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terça-feira, 1 de março de 2016

A vida não segue trilhos

 “A vida não segue trilhos”, a frase ecoou em minha mente, e despertei daquela espécie de transe que só o prazer oferece. Ofegante, eu tinha sob mim o corpo nu daquela moça que eu sequer sabia o nome. Nosso suor era um só, assim como nossos corpos conectados. O pulsar do meu coração, no entanto, era o único que eu conseguia sentir. Foi quando me dei conta que tinha as mãos envoltas no pescoço da moça. Pior ainda, eu apertava forte. Soltei-a em um sobressalto e, já de pé, observei seu corpo imóvel sobre o sofá. “Está morta. Eu a matei.”, pensei. “A vida não segue trilhos”, repeti involuntariamente.

“A vida não segue trilhos”, foi o que ela me disse, enquanto eu me enrolava tentando justificar o porquê de não poder entrar em seu apartamento àquela hora da noite. “Tenho trabalho amanhã, e reunião, compromissos agendados...”, dizia eu, quando ela disparou a frase que me deixaria sem argumentos. Simplesmente calei e a segui porta a dentro. Ela não acendeu as luzes. Mergulhou na penumbra e pediu que eu o fizesse. Tateei por alguns instantes pela parede, até encontrar um interruptor. Pressionei-o e, como num passe de mágica, a luz a fez surgir nua diante de mim. Deitada sobre o sofá, com as pernas cruzadas, escondia de meus olhos o mistério que estava prestes a revelar.

A frase então começou a fazer sentido. Seria o mantra de uma noite que, pela primeira vez em minha vida, era imprevisível. Há duas horas estava eu escolhendo um filme qualquer em uma loja de departamentos, para distrair minha solidão. Agora contemplava, extasiado, aquela linda vagina de pelos descoloridos e levemente arroxeados. Algo me dizia que eu nunca mais veria algo tão exótico em minha vida. Sim, pois minha nova amiga não era exatamente o tipo de pessoa com a qual eu costumava me relacionar. Era ela dessas moças descoladas, de piercings e tatuagens. Dessas cuja ousadia te faz temer e desejar ao mesmo tempo.

- Assiste esse aqui. Vai te fazer bem. - Disse ela enquanto apontava para a capa de um filme que eu não reparei qual era, pois meu olhar não foi capaz de se conter diante da tatuagem de traços delicados que começava em sua mão e serpenteava pelo braço. Encontrei o final do desenho próximo ao ombro da moça, quando me deparei que aqueles olhos em mim.

- Gostou? - Indagou. Não consegui responder nada. Voltei o olhar para o nada, enquanto fingia procurar o filme que ela indicara. A moça deu de ombros e saiu. Ela deu dois passos e, sabe-se lá por qual motivo, eu consegui balbucear algo como “Assiste comigo”.

Ela voltou sorrindo, enquanto eu permaneci imóvel, com a cara de idiota, padrão. Passou por mim, vasculhou por alguns segundos entre os filmes. Apanhou um e disparou:

- Assisto esse. Mas tem que ser na minha casa.

O máximo que consegui fazer foi assentir com a cabeça, num gesto mecânico e involuntário. Dez minutos depois eu subia em um ônibus seguindo para o lado oposto da cidade, junto àquela desconhecida, para ver um filme que eu sequer sabia qual era.

Durante todo o trajeto, ponderei sobre o que estava fazendo, e como diabos havia chegado até ali. Ela respeitou o meu silêncio, contemplando as ruas que passavam pela janela, enquanto fumava um cigarro.

Ao descer do ônibus, eu havia tomado uma decisão. Acompanharia a moça até a porta da casa dela, seja lá onde fosse. Depois daria um jeito de voltar para casa. Já tivera aventura demais por uma noite. Queria voltar para a segurança de minha rotina. E o teria feito, não fosse aquela frase para desarmar minha obstinação.

Todos estes eventos, que haviam me conduzido até ali, passaram diante de meus olhos rapidamente, até que me deparei novamente com o corpo dela estendido sobre o sofá. Ela parecia não respirar. A cada segundo, a certeza de que eu a matara aumentava. Caminhei desesperado de um lado para o outro. Fugir. Polícia. Cadeia. Palavras e ideias que corriam através de meus pensamentos. O que fazer? O desespero me invadia, e eu amaldiçoara o momento em que havia replicado à provocação dela. Tivesse ficado quieto, isso não teria acontecido. Estaria em casa, comendo comida congelada e vendo televisão, como todo bom idiota solitário costuma fazer.

