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quarta-feira, 29 de junho de 2011

Minha Estrela

    O post de  hoje foi feito em homenagem àquela que é a responsável por tudo que sou hoje em dia, e pelo que posso vir a ser um dia. A pessoa mais importante da minha vida: minha mãe. Te amo Mãe, feliz aniversário!!!


                                          Minha Estrela 

    Não sei ao certo quando ela surgiu. Acho que sempre esteve ali, antes mesmo de minha existência. Aguardando minha chegada. Quando dei por mim, lá estava ela, brilhando por mim, para mim. Era a coisa mais linda que meus olhos já haviam visto. Mas eu não entendia ainda o que ela representava. Apenas a amava, sem sequer conhecer os motivos. Somente sabia que devia a ela meu amor.
     Com o passar do tempo eu percebia que ela não estava ali por acaso. Eu não sabia ao certo o porquê, mas ela cuidava de mim da melhor forma possível. Embora eu nada tivesse a lhe oferecer, a não ser meus sorrisos sinceros e meu amor costumeiro. Isso parecia sempre bastar para que ela fosse feliz. Brilhava para mim com todas as forças. Sua luz me alegrava, me fortalecia.
     Quando já estava maior, descobri que minha existência dependia dela. Ela me dera a luz, e a mantinha com seu brilho, seus cuidados, seu amor. Foi então que enfim me senti importante e, ao mesmo tempo, percebi o quão importante ela era para mim. Passei a cuidar dela também, à minha maneira pueril, mas cuidava.
     Às vezes acordava a noite e lá estava ela, brilhando com cuidado para não me acordar, velando por meu sono. Por vezes ela me defendeu,  se esforçando máximo para iluminar meus caminhos e evitar que eu tropeçasse nas pontiagudas pedras do caminho. Ela seria capaz de sacrificar a própria existência por mim. Sentia-me protegido de tudo. Mas temia que a vida ousasse roubá-la de mim.
     E bem que a vida tentou. Por vezes quis apagar-lhe o brilho. E eu senti o cruel temor de perdê-la. Mas ela manteve-se forte, lutou arduamente, venceu batalhas homéricas por mim. Tudo sem jamais deixar de brilhar por mim um dia sequer. Minha estrela guerreira! Tudo isso só serviu para nos unir ainda mais. Nosso amor nos fortaleceu. Enfrentamos o mundo juntos, mesmo quando ele pareceu invencível.
     E, em meio às vicissitudes, cresci. Ganhei forças para retribuir tudo o que ela havia feito por mim. Hoje quem cuida dela sou eu. Devoto minhas energias para mantê-la brilhando como sempre. Por vezes vi seu brilho enfraquecer, prestes a se apagar por definitivo. Mas lutei como pude para salvá-la. Não sei como, mas consegui. Talvez tenha sido nosso amor, novamente. O importante é que hoje a tenho ao meu lado.
     Com ela sou forte, capaz de vencer qualquer coisa. Ela motiva minhas conquistas, meus sonhos. É o que me impulsiona a prosseguir atravessando a tempestuosa vida. Não sei o que seria sem ela. Sem seu brilho os caminhos se tornariam obscuros, talvez eu acabasse perdido e sozinho em meio à escuridão. Ela é meu guia, a estrela que me orienta, me ajuda a seguir em segurança atravessando esta tempestade.
     Sei que muitos também possuem suas estrelas. Alguns sequer notam a importância que elas têm. Mas eu sei mensurar o significado da minha. Em meu céu ela reina majestosa. E sei que nenhuma outra jamais conseguirá ofuscar-lhe o brilho. Pois minha estrela é diferente de todas as outras. Ela é única, linda... perfeita. Jamais haverá no mundo outra igual a ela. Pois minha estrela foi feita especialmente pra mim, disso tenho certeza. Ela é meu guia, meu anjo, minha inspiração... minha mãe. Te amo mãe!

