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segunda-feira, 14 de março de 2011

Amar

     Como hoje é o Dia da poesia, nada mais justo que postar uma. Espero que gostem do soneto. 
 

Amar

Amar- se iludir
Suspirar sozinho
Ofertar carinho
Por si sucumbir

Delirar, sentir
Viver sonhando
Sem onde, nem quando
Chorar, sorrir

Ceder à vontade
Que tenta e domina
Instiga a vaidade

Atrai e abomina
Doce saudade
Malvada menina



Fonte imagem: http://www.joaohenrique20.xpg.com.br/imagem/7281751bb974d9f971a91ce1466d09ff.jpg


quarta-feira, 9 de março de 2011

Quarta-feira de cinzas

     Entre pandeiros e tamborins, confetes e serpentinas ela entrou em minha vida. Seria apenas mais uma na multidão, um amor de carnaval como muitos outros anteriores. Nos aproximamos sem desviar o olhar. Parei diante dela sorrindo. A bela moça olhou em meus olhos como que procurasse por algo. Em seguida perguntou meu nome. Embora estivesse um pouco desconcertado após aquele olhar, eu lhe disse. Antes que pudesse terminar, fui interrompido por um beijo repentino.
     Foi um beijo diferente. Era como se aqueles lábios precisassem dos meus. Aquela atitude, aquele beijo, definitivamente eu havia encontrado alguém interessante. Eu sentia isso. Interessei-me em conhecê-la melhor. Perguntaria-lhe o nome, porém ao fim do beijo só vi quando o vulto daquela estranha sumiu na multidão. Corri atrás dela, precisava saber quem ela era.

     Procurei-a por horas, mas não obtive sucesso. A noite havia perdido a cor. Parecia não haver mais mulheres interessantes. Eu estava disposto a encontrá-la. Porém, já era madrugada e meus amigos me obrigaram a ir descansar para o dia seguinte. No meio do caminho até o hotel onde estávamos, contei-lhes sobre a desconhecida. Todos riram de mim. Afinal, eu estava solteiro a menos de um mês, deveria aproveitar a festa e não me fixar a uma mulher que só quis um beijo.
     Mesmo com todos os “conselhos”, decidi que no dia seguinte a encontraria. Dormi pensando naquele beijo. Por vezes me julguei um idiota. Como poderia ter ficado encantado por um simples beijo de alguém que eu nem conhecia? Isso ia contra tudo o que eu entendia por racional.  Mas a vontade de encontrá-la novamente estava latente em meu pensar. Já era quase dia quando enfim consegui dormir.
     Sonhei. Estava novamente em meio à multidão e tudo se repetiu. Porém, dessa vez ela estava lá quando abri os olhos. Ela sorria para mim. Eu não consegui me conter e a beijei novamente. Por fim olhei em seus olhos e perguntei seu nome. Ela sorriu. “Meu nome é...”. Alguém me acordou antes que pudesse ouvir.
     A frustração por ter de despertar naquele momento fez com que acordasse mal humorado. Tanto que decidi sair sozinho. Mesmo porque não queria ouvir as piadinhas dos meus amigos quando percebessem que eu estava procurando por ela. Andei por todos os lados, olhei em cada rosto feminino que por mim passava, mas nem um era o dela.
     A noite avançava quando decidi voltar para o hotel. Estava exausto e já não tinha mais esperanças de encontrá-la. Seguia de cabeça baixa quando uma mão me deteve e levantou meu rosto. Era ela. Mal pude acreditar. Ela interrompeu meu espanto com mais um beijo. Eu tentei perguntar seu nome. Ela pôs a mão em meus lábios. Então caminhou para uma rua escura.