Estava prestes a enlouquecer. Avistei a janela. Pensei em tomar um caminho mais fácil até o piso térreo. Não tive coragem. Fui tomado pela covardia e resolvi fugir. Corri e apanhei minha calça jogada sobre o sofá. Era só me vestir depressa e correr. Ninguém saberia que eu estive ali. Fora uma fatalidade. Eu não queria. Eu nem sabia o nome dela. Eu tremia e vestir a calça era impossível. Sentei no chão, enquanto eu tentava desesperadamente me vestir. Até que ouvi alguém tossir. Minha alma congelou.

Demorei alguns segundos para reunir coragem necessária. Quando consegui, voltei meu olhar em direção ao sofá, senti minha alma escapar junto com o suor. Ela estava voltada para mim, me olhando. Antes que eu pudesse comemorar o milagre, disparou:

- Eu falei para você não apertar muito. Se forçar demais, eu fico sem ar e desmaio. Não é assim que funciona. Você precisa sentir o meu corpo.

Atônito, eu não conseguia dizer nada.

- Vem. Tira essa roupa. Vamos tentar novamente. Eu vou te ensinar. Posso fazer em você. É gostoso.

As coisas então ficaram menos turvas em minha mente. Tudo começara com uma fita que ela envolvera no pescoço, e apertava enquanto eu a penetrava. Aos poucos, lembrei que ela confiou a mim o controle sobre a constrição da fita. Em algum momento, devo ter tirado a fita e resolvido sentir com minhas próprias mãos. O calor, o prazer. Sentir o coração pulsar nas extremidades. Não tive culpa, afinal.

“A vida não segue trilhos, né.”, ela repetiu, cínica, enquanto eu tirava a calça, liberto do desespero. Só voltaria para a minha casa três dias depois. Na semana seguinte, descarrilei de vez e vivemos juntos desde então.




Fonte imagem: https://media.deseretdigital.com/file/d22c751221.jpg?crop=top_0~left_0~width_1000~height_661&resize=width_630~height_417&c=8&a=5bcc9dc1

domingo, 23 de agosto de 2015

O abutre

Ainda resta em mim um pouco de vida, embora boa parte dela já tenha se espalhado pelo chão. Não parece, mas ainda respiro. Uma respiração lenta e leve, sutil demais para ser notada. Mesmo eu, já tenho minhas dúvidas se ainda estou vivo, ou se isso não é o princípio do inferno, para onde eu certamente irei (como se eu acreditasse nessas coisas). Ou então, é apenas o mero delírio louco de minha mente vacilante. Seja como for, meus olhos, mesmo enrubescidos pelo sangue, ainda conseguem ver borrões de imagens. Até quando? Não sei dizer.
Neste mar revolto, que é agora a minha mente, lembranças da infância se alternam com o que eu fiz no dia de hoje. Um frenesi de imagens sem sentido algum. Ana Maria me dá um beijo sob o pé de ameixa. Eu apanho a mochila, abraço minha mãe e saio de casa apressado. A professora chama meu nome e me entrega uma prova que eu certamente não mostrarei para os meus pais. Meu chefe mistura o café e o leite, fazendo aquele barulho insuportável da colher batendo nas laterais da xícara. Esqueço as chaves, e volto ao escritório para apanhá-las. Um homem passa por mim, correndo e gritando.
Eu estou morrendo. Eis minha única crença. O mormaço desagradável do asfalto quente umedecido me sufoca. Ou talvez seja apenas o sangue se inundando os meus pulmões. Talvez eu ainda tenha dois ou três minutos de consciência, antes de que tudo escureça. Moveria meu corpo, para ficar em uma posição menos desconfortável, mas mal tenho forças para respirar. E, porque diabos eu iria querer conforto numa hora dessas? Porque pentear os cabelos antes de encarar o vendaval? Vaidade? Estupidez?
De repente, a lucidez. Enfim lembro o que aconteceu. Eram dois homens. Corriam atrás daquele que por mim passou. Dei azar. Conformaram-se comigo, e deixaram o outro fugir. Queriam meu dinheiro, minha carteira, minha vida. Esta última não puderam levar de mim. Não para si. Então, em um ímpeto egoísta, contentaram-se em simplesmente me privar dela. Soubesse eu que o desfecho seria esse teria, pelo menos, tentado reagir. Mas, nunca tive desses impulsos heroicos. Talvez por um sentimento de autopreservação, que de nada me adiantou, veja você.
Agora me vejo deitado, contando a finitude dos segundos que me restam. Qual o narrador de minha história, em terceira pessoa, vejo quando ele se aproxima de meu corpo. Ele sente o cheiro de morte. Decerto passou a semana esperando por isso. Eis o ápice do seu dia. Seus olhos brilham. Ele se aproxima de minha carcaça vagarosamente. Sabe que ainda estou ali, que meu corpo ainda não jaz sem dono. Ele, então, aguarda. É paciente, como os abutres costumam ser.
À meia noite e doze minutos, dou meu último suspiro. Ele já está ali há pouco mais de sete minutos, contemplando satisfeito o meu agonizar. Senti sua presença desde que chegou. Com cautela, ele se aproxima. Certifica-se de que eu estou morto, e então parte para a ação. É a hora de saciar sua fome. Traz a mão ao bolso de traz da própria calça e apanha sua ferramenta. Debruça-se sobre meu corpo sem pudor. Por segundos, analisa o melhor ângulo. Parte para a ação. A câmera já está acionada. Em poucos segundos, sou fotografado como se minha imagem fosse digna de contemplação.