terça-feira, 21 de junho de 2011

Amor Idealizado

     Ela olhava pela janela enquanto seu pensamento passeava pelas ruas que passavam. Então ele entrou. Os olhos da jovem moça brilharam, o coração sofreu uma súbita alteração, denotando que não era a primeira vez que ela o via. Realmente, há exatos três meses eles pegavam o mesmo ônibus. O encanto repentino de um primeiro olhar transformara-se em uma paixão adolescente com o passar do tempo. Ela o olhava, admirava, desejava, sonhava. Mas, infeliz, jamais havia sido correspondida.
     A pobre moça passava o trajeto inteiro idealizando como deveria ser a personalidade do desconhecido. Em seu íntimo o via como um rapaz educado, capaz de encantar com seus modos. O romantismo também estava entre seus atributos, bem como a sensibilidade e a simpatia. Ele a faria sorrir com seu jeito extrovertido e estaria sempre presente em momentos difíceis. Por mais que não o conhecesse, ela sabia que ele era assim.

     Durante todo o esse tempo, mesmo se vendo todos os dias, ele jamais havia sequer sentado ao lado dela. Não por falta de esforços, porque a moça se esforçava para manter sempre o assento ao lado vago, mas ele sempre sentava mais a frente, ou então mais atrás. Nunca ocupava o lugar que lhe era destinado por direito. Pior que isso, ele sequer notava a presença da moça. Exceto em um dia em que ele estava de óculos escuros, e ela teve certeza de que ele a observava discretamente.
     Mas, hoje tudo seria diferente. Ele entrou no ônibus e procurou um lugar para sentar. Até que então seus olhos pararam no olhar da jovem moça. Ele então caminhou e sentou ao lado dela. Não havia como esconder a alegria, ele não só a havia olhado nos olhos, como enfim havia ocupado o lugar que ela há muito guardava. Regozijando-se com tal fato, a moça sequer reparara que ele havia sentado ali simplesmente porque todos os demais assentos estavam ocupados.
     Ela tentava disfarçar olhando para os lados, mas vez ou outra lançava um olhar sorrateiro para o rapaz. Ele sequer percebia isso, parecia mais interessado em observar o caminho. A moça parecia realizada, o simples fato de compartilhar aquele tão sonhado momento já lhe era suficiente. Mas ainda assim, fantasiava uma possível aproximação por parte dele, um sorriso, qualquer sinal que demonstrasse reciprocidade.
     Eis que então o rapaz volta-se em direção à moça. Olha em seus olhos e pergunta as horas. Ela não consegue acreditar: ele falou comigo! É como se aquilo a tivesse paralisado por completo. O rapaz coça a cabeça e tenta entender porque ela não responde. Ela gagueja, por fim consegue lhe dizer o horário com a face enrubescida pela timidez. O rapaz agradece e volta a olhar para o caminho. Ela não consegue acreditar, é o dia mais feliz de sua vida. Em seu pensar, aquilo foi apenas um começo, uma prova de que é correspondida.
     Seus mais íntimos sonhos começam a ganhar vida. Ela já vislumbra um futuro ao lado daquele que está ao seu lado sem sequer imaginar o que se passa naquela mente jovial. Porém, o celular do rapaz toca despertando-a dos devaneios. Ele o atende e ela fica escutando tudo o que ele fala. A conversa é breve, porém o ponto crítico é o final, quando ele diz: “Tchau amor, te amo”. Aquelas derradeiras palavras deixam a jovem estática. Ela parece questionar se foi aquilo mesmo que ouviu.
     O jovem se levanta, a porta se abre e ele desce do ônibus. Parte deixando para trás a pobre moça que, sentada em seu assento, não consegue conter a lágrima que lhe corre à face. Está desiludida, coração estilhaçado. “Como ele pode?”, ela se pergunta. Fora cruelmente traída por aquele a quem durante meses devotou seus pensamentos. Em um único dia ele se aproximou, deu esperanças de um futuro, e depois a abandonou com o coração em pedaços.
     Nossa jovem adolescente jamais será a mesma. O rapaz não faz idéia, mas acaba de deixar para trás uma mulher desiludida que jamais confiará novamente nos homens. Daquelas que dirá em conversas com as amigas coisas do tipo, “os homens são todos iguais”. Ele não imagina, mas é o culpado por ter traído a pureza de um amor idealizado por uma jovem adolescente. E tudo porque ousou ocupar o único lugar vazio no ônibus e perguntou as horas à pessoa que estava ao seu lado. Quem diria? 



