadura

     Pela janela, o sol contempla a pele morena da mulher que penteia os negros cabelos frente ao espelho. Seus pensamentos passeiam enquanto ela realiza aquele gesto costumeiro. Pelo brilho que reveste seu verde olhar, pode-se imaginar que está a devanear. Com um súbito piscar de olhos, ela desperta. Levanta-se e caminha em direção ao guarda-roupa. Parece perdida em meio a tantas peças. No entanto, após alguns segundos, escolhe o que vai vestir. Volta uma vez mais ao espelho. A maquiagem que faz, apenas realça o que a natureza já fizera majestoso. Lança um último olhar para si. Por um instante parece pensativa, mas não há mais tempo. Um dia de trabalho a aguarda.
     Passa pelas ruas com passos apressados, mas ainda assim sutis. Involuntariamente, furta os olhares pelo caminho. Alguns de desejo, outros de inveja. Efeito semelhante acontece no trabalho. Impossível não dissipar a atenção diante dela. É visível a insistência por parte dos companheiros de trabalho em desejar-lhe um bom dia. Assim como a animosidade demonstrada pelas demais funcionárias da empresa. Contudo, ela parece já estar acostumada. Demonstra simpatia aos que merecem. Indiferença às demais. Mesmo porque, sabe que a inveja é a frágil clava que trazem à mão os infelizes que padecem da pobreza de espírito.
     Ela detém um dos cargos mais importantes. Adequado à sua postura respeitável e resoluta, segundo disseram-lhe quando foi promovida. Sua inteligência é digna da admiração de todos. Diriam alguns que estamos diante da mulher perfeita, que traz em si as virtudes de Venus e Minerva. Porém, suas dádivas acabam por parecerem-lhe malditas. A independência e autoconfiança que exala, provoca o receio naqueles que se encantam por sua beleza. Por não denotar a típica fragilidade feminina, atraente a alguns, faz com que os homens prefiram os cumprimentos formais aos gracejos. Até mesmo os mais ousados perdem as palavras quando se vêem diante daqueles olhos verdes.
     Não se deve negar que há aqueles que ousam aproximar-se um pouco mais. No entanto, seu faro, apurado por desilusões anteriores, facilmente detecta as intenções. Infelizmente, elas nunca são as que ela procura. A maioria dos homens faria tudo para tê-la, mas apenas por uma noite. Apenas para poder, no dia seguinte, dizer aos demais que conseguira, por meio da ousadia destemida, ter o que todos cobiçam receosos. Essa idéia de ser vista como troféu mais a atormenta que lhe afaga o ego. Preferia ter apenas um disposto a partilhar de seus finitos dias, ao invés tantos que a desejam apenas por um luar.
     Os gestos são sempre os mesmos, palavras repetidas. Nada a surpreende. Nenhum leitor capaz de decifrar-lhe o código, de perceber o que escondem as entrelinhas de seus olhos. Em seu íntimo, deseja o mesmo que todas: ser compreendida. Ter uma mão para segurar enquanto caminha pelo horizonte da vida a buscar seus sonhos. Alguém capaz de senti-la, conhecê-la sem recorrer às palavras. Que liberte o desejo que há muito é aprisionado. Contudo, nenhum se mostra deus para tomá-la por ninfa.
     São tais motivos que forçam nossa bela mulher a ter a solidão por única companhia. Eis as razões pela qual ela segue a rotina de uma vida insípida, que dia após dia vai perdendo o sentido. Ah, se todos soubessem que por trás daquele olhar grave existe um brilho em ânsias de se mostrar diante do menor elogio. Se soubessem que toda aquela seriedade e rigidez fazem parte da armadura que ela forjou para si, um revestimento com o qual protege a preciosa pérola que pulsa solitária em seu peito. Se soubessem que todas as noites ela, como uma adolescente romântica, sonha com o amor sincero, digno de seus pensamentos.
     Mas, como não vê seus sonhos reais, ela sofre. No entanto, não perde as esperanças. É como uma criança pertinaz. Todos os dias, enquanto se prepara, ela reflete consigo, diante do espelho, se não será esse o tão esperado dia em que sua vida ganhará novo fôlego. É esse pensamento que lhe impulsiona a viver cada dia. Enquanto isso, ela é obrigada a, uma vez mais, eclipsar a própria essência sob a couraça protetora. Pobre mulher. Se ao menos lhe passasse pela mente que não está sozinha nesta busca pelo amor verdadeiro. Se soubesse que, no jardim da vida, é apenas mais uma violeta solitária à espera de seu colibri. Apenas mais uma ninfa torturada por meros devaneios que, embora tolos, são tudo o que possui para se ater. Apenas mais uma a crer no forasteiro Amor, que a cada dia parece relutar mais em intervir em nossas vidas.



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