Ainda ao meu lado, ele confere as imagens que capturou. Inclina o pescoço em alguns momentos. Já não o vejo, mas sou capaz de sentir seus gestos. Ele corre o dedo frenético sobre a tela do aparelho. Está feito. Em alguns minutos, serei visto por milhares, milhões. Ele então parte satisfeito. Sequer olha para trás. Conseguiu o que queria. Serei o assunto da madrugada. Minha morte será comentada exaustivamente, até o próximo ataque seu, ou de outro abutre. Sim, o bando é grande. Multiplicam-se cada vez mais. E, o pior de tudo, aumenta também a sua plateia. Ávidos consumidores da desgraça alheia. Riem, choram, emocionam-se, compadecem-se. Uma verdadeira catarse de bolso. Portátil. Para ser devorada a qualquer momento, por alguns instantes, e depois descartada.

Eu ainda contemplo o que restou de mim, após o ataque do abutre. Ao longe lamento. Sei que sou apenas mais um em seu acervo de mortes. Ele as coleciona. Vangloria-se por tê-las nas memórias. Orgulha-se em compartilhá-las. Indiferente às reações, aos danos, à dignidade das vítimas. Ele apenas deseja estar lá no momento certo, na hora exata. Sedento pela morte alheia. Decerto sonha em ter um final semelhante. Ter atenção total. Maldito seja!


Fonte da imagem: http://wp.clicrbs.com.br/impressaodigital/files/2014/08/photo.jpg

quarta-feira, 20 de maio de 2015

A dança das folhas


Um pássaro cruzava o céu e, sem saber, levava o meu olhar consigo. Mas, a brisa logo passava por mim, fazendo-me fechar os olhos, para sentir seu toque. O cheiro de flor de maracujá. A terra úmida de orvalho sob os meus pés descalços. Não é difícil lembrar essas coisas. Na verdade, sinto como se ainda estivesse lá, e não aqui, em meio a todo esse concreto sufocante. É que parte de mim, inevitavelmente, ainda está presa àquele cenário do passado, que já não existe.

Contemplar o mundo era o meu passatempo favorito, aos nove anos. Não que a vida adulta tenha mudado minha predileção. Apenas já não disponho de tempo para devotar a tão maravilhosa atividade. Claro, em certos momentos, é inevitável. Mesmo hoje, em meio aos passos apressados, cruzando as avenidas da cidade, amiúde entrego minha atenção a algum traço de beleza que atravesse o meu caminho. E não me refiro a mulheres, apenas. Contudo, nada que se compare ao que um dia fui.

Tenho tantas imagens em minha mente, que lamento por não ter o talento necessário para externá-las em papel e aquarela. No entanto, creio que, dentre tudo o que vi, e que até o fim de minha vida verei, não há algo que se compare ao que meus olhos testemunharam naquela tarde de fim de março. Algo único, que sobrevive em minhas memórias somente. Tanto que, não raro, em sonhos volto àquele cenário. Os sons, as cores, o misto de medo e excitação.

Enfim, acredito já haver atiçado o suficiente sua curiosidade. Maldade seria, agora, não compartilhar contigo minha experiência. Então, contar-lhe-ei o que vi e vivi naquela tarde. É possível que o relato não seja tão fiel quanto deveria. É que, com o passar do tempo, as cores ficam desbotadas, inevitavelmente. Mas, a essência persiste. Não espere um final surpreendente, nem nada do tipo. Apenas escrevo tais linhas para evitar que o que vi morra comigo. Não me julgue.