Fonte Imagem: http://lh5.ggpht.com/Encantosepoesias/SADeZMIUNLI/AAAAAAAAAXA/nbGvZGPenWc/V1.jpg?imgmax=512

sábado, 11 de junho de 2011

Namorado

Amanhã é Dia dos Namorados, então o post de hoje é uma singela homenagem a esta data e ao sentimento que ela ocasiona em muitos corações, não só daqueles que namoram, mas também dos que estão solteiros.

Namorado

Amar-te e ser amado.
Viver tuas vontades.
Partilhar teu carinho.
Estar sempre ao teu lado.

Entregar-me de bom grado.
Esquecer as possibilidades.
Adentrar em teu mundo.
Entorpecer-me apaixonado.

Abrir mão da liberdade
E permanecer aprisionado
Somente à tua realidade?

Enfim, ser teu namorado?
Perdoe minha sinceridade
Mas, não quero, obrigado.





Fonte Imagem: http://www.memeit.com/wp-content/themes/shopperpress/thumbs/trollface3.jpg


domingo, 5 de junho de 2011

Pássaros

     Um pássaro branco atravessa o mar celeste, quebrando assim a monotonia de meus pensamentos. Ele passa diante de meus olhos, tenho a sensação que se esticasse o braço poderia tocá-lo com a ponta dos dedos. Como uma lâmina branca, ele corta a imensidão azulada com facilidade. Eu o observo. Seu vôo é tão suave, o invejo. Quisera eu ter tamanha liberdade. Mas agora, voar já não me é tão interessante. Apenas contemplar a alva ave que plana ao sabor do vento me é o bastante.
     Não sei ao certo a que distância do chão me encontro, mas tenho certeza que estar no topo deste arranha-céu é suficiente. A esta altura o vento adquire vigor jamais visto. Passa com força por mim. Sua direção está em constante mudança, ora me inclina para frente, como se me incentivasse a pular, ora me puxa para trás, querendo impedir-me. Mas estou firme ao chão. Mais que meu corpo, o que oscilam são minhas idéias. Meus pensamentos parecem brigar entre si.
     Olho para baixo. Vejo ao longe a senhora que rega sua planta na varanda. Bem abaixo os automóveis correm com pressa pela maior artéria de asfalto dessa cidade. Nas calçadas, milhares de pessoas passam esbarrando-se sem se desculpar. É a pressa, a agonia voraz do cotidiano destas vidas monótonas. Aposto que se perguntasse a qualquer uma delas o sentido disso tudo, não saberiam me responder. Diriam não ter tempo pra conjecturas ociosas. Mas eu tenho! Na verdade, diria que, agora, tenho todo o tempo do mundo.
     Aqui em cima o tempo caminha com cautela. Talvez seja porque ele já percebeu que pretendo abreviar seu poder sobre o meu destino. Não há mais o que deliberar, minha decisão já foi tomada. O que faço aqui então? Estou apenas repassando minha vida e contemplando a beleza que durante tanto tempo permaneceu invisível a este olhar escravo da vida rotineira, que jamais ousou se dar a luxos tão singelos. Há tanta beleza a ser vista, mas não quero me fartar nela. Em breve estarei satisfeito.
     Uma melodia suave chega aos meus ouvidos. Será o vento entoando sua canção numa tentativa de me dissuadir de meu objetivo? Não, o som vem da varanda da senhora. Desconheço a música, mas confesso estar apaixonado pela sensação que ela me traz. É justamente a calma que preciso para fazer minha viagem. A calma de quem acredita estar fazendo a coisa certa. Afinal, pensei muito antes de vir até aqui. Agora sei que já não há mais nada forte o suficiente para manter neste mundo.
     Decepções, inveja, traições. Palavras cujos sentidos roubaram-me o desejo pela vida. Traído por aqueles que amei, enganado por quem confiei. Quando dei por mim estava solitário em meio àqueles estranhos conhecidos. A vaidade e a ganância que permeiam as relações neste mundo são demais para mim. “Só sobrevive aquele que consegue se adaptar ao meio”, me diziam na escola. Embora inapto, eu sobrevivi. Mas tenho ciência de que não deveria. Por isso farei aquilo que o meio fez questão de me mostrar ser o certo.
     Outro pássaro se aproxima de mim agora. Parece vir em minha direção. Sua penugem é negra e brilha com os raios do sol. Se fosse supersticioso, julgaria ser a personificação da morte. Creio que este é o momento de por o ponto final nas tortuosas linhas desta existência problemática. Ele está mais próximo de mim agora. Plana com as asas abertas, como se viesse até mim pedindo um abraço. Esta é minha deixa, devo ir ao encontro do destino que vem até mim. Devo voar em sua direção e abraçar a liberdade.

