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quarta-feira, 20 de maio de 2015

A dança das folhas


Um pássaro cruzava o céu e, sem saber, levava o meu olhar consigo. Mas, a brisa logo passava por mim, fazendo-me fechar os olhos, para sentir seu toque. O cheiro de flor de maracujá. A terra úmida de orvalho sob os meus pés descalços. Não é difícil lembrar essas coisas. Na verdade, sinto como se ainda estivesse lá, e não aqui, em meio a todo esse concreto sufocante. É que parte de mim, inevitavelmente, ainda está presa àquele cenário do passado, que já não existe.

Contemplar o mundo era o meu passatempo favorito, aos nove anos. Não que a vida adulta tenha mudado minha predileção. Apenas já não disponho de tempo para devotar a tão maravilhosa atividade. Claro, em certos momentos, é inevitável. Mesmo hoje, em meio aos passos apressados, cruzando as avenidas da cidade, amiúde entrego minha atenção a algum traço de beleza que atravesse o meu caminho. E não me refiro a mulheres, apenas. Contudo, nada que se compare ao que um dia fui.

Tenho tantas imagens em minha mente, que lamento por não ter o talento necessário para externá-las em papel e aquarela. No entanto, creio que, dentre tudo o que vi, e que até o fim de minha vida verei, não há algo que se compare ao que meus olhos testemunharam naquela tarde de fim de março. Algo único, que sobrevive em minhas memórias somente. Tanto que, não raro, em sonhos volto àquele cenário. Os sons, as cores, o misto de medo e excitação.

Enfim, acredito já haver atiçado o suficiente sua curiosidade. Maldade seria, agora, não compartilhar contigo minha experiência. Então, contar-lhe-ei o que vi e vivi naquela tarde. É possível que o relato não seja tão fiel quanto deveria. É que, com o passar do tempo, as cores ficam desbotadas, inevitavelmente. Mas, a essência persiste. Não espere um final surpreendente, nem nada do tipo. Apenas escrevo tais linhas para evitar que o que vi morra comigo. Não me julgue.

Já haviam se passado duas horas desde o almoço. O trabalho recomeçara. Minha mãe estendia roupas no varal, enquanto meu pai terminava de consertar a cerca, quebrada na noite anterior por uma novilha que fugira. Não preciso dizer que ele não estava muito satisfeito com tal atividade. Em seu cronograma mental, planejara um reparo no telhado do curral. Havia duas ou três vacas prenhes, que dariam a luz em algumas semanas. Além do que, era preciso fazer preparativos para a estação chuvosa.

Do alto, o sol cumpria bem o seu papel. Mas, meu pai usaria seu chapéu independente disso. Pelo simples prazer do costume. Apesar do calor, minha mãe não se queixava. Gostava de ver como as roupas secavam depressa. Naquela tarde, eu a ajudava segurando os prendedores. Ela estendia a roupa e voltava-se a mim para pegar um, sempre me presenteando com um sorriso doce. Como era linda a minha mãe. Meu pai era um homem de sorte.

As horas da tarde haviam avançado e o sol já se preparava para ir deitar. O cesto de roupas já estava vazio. Já não havia nenhum prendedor em minhas mãos. Meu pai, contudo, seguia em seu trabalho. Não raro ele avançava pelo começo da noite. Era desses homens que detestam deixar algo pela metade. E, a julgar pelo tanto que ainda havia a ser feito, ele demoraria ainda algumas horas até acabar o reparo. Certamente estaria amaldiçoando a novilha fujona, por tê-lo feito começado tarde.

Caminhávamos em direção à varanda de casa, quando o vento passou por nós apressado, assoviando. Atravessou o terreiro e passou por meu pai, quase levando o seu chapéu. Depois, ficou no descampado, girando desorientado, sem saber para onde ir.

- Olha lá, meu filho, a dança das folhas. - Disse mamãe apontando o dedo.