Já haviam se passado duas horas desde o almoço. O trabalho recomeçara. Minha mãe estendia roupas no varal, enquanto meu pai terminava de consertar a cerca, quebrada na noite anterior por uma novilha que fugira. Não preciso dizer que ele não estava muito satisfeito com tal atividade. Em seu cronograma mental, planejara um reparo no telhado do curral. Havia duas ou três vacas prenhes, que dariam a luz em algumas semanas. Além do que, era preciso fazer preparativos para a estação chuvosa.

Do alto, o sol cumpria bem o seu papel. Mas, meu pai usaria seu chapéu independente disso. Pelo simples prazer do costume. Apesar do calor, minha mãe não se queixava. Gostava de ver como as roupas secavam depressa. Naquela tarde, eu a ajudava segurando os prendedores. Ela estendia a roupa e voltava-se a mim para pegar um, sempre me presenteando com um sorriso doce. Como era linda a minha mãe. Meu pai era um homem de sorte.

As horas da tarde haviam avançado e o sol já se preparava para ir deitar. O cesto de roupas já estava vazio. Já não havia nenhum prendedor em minhas mãos. Meu pai, contudo, seguia em seu trabalho. Não raro ele avançava pelo começo da noite. Era desses homens que detestam deixar algo pela metade. E, a julgar pelo tanto que ainda havia a ser feito, ele demoraria ainda algumas horas até acabar o reparo. Certamente estaria amaldiçoando a novilha fujona, por tê-lo feito começado tarde.

Caminhávamos em direção à varanda de casa, quando o vento passou por nós apressado, assoviando. Atravessou o terreiro e passou por meu pai, quase levando o seu chapéu. Depois, ficou no descampado, girando desorientado, sem saber para onde ir.

- Olha lá, meu filho, a dança das folhas. - Disse mamãe apontando o dedo.

Voltei o olhar para onde estava o vento, e vi as folhas secas, que antes descansavam deitadas, volteando sobre a terra, uma atrás da outra, em impressionante sincronia, como se dançassem quadrilha junina. O vento ditava o ritmo, e elas obedeciam, bailando satisfeitas. Algumas, de tão velhas, já se desfaziam em meio à festa. Era a derradeira glória. O último sopro de vida aos seus corpos moribundos.

O enlevo que me tomou não pode ser descrito. Era algo realmente belo, digno de ser contemplado. Imerso naquele espetáculo, desliguei-me completamente do mundo. Tanto, que sequer me dei conta do que acontecia. Parecia tão natural que a coreografia se tornasse mais complexa, que o ritmo acelerasse gradativamente. Porém, quando minha mãe avançou sobre mim, jogando-nos ao chão, tentando me proteger, despertei. Com as mãos, ela tentava tapar meus olhos e ouvidos.

- Não olhe para lá. Concentre-se na minha voz. Vai ficar tudo bem. – Disse e, em seguida, começou a cantar baixinho em meu ouvido, tentando desviar minha atenção.

Apesar de todos os seus esforços, eu podia ouvir o som do vento rosnando enfurecido. Sem muito esforço, consegui livrar meus olhos do abraço protetor. Contemplei o mais belo espetáculo de todos. Uma orquestra regida pelo vento tocava um misto de sons: madeira estalando, metal retorcendo, telhas e tijolos se quebrando. Tudo isso tendo como base o som pesado do vento. As folhas acompanhavam a canção em seu balé frenético, rodopiando pelo ar, descendo ao chão para fazer um gracejo e depois voltando ao ar novamente. Mas, já não estavam sozinhas. Bailavam agora acompanhadas de pedaços de telha, galhos secos. Até as roupas que mamãe deixara no varal, haviam entrado na dança. E se divertiam, sem se importar se estavam se sujando novamente.





Eis a última imagem que tenho na mente. Depois disso, lembro de ver minha mãe me acordando e me apertando contra o peito em prantos. Parecia aliviada. O lugar estava irreconhecível. Todos indagavam como teríamos sobrevivido. A casa, os animais, tudo havia desaparecido. Não mais vi meu pai. O corpo dele nunca foi encontrado. Durante muitos anos, me convenci de que ele havia seguido a trupe das folhas. Decerto se encantara também pelo espetáculo. Eu o invejava.