terça-feira, 31 de maio de 2011

O Bordel

     Na pequena cidade de Vila Menina não havia homem mais conhecido que Tião Junqueira. Homem simples, natural da terra, que se criara sem jamais apartar-se do seio desta. Afamado por seu destaque nos negócios, detentor de terras e do único entreposto comercial do lugar. Como qualquer homem rico da época, recebera o título de coronel. Era respeitado por seus concidadãos, temido pela criadagem.
     Mas o que lhe conferia fama mesmo era a beleza de sua família. Não bastasse ter se casado com D. Laura, a mais bela mulher da cidade, aquele homem fora abençoado com seis lindas filhas. O que não era seu maior orgulho, afinal, como todos os homens, desejara um herdeiro macho para assumir os negócios quando adulto. Queria tanto, que tentou seis vezes. Não obtendo sucesso em nenhuma destas, ele desistiu. Mesmo porque, temia que seu filho nascesse lobisomem.
     Com o passar dos anos, foi se conformando com suas filhas. Amava-as tanto, que as protegia do mundo como podia. Tarefa fácil durante a infância. Porém, as meninas cresceram e começaram a atrair os olhares da reduzida, mas ativa, população masculina do lugarejo. Percebendo isso, Coronel Tião proibiu-as de sair de casa sem ele. E isto se aplicava também à D. Laura. Passavam os dias reclusas, exceto aos domingos, quando o Coronel ia com a família até a igreja.
     Este ritual dominical parava o lugar, literalmente. O casarão do Coronel localizava-se bem ao centro da cidade, em frente à pracinha. A igreja ficava exatamente em frente ao casarão, na outra extremidade da praça, de modo que bastava atravessá-la para chegar à missa. Mesmo assim, todos ficavam na praça esperando até que a comitiva fizesse o pequeno trajeto. Os homens aguardavam ansiosos para se deleitar com a beleza das mulheres da família Junqueira. As mulheres ficavam para observar as roupas usadas pelas moças. Invejavam o fato de que estas jamais repetiam um vestido, prova da riqueza do Coronel Tião, que toda semana encomendava vestidos para as filhas e a esposa. Um sonho para a maioria das mulheres do local.