Voltei o olhar para onde estava o vento, e vi as folhas secas, que antes descansavam deitadas, volteando sobre a terra, uma atrás da outra, em impressionante sincronia, como se dançassem quadrilha junina. O vento ditava o ritmo, e elas obedeciam, bailando satisfeitas. Algumas, de tão velhas, já se desfaziam em meio à festa. Era a derradeira glória. O último sopro de vida aos seus corpos moribundos.

O enlevo que me tomou não pode ser descrito. Era algo realmente belo, digno de ser contemplado. Imerso naquele espetáculo, desliguei-me completamente do mundo. Tanto, que sequer me dei conta do que acontecia. Parecia tão natural que a coreografia se tornasse mais complexa, que o ritmo acelerasse gradativamente. Porém, quando minha mãe avançou sobre mim, jogando-nos ao chão, tentando me proteger, despertei. Com as mãos, ela tentava tapar meus olhos e ouvidos.

- Não olhe para lá. Concentre-se na minha voz. Vai ficar tudo bem. – Disse e, em seguida, começou a cantar baixinho em meu ouvido, tentando desviar minha atenção.

Apesar de todos os seus esforços, eu podia ouvir o som do vento rosnando enfurecido. Sem muito esforço, consegui livrar meus olhos do abraço protetor. Contemplei o mais belo espetáculo de todos. Uma orquestra regida pelo vento tocava um misto de sons: madeira estalando, metal retorcendo, telhas e tijolos se quebrando. Tudo isso tendo como base o som pesado do vento. As folhas acompanhavam a canção em seu balé frenético, rodopiando pelo ar, descendo ao chão para fazer um gracejo e depois voltando ao ar novamente. Mas, já não estavam sozinhas. Bailavam agora acompanhadas de pedaços de telha, galhos secos. Até as roupas que mamãe deixara no varal, haviam entrado na dança. E se divertiam, sem se importar se estavam se sujando novamente.





Eis a última imagem que tenho na mente. Depois disso, lembro de ver minha mãe me acordando e me apertando contra o peito em prantos. Parecia aliviada. O lugar estava irreconhecível. Todos indagavam como teríamos sobrevivido. A casa, os animais, tudo havia desaparecido. Não mais vi meu pai. O corpo dele nunca foi encontrado. Durante muitos anos, me convenci de que ele havia seguido a trupe das folhas. Decerto se encantara também pelo espetáculo. Eu o invejava.

A vida nos obrigou a vir para a cidade, e abandonar meu paraíso da infância. Jamais voltei lá. Mas, ainda tenho viva em minha mente a lembrança dos anos que ali vivi. Se fecho os olhos, sou capaz de ver a pequena casa, minha mãe estendendo as roupas no varal, meu pai consertando alguma coisa com seu chapéu na cabeça. Temo, é verdade, que os anos roubem essas lembranças de mim, um dia. Mas, tenho certeza que não há nada que me faça esquecer o que vi naquela tarde de março. Nada será capaz de me fazer esquecer a dança das folhas.




Fonte imagem:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjaqHvJTqYGodcbYyOkO7SrExv96D6Ghp4qRdxnyR2A3KwhYAc7K52IjH2YnyD-cpM1XCvgysw23GlmAoYcBRug0iUWU4O_J6PTBbC3YCfktjflJ928-IW7KScpFTuXEw8o7JrB89WOVbWH/s1600/folhas+ao+vento.jpg

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Agramatical

Domingo a noite. Com o controle remoto na mão, ele passeia compulsivamente pelos canais incontáveis da tv por assinatura. Ela se distrai com uma revista semanal qualquer sobre a vida alheia. Uma janela aberta deixa entrar a brisa fria da noite. Ela então larga a revista e pede:

- Me abraça, amor. Tá frio.

- Abraça-me. Assim é o correto. - Responde ele automaticamente, sem tirar os olhos da tv.

- Ah, tanto faz.

- Tanto faz não. Pede do modo correto, que eu vou.

- Deixa de ser chato e vem logo.