     Eu a segui de perto. Entrei na rua a sua procura. Percorri-a até o fim, mas não encontrei ninguém. Era como se ela estivesse desaparecido em meio à escuridão. Julguei se uma brincadeira de mau gosto. Mas após alguns minutos percebi que ela não voltaria. Voltei para o hotel confuso. Não entendia o porque daquela atitude. Adormeci antes que meus amigos voltassem. Esperava sonhar com ela novamente e não queria ser interrompido novamente.
     E foi o que aconteceu. Ela esteve em meus sonhos mais uma vez. A cena de horas atrás se repetiu. Ela me beijou e entrou na rua escura. Eu fui atrás dela novamente. Estava muito escuro e eu não conseguia ver nada. Mas senti quando ela me abraçou. Senti aqueles lábios subindo por meu pescoço a procura dos meus. Desejoso por aquele beijo, eu cedi. Mas senti que o rosto dela estava úmido. Ela estava chorando. Perguntei o motivo, mas a resposta veio em uma palavra: “Adeus”.
     Neste momento acordei. Ainda estava sozinho no quarto. Olhei no relógio e percebi que haviam se passado apenas cinco minutos desde a minha chegada. Tentei dormir pensando sonhar continuar o sonho. Mas sequer sonhei. Procurei por ela no dia seguinte, mas não a encontrei. Ela simplesmente havia sumido.
     A quarta feira de cinzas chegou para por fim ao carnaval, e às minhas esperanças de encontrá-la. Voltei para casa de manhã bem cedo. Ao chegar, observei que havia certa tristeza pairando no ar. Perguntei à minha irmã o motivo de ela não ter ido nos encontrar. Havíamos até reservado um quarto onde ela ficaria com as amigas. Mas, durante todo o carnaval ela sequer dera notícias.
     Ela então me explicou com lágrimas nos olhos o que havia acontecido: às vésperas da viagem, uma das amigas que iriam com ela havia falecido. Ela falou o nome da moça, mas não me pareceu familiar. Parecia ser uma amiga que eu não conhecia. Percebendo minha indiferença, ela pegou o jornal onde havia uma reportagem sobre o ocorrido. Leu a matéria para mim com a voz mareada. Por fim, mostrou-me a foto da moça.
     Faltou-me o ar, bem como a voz. Diante do meu sobressalto, minha irmã ficou surpresa. Perguntou-me o porque de tamanho nervosismo. Assim que me acalmei, perguntei quando ela havia falecido. Segundo ela, a infeliz perdera a vida no mesmo dia em que viajei com meus amigos. Fiquei ainda mais confuso. Como poderia ela estar morta se eu a havia beijado?
     Contei tudo o que havia acontecido à minha irmã. Ela ficou estática. Então contou-me algo que eu desconhecia. Aquela moça havia se tornado amiga dela há poucos meses. Me vira uma vez e não conseguira esconder o interesse, porém, eu era comprometido. Mesmo com o passar dos meses, ela não havia me esquecido e, assim que soube que eu estava solteiro, decidira me conquistar.
    Mas nossos caminhos nunca se cruzavam, de modo que o carnaval pareceu a oportunidade perfeita para ela. Ela havia dito que iria se aproximar de mim e tinha certeza que eu me apaixonaria e enfim ficaríamos juntos. Porém, a morte interrompera seus planos. Pelo menos parte deles. Pois, mesmo sem entender o que acontecera, eu havia me apaixonado.
Fonte Img.: http://ipiauonline.com.br/wordpress/wp-content/uploads/2011/03/crentes.jpg