     Quando chegavam à igreja, sempre a encontravam vazia. A população aguardava a entrada da família do Coronel, e só entravam depois que estes estavam acomodados. No decorrer da missa, enquanto a mulher e as filhas faziam suas preces, o Coronel olhava em volta, a fim de flagrar algum infeliz afoito que ousasse olhar demais sua família. Aquele que fosse pego não tardaria a receber alguma punição. Certa vez um rapaz não apenas ficou olhando as filhas do Coronel, como também o lançou um olhar desafiador quando foi flagrado. No dia seguinte apareceu sem os dentes e com vários hematomas no corpo, vítima de um assalto onde nada lhe roubaram.
     O Coronel Junqueira morria de ciúmes de suas filhas. Um dia, enquanto conversava com João da Rabeca, seu amigo desde infância, foi indagado sobre quando iria deixar que sua filha mais velha se casasse. Houve uma mudança brusca de humor, e a resposta colérica deixou bem claro: Nunca! Dito isso, o Coronel partiu enfurecido, como se tivesse sido vítima de grave ofensa. Desse dia em diante, ele nunca mais tornou a falar com João da Rabeca, tomando-o por inimigo.
     A extrema proteção do Coronel suscitava comentários pela cidade. Todos pensavam que era porque o Coronel julgava não haver naquele lugar gente a altura de suas filhas. Mas, quando todos viram o Coronel expulsar a chicotadas o filho de um fazendeiro de uma cidade vizinha, que queria tomar uma de suas filhas por esposa, todos ficaram sem entender. Porque tanto ciúme? Porque prender a família daquele jeito? Todos se perguntavam calados. Ninguém ousava questionar a postura daquele homem. Pelo menos não diante dele.
     E o tempo passava sem que o Coronel mudasse seu pensamento. Quando iam à rotineira missa, todos podiam ver nos olhos, tanto das filhas quanto da mulher, a melancolia da resignação. Mas elas sempre sorriam, faziam questão de parecerem felizes, embora talvez não fossem. D. Laura tinha 42 anos, mas não demonstrava qualquer marca do tempo, sua beleza reluzia igualmente a das filhas. A filha mais velha completara 23 anos, e as gêmeas caçulas 18. Eram belas mulheres, desejadas por todos, mas eram intocáveis.
     O Coronel Junqueira já chegara aos 48 anos e esbanjava saúde. Todos diziam que ele chegaria facilmente aos 60, idade tida como a expectativa de vida média de um homem da época. Porém, contrariando as previsões, o Coronel viria a falecer bem mais cedo. Certa tarde, o Coronel estava deitado em sua rede após o almoço, quando foi acometido por uma crise de vômitos. A crise não cessou e o Coronel abraçou a morte vomitando o próprio sangue.
     Decretou-se luto oficial na cidade. Todos fizeram questão de lotar o minúsculo cemitério do lugar para prestar sua última homenagem ao falecido. Pelo menos isso era o que diziam, mas, na verdade, todos estavam ali para ver a família chorar e, quem sabe, dizer-lhes uma palavra de conforto. Antes do enterro, vários homens fizeram questão de dizer algumas palavras de exaltação sobre o benquisto Coronel Tião Junqueira. Muitos repetiam as mesmas coisas que alguém já havia dito antes, mas, que importa? A intenção era falar qualquer coisa e tentar atrair o olhar de uma das familiares do defunto.
     Passado o enterro as mulheres voltaram à clausura. Todos imaginavam o quanto estavam sofrendo aquela enorme perda. Apenas as criadas entravam e saiam do casarão. Uma mais lacônica que a outra. O único homem que adentrou o casarão durante o luto foi o tabelião, e isso porque precisava ler o testamento, afinal, o comércio não parava, era preciso que a esposa assumisse os compromissos e desse seguimento aos negócios para garantir o sustento da família.