- Chato? Como assim? Eu estou querendo te ajudar. Você sabe que não vai aprender se não praticar. - Diz voltando-se a ela, já com a tv desligada.

- É sério que você vai querer insistir nisso?

- Vou.

- Amor, é domingo. Me deixa.

- Fez de novo. O certo é deixe-me.

- Esquece isso, vai. Não quero brigar com você.

- Esquecer? Você sabe que “isso” faz parte da minha vida. Afinal, de que adianta ensinar a gramática da nossa língua para outros, e deixar você, minha esposa, na ignorância?

- Como é? Ignorante? Você acha que eu sou ignorante?

- Não, amor...

- Nada de “não amor”. Eu ouvi muito bem. Você me chamou de ignorante.

- Não no sentido pejorativo, por favor. Digo ignorante no sentido de desconhecer, não ter a informação.

- Ah, quer dizer que isso agora é um problema pra você? Agora minha ignorância incomoda, é isso?

- Não, não. Por favor, você não está entendendo.

- Claro que não. Eu sou ignorante, esqueceu? Espera que eu vou alí buscar um papel pra você desenhar, que aí eu vou entender.

- Calma. Vamos esquecer isso, ok?

- Não. Nada de esquecer. Quero saber: desde quando minha ignorância passou a ser um problema pra você?

- Não existe isso de...

- Bora? Quero saber. No início não tinha nada disso. Você nunca se incomodou, dizia até que achava interessante a nossa relação, que era difícil existir um casal como a gente.

- Mas eu ainda acho. Nada mudou.

- Mudou sim. Agora até o modo como eu falo te incomoda. Seu estúpido.

- Quer saber? Incomoda sim. Para falar a verdade, é o seu maior defeito.

- Ah...é?

- É sim! Você sabe que eu me importo com isso e nunca tentou melhorar.

- Então quer dizer que isso é realmente muito importante para você?

- É claro que sim.

- Então, posso te fazer uma pergunta?

- Faz.

- Porque quando a gente tá transando e eu falo: “Vai amor! Me come! Me come!”, você nunca se irritou?

- Ante o golpe inesperado, ele silencia. Tenta obter um resposta qualquer. “Tudo depende do contexto...”, diria. Mas, lembra de como ela sabe extamente o que dizer na hora do amor. O sexo é algo agramatical, por assim dizer. Enfim, não havia como argumentar.

- Viu só? Não é tão importante assim. Agora cala a boca e vem me abraçar.


- Perdida a discussão, só resta a ele acatar a ordem da companheira. Cinco minutos depois, os dois fazem amor, sem regras ou normas regendo o que é dito, sussurrado ou gemido. O assunto nunca mais será alvo de discussão entre o casal, exceto em ocasiões estratégicas, onde funcionará como uma espécie de afrodisíaco.


Fonte imagem: http://revistashape.uol.com.br/images/stories/antigo/CasalCamaMat.jpg

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

A engrenagem

Acorda cedo todos os dias, desde sempre. Despede-se do calor da cama e de quem sobre ela estiver, e segue. Passa pelo banheiro, a higiene o obriga. Mas, apressado demais para encarar o espelho e perceber as marcas que o tempo imprime em seu rosto. A roupa escolhida na noite anterior já o aguarda. Veste-a mecanicamente, sem reparar seus detalhes ou atrativos. Apanha o que precisa pelo meio do caminho, enquanto, sobre a mesa, o café fumegante o aguarda. Aspira-o no caminho até o carro. Sai de casa sem olhar para trás. Já não recorda a cor da fachada. Eis sua rotina.

O caminho costumeiro não o surpreende. Por isso não desperdiça o olhar com a paisagem. A velocidade é sua melhor amiga nessas horas, mas é preciso se render às convenções, evitar as sanções. Comemora a cada sinal verde. Agoniza nos segundos em que é preciso esperar. Engarrafamentos tirar-lhe-iam a vida. Por isso acorda cedo, desde sempre. O rádio ligado lembrá-lo-ia que deve escutar música de vez em quando, mas está com o volume reduzido demais para ser ouvido. Ele o mantém ligado apenas para se convencer de que não passa de uma inutilidade.