A vida nos obrigou a vir para a cidade, e abandonar meu paraíso da infância. Jamais voltei lá. Mas, ainda tenho viva em minha mente a lembrança dos anos que ali vivi. Se fecho os olhos, sou capaz de ver a pequena casa, minha mãe estendendo as roupas no varal, meu pai consertando alguma coisa com seu chapéu na cabeça. Temo, é verdade, que os anos roubem essas lembranças de mim, um dia. Mas, tenho certeza que não há nada que me faça esquecer o que vi naquela tarde de março. Nada será capaz de me fazer esquecer a dança das folhas.




Fonte imagem:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjaqHvJTqYGodcbYyOkO7SrExv96D6Ghp4qRdxnyR2A3KwhYAc7K52IjH2YnyD-cpM1XCvgysw23GlmAoYcBRug0iUWU4O_J6PTBbC3YCfktjflJ928-IW7KScpFTuXEw8o7JrB89WOVbWH/s1600/folhas+ao+vento.jpg

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Agramatical

Domingo a noite. Com o controle remoto na mão, ele passeia compulsivamente pelos canais incontáveis da tv por assinatura. Ela se distrai com uma revista semanal qualquer sobre a vida alheia. Uma janela aberta deixa entrar a brisa fria da noite. Ela então larga a revista e pede:

- Me abraça, amor. Tá frio.

- Abraça-me. Assim é o correto. - Responde ele automaticamente, sem tirar os olhos da tv.

- Ah, tanto faz.

- Tanto faz não. Pede do modo correto, que eu vou.

- Deixa de ser chato e vem logo.

- Chato? Como assim? Eu estou querendo te ajudar. Você sabe que não vai aprender se não praticar. - Diz voltando-se a ela, já com a tv desligada.

- É sério que você vai querer insistir nisso?

- Vou.

- Amor, é domingo. Me deixa.

- Fez de novo. O certo é deixe-me.

- Esquece isso, vai. Não quero brigar com você.

- Esquecer? Você sabe que “isso” faz parte da minha vida. Afinal, de que adianta ensinar a gramática da nossa língua para outros, e deixar você, minha esposa, na ignorância?

- Como é? Ignorante? Você acha que eu sou ignorante?

- Não, amor...

- Nada de “não amor”. Eu ouvi muito bem. Você me chamou de ignorante.

- Não no sentido pejorativo, por favor. Digo ignorante no sentido de desconhecer, não ter a informação.

- Ah, quer dizer que isso agora é um problema pra você? Agora minha ignorância incomoda, é isso?

- Não, não. Por favor, você não está entendendo.

- Claro que não. Eu sou ignorante, esqueceu? Espera que eu vou alí buscar um papel pra você desenhar, que aí eu vou entender.

- Calma. Vamos esquecer isso, ok?

- Não. Nada de esquecer. Quero saber: desde quando minha ignorância passou a ser um problema pra você?

- Não existe isso de...

- Bora? Quero saber. No início não tinha nada disso. Você nunca se incomodou, dizia até que achava interessante a nossa relação, que era difícil existir um casal como a gente.

- Mas eu ainda acho. Nada mudou.

- Mudou sim. Agora até o modo como eu falo te incomoda. Seu estúpido.

- Quer saber? Incomoda sim. Para falar a verdade, é o seu maior defeito.

- Ah...é?

- É sim! Você sabe que eu me importo com isso e nunca tentou melhorar.

- Então quer dizer que isso é realmente muito importante para você?

- É claro que sim.

- Então, posso te fazer uma pergunta?

- Faz.

- Porque quando a gente tá transando e eu falo: “Vai amor! Me come! Me come!”, você nunca se irritou?

- Ante o golpe inesperado, ele silencia. Tenta obter um resposta qualquer. “Tudo depende do contexto...”, diria. Mas, lembra de como ela sabe extamente o que dizer na hora do amor. O sexo é algo agramatical, por assim dizer. Enfim, não havia como argumentar.

- Viu só? Não é tão importante assim. Agora cala a boca e vem me abraçar.


- Perdida a discussão, só resta a ele acatar a ordem da companheira. Cinco minutos depois, os dois fazem amor, sem regras ou normas regendo o que é dito, sussurrado ou gemido. O assunto nunca mais será alvo de discussão entre o casal, exceto em ocasiões estratégicas, onde funcionará como uma espécie de afrodisíaco.


Fonte imagem: http://revistashape.uol.com.br/images/stories/antigo/CasalCamaMat.jpg

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

A engrenagem

Acorda cedo todos os dias, desde sempre. Despede-se do calor da cama e de quem sobre ela estiver, e segue. Passa pelo banheiro, a higiene o obriga. Mas, apressado demais para encarar o espelho e perceber as marcas que o tempo imprime em seu rosto. A roupa escolhida na noite anterior já o aguarda. Veste-a mecanicamente, sem reparar seus detalhes ou atrativos. Apanha o que precisa pelo meio do caminho, enquanto, sobre a mesa, o café fumegante o aguarda. Aspira-o no caminho até o carro. Sai de casa sem olhar para trás. Já não recorda a cor da fachada. Eis sua rotina.