terça-feira, 8 de março de 2011

Mulheres

     Eis aqui minha singela homenagem a todas as mulheres por seu dia. Reconheço que um simples soneto é muito pouco para ofertar-lhes, mas foi feito com todo o carinho à vocês leitoras. Obrigado.




Mulheres

Mulheres maravilhosas
Maviosas melodias
Melosas melancolias
Mimadas, maliciosas.

Musas mulatas, morenas
Maras, Marcelas, Marias  
Muitas maldosas manias
Marcias, Melissas, Milenas

Mil Magníficas misturas
Místicas, minuciosas
Meninas moças maduras

Margaridas melindrosas
Melhores meigas mesuras
Merecidas, majestosas.


Fonte img: http://blig.ig.com.br/sergiopestana/files/2008/12/mulher-rosto-rosa.gif


sábado, 5 de março de 2011

Realidade

     Ele abre os olhos. A imagem que se desenha diante de si em meio à penumbra é a silhueta de uma mulher sentada à beira da cama. Mesmo com pouca luz, ele é capaz de observar a suavidade das curvas que compõem aquela cintura. Apenas contemplar não é suficiente e, cedendo ao impulso, ele estende a mão para tocá-la. Com a ponta dos dedos vai suavemente percorrendo aquele caminho macio.
     Após alguns segundos de carícias ela se vira. Mesmo no escuro ele consegue ver os traços daquele rosto. São belos, familiares. É o rosto da mulher amada. Ela se reclina sobre ele. Toca-lhe os lábios docemente. Aos poucos vai aumentando a pressão. Até que o sutil toque se transforma em um beijo ardente e voraz. Sedentos de prazer, os dois se amam até o amanhecer.
     Ela adormece. Mas ele não. Ainda extasiado, permanece contemplando aquela beleza. Já está claro e agora tudo se revela diante de seus olhos. Estão em um quarto em algum lugar alto, pois a vista é primorosa. A decoração do quarto é repleta de elementos finos. E, para dar o ar de perfeição ao cenário, há aquela linda mulher que dorme. O lençol cobre-lhe parcialmente o corpo, em alguns pontos chega a moldar-se perfeitamente a ele.
     Satisfeito com tudo aquilo, ele deita ao lado da amada. Carinhosamente, aconchega-se àquele corpo sob os lençóis. Afaga aqueles belos cabelos negros. Pensa na sorte que tem de ter aquilo tudo. Agradeceria a Deus, se Nele acreditasse. Abraça mais forte a mulher, a fim de compartilhar um pouco do calor daquele corpo. Não demora muito e adormece.
     Ele abre os olhos. Mais uma vez desperta imerso na escuridão. Olha para os lados, porém dessa vez não vê sua amada. Decide então se levantar. Mas percebe que está amarrado à cama. Tenta mover as pernas, mas descobre que não mais as tem. Apavora-se. Chora. Grita. Que lugar é aquele? Porque está amarrado? Porque lhe cortaram as pernas?
     Então a porta do quarto se abre. Uma luz se projeta para dentro do recinto. A sombra de um homem aparece à porta. Ele tem uma seringa na mão. Vem em direção à cama. Temeroso por tudo aquilo, o infeliz tenta se soltar aos berros. Mas percebe que é em vão. O homem então para diante dele. Aplica-lhe violentamente uma injeção, enquanto o pobre homem sente os olhos pesarem e a voz falhar.
     Ele abre os olhos. Desperta assustado, suado. Está de volta ao quarto onde adormeceu. Seu sobressalto incomoda o sono de sua amada que dorme ao seu lado. Ele a abraça forte. Beija-lhe a face e respira tranqüilo. “Foi apenas um pesadelo!” diz para si mesmo. Deita novamente e volta a adormecer.

     Dorme tranqüilo, crente que aquilo tudo é real. Pobre tolo. Não imagina que, na verdade, o que pensou ser pesadelo é que era a realidade. Não imagina que vive um sonho. Uma fantasia monitorada por médicos e enfermeiros que o mantém sedado para que não acorde e perceba sua infelicidade: sua amada esposa faleceu no mesmo acidente que o fez perder as pernas. Para que não descubra que sua vida se perdeu e que só lhe restou ser cobaia e viver preso em um quarto escuro de um centro de pesquisas.
     Mas, ele não precisa saber. Porque contar-lhe a verdade e despedaçar ainda mais aquele coração? Porque trazê-lo de volta à cruel realidade que os homens atormenta? É melhor deixar que viva nesse mundo ilusório. É melhor que se apegue a essa realidade falseada. Assim ele é feliz. Quando a realidade se mostra difícil, as ilusões ganham força e mitigam o sofrimento. Afinal, é para isso que os sonhos servem: amenizar as crueldades da vida real.

Fonte imagem: http://objetos.radiometropole.com.br/img_original/2010_11_1812_35_5320297dormirdeconchinha.jpg