Enquanto aguarda o sinal, deixa o olhar se distrair com os rostos que atravessam a rua. Dentre eles, encontra uma conhecida. Alguém do passado, mas não recorda qual parte dele. Talvez tenham sido colegas de colégio ou faculdade. Poderá ter sido, ainda, seu primeiro amor – esquecido. O sinal abre e ele tem que seguir em frente, não possui tempo para a nostalgia. O relógio em seu braço, seu carrasco, o adverte que o tempo não parou enquanto ele divagava. É preciso ter mais pressa. Segue rasgando ruas e arrancando insultos da boca de motoristas e pedestres. Por fim, chega ao destino.

Adentra o escritório e caminha em silêncio até sua conhecida mesa. À sua mente, vem a lembrança de alguém dizendo que, em outros tempos, as pessoas costumavam dar “bom dia” e sorrir ao chegar. Tempos remotos esses então. Desde sempre este silêncio funesto habitou aquele ambiente. Muito trabalho o aguarda, e a ele se entrega de corpo apenas, pois não é desses que crê na existência de alma. Produto de seu tempo, como todos os demais que o cercam, ele escolhe suas crenças, que quase inexistem. A única que recorda é o trabalho, que enobrece, dignifica e ocupa. Por isso é tão ocupado, é sua forma de ser digno e nobre.

O dia avança e ainda há muito a ser feito. Almoça, como sempre, em sua mesa, oscilando entre garfadas e parágrafos escritos. “É salutar ter intervalos”, dizem-lhe. “Não desejo ser saudável, apenas eficiente”, responde para si mesmo. Eis outra de suas crenças, talvez a maior: se haverá de perecer de qualquer modo, porque adiar o inevitável?

O telefone toca e ele logo atende. A voz desconhecida o faz desconfiar que o assunto não diz respeito ao trabalho. Algo lhe diz que é alguém conhecido, as numerosas chamadas não atendidas ao celular não surgiram ao acaso, afinal. Pensa em dispensar seu interlocutor, no entanto, antes que possa, ele lhe diz que é assunto importante. Permanece na linha, duvidando que o seja, de fato. “Sinto informar, mas sua mãe faleceu ontem pela manhã. O funeral será hoje à tarde.”, informa a voz com pesar. Atônito ele fica, mas consegue responder alguma coisa antes de desligar. 

Mal põe o gancho no lugar e o telefone toca novamente. Em gesto mecânico, atende, mesmo sem desejar falar com ninguém. Do outro lado da linha, seu chefe indaga sobre um trabalho que deveria estar feito. Lembra-se que ainda não o concluiu. Pede desculpas e desliga o telefone. Entrega-se à tarefa devida. Sem ter tempo para sentir a dor, ignora o golpe recebido e volta à luta, mesmo sangrando. Ninguém sabe o que aconteceu. Não desejam saber. Estão ocupados demais com as próprias vidas. Expor seu sofrer denotaria fraqueza. Não o faz. Tenta sufocar a dor, enquanto, por dentro, ela o mata. 

Embora não perceba, fora condicionado a esta realidade, não é culpado pelo que se tornou. A pós-modernidade tem seus ônus. “Trabalhar é preciso, viver não”, diria o poeta, se vivesse nestes tempos. O homem, cujo coração agoniza silencioso enquanto a mente trabalha incessante, já não reconhece sua essência, é mera engrenagem nesse complexo mecanismo que se tornou a vida. Faz parte de algo maior que suas aspirações, problemas. Dele depende o funcionamento de tudo, é o que o ensinaram desde cedo. Eis o pensamento que o faz esconder de si, nos confins de sua mente, a dor que ainda o fustiga. 