     Dentre os elementos do testamento do Coronel, estavam: duas fazendas situadas nas imediações de Vila Menina; O casarão onde a família vivia; o prédio onde funcionava o comércio e todas as mercadorias nele contidas. Não havia qualquer quantia em dinheiro guardada, pois o coronel havia feito grandes investimentos em mercadorias numa tentativa de comercializar com as cidades vizinhas. Mesmo assim, a família dispunha dos meios necessários a sua subsistência e para manter o luxo ao qual estava acostumada.
     Embora todos imaginassem que D. Laura iria assumir a administração dos negócios, ela acabou por surpreender a todos. Iria manter a casa e os luxos da família, porém com um estabelecimento que revolucionaria o comércio local. Findado os sete dias de luto, todos se surpreenderam quando, ao entardecer, uma criada abriu as portas e janelas do casarão. Não bastasse isso, o silêncio funesto foi quebrado por uma musica que vinha de dentro do lugar. Todos se olhavam sem entender o que acontecia.
     Foi quando, na varanda do casarão, D. Laura apareceu com suas filhas. Estavam sorridentes e bem vestidas. Mas com vestidos diferentes, decotados, provocantes. A cor vermelha tingia-lhes os lábios. Atônitos, os homens observavam-nas. Então D. Laura os surpreendeu, convidando-os para entrar, pois a noite seria de diversão. Aquelas palavras fizeram com que milhares de sorrisos brotassem nos rostos masculinos. Todos sabiam do que se tratava, mas era bom demais para acreditar: D. Laura, a mulher reclusa e suas castas filhas haviam inaugurado o primeiro bordel de Vila Menina.
     A festa de inauguração durou três dias ininterruptos. Era como se um feriado prolongado estivesse se instaurado naquele lugar. Nem mesmo a prefeitura funcionou nestes dias. Solteiros, casados, viúvos, todos queriam visitar o estabelecimento. As mulheres da cidade, revoltosas, tentaram esboçar alguma reação, mas foram duramente reprimidas pelos maridos e pais. O progresso havia chegado àquele lugar, a mercadoria sexual era lucrativa demais.
     A casa logo ganhou fama, de modo que os homens das cidades vizinhas vinham de longe para se render aos encantos de D. Laura e suas filhas fogosas. Na ausência de um nome, os homens da cidade batizaram o lugar de “Cabaré do Junqueira”. Era uma espécie de homenagem gozadora àquele que durante tanto tempo manteve a família na linha dura e que deveria estar revirando-se no túmulo enquanto os corpos que ele tanto preservou eram barganhados por qualquer um que dispusesse de dinheiro suficiente.
     A rapidez com que a família superou o luto, e o modo lascivo e promíscuo como aquelas mulheres se portavam, gerou comentários. Surgiu o burburinho de que o temido Coronel Junqueira havia sido envenenado por D. Laura, a qual, apoiada por suas filhas, viu no veneno a forma mais rápida de encurta a vida daquele tirano. Mas nada foi provado. Outra questão foi levantada: será aquele comportamento havia sido causado pelo trauma da perda do homem de pulso que comandava a casa? Ou será que D. Laura e suas filhas reprimiram desde sempre sua ninfomania, escondendo-a por trás de orações vazias e uma falsa submissão?
     Estas perguntas jamais foram respondidas e o “Cabaré do Junqueira” não só se tornou o mais promissor negócio de Vila Menina, como acabou por dar ponta-pé inicial para que aquela atividade se tornasse a principal em toda a cidade. Hoje, Vila Menina é conhecida por seus inúmeros bordéis, que movimentam a economia local, e incentivam o turismo. Porém, o mais famoso de todos sempre foi, e sempre será, aquele fundado pela família do um dia respeitado e temido Coronel Tião Junqueira.