O caminho costumeiro não o surpreende. Por isso não desperdiça o olhar com a paisagem. A velocidade é sua melhor amiga nessas horas, mas é preciso se render às convenções, evitar as sanções. Comemora a cada sinal verde. Agoniza nos segundos em que é preciso esperar. Engarrafamentos tirar-lhe-iam a vida. Por isso acorda cedo, desde sempre. O rádio ligado lembrá-lo-ia que deve escutar música de vez em quando, mas está com o volume reduzido demais para ser ouvido. Ele o mantém ligado apenas para se convencer de que não passa de uma inutilidade.

Enquanto aguarda o sinal, deixa o olhar se distrair com os rostos que atravessam a rua. Dentre eles, encontra uma conhecida. Alguém do passado, mas não recorda qual parte dele. Talvez tenham sido colegas de colégio ou faculdade. Poderá ter sido, ainda, seu primeiro amor – esquecido. O sinal abre e ele tem que seguir em frente, não possui tempo para a nostalgia. O relógio em seu braço, seu carrasco, o adverte que o tempo não parou enquanto ele divagava. É preciso ter mais pressa. Segue rasgando ruas e arrancando insultos da boca de motoristas e pedestres. Por fim, chega ao destino.

Adentra o escritório e caminha em silêncio até sua conhecida mesa. À sua mente, vem a lembrança de alguém dizendo que, em outros tempos, as pessoas costumavam dar “bom dia” e sorrir ao chegar. Tempos remotos esses então. Desde sempre este silêncio funesto habitou aquele ambiente. Muito trabalho o aguarda, e a ele se entrega de corpo apenas, pois não é desses que crê na existência de alma. Produto de seu tempo, como todos os demais que o cercam, ele escolhe suas crenças, que quase inexistem. A única que recorda é o trabalho, que enobrece, dignifica e ocupa. Por isso é tão ocupado, é sua forma de ser digno e nobre.

O dia avança e ainda há muito a ser feito. Almoça, como sempre, em sua mesa, oscilando entre garfadas e parágrafos escritos. “É salutar ter intervalos”, dizem-lhe. “Não desejo ser saudável, apenas eficiente”, responde para si mesmo. Eis outra de suas crenças, talvez a maior: se haverá de perecer de qualquer modo, porque adiar o inevitável?

O telefone toca e ele logo atende. A voz desconhecida o faz desconfiar que o assunto não diz respeito ao trabalho. Algo lhe diz que é alguém conhecido, as numerosas chamadas não atendidas ao celular não surgiram ao acaso, afinal. Pensa em dispensar seu interlocutor, no entanto, antes que possa, ele lhe diz que é assunto importante. Permanece na linha, duvidando que o seja, de fato. “Sinto informar, mas sua mãe faleceu ontem pela manhã. O funeral será hoje à tarde.”, informa a voz com pesar. Atônito ele fica, mas consegue responder alguma coisa antes de desligar. 

Mal põe o gancho no lugar e o telefone toca novamente. Em gesto mecânico, atende, mesmo sem desejar falar com ninguém. Do outro lado da linha, seu chefe indaga sobre um trabalho que deveria estar feito. Lembra-se que ainda não o concluiu. Pede desculpas e desliga o telefone. Entrega-se à tarefa devida. Sem ter tempo para sentir a dor, ignora o golpe recebido e volta à luta, mesmo sangrando. Ninguém sabe o que aconteceu. Não desejam saber. Estão ocupados demais com as próprias vidas. Expor seu sofrer denotaria fraqueza. Não o faz. Tenta sufocar a dor, enquanto, por dentro, ela o mata. 

Embora não perceba, fora condicionado a esta realidade, não é culpado pelo que se tornou. A pós-modernidade tem seus ônus. “Trabalhar é preciso, viver não”, diria o poeta, se vivesse nestes tempos. O homem, cujo coração agoniza silencioso enquanto a mente trabalha incessante, já não reconhece sua essência, é mera engrenagem nesse complexo mecanismo que se tornou a vida. Faz parte de algo maior que suas aspirações, problemas. Dele depende o funcionamento de tudo, é o que o ensinaram desde cedo. Eis o pensamento que o faz esconder de si, nos confins de sua mente, a dor que ainda o fustiga. 