É chegada a noite e ele deixa o escritório. Sua hora de trabalho deu-se por encerrada horas atrás. “Era preciso adiantar algumas coisas, resolver pendências”, eis sua justificativa para o mundo e para quem perguntar o porquê de não ter comparecido ao funeral. Segue o caminho de volta para casa. A música que vem da rua o faz perceber que é sexta-feira. Planejaria o que adiantar neste fim de semana vindouro. Contudo, um carro avança o sinal. A alta velocidade eleva as proporções do impacto. O vidro estoura e o metal se retorce diante de seus olhos. Tenta pensar, mas já não pode. A vida o abandona, pois cansada está de sua extenuante rotina. Solitário, ele morre por não ter tido tempo de viver.



Fonte imagem: http://thumbs.dreamstime.com/x/rob-que-empurra-engrenagem-23119267.jpg

domingo, 24 de agosto de 2014

A conversa

Sob o lençol, juras de amor e planos para o futuro foram traçados. Os desgrenhados cabelos e o cheiro de prazer liberto denotavam o que haviam feito. As pernas ainda se entrelaçavam e, entre beijos e olhares, palavras eram trocadas. Tinham tanto em comum. Bem mais até do que podiam imaginar, já que, antes daquela tarde, tudo se resumia a um discreto flerte. Mas, o sexo revela, e já não havia o que esconder. Agora conheciam sua verdadeira afinidade. Tudo seria prefeito, não fosse ela casada. 


Roupas vestidas, maquiagem retocada. Um último beijo e, da porta para fora, retomariam a encenação diária. Ele, o solteirão workaholic, sempre ocupado demais para relacionamentos. Ela, a mulher exemplar, dividida entre o trabalho e os filhos. Não fosse o amor das palavras, facilmente tomar-se-ia aquela relação por uma aventura conveniente, para driblar a rotina. 

Meses de encontros furtivos passaram, e os laços se estreitaram. Eis que um  dia ela adentra o quarto desesperada. Cauteloso, ele tratou de fechar a porta e as cortinas, para, enfim saber o que houve. "Precisamos conversar. Ele descobriu tudo. Vai nos matar, tenho certeza!", dizia tentando não chorar. Não se pode negar que aquela afirmação causou certo abalo, mas, ele se manteve firme. Com uma forçosa expressão de desdém, se pôs a indagar a respeito. 

"Como você sabe disso? Ele lhe falou alguma coisa? Ele lhe agrediu? Ele seguiu você? Ele sabe quem sou eu?". Apesar da inabalável expressão no rosto, a quantidade de perguntas em tão pouco espaço de tempo revelou seu desespero. Ela, percebendo isso, sentiu abrandar em si a confiança que até então depositara nele. Pensou. Escolheu as palavras e, por fim, disparou: "Ele disse que precisamos conversar; que sabe tudo o que temos feito, que sabe quem é você; e que eu preciso escolher, definir meu futuro, antes que seja tarde." 

Da firmeza no olhar, nada restara. Sentado na cama, com a cabeça entre as mãos, ele tentava compreender tudo. "Você precisa escolher...", repetiu para si. Porém, antes que pudesse concluir, ela o fez: "Mas eu já escolhi: ficaremos juntos. Sei que você me ama e, convenhamos, cedo ou tarde isso aconteceria. Não vai ser fácil, imagino. Divórcio, guarda dos filhos, partilha de bens, enfim, o importante é que não precisamos mais esconder o que sentimos." 

Aquela conversa toda em nada o agradava. Qual um enxadrista experiente, tratou de pensar nos movimentos possíveis e em suas eventuais consequências. Encarava o vazio pensativo. Por fim, voltou para ela um olhar apaixonado, deixando claro qual seria seu próximo movimento. "Estou disposto a enfrentar tudo por você. Ele quer conversar, e sabe quem sou eu. Se tivesse de fazer algo, já teria feito. Haja o que houver, estou disposto a assumir nosso amor. Por hora, você precisa relaxar, e eu estou aqui para isso.", disse acariciando-lhe o rosto, beijando-a, ao final. Tentou em vão parecer calmo.