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

O Encontro

     Na solitária e silenciosa noite ela veio ao meu encontro. Contrariando minhas expectativas, ela era linda. Envolta em seu manto negro, ela caminhava numa sincronia hipnótica até mim. Em seus olhos havia um brilho funesto. Quando se aproximou mais, pude ver que trazia um sádico sorriso na face. Então, sorri-lhe de volta.
     Diante de meu sorriso ela conteve os passos. A expressão em seu rosto transformou-se. Seu olhar agora era de indagação. Encarava-me como se esperasse uma explicação àquele sorriso. Sem entender, eu nada disse. Ela permaneceu imóvel me interrogando com os olhos. Eu então sorri novamente e disse-lhe:
     -Estou feliz em vê-la. Na verdade já começava a pensar que não virias. Há muito tenho aguardado por este encontro. Obrigado por estar aqui.
     Minhas palavras a surpreenderam mais ainda. Imaginou que eu a havia confundido, então, tirou o capuz e mostrou-me seu rosto. Ela era perfeita, mas havia algo de sinistro- aterrorizante- em seu rosto. Uma beleza paradoxal, que apaixona e amedronta. Passei algum tempo em silêncio contemplando cada contorno que compunha aquele rosto. Estava ainda mais fascinado. Por fim respondi:
     -Acalme-se, sei quem és. Não pense que a confundi. Era você mesma quem eu estava esperando. Confesso que és o oposto de tudo que eu imaginei. Sei bem o que viestes buscar, e estou disposto a lhe entregar sem qualquer resistência.
     Ela parecia não acreditar no que estava acontecendo. Lançava-me, agora, um olhar desafiador, desejosa de me amedrontar. Empunhou sua foice e voltou a caminhar em minha direção. Eu estava contente: em poucos segundos teria fim meu tormento. Aquela seqüência de erros e desenganos seria finalmente interrompida. Não podendo conter a felicidade, eu sorri novamente.
     Mais uma vez ela parou. Percebi que meu sorriso a incomodava. Mesmo porque, jamais ouvi falar de alguém que a aguardasse com tamanha ansiedade quanto eu. Aliás, a maioria das pessoas passa a vida toda tentando evitar esse tão temido encontro. Mas eu não. Há algum tempo que sonho com este momento. Imaginei que ela esperava por uma explicação para aquela alegria. Então lhe expliquei:
     -Percebo que estás surpresa. Mas acredite, tenho razões para estar feliz. Vens agora para por o ponto final em uma história que há muito já viu seu término. Acho que jamais estive tão feliz como estou agora. O destino foi muito cruel comigo: roubou de mim aqueles que amo, e as razões para continuar existindo. Neste momento, não vais tirar-me a vida, mesmo porque, já não existe vida em mim. Vais sim libertar-me do tormento de viver e a ti serei eternamente grato.
     Após me ouvir, ela pareceu pensativa. Era como se estivesse repassando o que eu havia dito e tentando entender aquela situação. Eu a olhava como esperança. Ela então suspirou. Olhou-me novamente e voltou a caminhar até mim. Seu olhar agora estava diferente. Ela me olhava com paixão, como se estivesse flertando comigo. Imaginei ser a paixão pelo que estava prestes a fazer.
     Ela parou diante de mim. Fechei os olhos esperando o golpe iminente. Porém, o que aconteceu me surpreendeu. Ela pôs a mão em meus ombros e com os gélidos lábios deu-me um beijo ardente. Diferente de todos os outros: intenso, avassalador. Esperava estar morto quando aquele beijo terminasse. Porém, ao abrir aos olhos, percebi que estava mais vivo do que nunca.
     Olhei para ela e percebi que uma lágrima percorrera-lhe o rosto durante nosso beijo. Ela me olhava com desejo. Foi então que percebi o que acontecia. Ela não iria me matar. Por isso a lágrima. Era a primeira vez que não iria cumprir sua sentença. E o faria por haver se apaixonado por mim. Entendendo isso eu descobri que, ironicamente, também a desejava. Queria possuí-la. Queria ser amante da morte, esse seria meu motivo para viver.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Voyeur

     Ela caminha calmamente. Fecha a porta. Pendura a toalha. Em seguida vira-se ao espelho. Contempla a beleza do próprio corpo nu por um instante. Então vem em minha direção. Observo tudo completamente extasiado. Ela fecha o box. Liga o chuveiro. Observa por um instante a água que cai em fios. Então, vai se molhando aos poucos. Primeiro as mãos, os pés, depois o resto do corpo.
     A água desliza por seu corpo com prazer. De olhos fechados, ela sente as gotas percorrendo-lhe os lábios, descendo pelos seios, depois a cintura, quadris, pernas, até chegarem ao chão. Insatisfeita, ela pega o sabonete e o conduz através de suas curvas para me provocar ainda mais.
     Desviar o olhar é impossível. Sigo hipnotizado por aquela cena que se desdobra diante de mim. Ela então abre os olhos e os mira em minha direção. Aquilo é tão repentino que dou um sobressalto. Então, ela deixa a água correr novamente por sua silhueta. Agora, mais provocante ainda, com as mãos, vai sutilmente retirando a espuma formada pelo sabonete.
     O que vislumbro não é mais simplesmente uma linda mulher a banhar-se sob o chuveiro. É como se eu estivesse diante de uma ninfa que se banha nas águas de cristalinas de uma cachoeira, fazendo a natureza inteira parar para contemplá-la com todo o seu encanto.  É um sonho que provoca, excita. Preso neste delírio, é impossível não desejar aquele corpo.
     Ela então decide me atiçar ainda mais: começa a lavar os cabelos. São lisos, negros, brilhantes. Os fios da água descem em paralelas perfeitas com as madeixas. Ela permanece a olhar em minha direção. Ela sabe o efeito que provoca. Sabe que neste exato momento eu estou a cobiçar-lhe como se fosse um tesouro.
     Os fios de água cessam. Com as mãos, ela retira cuidadosamente o excesso de água que insiste em agarrar-se ao seu corpo. Pega a toalha e começa a se enxugar. Então caminha em minha direção mantendo fixo o olhar em mim. Pára diante da janela e a fecha. Neste momento sou violentamente desperto de meu devaneio. O banho acabou. Já tive minha dose de prazer e êxtase diária. Agora só me resta aguardar até amanhã. Neste mesmo horário eu estarei aqui com meu binóculo para observá-la e sonhar com aquele corpo.