sábado, 21 de maio de 2011

Tentação

Haverá poesia em teu olhar?
E em teus sorrisos canção?
Serão teus lábios os portais
Que o meu destino guiarão?

É meu mais puro idílio.
Vejo em ti a inspiração,
Que guia meus versos incertos.
Certezas da contemplação.

Versos que correm sorrateiros,
Escorrem pela minha mão.
E com um beijo no papel
Realizam a imaginação

Não quero métrica ou regra,
Mas sim a crua criação.
Palavras livres das amarras
E das tiranias da razão.

Porque teu ser enigmático
Instiga-me à produção.
Inquietando-me a alma,
Irresistível tentação.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Rotineiro

    Elisa, moça sonhadora, no ápice de sua beleza, clamava por um amor como se a vida lhe fosse imperfeita na ausência deste. André, rapaz sorridente, atraente, mas não belo, ávido romântico que destilava seus cortejos pela vizinhança. Uma tarde de sol, uma rua estreita, a pressa cotidiana. Esbarraram-se. Os olhos desconcertados dela encontraram o olhar sagaz do rapaz. Um sorriso, um café, um encontro.
     Encantos surgidos, palavras trocadas, afinidades criadas. Para Elisa, um vislumbre de afeto, uma chance de amor. Para André, uma moça formosa, uma conquista iminente. Egos elevados. Vaidades exaltadas. O idílio de um romance, por parte dela. O devaneio de uma aventura fugaz, para ele. Disparidades íntimas passíveis de mudanças pela ação do tempo.
     Outros encontros, novos olhares, maiores encantos. Palavras, sorrisos, toques, mãos, lábios, beijos. Atração, desejo, paixão. A moça se rendia cada vez mais às investidas do rapaz, mas tudo dentro dos limites que a sociedade impunha. Ele a cobiçava cada vez mais, abusava do romantismo para avançar sobre as muralhas de pudor que protegiam aquele corpo. Mas mal sabia que as proteções que ruíam eram as do coração da moça.
     Embora negasse, o amor já criara raízes em seu coração. Ela tinha certeza disso. Fazia planos para um futuro, os quais ele se limitava a confirmar. Era visível que tinham planos distintos. Mas não há quem consiga reprimir uma mulher que ama. Palavras doces, pedidos, chantagens sutis, objetivos alcançados. Ele foi se rendendo aos poucos: uma aliança, um pedido, um vestido, um altar. Quando percebeu estavam casados.
     O desejo lascivo o levara até ali, enfim teriam a tão esperada noite. Lua de mel, ardor, luxúria. Esta última palavra resumiu os primeiros meses do casamento. Porém, com o passar do tempo, o casamento se mostrou mais complexo que o esperado. Contas, cobranças, desavenças. A beleza já não se fazia tão presente. O romantismo também não. A cada dia se desconheciam mais e mais.
     Estranhos sob o mesmo teto, que se reconheciam vez ou outra em um olhar, um gracejo, uma transa. Mas isso não era o bastante para manter aquele casamento em ruínas. Porém, um motivo surgiria. Uma noite fria, o calor dos corpos, a vontade do corpo, uma gravidez inesperada. Um filho que poderia melhorar as coisas. Mas, só contribuiu para agravar.
     Ainda na gravidez, as brigas aumentaram. Palavras duras, agressões verbais, ou não, orgulho ferido, rosto machucado. Covardias crescentes. Uma denúncia, um perdido de perdão, uma retração, promessas de mudanças. Surgidas por um tempo, mas logo deixadas de lado. O nascimento do filho, uma trégua. Novos tempos, problemas, agressões. Palavrões, empurrões, socos. Uma nova denúncia, uma prisão.
     Mas seguir em frente não era fácil, contas a pagar, um filho para sustentar. O arrependimento, uma decisão, um erro. Ele voltou, mas já não era o mesmo. Viveram em paz por um momento, uma ilusão de felicidade. Porém, ele não havia esquecido. A raiva permanecia latente em seu coração. Ela não aceitava isso, questionava. Bastou um desentendimento, um grito, um tiro. Era o fim do romance da moça, e da aventura do rapaz. Apenas mais um crime rotineiro dentre muitos que aparecem nos jornais. Uma estória cujo final não é feliz.


Fonte Imagem: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh8r3l_5j9lyDsEDZLwxu-dvDsgyZr3PIv39n2hAlCQR7ZQldUzCfsovLgRgG4yeQwq_kKruuyk6yFys9CGcwa7gbmdPBLGXUTWB2fQ5oUyuklOAhXl5GBj8QeH1yuTQmJA46ambn6n2Kc/s400/66_jornal.jpg