Naquela tarde, as horas foram breves. Amaram-se sem o costumeiro ardor. Ele parecia tenso, distante, totalmente diferente do que fora nas tantas outras vezes. Ela, visivelmente desapontada. Ao findar da tarde, planejaram o que fariam nos próximos dias: ela conversaria com o esposo; ele ligaria no dia seguinte para saber o resultado. Algumas palavras foram trocadas depois. Despediram-se, mas não com a afetuosidade costumeira. Quem os visse, diria que eram casados há anos, enfrentando uma crise. Seguiram então seus caminhos. 

Ele, atordoado, tratou de se desfazer do celular e desmarcou os compromissos da semana. Desapareceria por alguns dias. Conquanto sentisse um leve remorso, via aquilo como um sacrifício necessário. "Sempre foi uma amor impossível, jamais daria certo.", dizia para si. Mas, no fundo, lamentava por ter mentido. Se o fizera para ela, ou para si, o tempo diria.

Quanto a ela, seguiu o combinado: voltou para casa. Mas, não houve conversa alguma. Fez o jantar. Cuidou dos filhos. Amou o esposo e, por fim, viu-o adormecer. Ficou acordada ainda por um tempo, imaginando o que teria acontecido, caso não tivesse inventado aquilo tudo. Ele a desapontara, afinal.  Sempre achara que aquele papo de amor era só para tornar tudo mais verossímil. Riu por um instante, ao lembrar do esforço dele, tentando enganar a si mesmo. Por fim, suspirou: "Já não se fazem mais amantes como antigamente...". Abraçou o esposo e dormiu.


Fonte imagem: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjFR_T1ew6OTCdlbieOdsFhqL3mNaTl_aUQN_JqrZsuukOQJZGKq03kWdTBAMYfxy7Fb1Y1GyB7sP0LFJ9J9IdgkGfuK3Wj2vCmHZlZxh9mwwOetjQS0xJ9lk9GTSPY7sXfeY3oRgsyA_E/s400/cama.jpg

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

A união

Após alguns passos apressados, sentaram-se os dois nos degraus de uma escada. Ela parecia tranquila. Ele, apressado em resolver logo as coisas, começou:

- E então? O que você quer falar comigo?

- Calma. Estou com fome. Vou falar enquanto como.

- Tudo bem, mas seja rápida. Temos pouco tempo.

- Fique tranquilo. – Disse enquanto desembrulhava um sanduíche que trouxera envolto em um lenço de papel. Após parti-lo ao meio, prosseguiu. –Aqui, essa metade é sua.

- Mas eu não estou com fome.

- Eu sei. Mas, pegue mesmo assim. Vai ajudar a entender o que eu quero te dizer.

Ele apanhou o pedaço sem entender ao certo. Diria alguma coisa, mas deixou o olhar se fixar em um ponto a sua frente e ficou em silêncio. Ela prosseguiu:

- Pois bem. Está vendo esse pedaço de sanduíche que eu acabo de lhe entregar?

- Aham. – Respondeu ele sem sequer piscar os olhos.

- Ele representa a nossa união. Minha mãe me disse que quando as pessoas se unem, elas passam a compartilhar tudo o que têm. Já que você é meu namorado, eu tenho que dividir com você. Entendeu?

- Aham.

- Pois é. Mas não é só isso. Se eu tenho que dividir o que é meu com você, você também tem que dividir o que é seu comigo. Entende?

- Aham.

- Você está prestando atenção no que eu estou dizendo?

- Aham. – Repetiu, dessa vez com um leve aceno de cabeça, para reforçar a resposta.

- Tudo bem. Minha mãe me explicou que uma mulher inteligente deve saber o que quer. Eu sou inteligente. Então, quero te dizer que, de agora em diante, tudo o que é seu também será meu. Porque isso faz parte da nossa união.

- Aham.

- Isso significa que metade da sua mesada será minha. E, no futuro, quando casarmos, você também terá que dividir seu salário comigo.

- Aham.