É chegada a noite e ele deixa o escritório. Sua hora de trabalho deu-se por encerrada horas atrás. “Era preciso adiantar algumas coisas, resolver pendências”, eis sua justificativa para o mundo e para quem perguntar o porquê de não ter comparecido ao funeral. Segue o caminho de volta para casa. A música que vem da rua o faz perceber que é sexta-feira. Planejaria o que adiantar neste fim de semana vindouro. Contudo, um carro avança o sinal. A alta velocidade eleva as proporções do impacto. O vidro estoura e o metal se retorce diante de seus olhos. Tenta pensar, mas já não pode. A vida o abandona, pois cansada está de sua extenuante rotina. Solitário, ele morre por não ter tido tempo de viver.



Fonte imagem: http://thumbs.dreamstime.com/x/rob-que-empurra-engrenagem-23119267.jpg

domingo, 24 de agosto de 2014

A conversa

Sob o lençol, juras de amor e planos para o futuro foram traçados. Os desgrenhados cabelos e o cheiro de prazer liberto denotavam o que haviam feito. As pernas ainda se entrelaçavam e, entre beijos e olhares, palavras eram trocadas. Tinham tanto em comum. Bem mais até do que podiam imaginar, já que, antes daquela tarde, tudo se resumia a um discreto flerte. Mas, o sexo revela, e já não havia o que esconder. Agora conheciam sua verdadeira afinidade. Tudo seria prefeito, não fosse ela casada. 


Roupas vestidas, maquiagem retocada. Um último beijo e, da porta para fora, retomariam a encenação diária. Ele, o solteirão workaholic, sempre ocupado demais para relacionamentos. Ela, a mulher exemplar, dividida entre o trabalho e os filhos. Não fosse o amor das palavras, facilmente tomar-se-ia aquela relação por uma aventura conveniente, para driblar a rotina. 

Meses de encontros furtivos passaram, e os laços se estreitaram. Eis que um  dia ela adentra o quarto desesperada. Cauteloso, ele tratou de fechar a porta e as cortinas, para, enfim saber o que houve. "Precisamos conversar. Ele descobriu tudo. Vai nos matar, tenho certeza!", dizia tentando não chorar. Não se pode negar que aquela afirmação causou certo abalo, mas, ele se manteve firme. Com uma forçosa expressão de desdém, se pôs a indagar a respeito. 

"Como você sabe disso? Ele lhe falou alguma coisa? Ele lhe agrediu? Ele seguiu você? Ele sabe quem sou eu?". Apesar da inabalável expressão no rosto, a quantidade de perguntas em tão pouco espaço de tempo revelou seu desespero. Ela, percebendo isso, sentiu abrandar em si a confiança que até então depositara nele. Pensou. Escolheu as palavras e, por fim, disparou: "Ele disse que precisamos conversar; que sabe tudo o que temos feito, que sabe quem é você; e que eu preciso escolher, definir meu futuro, antes que seja tarde." 

Da firmeza no olhar, nada restara. Sentado na cama, com a cabeça entre as mãos, ele tentava compreender tudo. "Você precisa escolher...", repetiu para si. Porém, antes que pudesse concluir, ela o fez: "Mas eu já escolhi: ficaremos juntos. Sei que você me ama e, convenhamos, cedo ou tarde isso aconteceria. Não vai ser fácil, imagino. Divórcio, guarda dos filhos, partilha de bens, enfim, o importante é que não precisamos mais esconder o que sentimos." 

Aquela conversa toda em nada o agradava. Qual um enxadrista experiente, tratou de pensar nos movimentos possíveis e em suas eventuais consequências. Encarava o vazio pensativo. Por fim, voltou para ela um olhar apaixonado, deixando claro qual seria seu próximo movimento. "Estou disposto a enfrentar tudo por você. Ele quer conversar, e sabe quem sou eu. Se tivesse de fazer algo, já teria feito. Haja o que houver, estou disposto a assumir nosso amor. Por hora, você precisa relaxar, e eu estou aqui para isso.", disse acariciando-lhe o rosto, beijando-a, ao final. Tentou em vão parecer calmo.

Naquela tarde, as horas foram breves. Amaram-se sem o costumeiro ardor. Ele parecia tenso, distante, totalmente diferente do que fora nas tantas outras vezes. Ela, visivelmente desapontada. Ao findar da tarde, planejaram o que fariam nos próximos dias: ela conversaria com o esposo; ele ligaria no dia seguinte para saber o resultado. Algumas palavras foram trocadas depois. Despediram-se, mas não com a afetuosidade costumeira. Quem os visse, diria que eram casados há anos, enfrentando uma crise. Seguiram então seus caminhos. 