Fonte Imagem: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjpPmTLhZ2WEyfNIOp7e9Oi0I-yYRb-bVJjEkCyKnpAwBTr99qWstg7NH4bQpdxdo470AVCR31ao_-aAcyiZANAXLN2F1msVLbUr_17kMoqVoHxE_-fOr3tfx_eK7aT3jcyesJWCj1PIsYN/s1600/voyeur.jpg

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Passado Perdido

     Não me lembro há quanto tempo estava ali. Quando dei por mim estava parado diante daquele homem olhando-o nos olhos. Era um senhor de mais ou menos oitenta anos. Seu olhar me dizia isso. Aliás, aquele olhar me dizia tanta coisa que eu simplesmente não conseguia deixar e encará-lo. Era como se fosse um livro me convidando a viajar por suas linhas cheias de palavras, querendo contar suas histórias.
     Então lhe sorri e quase que instantaneamente ele retribuiu-me. Porém, ao contrário do meu, aquele sorriso não trazia consigo aquele ar alegre. Aqueles dentes outrora brancos, tal qual como uma folha de papel, adquiriram as manchas amareladas do tempo. Tinha um tom melancólico, solitário. Impressionei-me.
     Enquanto o observava, comecei a imaginar quanta história havia por trás daquelas rugas e cabelos brancos. Quantos fatos aquele homem pode presenciar no decorrer de sua caminhada através da sinuosa estrada da vida? Quantas mulheres amou? Quantas o amaram? Terá sido feliz? Porque hoje é triste? Eram tantas perguntas. Mas eu sabia que se olhasse bem fundo naqueles olhos poderia obter as respostas.
     Embora tentasse decifrar tudo o que aquele olhar tinha a me dizer, eu só conseguia chegar a uma conclusão: independente do quanto aquele senhor tenha vivido, qualquer vestígio de felicidade parece ter se dissipado com o tempo. Tudo o que eu conseguia perceber era a tristeza que transbordava de seus olhos tristes. Mas o que motivara tal sofrimento? Porque ele parecia tão infeliz? Mais uma vez, perguntas surgiam. Eu sentia que poderia encontrar as respostas, mas não estava conseguindo.
     Seria o tempo o responsável por aquele olhar tristonho? Sim, o tempo. Ele é implacável. Corre ao sabor do próprio ritmo, sem se preocupar com quem vai ficando pelo caminho. O tempo é um juiz, cujo veredicto é infalível e irrevogável. Veredicto que dá sentido ao velho ditado do “aqui se faz, aqui se paga”. Mas o que teria feito aquele homem de tão ruim para merecer a ira do tempo?
     A cada segundo eu sentia como se aquele homem fosse bem mais que apenas um velho desconhecido. Os contornos enrugados daquele rosto maltratado pelo tempo começavam a me parecer tão familiares. A melancolia daquele olhar sofrido me era tão familiar. Era como se eu pudesse sentir a mesma dor que ele sentia. Não era comiseração, era uma dor real.
     Tão real que ele percebeu que eu compreendia e sentia o mal que lhe consumia. Vi quando uma lágrima brotou daquele olhar e escorreu suavemente pelo rosto do velho senhor. Neste momento despertei. Senti que uma lágrima corria por minha face também. Foi então que percebi o que acontecia: aquele senhor de olhar melancólico era eu. Diante do espelho eu tentava em vão resgatar o meu passado, tudo que vivi, mas que o maldito Alzheimer me roubara da memória. Por fim, eu estava certo, aquela dor era real.