- Enfim, só queria deixar as coisas esclarecidas agora que estamos namorando. Minha mãe me disse que isso é muito importante. Fico feliz que você tenha entendido tudo.

- Aham. É só isso? – Perguntou a ponto de se levantar.

- Sim. Agora pode ir. E, já que não quer esse pedaço de pão, pode me devolver.


Ele largou o pedaço de sanduíche e partiu em disparada para o outro lado do pátio, onde os outros garotos estavam jogando futebol. Desde o início, sua atenção estivera naquele jogo. Em momento algum, ele deu atenção a qualquer palavra que ela disse, só queria que ela acabasse antes do fim do recreio, para que ele pudesse jogar. Ela sabia disso, mas pouco se importava, desde que ele seguisse concordando com o que era dito. Ambos tinham apenas 10 anos. Mas, acredite, nesse aspecto, entre eles, nada mudaria com o passar dos anos.


Fonte imagem: http://gabrielpriolli.com.br/site/wp-content/uploads/2013/09/DSC05798.jpg

sábado, 11 de janeiro de 2014

Rosa

    Ao chão, jogada, estava a Rosa, com a alma machucada pelas palavras de aço. O ego cheio de hematomas doía bem mais que a carne agredida. Os golpes não cessavam, mesmo ao longe, ele continuava a disparar frases cruéis, suas verdades mentirosas que rasgavam o ar e atingiam-na em cheio. O sangue quente fugia-lhe pelo corte no canto da boca. Por trás do olhar, pensamentos reviravam-se em fúria. Os sentimentos convergiam em uma única direção – a insanidade.

     Aquele maldito ébrio falastrão confiava tanto na resignação arraigada, que sequer esperava reação. Não teve tempo de surpreender-se quando ela cravou-lhe a faca nas costas. Mas o demônio teve sorte e, a bela Rosa, o infortúnio. A fúria cega não planeja, age no impulso. A faca não acertara o maldito pulsante. O dito golpe o ferira, mas não fora definitivo. O infeliz sequer foi ao chão, suportou com solidez marmórea. Para Rosa, jamais houve tão inoportuno momento para o regresso da razão, principalmente porque trouxera consigo o arrependimento.

     Foram estátuas por poucos, porém demorados, segundos. Rosa sem saber se odiava mais a si pelo que fizera ou por não haver sido competente para matar aquele que agora a olhava nos olhos. O facínora tentava entender o que acontecia. Quando conseguiu relacionar a dor que sentia à reação da mulher, explodiu. Avançou sobre ela tendo as mãos um destino certo: o delgado pescoço. Pressionou-a contra a parede e pôs fim ao sofrimento de Rosa. A constrição fora tão forte que os ossos estalaram.

     Ao chão, atirada, estava a Rosa, que acabara de contemplar a própria morte, na cena que se desenrolara em sua mente. Ele ainda estava lá, de pé, de costas para ela. Jamais houve tão oportuno momento para o regresso da razão. Rosa concluiu não poder com ele. Ademais, sujar as mãos com aquele sangue era loucura. Domada a fúria, a muito custo conseguiu levantar. Foi ao banheiro lavar as feridas. Contemplou o sangue escapar pelo ralo. Por fim, deitou-se ao lado de seu algoz, que ainda fez questão de possui-la. Adormeceu a resignada Rosa.


     Era madrugada quando despertou. O frio da noite quis castigar ainda mais seu corpo dolorido. Mas teve ela forças para levantar. O marido dormia como se inocente fosse. Rosa foi até a cozinha, apanhou uma panela e pôs a água para ferver. Aguardou calmamente. Olhou para o pote de café, hoje o ignoraria. Caminhou lentamente com a panela fumegante em mãos. Parou ao lado da cama e despejou o líquido quente dentro de um dos ouvidos do marido. Os gritos só não foram mais altos que as risadas de Rosa. A resignada Rosa.


sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Consciência

Foi possível ver o brilho da luz, refletida na lâmina da faca, aparecer pelo menos umas dez vezes até que esta fosse completamente tomada pelo rubro sangue. Precisar o número golpes seria impossível. Contudo, a julgar pela respiração cansada do homem que a empunhava, presumir-se-ia que foram muitos. Ele se recompôs sentado sobre o corpo desfigurado, outrora vivo. Cessada a fúria bestial, o ar trouxe de volta ao cérebro a racionalidade que fora lançada ao espaço. O olhar surgido foi de arrependimento. A quem duvidasse, as palavras esclareceram.