Ele, atordoado, tratou de se desfazer do celular e desmarcou os compromissos da semana. Desapareceria por alguns dias. Conquanto sentisse um leve remorso, via aquilo como um sacrifício necessário. "Sempre foi uma amor impossível, jamais daria certo.", dizia para si. Mas, no fundo, lamentava por ter mentido. Se o fizera para ela, ou para si, o tempo diria.

Quanto a ela, seguiu o combinado: voltou para casa. Mas, não houve conversa alguma. Fez o jantar. Cuidou dos filhos. Amou o esposo e, por fim, viu-o adormecer. Ficou acordada ainda por um tempo, imaginando o que teria acontecido, caso não tivesse inventado aquilo tudo. Ele a desapontara, afinal.  Sempre achara que aquele papo de amor era só para tornar tudo mais verossímil. Riu por um instante, ao lembrar do esforço dele, tentando enganar a si mesmo. Por fim, suspirou: "Já não se fazem mais amantes como antigamente...". Abraçou o esposo e dormiu.


Fonte imagem: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjFR_T1ew6OTCdlbieOdsFhqL3mNaTl_aUQN_JqrZsuukOQJZGKq03kWdTBAMYfxy7Fb1Y1GyB7sP0LFJ9J9IdgkGfuK3Wj2vCmHZlZxh9mwwOetjQS0xJ9lk9GTSPY7sXfeY3oRgsyA_E/s400/cama.jpg

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

A união

Após alguns passos apressados, sentaram-se os dois nos degraus de uma escada. Ela parecia tranquila. Ele, apressado em resolver logo as coisas, começou:

- E então? O que você quer falar comigo?

- Calma. Estou com fome. Vou falar enquanto como.

- Tudo bem, mas seja rápida. Temos pouco tempo.

- Fique tranquilo. – Disse enquanto desembrulhava um sanduíche que trouxera envolto em um lenço de papel. Após parti-lo ao meio, prosseguiu. –Aqui, essa metade é sua.

- Mas eu não estou com fome.

- Eu sei. Mas, pegue mesmo assim. Vai ajudar a entender o que eu quero te dizer.

Ele apanhou o pedaço sem entender ao certo. Diria alguma coisa, mas deixou o olhar se fixar em um ponto a sua frente e ficou em silêncio. Ela prosseguiu:

- Pois bem. Está vendo esse pedaço de sanduíche que eu acabo de lhe entregar?

- Aham. – Respondeu ele sem sequer piscar os olhos.

- Ele representa a nossa união. Minha mãe me disse que quando as pessoas se unem, elas passam a compartilhar tudo o que têm. Já que você é meu namorado, eu tenho que dividir com você. Entendeu?

- Aham.

- Pois é. Mas não é só isso. Se eu tenho que dividir o que é meu com você, você também tem que dividir o que é seu comigo. Entende?

- Aham.

- Você está prestando atenção no que eu estou dizendo?

- Aham. – Repetiu, dessa vez com um leve aceno de cabeça, para reforçar a resposta.

- Tudo bem. Minha mãe me explicou que uma mulher inteligente deve saber o que quer. Eu sou inteligente. Então, quero te dizer que, de agora em diante, tudo o que é seu também será meu. Porque isso faz parte da nossa união.

- Aham.

- Isso significa que metade da sua mesada será minha. E, no futuro, quando casarmos, você também terá que dividir seu salário comigo.

- Aham.

- Enfim, só queria deixar as coisas esclarecidas agora que estamos namorando. Minha mãe me disse que isso é muito importante. Fico feliz que você tenha entendido tudo.

- Aham. É só isso? – Perguntou a ponto de se levantar.

- Sim. Agora pode ir. E, já que não quer esse pedaço de pão, pode me devolver.


Ele largou o pedaço de sanduíche e partiu em disparada para o outro lado do pátio, onde os outros garotos estavam jogando futebol. Desde o início, sua atenção estivera naquele jogo. Em momento algum, ele deu atenção a qualquer palavra que ela disse, só queria que ela acabasse antes do fim do recreio, para que ele pudesse jogar. Ela sabia disso, mas pouco se importava, desde que ele seguisse concordando com o que era dito. Ambos tinham apenas 10 anos. Mas, acredite, nesse aspecto, entre eles, nada mudaria com o passar dos anos.


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