- Meu Deus, o que eu fiz? Matei minha esposa! Como pude? Eu sou um monstro. – Desesperou-se, fechando os olhos para evitar contemplar o que fizera.

- Calma, meu rapaz. As coisas não são tão graves. – Disse-lhe uma voz.

- Não? Como não? Olhe esse sangue, olhe pra ela. Não consigo sequer reconhecê-la agora.

- Realmente, ela já foi mais bela. Mas, tenha calma. Não foi você quem a matou.

- Olhe essa faca em minhas mãos. Olhe o sangue em minha roupa. Quem a matou então?

- Eles a mataram!

- Eles? Quem são eles?

- Todos eles. Até mesmo ela é culpada. Você não! Você é a vítima dessa história, acredite.

- Você está louco! – O brado ecoou no recinto.

- Louco? Sou a voz da sanidade que quer te mostrar a verdade. Você só precisa abrir os olhos e enxergar. Você não é culpado de nada. Você segurou a faca, mas foram eles quem a apunhalaram.

- Não consigo entender. O que você está tentando fazer?

- Não quero fazer nada. Apenas estou tentando te mostrar a verdade. Abra sua mente. Procure pelas respostas.

- Respostas? Como encontrarei as respostas sem sequer saber quais são as perguntas?

- Acalme-se. Porque ela está morta agora? Que razão te fez pegar essa faca e tirar-lhe a vida?

- Ela me traiu! Por isso.

- Você a viu com outra pessoa?

- Não!

- Então como sabes que foste traído?

- O Emanuel me contou. Zombou de mim, aquele infeliz. Disse ainda que todos se riem de mim pelas minhas costas.

- Entendo. Mas era verdade o que o Emanuel contou?

- Não sei.

- Você não perguntou para ela?

- Perguntei. Ela não respondeu. Deu um sorriso debochado e perguntou se eu enlouquecera.

- Percebes? Não és o culpado, eles o são. O Emanuel, que criou em ti a dúvida. Ela por não esclarecê-la. Se não fossem eles, não terias feito isso. Talvez, ela desejasse isso. Por isso sorriu, provou tua fúria. Foste apenas manipulado.

- Mas, eu quis matá-la. Pelo menos, naquele instante eu quis. Mas, agora me arrependo.

- Esse arrependimento é o que prova o que eu digo. Se te arrependes, é porque não querias realmente matá-la. Foste impelido por algo mais forte, momentâneo, que te levou a isso. Não somos uma má pessoa, foram eles quem nos incitaram a isso.

- Pensando bem. Talvez estejas certo. Mas, e agora?

- Agora você precisa se vingar deles. Ela já foi punida pelo mal que causou. Mas ainda falta o Emanuel, e todos os outros.

- Mas quem são os outros.

- Todos quantos puderes te vingar. Eles são maus, nós devemos puni-los pelo mal que nos causaram.

- Isso não me parece certo.

- Certo ou errado. Tudo depende do ponto de vista. Ouça o que digo. Se parece errado, é apenas porque alguém conseguiu te convencer que o oposto era o certo. Entende como tudo isso é frágil?

- Talvez. Mas se isso for verdade, minha vida inteira foi uma grande ilusão.

- Isso! Enfim entendeste. Estou aqui para te libertar. Tenho te observado calada há muito. Mas agora é a nossa hora. Vamos fazer o certo. O que nos parece certo.

- Sim. Você me ajuda? Você vem comigo?

- Sempre!

- Mas... Quem é você?


- Ninguém. Apenas sua consciência.